BULGULAR VE YORUMLAR
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4.1.2.1. Programın Hazırlanış Aşaması
Depois de traçar as linhas sobre o quadro geral da natureza, Humboldt dedica as ultimas páginas do Volume 1 ao controvertido tema “A origem da raça humana”. Este assunto é exposto conforme sua relação com a distribuição espacial das espécies, a influência que a superfície terrestre exerce nessa distribuição geográfica das populações e segundo as próprias características físicas de cada raça.15 A importância do solo e das condições climáticas para o desenvolvimento do espírito e para o progresso da inteligência, salientada por Humboldt, condiciona o seu conhecimento do desenvolvimento cultural das raças.
O controvertido debate entre Kant, Blumenbach, Foster, Herder, entre outros, sobre a possibilidade de uma origem única de todas as raças é o ponto de partida para Humboldt, tema mais nobre na história da humanidade: a origem dos povos (HUMBOLDT, 2005a, p. 376).
Para ele, existiam razões para não se crer no tronco racial único. Entre elas, os diferentes tipos de cor da pele e de estrutura do crânio, assim com os limites da fecundidade dos mestiços. Mas a maioria dos contrastes percebidos conforme estas distinções foram superadas pelo trabalho de Friedrich Tiedemann (1781-1864) acerca dos cérebros dos negros e dos europeus e pelas investigações anatômicas de Willem Vrolik (1801-1863) (HUMBOLDT, 2005a, p. 377). Seguindo estes estudos, Humboldt concluiu que as características estereotipadas do negro, como cabelo crespo e tons de pele, variam muito e nem sempre estão associadas às diferenciações de raças, mas, pelo contrário, são variações de uma mesma espécie.
Las razas humanas son formas de una espécie única y sola, que se ayudan sin perder su fecundidad y se perpetuan por medio de la generacion; y no espécies diversas de un mismo género, porque en tal caso se tornarian estériles al cruzarse. Ahora, por lo que respecta á saber si las razas humanas actuales descienden de uno ó de muchos hombres primitivos, es cosa que no puede descubrirse por la experiencia (MÜLLER16 apud HUMBOLDT, 2005a, p. 378).
15 Não se pretende entrar no debate referente à importância ou não do conceito de raça. Não é este o caso.
Trata-se de entender o debate à época e de que lado Humboldt estava.
16
A investigação em torno da origem única, ou não, das raças tinha um caráter intuitivo, pois era impossível a realização de investigações empíricas com sustentação científica. Não se conhecia nenhum momento histórico m que as raças não se encontrassem divididas em grupos. Porém, pelo fato de se encontrar alguns traços de comportamento e até características culturais semelhantes em diversos povos, pode-se concluir, conforme Humboldt, que exista uma explicação em comum para fenômenos idênticos de diferentes povos. O homem se encontra tão ligado à sua espécie e ao seu tempo que fica difícil para o pensamento refletir sobre a origem das raças (HUMBOLDT, 2005a, p. 379).
Numa busca pelo melhor método de pesquisa e de exposição sobre a origem das raças, Humboldt optou pela classificação de grupos raciais de um mesmo e único tronco, adaptado de seu mentor em Göttinggen, Blumenbach.17 São cinco os grupos raciais da sua classificação: caucásia, mongólica, americana, etiópica e malaia. Mas o importante para Humboldt é que esta divisão não se apoia em distinções rígidas; ela se constitui apenas na separação entre os grupos segundo as graduações de cor e de figura. Nenhuma das diferenças permite concluir que as raças têm origem em troncos diferentes.
A predileção de Humbodt pela hipótese da unidade das espécies, presente também em Kant18, afasta qualquer ideia de divisão entre raças inferiores e raças superiores. Isso não quer dizer que não existam para ele culturas com graus diferentes de civilização, “porque todas han sido igualmente creadas para la libertad, para esa libertad, que si bien en un estado social poco adelantado no pertence mas que al individuo, es en las naciones llamadas al goce de verdaderas instituciones políticas el derecho de la comunidad toda entera” (HUMBOLDT, 2005a, p. 382). Humboldt expressa claramente
17 Blumenbach foi um dos cientistas que mais influenciou Humboldt no tocante à compreensão de um
movimento teleológico singular à natureza, como ponto de partida para a compreensão de um aperfeiçoamento dela de seu desenvolvimento vital, da coexistência de seus fenômenos. Blumenbach acreditava na unidade entre a razão teórica e a razão prática por meio de um impulso de formação (bildungstrieb) do orgânico que alimenta todo o seu desenvolvimento. Este princípio ativo do orgânico transcende a razão mecânica e se aloja na ciência do orgânico, guiada pela interpelação teleológica, que o unifica com o inorgânico. As leis da natureza se unificam a partir de seu impulso formador e de sua finalidade causal. A ideia de Blumenbach teve reflexos em Kant e, até mesmo, em Goethe com sua ideia de planta primordial (urpflanze). O impulso de formação e a planta primordial (original), encontram seus fundamentos numa nova ciência experimental, que se guia pela experiência, mas também pela intuição intelectual. Por meio desta, descobre-se a ligação dos fenômenos do mundo orgânico, velada pela aparência que forma a unidade dos elementos naturais. A esse princípio norteador pertence o ideal de cosmos humboldtiano (RICOTTA, 2003, p. 124-126).
18 “Respecto de la cuestion de las razas, se pronuncia, como Kant, en favor de la unidad de la espécie humana,
fundandóse principalmente en las degradaciones ó matices intermedios que unen á los tipos estremos, tipos considerados por los partidarios de la diversidad como razas complemente distintas” (QUINTERO apud HUMBOLDT, 2005a, p. VII).
seu liberalismo ilustrado: não se trata mais de ver a desigualdade por meio das raças, mas pelo desenvolvimento da civilização de cada povo; não se nasce diferente pela raça, mas pela cultura, pela sociedade em que se vive; nas civilizações menos “evoluídas” apenas o indivíduo isolado pode possuir um grau maior de “civilidade”. Humboldt sempre foi um crítico da escravidão. Como republicano e liberal, seu discurso sobre a igualdade entre as raças tinha como pano de fundo a visão de que o trabalho livre seria uma solução para o progresso e a evolução dos povos. “Y á que se considere la humanidad en su conjunto sin distincion de religiones, de naciones ni de colores, como una grand família de hermanos, como un cuerpo único que marcha Hácia un solo e idêntico objeto, hacia el libre desarrollo de las fuerzas moralles” (HUMBOLDT, 2005a, p. 382).
O desenvolvimento moral da humanidade é para Humboldt o fim supremo do homem. A sua relação com a natureza, o seu olhar sobre ela e o seu conhecimento são caminhos para sua elevação moral, desbravados pela sua atividade física e intelectual. A ideia da união de toda a espécie humana é o grande ideal da história da humanidade para Humboldt, o que lhe confere, sem sombra de dúvidas, uma dimensão humanista.
3.5 Natureza, poesia e literatura no volume 2, do Cosmos
Ao se aprofundar nos estudos sobre a Grécia Antiga, Humboldt percebeu que a alegria causada pelo contato com a natureza na Antiguidade era mais comedida do que na Modernidade no que se refere à expressão dos sentimentos. Ele cita, mais uma vez, o poeta, dramaturgo e pensador Friedrich Schiller (1759-1805):
Se nos lembrarmos da natureza bela que rodeava os antigos gregos, se pensarmos como esse povo vivia em íntima ligação com a natureza livre sob um céu feliz e como sua capacidade imaginativa, a sua forma de sentir, os seus costumes estavam tão próximos da natureza simples, e como essa mesma natureza se manifestava fielmente nas obras poéticas, poderá parecer estranho afirmar que essas mesmas obras poucos vestígios revelam daquele interesse sentimental que nos leva, hoje em dia, a afeiçoarmo-nos a certos cenários naturais e a um certo caráter da natureza. É verdade que o grego é exatamente preciso, fiel, pormenorizado nas descrições da natureza, mas o seu coração participa tão pouco nelas como na descrição de um trajo, de um escudo ou de uma armadura. A natureza parece falar-lhe mais à razão do que o sentido moral; ele não se lhe afeiçoa com a intensidade e com a doce nostalgia dos modernos (SCHILER apud HUMBOLDT, 2007c, p. 141).
Humboldt tinha uma discordância em relação a Schiller19, que via uma sintonia entre a natureza e o ser humano. Para ele, nas descrições literárias e poéticas da natureza na Antiguidade ela era mantida como acessória, um pano de fundo das ações e paixões humanas. Humboldt reivindica um olhar especial sobre a natureza que consiga vislumbrar sua especificidade, suas características em si, trazendo-a para o primeiro plano.
Os gregos desconheciam por completo a descrição da natureza em toda sua variedade, bem como a literatura da natureza enquanto ramo autônomo da literatura. De igual modo, a paisagem aparecia apenas como pano de fundo de uma pintura, sobre o qual se movimentam as figuras humanas. Os sentidos ficavam quase que exclusivamente presos por paixões que desembocavam em atos. A vida pública ativa distanciava-se da imersão entusiástica e indistinta na serena atividade da natureza; as próprias manifestações físicas eram sempre apresentadas na sua relação com a humanidade, quer se tratasse de criar a forma exterior, ou de dar ânimo à energia interior. Eram quase só essas as relações que tornavam a natureza digna de ser inserida no campo da literatura, sob a forma sensível da parábola e enquanto pequenas ilustrações isoladas e plenas de vivacidade objetiva (HUMBOLDT, 2007c, p. 142).
A busca pelo belo, pela harmonia da natureza, no resgate da Antiguidade, quando prevalecia o humano em detrimento da natureza, será o tema principal de seu Sentimento da
natureza segundo as diferentes raças e tempos.
Seja em Os Trabalhos e os Dias ou na Teogonia, Hesíodo expressava uma antropomorfização da natureza. Humboldt considera que a poesia antiga volta-se para o mundo exterior, no intuito de personificá-lo, mas ressalva:
Tal não significa que a sensibilidade às belezas naturais esteja ausente das obras que respiram tanta sensualidade ou que a expressão viva de uma natureza poética contemplativa tenha de estar ausente das obras-primas que foram produzidas pela energia criadora dos helenos nos campos da poesia e das artes plásticas. (HUMBOLDT, 2007c, p. 143).
19 A relação de Alexander Von Humboldt com Schiller é bastante controversa. Seu irmão mais velho, ao
contrário, tinha uma relação mais harmoniosa com o poeta, o que fica evidenciado em cartas trocadas entre eles em 1875. Já Humboldt, desde cedo, mantinha uma relação às vezes de amor, às vezes de ódio. Essa citação de Poesia Ingênua e Sentimental explora a relação entre a poesia ingênua, típica da Antiguidade, em que natureza e humanidade encontravam-se unidas, espelhavam-se, e a poesia sentimental, moderna, em que a cisão entre natureza e humanidade já estava consubstanciada. Humboldt cita Schiller para contrapô-lo. Para ele, Schiller generaliza demais a apreciação antiga da natureza, além de ver na Modernidade sempre o contraposto da Antiguidade. Humboldt vai além de Schiller ao analisar o sentimento da natureza nos hebreus, nos indianos, nos semitas e nos indo-germânicos. Humboldt salienta, também, o cuidado que se deve ter ao deduzir as índoles dos povos antigos a partir do sentimento que nutrem pela natureza. É preciso adentrar nas especificidades de cada povo. Ele concordava que na Antiguidade grega, época de “esplendor da humanidade”, encontrava-se um profundo e sincero sentimento da natureza, expresso nas sagas e épicos, mas que essas apresentações da natureza estavam inseridas de modo acessório nas sagas das “paixões humanas”. Nelas, “a verdadeira descrição da natureza revela-se como mero acessório, já que, na cultura artística grega, tudo se move, por assim dizer, na esfera do humano” (HUMBOLDT, 2007c, p. 142).
Todavia, as poesias épicas e líricas, mesmo apresentando aspectos da natureza, estiveram voltadas mais para o mundo interior, ou para o “visível inanimado”. Nelas, as descrições da natureza são casuísticas, não “aparecem como produto específico da fantasia” ou, mesmo, como uma manifestação natural. A civilização grega apreciava a natureza segundo sua relação mítica com os heróis e deuses.
Estes vingavam com castigos qualquer ofensa cometida contra árvores e ervas sagradas. Por assim dizer, era a capacidade imaginativa que dava vida às formações vegetais; mas as formas poéticas que, na Antiguidade, eram características do desabrochar do espírito grego, não permitiam senão um desenvolvimento comedido dos aspectos descritivos da natureza (HUMBOLDT, 2007c, p. 145).
Humboldt enxerga nos poetas trágicos um momento de transição da poesia antropomórfica para a naturalista. Sófocles e Eurípides, mesmo nas descrições trágicas das paixões, despertavam um sentimento da natureza por meio de esfuziantes referências às paisagens. Em Édipo Rei, Sófocles expressa a tranquilidade da natureza em contraste com a dor avassaladora de uma paixão. Já nos poemas bucólicos de Teócrito, em especial na sua poesia pastoril, a atenção está voltada mais para o homem natural do que para a paisagem. Com seu caráter idílico, ele demonstra certo grau de melancolia, mas o sentimento da natureza começa a protagonizar as cenas bucólicas das paisagens pastoris: a poesia caminha rumo às formas mais descritivas da natureza.
Humboldt considera que as modernas ciências da natureza já conseguem identificar nessas poesias bucólicas gêneros e classes de animais e de vegetais. Mas salienta: “Contudo, falta vida interior a todas estas formas poéticas, falta uma contemplação entusiástica da natureza, falta aquilo que torna o mundo exterior, quase inconscientemente, motivo de fantasia para o poeta que por ele foi tocado” (HUMBOLDT, 2007c, p. 147).
A natureza tem para Humboldt essa capacidade de acender no sujeito o prazer pelo belo, pela fantasia. A poética seria uma forma artística capaz de desvelar o véu que cobre o rosto da natureza, atingindo as especificidades do mundo natural. Nono de Panópolis, poeta épico grego, por meio de seus cantos Dionisíacos, apresentava uma descrição excessiva da natureza, mas já acenando com certos traços da poesia romântica: “Nono de Panópolis tende para uma certa poesia romântica e é de uma admirável irregularidade, ora entusiástico e estimulante, ora enfadonho e prolixo” (HUMBOLDT, 2007c, p. 147). A descrição do vale florestal de Tempe feita por Eliano seria uma das descrições mais completas, em que sobressaem as informações topográficas. De maneira geral, um sentimento profundo da natureza, delicado, está contido no florilégio grego, porém ainda de forma fragmentária.
Um dos objetivos de Humboldt nas páginas iniciais do O sentimento da natureza
segundo as diferentes raças e tempos foi expor, a partir de elementos tirados das artes
descritivas, algumas considerações gerais sobre a contemplação poética do mundo. O escrito de Cícero, já na Roma Antiga, que supostamente seguiu os passos de um texto perdido de Aristóteles sobre a natureza, é para Humboldt a mais figurativa ilustração do testemunho da existência dos poderes celestes retirados da infinita beleza das obras da criação. Eis a citação de Cícero, integrante da “grande corrente dourada do discurso [linguajem] aristotélico”:
Se existissem seres que tivessem vivido sempre debaixo da terra, habitações essas decoradas com estatuetas, pinturas e com tudo mais que esses seres que se consideram felizes possuíssem em grande quantidade, e se, de repente, esses mesmos seres tivessem conhecimento do domínio e do poder dos deuses e se, através de brechas abertas na crosta terrestre, saíssem das suas casas escondidas, chegando aos locais por nós habitados, se, de repente, avistassem pela primeira vez a terra, o mar e a abóbada celeste, descobrissem as dimensões das nuvens e a força dos ventos, admirassem a magnificência, a beleza e o efeito luminescente do sol, e se, por fim, mal a noite caísse envolvendo a terra em escuridão, avistassem o céu estrelado, a lua nos seus cambiantes de luz, o nascimento e o declínio dos astros e a sua trajetória desde sempre imutável e organizada, então possivelmente diriam que existem deuses e que tão grandiosas coisas são sua obra (HUMBOLDT, 2007c, p. 149).
A ausência de um sentimento da natureza na produção literária grega torna-se mais incisivo na Roma Antiga: “O caráter do povo romano, na sua fria austeridade, no seu sóbrio e ponderado bom-senso, era pouco dado à sensibilidade e mais atreito às realidades diárias do que a uma contemplação poética e idealizada da natureza (HUMBOLDT, 2007c, p. 150).
Mas há uma exceção notável para Humboldt. Um homem de Estado, ocupado com suas obrigações políticas e que ainda consegue manter um sentimento pela natureza e um amor à vida campestre só pode ser um homem nobre. Cícero é o exemplo disso. Consegue expor a individualidade da natureza sem perder o rigor. Humboldt considera que o seu tratado da natureza “apresenta tudo o que ainda hoje se pode encontrar na paisagem real”. Aquilo que a natureza reflete nas almas das pessoas desde cedo se associa ao que já estava nela predisposto em suas “energias espirituais mais íntimas” (HUMBOLDT, 2007c, p. 151).
Já em Virgílio a descrição da natureza ocupa um pequeno espaço em suas poesias Éclogas e Geórgicas. Não há uma descrição da natureza que enfoque suas especificidades, mas sim, sob a influência do gênero pastoril, uma apologia da vida no campo. Ovídio, de quem se poderia esperar uma descrição poética das estepes, devido à sua grande permanência nas planícies de Tomi, classificou-as somente de inóspitas e pantanosas, contrapondo-as aos prazeres mundanos de Roma. Para Humboldt, Ovídio se preocupava mais com os acontecimentos políticos de Roma do que com a contemplação da natureza que sua vista
abarcara. Porém, além de suas belas descrições das sociedades humanas, Ovídio elaborou uma descrição pormenorizada da erupção vulcânica em Methana, no Peloponeso.
O mais espantoso para Humboldt foi o caso de Tibulo, que sequer deixou uma descrição singular da natureza, mesmo vivendo na solidão do campo. O poeta foi pouco sensível às descrições das paisagens, que, na maioria das vezes, compunham apenas o pano de fundo de sua prosa poética. A exceção foi na Sagração do Campo, em que a paisagem aparece em primeiro plano.
No final do século IV, já na Era Cristã, segundo Humboldt, as mais nobres artes poéticas sucumbiram à descrição das realidades mais austeras. O desenvolvimento da retórica não foi capaz de emudecer a forma simples de sentir a natureza. O exemplo dado é o de D. Magno Ausônio, que, ao descrever as colinas cobertas de vinhas de Mosela, focava seu poema na topografia austera do seu território.
Grandes historiadores, como Júlio César, ofereceram imagens isoladas de paisagens de rios, desfiladeiros, etc. Na História da Visão de Mundo, de Plínio, a natureza encontra-se representada, muito embora empobrecida e sintetizada de forma abrangente e pouco cuidadosa. Carregada de ornamentos retóricos, quando se fixa nos fenômenos naturais, a obra consegue esboçar uma visão do todo (HUMBOLDT, 2007c, p. 155-156).
Exemplos não faltam de descrições da paisagem entre os romanos. Humboldt não se cansa de citá-los, porém a maioria se restringe em apresentá-la como um obstáculo a ser superado, aspectos sombrios de passagens e caminhos: “Todos estes viajantes só sabem queixar-se dos caminhos intransponíveis e medonhos, mas nunca se ocupando do caráter romântico dos cenários naturais” (HUMBOLDT, 2007c, p. 157). O belo harmônico que a paisagem apresenta ainda não se encontra presente na poesia e na prosa ocidental. A singularidade romântica da natureza é apenas acessória nas narrativas, mesmo nas grandes epopeias.
Somente com a perda de influência da Antiguidade clássica, Grécia e Roma, é que a contemplação do mundo exterior ganha terreno. A nova forma que dava vida a essa contemplação, para Humboldt, era o cristianismo, que, segundo ele, exercia uma influência benéfica em diversas questões importantes, como a liberdade civil das populações “mais baixas do gênero humano” (HUMBOLDT, 2007c, p. 158). Mas ele se interessa principalmente pela seguinte mudança gerada pelo cristianismo: os olhos dos artistas não estavam voltados mais para os deuses do Olímpo. O criador se faz presente na natureza, animada e inanimada.
Com a derrota gradual de Roma, os escritos da Antiguidade clássica são substituídos pela “simplicidade e pureza” dos escritos cristãos, oriundos do isolamento espiritual, da submersão interior, que se refletia na forma e na riqueza da escrita. “A orientação espiritual cristã tendia a demonstrar a grandeza e a bondade do Criador através da ordem cósmica e da beleza do mundo natural. Ou seja, a glorificação da divindade a partir das