2. EĞİTİM ve ÖĞRETİM
2.4. ÖĞRETİM ELEMANLARI
Partindo do pressuposto que a formação docente “não se esgota na formação inicial devendo prosseguir ao longo da carreira, de forma coerente e integrada” (RODRIGUES; ESTEVES, 1999, p. 41), torna-se imprescindível refletir sobre a formação continuada dos sujeitos investigados.
A formação continuada79 das Auxiliares parece uma experiência organizada de forma bastante difusa no município de Fortaleza, pois contempla somente uma parcela dessas profissionais. As Auxiliares efetivas são recrutadas para as formações idealizadas e oferecidas pela SME, que ocorrem uma vez a cada ano. Porém essas funcionárias, quando terceirizadas e substitutas, não são inseridas neste processo. Durante as primeiras semanas de realização das observações da pesquisa de campo, eram comuns as queixas das Auxiliares relacionadas a isso. Na ocasião da pesquisa, uma das Auxiliares comentou que “Quando a gente [Auxiliares efetivas] vai pra formação, as Auxiliares terceirizadas não vão. Não sei por que, mas elas não participam. Mas deviam participar, porque é a mesma função da nossa. Não tem diferença! A formação da SME devia ser pra todas e não só pra gente [efetivas]” (DIÁRIO DE CAMPO, 26 out. 2016).
O modo como a formação continuada das Auxiliares vem sendo realizado acontece, na opinião desses sujeitos, sob uma perspectiva excludente, pois as Auxiliares terceirizadas e substitutas não participam desses momentos.
Em conversas informais sobre este tema com os sujeitos da pesquisa, era possível perceber que essas profissionais acreditavam que a participação de todas as Auxiliares nas formações oferecidas pela SME poderia ser “um caminho para melhorar a qualidade do trabalho” na Creche. Todavia, é relevante destacar que ainda que todas as Auxiliares, com os mais diferentes vínculos empregatícios, participassem das formações continuadas no município de Fortaleza, parece difícil ser possível falar em “boa qualidade” ou em “melhoria” quando há duas docentes na Educação Infantil e uma delas não é reconhecida legal e socialmente como tal. Daí, Vieira e Oliveira (2013, p. 143) afirmarem que “a incidência dos processos de precarização e intensificação do trabalho docente é mais severa sobre as auxiliares”.
79 Kramer (2011, p. 121) esclarece que “cursos esporádicos e emergenciais não resultam em mudanças
significativas, nem do ponto de vista pedagógico, nem do ponto de vista de carreira”, portanto, vivências nesses moldes não podem ser entendidas como formação continuada. Entretanto, para esta dissertação, palestras, seminários, encontros, dentre outros modelos oferecidos na rede municipal de Fortaleza, ainda que eventuais, serão entendidos como formação continuada, pois mesmo que não seja a formação continuada ideal, é a única a que Auxiliares, e apenas as efetivas, obrigatoriamente participam.
Sendo assim, apontar a ausência de uma parcela das Auxiliares nas formações não significa ter em vista a defesa pela manutenção deste cargo, pois uma das formas de investir na docência é promover a contratação de professores (BRZEZINSKI, 2002). Entretanto, diante do cenário atual no referido município, não é possível simplesmente desconsiderar a presença das Auxiliares nos processos de formação continuada, pois elas estão, diariamente, realizando suas atividades nas Creches públicas da cidade. Este tipo de atitude apenas submete as Auxiliares, terceirizadas e substitutas, à condições ainda mais precárias quando comparadas às Auxiliares que são efetivas. Essa situação parece sugerir haver uma precarização dentro da categoria das Auxiliares.
Enquanto as funcionárias efetivas são convocadas para as formações oferecidas pela rede municipal, as outras Auxiliares, para se submeterem à formações dessa natureza, precisam financiá-la. Esta realidade, de acordo com Kramer (2006a, p. 806), parece denunciar, também, a “precariedade dos sistemas municipais para empreender a formação continuada”. Esta precariedade não ataca especificamente as Auxiliares, mas a docência como profissão, pois enfraquece as tentativas de construção de uma Educação Infantil de boa qualidade. Afinal, “a melhoria da educação das crianças pequenas implica necessariamente a formação e profissionalização dos adultos educadores” (VIEIRA, 1999, p. 37).
Considerando o que foi exposto até aqui, faz-se necessário consultar, a seguir, o Gráfico 8. A imagem apresenta os dados relacionados à formação continuada das Auxiliares.
Gráfico 8 – Formação continuada das Auxiliares do CEI durante os últimos dois anos
Fonte: elaborado pela autora.
80% 20%
FORMAÇÃO CONTINUADA DURANTE OS ÚLTIMOS 2 ANOS
Sim Não
De acordo com o Gráfico 8, 80% das Auxiliares afirmaram ter participado, nos últimos dois anos, de cursos, seminários, palestras e/ou congressos na área específica de Educação Infantil. Esta porcentagem corresponde a Joana, Maria, Francisca e Socorro. Joana, Auxiliar terceirizada, informou ter participado, por conta própria, de um curso sobre Educação Infantil, segundo ela, promovido pelo Instituto Municipal de Pesquisa Administração e Recursos Humanos (Imparh). As outras três profissionais, efetivas da rede municipal, participaram da formação realizada pela SME. Somente 20%, percentual referente à Raimunda, não participou de nenhuma experiência de formação continuada.
As Auxiliares efetivas, nos últimos dois anos, participaram apenas das formações oferecidas pela SME. Isso significa que mesmo antes de assumir este cargo na rede municipal, não se submeteram a nenhuma outra formação durante o período em que trabalharam em outros estabelecimentos.
Joana, caso não tivesse se interessado e tido condições de fazer o curso que informou ter participado, não teria tido outra oportunidade de formação continuada, como ocorrera com Raimunda. Os casos dessas duas Auxiliares revelam aspectos ainda mais precários relacionados à função dessas profissionais, situação que fomenta a desqualificação da docência (OLIVEIRA, 2004; MACHADO, 2016).
Com base nessas informações, parece evidente a importância de que a SME promova formação continuada para todos os profissionais, em especial, para aqueles que trabalham diária e diretamente com as crianças, isso significa incluir todas as Auxiliares e professoras nesse processo. Mais uma vez, é relevante asseverar que esta proposta não deve ser encarada como um caminho para que as gestões municipais continuem a contratar Auxiliares, mas como uma tentativa de atenuar todo o circuito problemático que envolve a inserção dessas profissionais na rede.
É fundamental tratar a formação continuada como direito do profissional da Educação (KRAMER, 2011b), pois este processo é uma condição indispensável à construção do docente reflexivo, crítico e comprometido com o exercício de sua função (ZEICHNER, 1993; PIMENTA, 2005; FORMOSINHO, 2009).