O fato de que os novos caminhos tecnológicos e as novas formas de distribuição de produtos criativos estão afetando o acesso à cultura e a estes, ensejando desenvolvimento, já não é uma grande novidade.
O ponto agora é saber, descobrir mesmo, de que formas os criadores podem se beneficiar de suas criações, ensejando trabalho e renda para si e para o Brasil, na busca de novas fórmulas que sejam capazes de reduzir as desigualdades regionais, por meio de um desenvolvimento sustentável, pois, em matéria de criatividade, nosso País é um celeiro farto e inesgotável.
De se saber que essas novas tecnologias de acesso facilitam e aceleram a circulação do produto criativo, mas não alteram a produção, e mesmo o material artístico e cultural sendo abundante em nosso País, também os processos de produção devem ser reestruturados, pois a criatividade nacional não produz inovação.
Sendo a criatividade a primeira característica da forma de produção das Indústrias Criativas, como já expresso, ela se manifesta por meio do potencial humano, de realizar a produção de produtos tangíveis, de manipular símbolos e significados, gerando inovação. Essa produção ocorre em meio às redes sociais, utilizando novas tecnologias e recursos também na promoção e distribuição dos produtos9.
A valorização da arte pela arte, em contraposição à racionalidade, funcionalidade e instrumentalidade das indústrias tradicionais, é a segunda característica da forma de produção das Indústrias Criativas, afastando as críticas que recaíram sobre o que a Escola de Frankfurt convencionou chamar de Indústria da Cultura, surgida no segundo pós-guerra, acusada de visar apenas ao lucro e de não valorizar a arte, ou, por outra, de tratar a arte como mero produto e não como expressão cultural, conforme abordado no capítulo 2.
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Diferentemente daquela indústria que mercantilizou a arte e a cultura, os setores criativos alcançam seu lucro justamente pregando a valorização da arte, do simbólico, do intangível, fazendo essa produção circular por meio das redes sociais graças às novas possibilidades tecnológicas.
Assim, a presença forte de tecnologia, que permite a descentralização das atividades envolvidas, e promove uma distribuição em larga escala, marca em terceiro lugar esse novo modelo de produção, destacando-se a presença de equipes multidisciplinares com elementos que possuam diferentes competências e formações, pois, nos setores criativos, a polivalência é requisito obrigatório, sendo essa, portanto, a quarta característica 10.
Para preparar novos e velhos trabalhadores, todas essas características têm que ser buscadas e fomentadas por meio de políticas educacionais. Governos, universidades e faculdades, públicas e privadas, devem somar esforços neste sentido, não olvidando do potencial dos cursos profissionalizantes de nível médio.
Outras intervenções estatais devem levar em conta os três “processos diferentes de conectividade operacional – transetorial, transprofissional e transgovernamental”11.
São transetoriais, os processos, porque ligam diferentes setores de tecnologias (mídia e informação), da arte e cultura, em todos os níveis de atividade em interconexão. Uma vez identificado o potencial criativo de determinada localidade, todas as atividades artísticas, culturais e tecnológicas podem e devem ser interligadas para a formação de um polo criativo.
Não que um polo criativo não possa ser formado por um tipo preponderante de produto, mas há conveniências em polos que congreguem várias formas de arte e cultura, pois assim podem empregar dezenas de profissionais de áreas distintas.
Um exemplo bem próximo de nossa realidade é a conhecida Cidade do Samba, no Estado do Rio de Janeiro, que nada mais é do que a congregação de
10
Ibid., p. 29.
11
JEFFCUTT, Paul. O Ecossistema das Indústrias Criativas. In: KIRSCHBAUM, Charles et al. (Coords.). Indústrias Criativas no Brasil. São Paulo: Atlas, 2009, p. 38.
músicos, cantores, estilistas, costureiras, figurinistas, coreógrafos, entre outros; uma infinidade de profissionais que produzem um espetáculo anual que atrai pessoas do mundo todo, com música, dança, folclore, tecnologia, entre outras atividades, numa mistura inusitada, mas de resultados já comprovados.
São transprofissionais, pois interligam as atividades de profissionais com habilidades variadas, que colaboram na produção. Mais uma vez, o exemplo da Cidade do Samba pode servir para ilustrar essa conectividade, pois, além dos artistas citados, há iluminadores, marceneiros, tapeceiros, eletricistas, técnicos em eletrônica, mecânicos, todos trabalhando para a produção do espetáculo, ou seja, todos exercendo sua criatividade, e interligados pela mídia televisiva que difunde o carnaval em canais abertos e a cabo, no Brasil e no exterior.
Por fim, os processos são ainda transgovernamentais, pois necessitam de um aparato de vários departamentos de um dado governo, ministérios ligados às indústrias e à cultura e ao desenvolvimento, associações comerciais, educacionais e profissionais12, exigindo toda uma orquestração e conjugação de forças para pôr em prática as novas estratégias de produção e de circulação, que só políticas públicas bem elaboradas e bem aplicadas serão capazes de realizar.
Para exemplificar a transgovernalidade, voltemos ao exemplo do carnaval carioca, que necessita de esforços das quatro esferas de governo, federal, distrital, estadual e municipal, além das associações e comunidades que formam as escolas de samba, havendo ainda o envolvimento da iniciativa privada, a qual investe e fatura com propaganda televisiva, espaços exclusivos para determinadas empresas e produtos, e de várias outras formas de publicidade, como leques e brindes distribuídos aos espectadores.
Outra característica que parece inerente à forma de produção de produtos criativos é a formação de aglomerados produtivos: os arranjos produtivos locais – APLs e os Clusters Criativos – CC.
De modo geral, os aglomerados de empresas são um fenômeno que chama a atenção de pesquisadores, porém, a maioria deles ligados às áreas de Economia e Administração de Empresas, e esse fato se deve ao aumento
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significativo desse modo de produção, sendo poucos os juristas dedicados a esse estudo.
A reunião de pessoas para fins comerciais é tão antiga quanto o aparecimento do comércio, com o surgimento das feiras para a realização do escambo. Assim, o modelo de aglomerados já é muito conhecido no comércio, porém, é um pouco mais recente para a produção.
Ruas inteiras, ou até mesmo bairros, podem ser especializadas em um determinado tipo de produto, os quais podem ser, desde vestidos de noiva, até ração para animais, passando por produtos elétricos, eletrônicos e alimentos, por exemplo.
No Brasil, há aglomerados comerciais conhecidos em todo o País, como a rua São Caetano, na cidade de São Paulo, que hoje já não é apenas uma rua, e sim um shopping a céu aberto, que comercializa vestidos de noiva e todo tipo de acessórios e serviços para casamento.
Há também a rua Santa Ifigênia, conhecida pelo comércio de eletrônicos, a Rua da Consolação com suas dezenas de lojas de lustres, ambas também em São Paulo. No Ceará temos o exemplo da rua Pedro Primeiro, com suas lojas de produtos elétricos.
Da mesma forma, há bairros que têm vocações específicas para determinadas atividades, como os bairros do Bexiga e da Vila Madalena, destinos certos da noite paulistana para comer, beber e se divertir, assim como o bairro da Varjota em Fortaleza.
O que atrai os comerciantes para essa aglomeração constituem os fatores que criam vantagens para todos os aglomerados. São as conhecidas externalidades positivas, tais como maior oferta de mão de obra qualificada, maior fluxo de consumidores, fortalecimento da economia local, interesse do poder público em proporcionar infraestrutura, dentre outros.
Da mesma forma, os produtores descobriram que os aglomerados podem produzir externalidades positivas também para eles, tal como no comércio:
[...] concentração de mão de obra especializada; endogenização de habilidades; conhecimentos e instituições de ensino; ganhos de infraestrutura; fortalecimento do setor de serviços; consolidação de mercados; provisão de bens coletivos; geração e difusão de conhecimento tácito; e ganhos de informação sobre as outras firmas do aglomerado13.
E mesmo os clusters produtivos não são assim tão novos, pois, já em 1920, Alfred Marshall os estudava, assim como Michael Porter e Michael Enright Broadly, na contemporaneidade, e todos concordaram que a formação de aglomerados produz vantagens competitivas, pois
-a proximidadeaguçaa concorrênciae eleva ospadrões;
-a proximidadeincentiva a colaboração edivulgação de boas práticasentre as empresas;
-um mercadosofisticadolocal pode se desenvolverem torno deumcluster, estimulando a inovação emelhorando acomercialização;
-os clusters podem desenvolver selos baseados no local, beneficiando todas as empresasdocluster;
-proximidade permite que pequenas empresas se unam em alianças e redes, dando-lhes algumas das vantagens que as maiores têm, por exemplo, dando-lhes um melhor acessoa fornecedoreserecursos; e -uma infraestrutura de serviços especializados de apoio profissional é incentivadaa se desenvolvere o clustersse torna umfocoe um ímãparao investimentoexterno (tradução livre)14.
Os clusters, que tiveram sua importância aumentada com o surgimento do conceito de Indústria Criativa, segundo a literatura especializada, podem ser entendidos como
[...] categorias de aglomerações de atividades de produção e circulação de bens simbólico-culturais vinculada à noção de Indústrias criativas, Creative
Clusters (CC) refere-se à concentração geográfica de indústria criativa,
reunindo recursos de forma a otimizar criação, produção, difusão e exploração de trabalhos criativos15.
13
LIMA, Carmem Lúcia Castro, SOUZA, Elizabeth Regina Loiola da Cruz, op. cit., p. 182.
14
UNITED NATIONS – UNCTAD, 2010, op. cit., p. 81: “proximity sharpens competition and drives up standards; -proximity encourages collaboration and diffusion of good practice between firms; -a sophisticated local market can develop around a cluster, stimulating innovation and improving marketing; -clusters can develop place-based branding, benefiting all firms in the cluster; -proximity enables small companies to band together into alliances and networks, giving them some of the advantages of larger ones – for example, by giving them better access to suppliers and resources; -an infrastructure of specialized professional support services is encouraged to develop; and -clusters become a focus and a magnet for outside investment.”
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O relatório da UNCTAD 2010 dá grande destaque ao estudo e entendimento dos Creative Clusters, aduzindo que eles são formações que surgem espontaneamente, em geral, quando os envolvidos percebem as vantagens que deles advêm.
Segundo o relatório citado, os clusters são concentrações geográficas de companhias interconectadas e prestadores de serviços, as quais competem entre si, mas que também unem esforços para fins comuns, ou seja, competem, mas também cooperam16.
Um bom exemplo de CC é o Porto Digital, o qual será mais bem analisado adiante. Surgiu no ano 2000, como alternativa para revitalizar a área decadente do centro histórico da cidade do Recife, e transformou-se em centro de tecnologia, hoje composto por 135 empresas, as quais, juntas, movimentam R$500 milhões por ano na criação e comercialização de softwares. “A revista Business Week o elegeu como um dos dez locais do mundo onde o futuro do plante é pensado. A consultoria A.T.Kearney classificou o Porto Digital como o maior e mais rentável parque tecnológico.17"
Os CCs são aglomerados de mesma atividade, como se viu, já os APLs, diferentes dos CCs, são
[...] aglomerados territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais, com foco num conjunto específico de atividades econômicas. Envolvem, geralmente, participação e interação de empresas, clientes, representações, instituições públicas e privadas de formação, pesquisa, desenvolvimento e engenharia, política, promoção e financiamento18.
De se perceber que o próprio conceito de APL, em si, já encerra diferenças mais profundas do que apenas a quantidade de atividades envolvidas neles. O conceito fala em território, ou seja, em uma área territorial definida, área essa que pode ser desde um bairro, até uma cidade, um estado, um país e até uma região formada por dois ou mais países.
16
UNITED NATIONS – UNCTAD, 2010, op. cit., p. 80.
17
BARIFOUSE, Rafael; SALGADO, Raquel, op. cit., p. 138.
18
Enquanto em um cluster há concorrência, apesar da cooperação, nos APLs há uma relação de complementaridade, uma atividade dependendo de outra, ou sendo a base de uma terceira.
São exemplos de Creatives Clusters o Porto Digital na cidade de Recife – Pernambuco, já mencionado, o Polo Moveleiro de Duque de Caxias - Rio de Janeiro, o Polo Moveleiro de Ubá – Minas Gerais, Polo Calçadista do Cariri – Ceará, o fenômeno do Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe, no agreste de Pernambuco, e vários outros.
Existem ainda vários exemplos de APLs que podemos apontar: o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga - Ceará, a Festa Literária de Paraty - Rio de Janeiro, o Festival Folclórico de Parintins - Amazonas, o fenômeno do Tecnobrega de Belém - Pará, o Maior São João do Mundo, em Campina Grande - Paraíba, a Oktoberfest, em Blumeneu - Santa Catarina, Festa do Peão de Barretos, no interior paulista, e muitos outros que já foram citados até na literatura internacional e que serão estudados em tópico específico.