As concepções de sujeito são construções históricas, sujeitas a mudanças e flutuações de significados. A modernidade, por exemplo, pode ser vista, em seus primórdios, como o período de apogeu do sujeito, já contemporaneamente, é vista como o período de seu ocaso. As tendências à descentralização do sujeito, que se iniciam ainda na modernidade, tomam corpo contemporaneamente a ponto de virarem ao avesso as premissas que deram sustentação teórica ao sujeito cartesiano, figura eminentemente moderna. A pressuposição principal deste raciocínio é de que há mudanças estruturais em curso na atualidade que estão a minar a ideia de sujeito coeso, integrado, centrado. A partir dessa ideia, se estruturou o sujeito da modernidade, até certo
momento histórico. Tal processo é também chamado de deslocamento do sujeito, por ele se encontrar deslocado no que concerne à concepção essencialista e fixa que sustentou, desde o Iluminismo, a definição moderna de sujeito. A concepção da pessoa humana dependia, portanto, de um centro a partir do qual sua identidade se formava como produto das suas capacidades racionais, de sua consciência e clareza de si. Este núcleo essencial se caracterizava pela autonomia e autossuficiência, com uma noção estável e unificada de identidade e interioridade. É esse sujeito que está posto em questão pelas mudanças da contemporaneidade, que têm início ainda na modernidade. Com o advento desta – meados do XIX – o sujeito passa a se apresentar como dividido, fragmentado. Com o aparecimento das grandes cidades, o êxodo do campo para o espaço urbano, o sujeito se acha frente ao anonimato, à falta de reconhecimento identitário. O eixo filosófico de um sujeito centrado é abalado também pela obra freudiana, que mostra um sujeito sem autonomia perante o mundo do inconsciente; e pela a de Marx, evidenciando um sujeito que é determinado pelo lugar social que ocupa, numa sociedade dividida. Em suma, diríamos: sujeito melancólico e nostálgico de um espaço que não lhe devolve mais um referencial identitário. O sujeito pós-moderno vê tais contradições serem acirradas, aprofundadas. Não é nostálgico de uma pretensa origem, nem melancólico, mas talvez depressivo e disperso. O sujeito pós-moderno, assim, não tem identidade fixa, essencial ou permanente (HALL, 2015). A ênfase das leituras que exploram o processo de descentramento do sujeito está colocada no impacto das mudanças culturais contemporâneas no sentido de destacar vetores tais como descontinuidade, fragmentação, ruptura e deslocamento. Todos a operar em torno da identidade algo sólida e estável, produzida por certa faceta da modernidade, de inspiração cartesiana. As origens dessa concepção de sujeito moderno, racional, consciente e pensante será objeto de exploração nesta tese, nos próximos dois itens, para que possamos pensar, por contraste, o sujeito na contemporaneidade e o sujeito trágico em relação a esta problemática.
Com efeito, o sujeito, na perspectiva foucaultiana é, ao mesmo tempo efeito e objeto de práticas de saber, de discursos de saber-poder. Ele é também, portanto, produzido pelos discursos, efeito deles, não preexistindo a eles. Se assim o é, há uma luta constante entre os indivíduos e grupos para se
apoderarem do discurso, sabendo que “[...] o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar (FOUCAULT, 2001, p.10)”. Daí se depreende que sobre os discursos recaem interdições, que eles são controlados, selecionados, organizados e redistribuídos por procedimentos que emanam do poder. Estabelecem-se, assim, hierarquias: alguns discursos circulam mais livremente que outros. Como eles formam sujeitos, conclui-se que alguns tipos de sujeitos são encorajados, estimulados, enquanto outros sofrem restrições, repressões e desencorajamentos diversos. Segundo Foucault, um sistema de exclusão, histórico, institucionalmente constrangedor determina nossos discursos e institui regimes de verdade que constrangem o sujeito em determinada direção.
Algumas análises genealógicas realizadas por Foucault investigam a formação do sujeito na modernidade, efetivada por meio de mecanismos de objetivação e subjetivação. Portanto, mais do que a análise do sujeito do conhecimento moderno, formado previamente à prática social, sustentado pelas categorias espaço-temporais kantianas, o que encontramos, em sua obra, são análises que precedem tal sujeito, ou seja, mecanismos, discursos de saber, regimes de verdade que antecedem a sua formação. A prioridade da análise do sujeito do conhecimento kantiano já havia sofrido o abalo, segundo Foucault, provocado pela psicanálise. A filosofia ocidental hegemônica teve contestada sua crença incondicional no sujeito como fundamento, núcleo essencial do conhecimento. Se o sujeito moderno é apenas, como pensa Foucault, produto do par saber-poder, efeito de estrutura das novas epistemes surgidas no século XVIII, poderemos explorar sua tese e afirmar que os acirramentos de algumas tendências modernas, explicitadas mais abaixo, estão, atualmente, a formar novas epistemes. Para o pensador francês, as práticas sociais não somente produzem tecnologia, novos artefatos, conceitos e técnicas, mas também fabricam novas modalidades de sujeito. Com efeito, instauram-se, contemporaneamente, novas modalidades de subjetivação, caracterizadas pela proposição de subjetividades epidérmicas, plásticas e flexíveis, em consonância com os valores da modernidade em sua fase líquida. O sujeito se constitui no interior mesmo da história (FOUCAULT, 2003). Desde a perspectiva foucaultiana, o sujeito, para a filosofia moderna desde Descartes, foi a categoria
central, sagrada, estruturadora de toda representação e saber. É com esta sagração em mira que ele empreende seu projeto arqueológico, procurando abordar criticamente a construção do sujeito na modernidade. As análises que se detêm no o projeto racional e moderno de silenciamento dos loucos e dos encarcerados, presentes nos volumes de História da sexualidade e Vigiar e punir, destacam mais os processos de sujeição e fabricação de determinados sujeitos pela incidência deliberada e insistente do poder-saber do que o sujeito constituindo-se a si próprio, liberto pela consciência e pela ciência. Dessa forma, as análises do pensador francês explicitam como “[...] mecanismos sociais complexos que incidem sobre os corpos muito antes de atingir as consciências, foram-se dando historicamente mil formas de sujeição: homens são, antes de mais nada, objetos de poderes, ciências, instituições” (BRUNI, 1989, p.200-201). Práticas, saberes, normas e ideias formam os dispositivos racionais que, concretamente, constituem indivíduos assujeitados. Lógica de funcionamento que não se restringe aos muros das instituições psiquiátrica e prisional, mas que se espraia por toda a sociedade como parâmetro para o funcionamento da racionalidade, sempre com o fito de controle social, constituindo sociedades disciplinares.
De acordo com essa perspectiva, se compreendermos algumas práticas contemporâneas, em cujo centro se encontram as ideias de visibilidade, o hedonismo, o culto à aparência, a recusa à ideia moderna de interioridade, a celebração imoderada de si mesmo, como práticas que contribuem para a construção de subjetividades, poderíamos afirmar que se encontra em curso a construção de um outro regime de verdade, bem diferente daquele erigido na modernidade, de cunho disciplinar. A propósito, “A verdade, para Foucault, não é a expressão discursiva da natureza mesma das coisas, mas o conjunto de procedimentos regrados para a produção, a distribuição e a circulação de enunciados aos quais se atribui efeitos específicos de poder: o poder de serem aceitos como verdadeiros” (BRUNI, 1989, p.205). Isso posto, qual é a natureza do regime de verdade que está sendo proposto em conluio com as práticas contemporâneas de visibilidade do eu? Se pensarmos com Foucault, o social é malha tecida por discursos de saber-poder que legitimam ou sancionam determinadas formas de ser. Poder, para ele, é constituído por forças vetoriais múltiplas, em confronto por hegemonia.
Em adição, as práticas de exibição do eu analisadas por Sibilia em seu livro, cujo emblema é a proliferação vertiginosa de autorretratos (selfies), indicam novas formas de articulação das subjetividades contemporâneas. “Seduzir, agradar, provocar, ostentar, demonstrar aos outros – ou a alguém em particular – quanto se é belo e feliz, mesmo que todos estejam a par de uma obviedade: o que se mostra nessas vitrines costuma ser uma visão otimizada das próprias vidas” (SIBILIA, 2016, p.42, grifo da autora). Há, correntemente, um acirramento das tendências narcisistas já em evidência na modernidade, como se verificará mais abaixo. Segundo a hipótese da pesquisadora argentina, está em curso uma mudança de paradigma das sociedades disciplinares, gestadas na modernidade, analisadas por Foucault, pois, para as atuais, as quais estariam apoiadas nas tecnologias eletrônicas e digitais. Tal sistema se articula em torno do marketing e da publicidade. Em tais sociedades, o espírito empresarial e seus valores tendem a colonizar tanto os corpos como as subjetividades. Se os dispositivos e as tecnologias de biopoder61 miravam a fabricação de corpos dóceis na
sociedade disciplinar, na modernidade líquida, ao menos em uma faceta dela, conforme veremos, os dispositivos ligados, principalmente, às tecnologias digitais têm, como alvo, a produção de subjetividades autocentradas, narcisistas, que se compreendem tendo como referência um eu epidérmico e suscetível de automodelagem infinita. Tais mecanismos de produção de subjetividades as fazem hegemônicas. Criam-se mecanismos para sua reprodução, encorajando indivíduos a exibir uma face jubilosa.
Ora, se a reflexão de Foucault propõe produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser humano dentro da cultura, poderíamos pensar que subjetividade tem sido produzida em um contexto de individualismo exacerbado e forte presença da tecnologia digital no cotidiano do indivíduo contemporâneo. Suas reflexões, segundo Fonseca (2016), teriam como denominador comum a tentativa de “[...] analisar os vários modos de objetivação do indivíduo em suas especificidades enquanto produtos de práticas discursivas e não discursivas” (FONSECA, 2016, p.27). Ainda de acordo com Fonseca, o sujeito para Foucault seria “o indivíduo preso a uma identidade que reconhece como sua, assim
61 Feixe de vetores que focalizam diretamente a vida com o intuito de engendrar determinadas formas
constituído a partir dos processos de subjetivação (2016, p.30)”. Assim, processos de subjetivação, sobrepostos aos de objetivação, dizem respeito aos processos de constituição do sujeito que operam através das práticas disciplinares, ambos constituindo a identidade do indivíduo moderno, ao mesmo tempo sujeito e objeto dócil-e-útil.
O poder em si não existiria, mas sim feixes de relações de poder, de relações de forças. Em vez de tomar os objetos sobre os quais incidem e moldá-los, caracterizando assim uma relação de dominação, os mecanismos das relações de poder visam constituir tais objetos. O poder seria menos um “controlador de forças do que seu produtor e organizador. Foucault desenvolve a ideia de relações de forças que induzem, produzem prazeres, produzem coisas, formam saberes e produzem discursos em detrimento da noção de poder como aparelho que apenas reprime. (FONSECA, 2016, p.36)
Assim, o poder, sem um centro, disseminado de forma capilar por toda a sociedade, infiltrado nos discursos e práticas, produzindo atitudes e pensamentos, é compreendido como micropoder, pois atinge o cotidiano do indivíduo. E ele o atinge mediante a constituição de um saber, daí que, para Foucault, o saber é indissociável do poder. Em relação à subjetividade somática que analisaremos oportunamente, veremos que o eu epidérmico forjado na contemporaneidade não pode ser compreendido sem a concorrência das técnicas e de um saber psi.
O indivíduo moderno, seguindo ainda os passos de Foucault, seria então produto de determinada tecnologia, de cunho cientítico-disciplinar, constituído como objeto de saber-poder. Tal indivíduo evidencia-se, portanto, por meio da análise das relações de forças, estratégias e dispositivos. Aparece sempre como modo de subjetivação. Se o raciocínio foucaultiano é correto, logo se o sujeito se constitui no interior da história, ele não mais pode ser compreendido como núcleo do conhecimento, centro de difusão da verdade, como fora visto pela filosofia moderna. Se antes ele era visto como origem e fonte, a partir das reflexões do pensador francês, ele passa a ser concebido como produto e efeito.
De acordo com Foucault, o sujeito do conhecimento não existe previamente às condições sociais, econômicas e políticas da existência. Tais condições engendram novas de subjetivação. O objetivo de Foucault é destituir o sujeito de seu lugar fundante, é desconstruí-lo como ponto de origem a partir
do qual é possível a construção do conhecimento e a proposição da verdade. Se sua constituição é vista pela ótica histórica, seu caráter transcendental se esvai. Seria interessante tentar ver como se dá, através da história, a constituição de um sujeito que não é dado definitivamente, que não é aquilo a partir do que a verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constitui no interior mesmo da história, e que é a cada instante fundado e refundado na história. (FOUCAULT, 2003, p.10)
Se o sujeito é fundado e refundado na história, poderíamos pensar que a contemporaneidade forja também um tipo particular de sujeito que contém elementos da história moderna em sua constituição, mas também apresenta elementos que distam da modernidade, em fase de superação, segundo alguns teóricos, e de agudização, de acordo com outros. O olhar atento às práticas sociais correntes se justifica pois que a verdade se forma em meio à vida cotidiana. No cotidiano, os jogos de poder são encenados e as regras definidas: “[...] regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas formas de subjetividade, certos domínios de objeto, certos tipos de saber (FOUCAULT, 2003, p.11)”.
Sobre as mutações contemporâneas, Sibilia (2002) acredita que estão em curso novas formas de subjetivação, bem diferentes daquelas que se consolidaram na sociedade industrial-disciplinar. Estas tinham como objetivo fabricar corpos e subjetividades dóceis e úteis, conforme as análises de Foucault. Atualmente, regido pelo poder de processamento digital, o capitalismo pós-industrial se apropria das forças vitais e lança ao mercado, com velocidade crescente, novas formas de subjetividade para serem consumidas e descartadas. Assim, novas modalidades subjetivas, modos de ser se oferecem aos consumidores. Desse modo, mudanças na sociedade e na cultura contemporâneas produzem transformações também nas formas como se produzem corpos e subjetividades.
Quanto à análise de tais mudanças, porém, precisamos desenvolver, ainda que en passant, a constituição do indivíduo/sujeito moderno, bem como a correlata noção de interioridade, formação a qual será desconstruída/revirada pelas mutações contemporâneas, produtos, por sua vez, do acirramento das tendências individualistas modernas. Dito de outro modo, a noção de indivíduo
e interioridade, e o tipo de temporalidade que os acompanha, formarão as bases que serão desarticuladas pelas transformações em curso contemporaneamente.