• Sonuç bulunamadı

PLOTİNOS’UN HAYATI VE ESERLERİ

2. PLOTİNOS’TA ESTETİK VE GÜZELLİK

2.1. PLOTİNOS’UN HAYATI VE ESERLERİ

Para Eça, As Farpas são um documento e o mais interessante do seu tempo, no qual se encontra a impressão de duas grandes feições, “a risível incapacidade da burguesia dirigente, e a grande corrente de revolução científica que surge por baixo”189, tal como afirma em carta a Ramalho, datada de 10 de julho de 1879, “um instrumento de demolição”, como expressa em carta a Joaquim de Araújo, em 25 de

                                                                                                                         

183 Cfr. O essencial sobre Eça de Queirós, Lisboa, INCM, 2005, p. 5.

184 Cfr. Álvaro Lins, História Literária de Eça de Queiroz, Rio de Janeiro, José Olympo Editora, 1939, p. 47. 185 Cfr. idem, p. 50.

186 Idem, p. 45. 187 Ibidem.

188 “Pontes queirosianas: Angola, Brasil, Portugal”, in Ecos do Brasil, Eça de Queirós, Leituras Portuguesas e Brasileiras, Benjamim Abdala Junior (organizador), op. cit., p. 70.

Fevereiro de 1878, sobre a biografia do parceiro.190 Efetivamente, segundo João Medina, o riso de Eça incide sobre aquilo “que é sintomático de um defeito nacional, social, exemplar – poupando os homens, guerreando as ideias”191, pedindo ao leitor: “Aproxima-te um pouco de nós, e vê.”192 Na verdade, um dos processos da obra era levar a multidão a ver verdadeiro, rompendo com a anterior forma falsa de ver, sobretudo em Portugal, devido à “aceitação passiva das opiniões impostas, pelo apagamento das faculdades críticas, por preguiça de exame – o público vê como lhe dizem que é”193, e a finalidade é

fazer rir do ídolo, mostrando por baixo o manequim. Ramalho Ortigão era admirável nestas demonstrações. Por exemplo, um orador ilustre falava em S. Bento; ninguém como Ramalho para recolher numa bacia os períodos escorridos – e mostrar ao público que aquela eloquência sublime eram as fezes biliosas de velhos compêndios decorados.194

Na sua correspondência, encontram-se vários depoimentos do que o autor pensa sobre o riso e a ironia quando, em carta a Ramalho, logo em Janeiro de 1873, pouco tempo depois de ter assumido a direção do consulado português em Havana, lamenta a falta de “consolação profunda que sabe que daria a sua conversação escrita”195, referindo-se às Farpas. De qualquer forma, envia-lhe “os mais extremosos abraços e parabéns pelo espírito que [...] está derramando a penas cheias sobre esse canto do mundo”196, pedindo-lhe para não descuidar a alegria, porque só ela dá alma e luz à “Ironia”, à “Santa Ironia”, afirmando que, sem ela, a vida “não é mais que uma amargura vazia”, para enfrentar os problemas da época197, já que a sua nobre missão é “drenar os tumores da sociedade”, tal como afirma Sebastião Morão Correia.198

Na biografia do antigo parceiro de redação, Eça refere, precisamente, que é em As Farpas que Ramalho encontra a sua “forma”, ainda que com hesitação, já que, “é duro para um antigo literato, frequentador do Amor e Melancolia, ir perseguir de ferro em punho, até debaixo das saias da Academia, todo um povo agachado e trémulo de tropos e de lirismo”.199 Confirmara, então, desolado, que afinal, os deuses que o tentavam eram de palha, os corações que julgara cheios, afinal, davam som de oco e o seu velho mundo, que amara, “tinha fendas esbeiçadas por onde escorria vérmina!”200 A coragem para renunciar a esse passado, erguido como um castelo para contestar a ordem estabelecida, passar de folhetinista diletante a panfletário ilustre, vem da ironia, da capacidade superior de ver e de escrever. Para

                                                                                                                         

190 Cfr. Correspondência, organização & notas de A. Campos Matos, Vol. I, op. cit., pp. 165-180. 191 Reler Eça de Queiroz. Das Farpas aos Maias, op. cit., p. 50.

192 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 16. 193 Correspondência, organização & notas de A. Campos Matos, Vol. I, op. cit., p. 169. 194 Ibidem.

195 Idem, p. 59. 196 Ibidem. 197 Cfr. idem, p. 60.

198 Devemos salientar que a noção que Eça possui de santidade está longe de misticismo e de transcendência. No conto S. Cristóvão a santidade traduz-se na efetivação imediata de um benefício direto aos seus semelhantes. Cfr. Sebastião Morão Correia, “Traços característicos da ironia queirosiana – sua finalidade social”, in Separata de «Portucale», op. cit., p. 38.

199 Correspondência, organização & notas de A. Campos Matos, Vol. I, op. cit., p. 168. 200 Ibidem.

Eça de Queiroz, Ramalho transpõe para a escrita a forma como vê o mundo, que considera reveladora da pessoa honesta, boa e justa que era, aliás, como ele próprio.

O fim de As Farpas é o de promover o riso, “a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta duma instituição, e a instituição alui-se; é a Bíblia que no- lo ensina sob a alegoria, geralmente estimada, das trombetas de Josué, em torno de Jericó”.201 Enquanto Ramalho era admirável nas suas demonstrações, Eça considerava-se numa fase rude, em termos de estilo, de modo que, quando o convida para a publicação de As Farpas em separado, confessa-lhe que, provavelmente sem o sentir, que foi forçado a limpar, a catar e endireitar a forma, embora não tenha alterado uma só frase, na sua intenção ou no seu feitio de humor.

Tanto Vianna Moog como Gilberto Freyre distinguem os dois escritores. Enquanto Vianna Moog, apesar de achar que se completam em certos aspetos, os considera diferentes nos processos de combate, no estilo, notando o de Ramalho “vigoroso e forte”, o “tacape”, e o de Eça “flexuoso e sensual”, o “ramo de urtiga”202, já Gilberto Freyre defende que Ramalho é mais pedagogo e mais grave e que Eça prefere a catarse pelo riso, embora sustente que ambos queriam que o país “visse”.203

Se, para Medina, há nos “farpistas” “uma preocupação, muitas vezes, pungente e amarga, de denunciar os morbos portugueses e, sobretudo, de fazer a tal história social, sintomática, de uma sociedade doente nos seus organismos morais ou materiais”204, para Gilberto Freyre, os dois escritores “levantaram na língua portuguesa esse monumento de crítica e quase história social do seu tempo e do seu país – As Farpas – completadas pelo Eça com Os Maias, A Cidade e as Serras, e A Ilustre Casa de Ramires: escritores com um sentido ecológico do seu ministério ou da sua arte”205, dado que, através da totalidade da obra,

a casa, a habitação, o lar, a família, o alimento, o pão, a cozinha, a raiz do homem na terra é o principal ponto de observação e de apoio dos dois críticos e quase-historiadores; sua preocupação máxima de conservadores-revolucionários, de reformadores sociais, de caricaturistas da vida e da paisagem portuguesa animados de amor filial, fraternal ou paternal ao tratarem de assuntos lusitanos.206

Para Freyre, dos dois se pode dizer o que Miguel de Unamuno disse de Eça, que “Portugal lhes doía como o peito dói aos doentes do peito, e o fígado aos doentes do fígado. Portugal lhes doía como parte do seu próprio corpo e da sua própria vida”207, atribuindo um sentido ecológico à obra e à vida dos

                                                                                                                         

201Correspondência, organização & notas de A. Campos Matos, Vol. I, op. cit., p. 168. 202 Cfr. Eça de Queiroz e o Século XIX, op. cit. pp. 178-179.

203 Cfr. João Medina, Reler Eça de Queiroz. Das Farpas aos Maias, op. cit., p. 47. 204 Idem, p. 46.

205 Gilberto Freyre, “Eça, Ramalho e «As Farpas»”, in Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, As Farpas, Volume I, seleção e prefácio de Gilberto Freyre, Rio de Janeiro, Edições Dois Mundos,1943, p. 22.

206 Idem, p. 23. 207 Idem, pp. 25-26.

críticos, sem deixar de os considerar, às vezes, um pouco espalhafatosos.208 Na verdade, segundo Medina, estavam mais interessados em refletir sobre o Portugal regenerador do começo dos anos 70, do que em praticar um jornalismo comum. Olhando para o país como dois terapeutas, o que pretendiam era que ele “visse”, ainda que tivessem que “operá-lo às cataratas com as hastes de aço mensal”, divergindo, todavia, na maneira de manejar o bisturi. Para o autor, Ramalho, mais pedagogo e mais grave, queria lecionar e

Eça, mais travesso, [...] prefere a catarse pelo riso, o tal «riso que peleja», como dirá, ao recolher as suas prosas farpistas, no prefácio de 1890 [...]. A terapêutica – ou a maiêutica ou a cirurgia – está no Riso, na corda de prata, a Ironia desse «riso imenso, troando, com as tubas de Josué, em torno a cidadelas». [...] O intuito pedagógico ou didático repugna a Eça; ele quer fazer rir, mostrar o erro, castigar os costumes rindo [...].209

Nesta forma de estar, os autores sabiam que não estavam sós, que havia quem partilhasse com eles as suas ideias e forma de intervir e risse com eles, já que o riso é sempre o riso de um grupo. Para produzir o efeito desejado, o objeto do riso tem que ser partilhado por um conjunto de pessoas que pensem da mesma maneira e que estejam envolvidas no mesmo, de modo que, dirigindo-se à inteligência pura, “o riso exige um eco”, tal como afirma Bergson. Existindo no interior daquilo que é propriamente humano, “o riso subentende um acordo prévio implícito, uma cumplicidade quase [...] com outros que, reais ou imaginários, também riem”.210

Para aquele pensador, o homem foi várias vezes definido como “um animal que sabe rir”, mas poderia também ser definido como um animal que faz rir, razão pela qual Luís D’ Oliveira Guimarães defende que o homem é antropologicamente um animal que ri. Para este autor, é mesmo o nosso sexto sentido e não rir é entendido como uma doença equiparada a não ouvir ou não ver211, porque

é sempre sob qualquer destes aspetos, ou espada ou flor, que o riso nos surge através de toda a história da humanidade. De facto, quando não é uma folha de rosa: é um travo de sangue; quando não é uma joia com que se brinca: é um gume com que se fere, - em qualquer dos casos o riso passou da categoria de simples incidente fisionómico à categoria dum verdadeiro gesto social.212

O homem começara por se rir familiarmente do próprio homem, dos seus particulares ridículos físicos, depois dos morais, produzindo bem-estar no que ri, mas provocando dolorosa agonia no outro de quem se ri. Deste modo, o riso, de simples passatempo sem consequências transforma-se numa arma de efeitos terríveis, já que o homem passa naturalmente a rir-se daquele com quem antipatiza. A par do riso espontâneo, existe o riso provocado, existindo, a par dos que riem pelo prazer de rir os que riem pelo desejo de provocar sofrimento e dor. O riso refulge em quase tudo, inspirando os humoristas, os

                                                                                                                         

208 Cfr. Gilberto Freyre, “Eça, Ramalho e «As Farpas»”, in As Farpas, Volume I, op. cit., p. 27. 209 Reler Eça de Queiroz. Das Farpas aos Maias, op. cit., p. 48.

210 Le rire (1991, O Riso, Lisboa, Relógio D’Água, trad. de Miguel Serras Pereira), p. 16.

211 Cfr. Luís D’ Oliveira Guimarães, O Direito ao Riso, Coimbra, Coimbra Editora, 1923, pp. 13-14. 212 O Direito ao Riso, op. cit., p. 32.

contadores de anedotas, estando também presente na política, na literatura e na arte. Sem ser uma circunstância do acaso, tem sempre implícita uma causa, um motivo, sendo cultural e circunstanciado, permitindo, sobretudo, adivinhar a psicologia do homem que ri.213

Para Ramalho Ortigão, o riso é um elemento nativo das literaturas neolatinas e a sátira é um direito. Nas cantigas de escárnio já o trovador procurava palavras encobertas, com duplo sentido, de modo a permitir um jogo de interpretação, que influenciam os autores de As Farpas. Por alguma razão Eça de Queiroz foi muito popular em Espanha214, quando o Brasil, apesar de todas as polémicas conhecidas com o escritor, se gabava que lhe coube a iniciativa generosa da propagação do nome literário do escritor. Agostinho Campos conta que é rara a obra de Eça que não foi traduzida e publicada pelos livreiros de Madrid ou de Barcelona, que toda a América espanhola, moça e culta, lê, conhece, aprecia e adora até o escritor, mostrando a influência que exerceu nos mais notáveis escritores espanhóis e a admiração que lhe tinham. D. André González-Blanco (1886 – 1924), tradutor castelhano de muitos livros de Eça, cita-o várias vezes no excelente trabalho intitulado Los dramaturgos espanoles contemporâneos, afirmando que Joaquim Dicenta (1862 – 1917), poeta e narrador naturalista espanhol, aprendeu com o escritor português a ironia, produto céltico, comum à Galiza e a Portugal.215

No século XIX, segundo Luísa Marinho Antunes, a ironia, a sátira, a caricatura, a gargalhada, presentes na tradição literária portuguesa, tornam-se as armas de poetas e romancistas que,

na pena dos artistas diverte, mas, acima de tudo, serve para apresentar o mundo do leitor no seu mais íntimo e no que este, por vezes, tem de ridículo, ensinando a dessacralizar as personagens, os mesquinhos episódios ligados aos diversos tipos de poder e a própria imagem que se tem da pátria, abrindo caminho à mudança e à modernização de instituições e mentalidades. E se o carácter interventivo já era herança de certas cantigas de escárnio, junta- se-lhe agora, via a moda dos jornais humorísticos e da caricatura, um aspeto didático (escrevia Mark Twain que o humor era simultaneamente ensino e sermão, para quem o conseguisse entender). As personagens e situações ridículas provenientes do quotidiano, facilmente reconhecíveis nos seus comportamentos, vícios e virtudes, povoam este mundo, não só para fazer rir de forma descontraída, mas, também, como despertar do sentimento que Aristóteles

                                                                                                                         

213 Para Luís D’ Oliveira Guimarães, “Moliére, Daumier, Swit, Gavarni, Paulo de Koch, Rafael Bordalo, Eça de Queiroz – para só citar alguns – foram as pessoas mais melancólicas, mais taciturnas deste mundo sub-lunar. O riso intelectual não é certamente o caminho mais curto para a felicidade – porque traduz a dor através dum doce sorriso. A grande missão da ironia é tornar o sofrimento humano acessível aos homens que se não interessam por ele – e esta nobre missão, não pode ser, no fundo, uma missão alegre. O humour é esse pequenino, esse leve sorriso desdenhoso que nos ensina a todos, pobres crianças grandes que nós somos, a olhar para os nossos ridículos e a corrigir melhor os nossos próprios defeitos - e a alma desse pequenino, desse leve sorriso não é seguramente, porque não pode ser, uma alma galhofeira: é uma alma sentimental. Já o disse Carlyle: - «o humour verdadeiro, o humor de Cervantes e de Stern, tem a sua fonte menos na cabeça do que no coração». E, de facto, assim é.” O Direito ao Riso, op. cit., pp. 27-28.

214 Relata Andrés González Blanco que “La nueva generación literária de Espana ha aprendido á amar á Portugal en este gran artista. Por mi parte puedo afirmar que él me ha llevado á interesarme, á través de sus negaciones y críticas, en el arte, en el paisaje, en la literatura y hasta en la política portuguesa y que de él he recebido, más intensamente que de ningún otro, la emoción peninsular, el sentido peninsular que aún les falta á portugueses y á tantos espafioles !. .” Andrés Gonzâles Blanco, “Ante lã estatua de Eça de Queiroz”, in Eça de Queiroz “In Memoriam”, Eloy do Amaral e Cardoso Martha (organizadores), Lisboa, Parceria Pereira, 1922, p. 400.

215 Cfr. Agostinho Campos, (organizador), Antologia Portuguesa de Eça de Queiroz I, Selecta para Leitura na Família e na Escola, Paris – Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand,1922, pp. XIV – XVI.

no texto da Retórica, designa por nemesan, “indignação merecida, razoável”, sentimento de dor pela boa sorte imerecida das personagens.216

Na segunda metade do século XIX, mais precisamente a partir de 1865, a ironia é transmissora do pensamento e da análise sobre a vida, abarcando um conjunto de sentimentos que refletem as ocorrências sociais e políticas. Fernanda Godinho Esteves, acompanhando o percurso de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão, aponta que, naquela data, se inicia uma revolução literária que corresponde a uma crise europeia.217 Na verdade, o realismo era uma nova maneira de sentir e de interpretar a vida, cuja novidade estava na forma e não propriamente nos assuntos, tal como destaca Alvaro Lins.218

Na verdade, para perceber as intenções dos autores, sobre os vários assuntos abordados em As Farpas, devemos ter presente a carta que Ramalho Ortigão escreve a Miguel Maria Lisboa219, ministro do Brasil, e a todos os “senhores ilusos”, em março de 1872. Naquela obra, por ocasião dos protestos em Pernambuco sobre as crónicas de fevereiro referentes à viagem de D. Pedro II a Portugal, aos brasileiros e brasileiro, explica que a sátira é um “direito” inatacável da liberdade do pensamento, uma “lei”, uma “fatalidade histórica”, uma das formas de expressão da “literatura artificial”. Contudo, explica Ramalho ao ministro, não foi a sátira que fizeram, porque, se um “dos carateres da sátira consiste em provocar por meio do riso a indignação contra o objeto satirizado”, se eles se riram “simplesmente, pachorrentamente, com um riso talvez prosaico, mas honrado”, se “o riso empregado por tal modo é um elemento nativo das literaturas neolatinas, um dos mais característicos da nossa raça, um dos meios mais poderosos de filosofia, de crítica e de análise”, e se a ironia e o gracejo não é invenção deles, porque a encontraram “nas fontes primordiais da literatura, nos remotos seios do século XIII, nas canções de gesta, que eram a crónica do tempo balbuciada pelos menestréis”, então, não foi sua “trágica” intenção suscitar “indignações contra o objeto satirizado”, nem “acender a ira vingativa do senado”.220

Efetivamente, para Henri Bergson, o riso para ser compreendido tem que ser situado e contextualizado, reposto no seu meio natural que é a sociedade, determinar-se a sua utilidade e função social, já que reprime as excentricidades, sendo um castigo dos costumes. Na verdade, quando Ramalho pensa em dar às Farpas uma feição mais ampla, alegando que estava cansado de rir e que era necessário dar-lhe um teor pedagógico, dada a sua tiragem e o seu significativo auditório, Eça confessa que ficara “aterrado” e prudentemente parte para Havana.221 Mas se em Havana pouco produz em termos de arte,

                                                                                                                         

216 Luísa Marinho Antunes, “Visões Críticas do “Nós”: O jogo divertido da imagem nacional”, in Jolie, Vol. 2/2009, N.º 2, Alba lulia, Editura Aeternitas, pp. 23-24.

217 Do Galaico-Português à Lusofonia, op. cit., pp. 34-36. 218 Cfr. História Literária de Eça de Queiroz, op. cit., p. 80. 219 V. Anexo 3.

220 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., pp. 397-400.

dada a distância da pátria, em Newcastle e Bristol sente falta de um conhecimento mais profundo dos problemas sobre os quais escreve. Considera que os jornais portugueses que recebe são insuficientes para o inspirarem, pedindo a Ramalho que lhe envie com mais frequência as suas Farpas ou, então, terá que voltar a Portugal para poder escrever.

Eça considera que todo o escritor que tem na alma o seu país e o quer escrever necessita viver nele, habitá-lo, ou estar o mais próximo possível. Os jornais para os quais escreve, para os quais tem necessidade de escrever, o seu “vaso”, e outros que lhe são enviados, para onde quer que ele esteja, cumprem a tarefa de encurtar as distâncias e de manter vivas as raízes. Tanto o imaginário dos seus romances como os retratos são elaborados, em grande parte, através da imprensa que lia até esgotar. A estes dados acresce um facto de relevar, o de que a ironia vai-se tornando cada vez mais subtil e sublime, assistindo-se a uma gradação do menos para o mais ténue, mas não a um “vencidismo irónico”, como defendera Mário Sacramento.222

Para Bergson, “o riso exige um eco”, o contacto com outras inteligências, porque não se “saboreia” de forma isolada, individual. É no interior de um grupo que produz o efeito desejado ao ser partilhado por pessoas que pensem da mesma maneira. Desta forma, o riso subentende “um acordo prévio implícito, uma cumplicidade quase [...] com outros que, reais ou imaginários também riem”.223

De acordo com o exposto, podemos compreender, com Bergson e com Luís D’ Oliveira Guimarães, que a ironia e o riso fazem parte da cultura dos povos, das sociedades, dos grupos, que necessitam de repercussão para surtir efeito, mas também podem suscitar desacordo e conflitos quando não são partilhados, o que justifica porque não riram os brasileiros, porque não acharam graça à crónica que Eça de Queiroz lhe dedicou em As Farpas e que tantos conflitos gerou em Pernambuco, como veremos.

Como já fora anteriormente referido, não sendo os redatores da publicação jornalistas profissionais, a sua escrita é uma novidade no Portugal oitocentista, que tem como principal propósito abrir na imprensa portuguesa um espaço diferente do que se fizera até então, acabando por chocar com