3.1 Da ideia freudiana ao novo estatuto lacaniano.
Essa seção se propõe a demonstrar o processo da construção teórica do objeto a, a partir de retomadas à concepção freudiana. O intuito de chegar ao refinamento do conceito de angústia proposto por Jacques Lacan. O texto não tem a pretensão de desenvolver um retorno minucioso ou detalhado na obra de Freud como fez Lacan, assim como, não necessariamente, obedece a uma cronologia, mas a intenção é delinear uma lógica que possibilite sinalizar para pontos importantes que Lacan apresenta ao instituir o objeto a como determinante na teoria da angústia.
A construção do conceito de angústia surge de um processo de inquietações que os estudos freudianos mobilizaram em Lacan, principalmente, quanto ao conteúdo e a localização do afeto na vida psíquica. É um aspecto que levou o autor a formular um novo estatuto sobre o objeto na psicanálise em que define a linguagem como um dispositivo fundamental. Iniciaremos o estudo a partir de uma leitura sobre a concepção do desejo para Freud, até chegarmos à compreensão de que o desejo é um movimento psíquico de origem interna que busca satisfação, em que o acesso não é permitido, cujo os sinais se fixaram no inconsciente.
A ideia de um objeto impossível para o desejo é o pensamento que aparece desde as primeiras formulações de Freud sobre o aparelho psíquico. Tem início com o Projeto para uma psicologia científica (1895a) em maio de 1897 - na correspondência a Wilhelm Fliess nos Estudos sobre a Histeria (1895d) -. O termo designa uma intensa vontade que não é permitida ao referir-se sobre ‘o desejo de estar doente’ e, especialmente ‘o desejo de morte’, sentido que domina o Capítulo V - Interpretação dos Sonhos (1900) - em relação à morte de pessoas queridas. Mesma concepção encontrada no final do Capítulo VIII - Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901b) - que também é indicada como uma das fontes de neurose, assim como nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).
Sabemos que a experiência de satisfação das necessidades básicas, como por exemplo, a de ser amamentado cuja intermediação é feita pela mãe, fará com que o recém-nascido jamais possa viver integralmente tal experiência, pois a necessidade de satisfação faz com que a busca aconteça sem sucesso. Logo, o objeto deixa de estar no seio, na mãe ou no alimento. É essa saída de cena do objeto que irá fundar a presença do desejo, que conduzirá a criança
como futuro sujeito à eterna tentativa de alcançar o inalcançável, isto é, o objeto perdido para sempre e a satisfação que dele se originou.
No artigo de 1900, Freud teoriza sobre a realização do desejo127 como uma das
motivações para elaborar a lei das formações do inconsciente, cuja base de modelo é o sonho, o sintoma histérico e a fantasia. Desejo que é do inconsciente, infantil e sexual e se apresenta de forma disfarçada. Logo, sua realização não é plena, muito menos definitiva, mas dinâmica e singular. Somente a interpretação e o processo de análise podem apurar sob qual disfarce a realização do desejo aparece. Essa realização não é o agente causal do sonho, mas é o que permite delinear certa intenção, daí a possibilidade de interpretação. Nesse sentido, o desejo, enquanto força psíquica realiza o que Freud definiu como “identidade de percepção”, isto é, através do percurso que se repete é deflagrada uma necessidade interna que tranquiliza via experiência de satisfação alucinatória do desejo.
Vale lembrar que, em outro trecho, o autor apresenta uma definição mais objetiva do desejo que se revela através da análise do sonho, sobre os traços mnêmicos inconscientes, fixados a partir das primeiras experiências de satisfação. O desejo aparece com a função de restabelecer o prazer já sentido. É um processo psíquico primário que considera a lógica pulsional inconsciente, contornada pelas exigências da censura, que se articula com os ideais de maior investimento.
Em 1920, em Além do princípio de prazer, com o estudo sobre os sonhos traumáticos na neurose de acidente, Freud é levado a postular outras finalidades para o sonho, além da realização do desejo. É claro que aquele que sonha não busca, no literal, a satisfação de um desejo inconsciente, pois os sonhos são o desenrolar de um estado neurótico. O mais adequado seria dizer que o sonho tenta ser, minimamente, um movimento que evolve o desejo.
Trinta anos depois, no artigo de (1933a[1932]) Novas conferências introdutórias sobre psicanalise, Freud afirma que todo sonho apresenta um desejo pulsional que deve ser entendido como o que alcançou a satisfação em função da realização de desejo alucinado, refere num texto anterior que “o desejo onírico, como dizemos, é alucinado, e, como uma
127 Wunsch: palavra alemã que apresenta um delicado problema de tradução, que ao designar uma aspiração ou
vontade de fazer alguma coisa equivale ao termo em inglês é wish – Freud fala de desejo de dormir, por exemplo – em português o desejo possui uma conotação sexual e libidinal, traduzido em alemão por Begierde e em inglês,
Lust. Sem dúvida, que a evolução da noção que se processa em Freud vai estabelecer, cada vez mais, uma aproximação com a ideia de uma representação inconsciente. Numa linguagem mais lacaniana, é um significante. Do ponto de vista freudiano é uma representação que funciona como um lugar em que uma excitação passou. Tal excitação aparece como resultado de uma necessidade qualquer que se faz sentir novamente e cujo desejo faz ressurgir a representação correspondente (HANNS, 1995); (MIJOLLA, 2005).
alucinação encontra-se com a crença na realidade de sua satisfação” (FREUD, 1917[1915]/1976, p. 261).
No percurso teórico de 1895 a 1933 tentando visualizar a ideia de Freud sobre o objeto do desejo, é possível identificar duas possibilidades. A primeira é que apesar do autor tentar definir objetivamente o desejo como estando atrelada a primeira experiência de satisfação do bebê, a própria experiência em si, é marcada pela ausência, isso gera a dificuldade em pensar num apoio mais objetivamente, visto que tal experiência de satisfação jamais poderá ser reencontrada. É como se o objeto não existisse (VIOLA, 2009).
A outra possibilidade pode ser pensada como um postulado sobre o desejo, como a necessidade de se estabelecer um construto teórico, isto é, acreditar em algo que não está lá, mas fora estabelecido que existisse. Pois, o contato com ele só é possível via retrocesso à primeira experiência de satisfação. O retorno até é possível, mas, o encontro é com o vazio. É uma busca fecunda e singular que cada sujeito desejante imprime para encontrar o elo que se perdeu. Exemplo disso é o sujeito com funcionamento neurótico que insiste em repetidas e frequentes buscas pela satisfação plena, mas que jamais será alcançada.
Na elaboração de Freud sobre a relação do desejo com o objeto, ainda que pouco objetivo o autor propõe a indicação de um vazio. Aspecto que se tornou significativo para o futuro estudo do conceito na clínica psicanalítica. Mas é com Lacan que o desfecho da ideia é refinado, a partir da delimitação do campo do desejo e da concepção essencial de objeto a. É um percurso que se estende ao longo dos ensinamentos de Jacques Lacan, mas que trilharemos a partir dos seminários VIII e X, respectivamente, A transferência e A angústia.
No Seminário VIII - A transferência - Lacan (1960-1961/1992) discute sobre a angústia na sua relação com o desejo, noção que é designada pela letra a (em minúsculo e itálico), mas que passa a ocupar uma posição epistemológica nas formulações seguintes e assume a noção ou concepção essencial de objeto a. A letra a, nesse momento dos ensinamentos de Lacan, surge com o propósito de estabelecer uma ligação restrita entre a angústia e o desejo a partir da fantasia, cuja ideia será retomada a seguir para a compreensão da noção de objeto a.
Como a proposta nesse momento é sinalizar nos estudos de Freud as passagens que Lacan considera como ponto nevrálgico quanto à indicação do lugar do sinal de angústia, o destaque é para o texto Inibições, sintomas e ansiedade. Lacan (1960-1961/1992) traduz o trecho com a proposição de ficar como um ponto de amadurecimento para reflexão de seus
leitores: “O ego retira sua catexia (pré-consciente) do representante instintual que deve ser reprimido e utiliza essa catexia para a finalidade de liberar o desprazer (ansiedade)” (FREUD, (1926[1925]) /1976, p. 114). Para Lacan, numa linguagem mais contemporânea: “O eu retira o investimento pré-consciente do Triebrepräsentanz, daquilo que, na pulsão, é representante. Esse caro representante deve ser recalcado. Ele se transforma pela ligação, em desprazer e Angst” (LACAN, 1960-1961/1992, p.348).
Quando Freud refere-se à transformação como importante para a produção do sinal de angústia, e refere que não é necessária uma grande quantidade de energia para produção do sinal, Lacan (1960-1961/1992) entende que isso indica a relação entre a produção de um sinal a algo da ordem da renúncia, que vai ligar a espera do sujeito em relação a alguma coisa, mas terá como consequência, o desconforto. Logo, alguma coisa é fornecida:
[...] é que o sinal de angústia se produz em algum lugar que pode ser ocupado por i (a), o eu enquanto imagem do outro, o eu na medida em que é, basicamente, função de desconhecimento. Ele ocupa esse lugar, não na medida em que essa imagem o ocupa, mais sim enquanto lugar, isso é, na medida em que ocasionalmente essa imagem pode ali ser dissolvida (LACAN, 1960-1961/1992, p.350).
O fato é que existe um lugar onde o sinal de angústia se produz. Todavia, para indicar como isso acontece Lacan (1960-1961/1992) propõe a fórmula da fantasia. Para ele o desejo se apoia na fantasia para que a angústia se constitua, logo, afirma que “é preciso que haja relação com o nível do desejo” (idem, p. 351). Eis a justificativa que o conduz para discutir a questão do sinal de angústia no nível da fantasia.
Sobre a fantasia não deve ser vista apenas como uma fórmula, mas lembrada como elemento estruturante entre sujeito barrado ($) e a para compreensão do sinal de angústia. O sujeito barrado ($) representa o elemento que tem relação com o fading do sujeito, enquanto a representa o pequeno outro; ambos têm relação com o objeto do desejo. É uma simbolização cujo efeito é mostrar que o desejo não contém uma relação subjetiva de natureza elementar com o objeto que leva o desejo implica-se numa mediação, numa reflexividade (LACAN, 1960-1961/1992).
Resgatando a expressão Triebrepräsentanz, citada anteriormente, Lacan (1960- 1961/1992) indaga: o que isso significa quando aplicado à formulação? Ele responde, significa que a angústia se produz quando volta para sujeito barrado ($) o investimento do pequeno a. Todavia, observa:
Só que, o $ não é algo de apreciável, e só pode ser concebido como um lugar, já que nem mesmo é o ponto de reflexividade do sujeito, que se apreenderia ali, por exemplo, como desejante. O sujeito não se apreende como desejante. No entanto, na fantasia, o lugar onde o sujeito poderia, se ouso dizê-lo, apreende-se como tal, como desejante, está sempre reservado. Ele é mesmo de tal maneira reservado que é comumente ocupado por aquilo que se produz de homólogo ao estágio inferior do grafo, i (a). Não é forçosamente ocupado por ele, mas de um modo geral (LACAN, 1960-1961/1992, p.349).
Ainda que sujeito barrado ($) não seja algo apreciável, o trecho deixa claro que existe um lugar onde o sinal de angústia encontra eco. Em certo sentido Lacan concorda com Freud quanto a um lugar de produção de angústia, o eu. Porém, Lacan refere que esse lugar ocupado pelo eu é o de uma imagem especular que ocasionalmente se dissolve. A ideia de lugar é fundamental para o entendimento futuro sobre a angústia.
Na localização lacaniana, é um lugar de completo desconhecimento por parte do sujeito, cujo sinal de angústia denuncia a presença de um objeto perigoso, que coincide com uma ameaça externa que “obriga” o sujeito a fugir, como um sinal de perigo. Como o Eu é de uma imagem especular, logo, é do outro que constitui o seu eu que o sujeito recebe o sinal de angústia (LACAN, 1960-1961/1992). Tal proposição já se insere na discussão sobre exterior/interior de Lacan, que receberá mais a frente um tratamento específico em nosso estudo, em função de conduzir a construção do objeto a como importante para o entendimento sobre a angústia.
Sobre o tema Lacan faz um questionamento fundamental: A angústia é diante do que? Tanto Freud como Lacan descartam a possibilidade de não haver um objeto da angústia, também é ideia comum, que existe uma vinculação entre o afeto e o eu. O que Lacan desenvolve é a existência de uma concepção essencial do objeto a.
Na lição que trata do questionamento sobre a angústia o autor relembra como um alerta sobre os perigos do altruísmo. Adverte que é preciso desconfiar das ciladas da piedade, daquilo que nos impede de fazer o mal a quem está próximo. Para ele o altruísmo não passa de um invólucro sobre outra coisa que recebe uma roupagem da tradição moralista, “o que ele respeita e o que ele não quer tocar, na imagem do outro, é a sua própria imagem” (LACAN, 1960-1961/1992, p. 352). Prossegue a explicação dizendo que não há dúvida que a angústia seja produzida do ponto de vista tópico, no lugar que define como i (a). Até considera a formulação freudiana sobre o lugar do eu, mas avança na ideia, afirma que só existe indicativo
de angústia quando acontece à relação com um objeto de desejo, que tem um efeito perturbador quanto ao eu ideal, i (o), que será originado na imagem especular128.
Lacan (1960-1961/1992) entende que a angústia tem, necessariamente, uma relação com o objeto do desejo e reconhece que existe como permanente o sinal que mantém essa relação. Significa dizer que a função da angústia vai mais além do que Freud havia previsto, como um indicativo de fuga do sujeito diante de algo ameaçador. A articulação entre a angústia e o objeto leva Lacan à necessidade de estabelecer a diferença entre o afeto e o desamparo, a fim de delinear estratégia que o sujeito pode adotar para lidar com a angústia. Quando uma dada situação mobiliza apenas a fuga, inviabilizando o sujeito de qualquer outro modo de enfrentamento, dizemos que estamos no campo do desamparo. Porém, quando o sinal do afeto é mantido, significa que o desejo está presente. A angústia é o modo radical da relação que o sujeito estabelece com a presença/ausência do objeto.
Entretanto, há outras formas de apresentação do objeto, isto é, aquelas em que assume um caráter de insustentável. Tomando o exemplo da histeria, o estatuto do desejo se apresenta como o de ser sempre insatisfeito, enquanto que na neurose obsessiva o desejo é da ordem do impossível. Todavia o desejo presente na angústia ocorre:
Quando, por razões de resistência, de defesa e de outros mecanismos de anulação do objeto, o objeto desaparece, permanece o que dele pode restar, a saber, o
Erwartung129, a direção para o seu lugar, lugar de onde ele, a partir de então, se
ausenta, onde passa a tratar-se apenas de um unbestimmte Objekt130, ou ainda como
diz Freud, de um objeto com que estamos numa relação de Löslichkeit131. Quando
atingimos esse ponto a angústia é o último modo, modo radical, sob o qual o sujeito continua a sustentar, mesmo que de uma maneira insustentável, a relação com o desejo (LACAN, 1960-1961/1992, p.353).
O trecho indica com clareza o efeito presença/ausência do objeto que marcadamente faz parte da angústia. Constatação que desde os tempos freudianos indicavam a possibilidade de dissolução de algo que acontece no início da vida psíquica e que Lacan, com muito
128 Está relacionada ao estádio do espelho, como momento de grande satisfação que caracteriza o encontro do
bebe (a partir do sexto mês) com sua própria imagem no espelho. Momento que Lacan atribui especial importância em função do reconhecimento do Outro através da imagem especular de si mesmo, isto é, a criança passa a adquirir consciência de seu corpo como totalidade, antes mesmo da integração de suas funções motoras e o acesso a um controle real.
129 Na tradução do alemão Erwartung significa espera, expectativa.
130 Unbestimmte Objekt é entendido como objeto indeterminado, indefinido, incerto. 131 Löslichkeit tem haver com solubilidade, no sentido de que pode ser dissolvido.
empenho, demarca como noção ou concepção essencial de alguma coisa que indica a existência do afeto angústia.
Seguindo a lógica do objeto quando assume um caráter de insustentável, chegamos à forma que Lacan (1960-1961/1992) considera como a mais radical das neuroses, a fobia, em torno da qual é construído o discurso freudiano, a fim de elucidar o objeto da angústia. Para ele o objeto funciona como forma de sustentação para o desejo e assume a forma de angústia.
Até esse momento, mesmo considerando o que já havia sido pensado o autor indica a necessidade de acréscimo quanto ao funcionamento da histeria e da obsessão, para que a fobia possa ser definida plenamente. Lacan (1960-1961/1992) apresenta a introdução da metáfora do outro, a parti de onde o sujeito se vê como castrado confrontando com o grande Outro. Nesse sentido se insere a função do objeto fóbico como responsável pelos significantes. Ao resgatar o caso do pequeno Hanns ele faz uma nova leitura:
O que é notável no caso do pequeno Hanns e, ao mesmo tempo, a carência e a presença do pai – carência sob a forma do pai real, presença sob a forma do pai simbólico, invasor. Se tudo isso pode ocorrer no mesmo plano é que o objeto da fobia tem a possibilidade infinita de manter uma certa função em falta ou deficiente, que é justamente diante do que o sujeito sucumbiria se não surgisse, naquele lugar, a angústia (LACAN, 1960-1961/1992, p.354).
O trecho além de indicar a presença de novos elementos fundamentais quanto à fobia para prática clínica, também nos leva a compreender como o sinal da angústia tem a função de advertência em relação a algo que é ameaçador cuja clareza sobre o que é da ordem do interno e externo é necessária para “que o analista recuse ao sujeito a sua angústia, a dele analista, e deixe nu o lugar onde é convocado como outro a dar o sinal de angústia” (LACAN, 1960-1961/1992, p.356).
Quando Lacan (1960-1961/1992) trata à angústia na sua relação com o objeto refere que o universal, o individual e o coletivo estão num mesmo patamar. O entendimento permite considerar a existência num mesmo nível de efeito o perigo, que independe de onde parte sua ativação, interno ou externo.
Há outro lugar que o autor define como importante para essa compreensão, a de sujeito desejante. Refere que “o desejante enquanto tal nada pode dizer de si mesmo, a não ser abolindo-se como desejante”. “Se a angústia é o que lhes disse, uma relação de sustentação do desejo, pois o objeto falta, invertendo os termos, o desejo é um remédio para a angústia” (LACAN, 1960-1961/1992, p.357).
É uma lógica importante, pois nos leva a compreender a partir da concepção de um novo estatuto da angústia como afeto, em que se apresenta o nível mais radical do desejo humano. Aspecto que será discutido na seção a seguir que tem como base o seminário X, A angústia.
3.2 A constituição da Angústia em Lacan.
Essa seção tem como referência principal o Seminário X de Jacques Lacan, A angústia. O curso é realizado no período de novembro de 1962 a junho de 1963. É um rico material que localiza a angústia na sua relação com uma rede de significantes. O texto inicia com a introdução quanto à estrutura da angústia, faz uma revisão do objeto a, num terceiro momento discute a angústia entre o gozo e o desejo e finaliza com a apresentação das cinco formas do objeto pequeno a.
Considerando a complexidade do assunto buscamos percorrer uma trilha que leve o leitor a compreensão de como o autor construiu a concepção essencial de objeto a cuja noção sinaliza para a existência da angústia. A questão que aparece como pano de fundo para o entendimento do afeto nos ensinos de Lacan está relacionada ao termo função. A pergunta é: Qual seria a função da angústia? Para responder, o autor retoma Freud quanto ao entendimento de que a angústia é um sinal que se apresenta no eu como indicação de um perigo. Todavia, Lacan investe em uma dinâmica que vai muito além do que Freud havia escrito e provoca alguns questionamentos fundamentais, por exemplo, de que se trata o sinal de angústia? O que é um perigo interno? A que o perigo ameaça, ao eu ou ao sujeito?
São indagações que Lacan desenvolve ao longo de suas aulas e culminam com o entendimento de que é somente pela via da angústia, que é possível conceber a noção de objeto a. Para o autor a angústia significa a tradução desse objeto cujo caminho acontece a partir da relação entre angústia versus desejo – discussão que inicia no seminário VIII, onde estabelece a existência de uma relação fundamental entre a angústia e o nível do desejo -, e continua no