2. EĞİTİM ve ÖĞRETİM
2.6. PROGRAMLARIN İZLENMESİ VE GÜNCELLENMESİ
O município de Fortaleza utiliza diferentes mecanismos de seleção para os candidatos ao cargo de Auxiliar na rede municipal: seleção pública, concurso público e análise de currículo.
O Gráfico 9, disposto a seguir, informa sobre o modo como as Auxiliares da instituição pesquisada foram selecionadas para ocupar o cargo atual.
Gráfico 9 – Forma como as profissionais do CEI foram selecionadas para o cargo de Auxiliar
Fonte: elaborado pela autora.
Com base nos dados fornecidos pelo Gráfico 9, vê-se que 60% das Auxiliares foram contratadas mediante aprovação em concurso público. Enquanto isso, 20% adentrou a rede municipal via análise de currículo, por fim, os outros 20% afirmaram que foram empregados através de indicação política.
Maria, Francisca e Socorro foram aprovadas no concurso público ocorrido no ano de 2014 (FORTALEZA, 2014). De acordo com Francisca, o processo era formado por diferentes etapas: “O concurso teve uma prova enorme, com várias questões, de várias áreas do conhecimento. Caiu Português… até Raciocínio Lógico caiu! Mas isso foi na primeira fase. Depois teve uma prova prática e teve que comprovar experiência no magistério”. (DIÁRIO DE CAMPO, 12 out. 2016).
Para Joana, o processo se deu de forma diferente. Esta profissional explicou que
Uma amiga minha avisou que a SME tava recebendo currículo pra quem queria trabalhar de Auxiliar. Fomos eu e ela deixar nossos currículos. Me ligaram pra eu fazer uma entrevista lá na secretaria [SME]. Fiz a entrevista. Queriam mais saber se eu aceitava trabalhar mesmo sendo longe de casa. Eu aceitei, aí passei. Pouco tempo depois, eu já tava aqui trabalhando (DIÁRIO DE CAMPO, 7 out. 2016).
60% 20%
20%
FORMA COMO FOI
SELECIONADO(A) PARA O CARGO
DE AUXILIAR
Concurso público Análise de Currículo Outro: Indicação política
Raimunda também informou como adentrou a rede municipal:
Eu tava precisando arrumar um emprego. Até deixei meu currículo lá no Distrito [SER] daqui do bairro. Eu sei que essa vaga mesmo só apareceu quando a minha irmã falou com um vereador amigo dela. Aí parece que ele ‘mexeu os pauzinhos’ e deu certo pra eu trabalhar aqui (DIÁRIO DE CAMPO, 7 out. 2016).
As falas trazidas pelas Auxiliares demonstram a existência de uma seleção que sofre variações. Vê-se que, para a incorporação de profissionais efetivos à rede municipal, o processo mostrou-se mais criterioso, submetendo os candidatos à feitura de prova com diferentes conteúdos abordados, a uma etapa prática, bem como à comprovação de experiência como docente.
Para as Auxiliares terceirizadas, esses critérios pareceram menos rígidos, haja vista que a experiência com crianças pequenas, por exemplo, parece ter sido desconsiderada como um aspecto relevante durante a entrevista de Joana. O currículo serviu como único instrumento para avaliar o perfil da candidata à vaga.
A forma como se deu o processo de seleção de Joana denota uma opção política que parece vantajosa para o governo municipal, mas não para as crianças e nem para os docentes, reflexão que se ancora em Vieira e Oliveira, (2013, p. 140), quando expressam que “o trabalho docente na educação infantil nas políticas educacionais aparece constantemente caracterizado pela sua situação de desvalorização”.
O caso de Raimunda também chama atenção, pois, além de não possuir formação prévia para o exercício da docência, sequer entregou currículo na SME de Fortaleza, reforçando o descumprimento das etapas80 determinadas pela referida secretaria para a seleção para o cargo de Auxiliar. Todavia, este caso não se trata de uma situação isolada. Venzke (2004, p. 5), em pesquisa realizada no município de Pelotas, constatou que, durante muitos anos, a contratação de atendentes de Creche colocava como critérios “ser mulher e possuir a indicação de algum político vinculado ao partido do governo municipal. Nesse caso, a comprovação de escolaridade não era um critério para a admissão ao cargo”. Este caso é similar à condição de Raimunda, que mesmo 20 anos após a promulgação da LDB (BRASIL, 1996a), denuncia que só a lei não impossibilita a continuidade de práticas retrógradas e ilegais, parecendo relevante pensar em práticas mais eficientes e frequentes de fiscalização que possam imputar sanções aos indivíduos e gestores que não cumprem as leis.
80 O processo P470347/2016 (FORTALEZA, 2016) contém a informação de que as Auxiliares do município de
A forma de acesso à docência na Educação Infantil, como ocorreu com Raimunda, assemelha-se a uma prática “politiqueira” que, segundo Bourdieu (2011, p. 201), está associada à compreensão de que o “jogo político é o que faz com que se possa negociar um compromisso”. Neste caso, o compromisso que está sendo negociado é o direito das crianças e dos trabalhadores, que se reflete na falta de investimento necessário para a construção de uma educação de boa qualidade. Deste modo, se crianças e docentes perdem com esse tipo política, calcada na manutenção do status quo, alguém ganha.
O modo pelo qual as Auxiliares são contratadas denuncia uma tentativa do poder público de descaracterizar a docência na Creche como atividade profissional. Este tipo de política municipal, por ser menos onerosa, em curto prazo, pode parecer vantajosa para políticos e para os cofres públicos, mas, segundo Ferreira e Côco (2011, p. 363), acaba gerando consequências graves para os profissionais da docência e para o setor da educação, haja vista que essas práticas geram “um esgarçamento do campo docente, que se transforma num ‘campo de trabalho pedagógico’, reunindo diferentes formas de vinculação, valorização e reconhecimento”.
Diante desse quadro, fica declarada a necessidade de romper com esta lógica que produz diferenças entre os profissionais que trabalham no exercício da docência, porque “as distinções entre categorias (de professores e de profissionais auxiliares) não fortalecem a EI como um lócus de trabalho” (CÔCO, 2010a, p. 8). Deste modo, se um dado profissional possui formação no Ensino Médio na modalidade Normal ou licenciatura em Pedagogia, deve ser submetido à seleção para professor e, em caso de aprovação, ser assim contratado. Isso significa que o cargo de Auxiliar, portanto, parece estar a serviço de políticas descomprometidas com ações para a valorização do profissional docente, com o direito da criança e desatrelada do investimento necessário para a construção de uma Educação Infantil de boa qualidade (VIEIRA, 1999; SILLER; CÔCO, 2008; CÔCO, 2010a, 2010b; VIEIRA; SOUZA, 2010; VIEIRA; OLIVEIRA, 2013).