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FARABİ FELSEFESİNDE MUTLAK GÜZEL’İN KENDİ

3. FARABİ’DE ESTETİK VE GÜZELLİK

3.3. FARABİ’DE GÜZEL VE GÜZELLİK

3.3.1. GÜZEL VE TANRI: ESTETİĞİN TEOLOJİK ESASLARI

3.3.1.3. FARABİ FELSEFESİNDE MUTLAK GÜZEL’İN KENDİ

Ao tratarmos a questão da emigração na correspondência consular de Eça de Queiroz urge lembrar que, por um lado, em finais de 1872, dada a tiragem de As Farpas e o impacto que tiveram na sociedade portuguesa e brasileira, Ramalho Ortigão diz estar farto de rir, propondo ao parceiro dar uma finalidade mais séria à publicação, de modo que Eça, de certa forma, parte contente para Havana; por outro lado, segundo Fradique Mendes, “uma Correspondência revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimável, para aqueles que na Terra valeram mais pelo carácter do que pelo talento”.573

João Gaspar Simões recorda, na “Nota introdutória da 1ª edição” de Vida e Obra de Eça Queirós, que o escritor, poucos anos antes da sua morte, escrevera numa das suas crónicas enviadas para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que “quanto mais documentos se reúnem sobre um homem de génio”, “mais completo se torna o trabalho crítico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra” e para “alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se as cartas, todos os papéis íntimos – até as contas do alfaiate”.574 Daí a importância de estudar a correspondência do escritor, nomeadamente a consular, na qual mostra a ligação à pátria, revela preocupações, o estado de espírito, motivações, afazeres, e até reflexões sobre a própria arte que vai produzindo.575 A própria correspondência de Fradique Mendes, título da publicação de Eça, tinha a intenção de destacar as páginas mais proeminentes que fossem reveladoras da “personalidade”, do conjunto de ideias, gostos, modos, com que se “sente e se palpa o homem”.576

Quando, em finais de 1872, Eça parte para Havana, sente que não é a solução ideal para a sua primeira experiência profissional, mas parte. Para trás deixa a sua terra natal, os amigos, as mágoas, como a que lhe causara o governo por o ter preterido para o preenchimento da vaga de cônsul na Bahia.

                                                                                                                         

573 A Correspondência de Fradique Mendes, (Memórias e Notas), op. cit., pp. 121-122. 574 Cfr. Vida e Obra de Eça de Queirós, pp. 13-15.

575 Acrescenta Fradique Mendes que “se uma obra nem sempre aumenta o pecúlio do saber humano, uma Correspondência, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação histórica. Temos depois que as cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua filosofia – que é apenas a criação impessoal do seu espírito. Uma filosofia oferece meramente uma conjetura mais, que se vai juntar ao imenso montão das conjeturas: uma vida que se confessa constitui o estudo de uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, único conhecimento acessível ao esforço intelectual. E finalmente, como cartas são palestras escritas [...], elas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não há...” A Correspondência de Fradique Mendes, (Memórias e Notas), op. cit., pp. 121-122.

576 Lê-se nesta correspondência que, “nestes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, de entre as que mostram traços de carácter e relances da existência ativa; de entre as que deixam entrever algum instrutivo episódio da sua vida de coração; de entre as que, revolvendo noções gerais sobre a literatura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterizam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, de entre as que se referem a coisas de Portugal, como as «impressões de Lisboa», transcritas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.” Idem, p. 125.

Aproveitando mais esta desilusão, o escritor critica em As Farpas a ação dos governantes que colocam num lugar que aparentemente lhe pertencia um companheiro seu que “tinha uma classificação quase igual à [sua], ainda que inferior, tinha longos serviços no ultramar, estabelecimentos na Baía, etc., estava em condições preferíveis e inatacáveis”.577 Neste artigo, que escreve na primeira pessoa, conta toda a história do concurso, a preparação que fez, em Leiria, onde estava nessa altura, a atribuição do primeiro lugar, e a forma “justa e galante” como a vaga é preenchida por Saldanha da Gama. Sabendo do seu descontentamento, João de Andrade Corvo nomeia-o para Havana.578

Eça de Queiroz chega assim ao Novo Mundo, deixando, pela primeira vez, Portugal entregue a si mesmo. A viagem que fizera ao Oriente fora uma excursão de rapaz, afirma João Gaspar Simões, acompanhado por um amigo, para conhecer mundo. Agora, a milhares de milhas da pátria, com obrigações a cumprir, um clima austero a suportar, problemas sérios a resolver, tudo é diferente.579 Tal como refere Vianna Moog,

Fato estranho, a nomeação não lhe traz a alegria que ele esperava. Tanto havia sonhado com ela e agora que atingira o seu objetivo, sentia-se de certo modo dececionado. Não contava com isso. Se ao menos fosse cônsul em Paris... Esta é que sempre fora sua verdadeira aspiração, desde Coimbra. [...]

Estava porém escrito que iria para Cuba. Cumpria-lhe partir. Dessa longínqua ilha sabia vagamente que era um desses incertos trechos do território do novo mundo, extraviado no meio do Atlântico, onde o calor, as febres, a desordem e o caudilhismo constituíam males congénitos e insanáveis.580

A partir daqui podemos verificar uma reviravolta na vida de Eça de Queiroz, já que se nos dá a conhecer através de um outro género de escrita, a correspondência, escrita na primeira pessoa, como em As Farpas, mas na qual revela uma outra faceta de si ao tratar de assuntos profissionais. As preocupações e as responsabilidades são diferentes e maiores, propondo dar um passo em frente na ação diplomática, contrariando a tendência tradicional. A crónica de As Farpas sobre a diplomacia, em outubro de 1871, reveste-se de uma forte dose de ironia, para criticar a ação dos diplomatas, o seu caráter, os seus interesses pessoais em detrimento dos públicos, a sua vaidade, e ao país que dá cobertura

                                                                                                                          577 Op. cit., p. 249.

578 Constava da nomeação que, atendendo “ao merecimento e mais partes que concorrem na pessoa do bacharel formado em direito José Maria de Eça de Queiroz, e especialmente ao talento de que deu distintas provas no concurso aberto pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros em 21 de Junho de 1870 para o provimento dos lugares de cônsules de 1.ª classe: Hei por bem nomeá-lo cônsul de 1.ª classe nas Antilhas Espanholas com os vencimentos que oportunamente lhe forem fixados dentro dos limites ou receita em emolumentos do respetivo consulado, em conformidade com as disposições da Carta de Lei de 2 de Outubro do ano passado. O Conselheiro João d’ Andrade Corvo, Par do Reino, Ministro e Secretario de Estado dos Negócios Estrangeiros o tenha assim entendido e faça executar.” Apud Archer Lima, Eça de Queiroz Diplomata, Lisboa, Portugália Editora, 19-, p. 47.

579 Cfr. Vida e Obra de Eça de Queirós, op. cit., p. 323. 580 Eça de Queiroz e o Século XIX, op. cit., p. 181.

à sua apatia.581  O novo cônsul, não quer seguir as pegadas desses cavalheiros do seu tempo, que são corruptos, que ignoram os seus encargos, que ficariam pálidos de surpresa se lhes perguntassem:  

Como têm v. ex.as desempenhado as suas missões? Que tratados vantajosos têm alcançado para o nosso país? Que estabelecimentos portugueses têm favorecido lá? Que serviços internacionais têm regularizado? Que relações sólidas, que proteções valiosas têm obtido para a nossa pequenina nação? Que estudos têm feito sobre a organização e instituições desses países? Em que sábios relatórios as têm aconselhado para nosso progresso? Em que bem feitas análises críticas têm inteirado o nosso governo da política internacional? Que conhecimento têm dado a esses países das nossas instituições, do nosso comércio, da nossa ciência? Etc.? Etc.? Etc.?582

Dadas estas críticas à diplomacia portuguesa, propõe-se exercer o cargo de forma exemplar, investindo todo o seu espírito na gestão do consulado, na elaboração de relatórios e, sobretudo, envolvendo-se na causa humanitária que é passada para as suas mãos pelo anterior cônsul, que é a imigração chinesa. Tal como refere em As Farpas o “que prejudica a nossa diplomacia, é ela não possuir espírito”.583 Nesta obra, o escritor critica severamente a diplomacia portuguesa, em outubro de 1871, e lamenta a perda do cargo de cônsul, no mês seguinte.

A partir desta altura em diante, as suas obrigações são outras, de modo que, apesar de não abandonar a ironia que caracteriza a escrita de As Farpas, ao escrever por razões de ordem profissional, sente-se forçado a mudar de tom. Dado o teor dos problemas a resolver, as dificuldades que sente em ser ouvido e atendido em relação à imigração asiática, ignorando ou desconhecendo que o destino dos povos depende de interesses mais elevados entre as nações, não tardará a sentir a falta de Lisboa, que tanto criticara, desabafando em carta a Ramalho que o “exílio importa a glorificação da pátria. Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa”.584

Efetivamente, neste consulado Eça enceta uma importante fase da sua vida, a de cônsul, a de homem ao serviço da humanidade. A atividade consular e as responsabilidades profissionais absorvem grande parte do seu tempo, dado o empenho que deposita na resolução das funções e também a sua reduzida experiência. Dado o seu caráter, quer brilhar profissionalmente, mas também pessoalmente, de modo que, perante os vários problemas com que se depara, não pode ficar indiferente, daí sacrificar a

                                                                                                                         

581 Esses cavalheiros “seguem a velha tradição que a diplomacia é uma ociosidade regalada, bem convivida, bem comida, bem dançada, bem gantée, bem viaturée, com bons ordenados e viagens pagas. Eles estão ali para serem diplomatas na gravata e não no espírito. Achariam um abuso inclassificável que os tivessem nomeado para dançar o cotillon e no fim – lhes exigissem relatórios: S. ex.as entendem que o país está bem representado desde o momento em que o colarinho deles é irrepreensível. Mas tenham paciência: ss. ex.as estão representando uma nação – e não uma camisaria! Se ss. ex.as vão unicamente encarregados de mostrar nos países estrangeiros a excelência dos nossos alfaiates, - então o país não é o interessado - e o sr. Keil que lhes pague! Se ss. ex.as vão simplesmente mostrar lá fora, em nome do país, que dançam bem, entendemos que ss. ex.as prestam melhor serviço na sua pátria, - e não ousando pedir ao governo que os faça recolher à secretaria, pedimos aos srs Valdez e Cossul, empresários de S. Carlos, - que os façam recolher ao corpo de baile.” As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 226.

582 Ibidem. 583 Cfr. idem, p. 229.

atividade de escritor à de cônsul. Contudo, a “humanidade”, conceito que descobrira nos tempos de Coimbra, onde despertara, também, para a carreira de artista que traz dentro de si, embora até ali adormecida, é uma preocupação que nunca abandonará585, sendo por ela que se dedica à correspondência consular, que escreve aos amigos, que pratica jornalismo e que faz obra de arte.

Na correspondência que envia para Portugal, nesta sua passagem por Havana, o jovem cônsul apresenta três grandes preocupações que o absorvem: as funções consulares, a imigração asiática nas Antilhas, os chins ou coolies, considerados portugueses, dado embarcarem pelo porto de Macau, os portugueses emigrados para Nova Orleães, para ali engajados por Charles Nathan, que Eça já anteriormente abordara em As Farpas e que voltará a abordar no “relatório sobre a emigração moderna”, solicitado por João de Andrade Corvo, que lhe envia em Novembro de 1874.586  

Apesar de não ter estado muito tempo em Cuba, a sua primeira ação consular é vivida e sentida de uma forma muito singular, dado o carácter negativo da primeira experiência diplomática, que não repetirá no futuro, cedendo, gradualmente, lugar à literatura, a sua verdadeira vocação.  Aparentemente, o período de permanência em Havana foi de dois anos, entre 20 de dezembro 1872 e março de 1874, embora tenha passado grande parte do tempo a viajar quer para Portugal quer pelos Estados Unidos e Canadá, ou por questões de saúde, dado o clima da ilha, ou por outros motivos. Nos meses de maior calor, os vários cônsules espalhados pela cidade retiram-se, regressando apenas depois do estio.587

Na verdade, Eça envolve-se de corpo e alma em todos os problemas do consulado, mas a sua resolução implicará vivências dolorosas, ao que acresce a inadaptação ao clima e a solidão que sente nas horas de lazer. Constatando a experiência desagradável que ali tivera, Álvaro Lins afirma que o escritor nunca mais falara de Havana e que em Os Maias só fala da Ilha uma vez, o que não é de todo verdade, já que neste romance as referências à América são várias, tanto à do Norte como à do Sul, o que revela que aquelas terras o marcaram, já que as eterniza na sua obra literária, podendo comprovar-se uma cumplicidade entre esses textos e o romance. Se, por um lado, na correspondência os problemas são colocados, por outro lado, na obra de arte são perpetuados, tal como o diz Fradique Mendes quando afirma que só “na verdade o Pensamento e a sua criação suprema, a Ciência, a Literatura, as Artes, dão

                                                                                                                         

585 Cfr. Mário Sacramento, Eça de Queirós – Uma estética da ironia, op. cit., pp. 24-25.

586 Conta Raul Rego que, de “20 de Dezembro de 1872 a 30 de Maio de 1873, Eça de Queirós está todo entregue aos problemas da emigração china. As cartas de então dizem-nos que foi mínima a sua atividade literária. Mas no Ministério do Negócios Estrangeiros seguia-se atentamente o esforço do jovem cônsul. Essa atenção de Andrade Corvo é-nos demonstrada pelo facto de o enviar em missão oficial à América do Norte.” “Prefácio à edição de 1979”, in A Emigração como Força Civilizadora, op. cit., p. 31.

587 Quando regressa da viagem aos Estados Unidos, assunto não abordado na correspondência oficial, que tanto contribui para a ação diplomática e de artista, explica a Jesuíno Ezequiel a sua ausência: “Espero que não tivesse achado a minha ausência muito longa: estive fora os 4 meses clássicos do verão tropical – e ainda assim sou o primeiro cônsul que volto porque quase todos estão ainda para fora; só estão os cônsules naturais do país”. Correspondência, organização & Notas de A. Campos Matos, Vol. I, op. cit., p. 90.

grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o mundo precisa, os tornara perante o mundo sacrossantos”.588

Alan Freeland atesta a importância e o interesse intrínseco dos ofícios e relatórios escritos por Eça, enquanto cônsul português em Cuba, Inglaterra e França, como importante fonte de informação tanto para a sua biografia como para certos aspetos da vida ficcional. Os documentos que ao longo dos tempos foi enviando para o MNE, em Lisboa, onde ainda permanece grande parte que se está a perder, foram publicados nos anos 20 do século XX por Archer de Lima, em Eça de Queiroz Diplomata, e posteriormente foram a base das biografias do escritor feitas por Vianna Moog e João Gaspar Simões.589 Estes biógrafos, e também António Cabral, seguem uma linha cuja principal finalidade é enaltecer a ação do cônsul. Mais recentemente, uma parte dos relatórios de Cuba aparece no livro de Joaquim Palminha Silva O Nosso Cônsul em Havana: Eça de Queiroz, no qual faz uma interpretação diferente, em relação às versões anteriores. Todas estas obras dão um conhecimento de vários episódios da carreira consular, desde a sua primeira experiência em Cuba, embora, segundo Freeland, as fontes estejam longe de ser satisfatórias. Enquanto Archer Lima publica os textos muitas vezes incompletos, com imprecisões na transcrição e nas datas, na obra de Palminha, apesar de os documentos serem transcritos na totalidade, o autor também nem sempre o faz de forma precisa, além de omitir dois ofícios, um deles o mais longo, dos quatro relatórios mais substanciais que Eça enviou de Havana, datado de 17 de maio de 1873.590

Para Alan Freeland, tem sido difícil ler os textos consulares de Eça diretamente, sem a interferência produzida pelas interpretações posteriores, já que uns visam elevar a sua ação, como fazem os primeiros, e outros, como Joaquim Palminha Silva, pretendem retirá-lo do pedestal em que fora colocado, aproveitando, assim, para avançar com a sua obra, dado “tornar disponível, numa edição rigorosa, todos os textos importantes que tragam a assinatura de Eça e que se saiba terem sobrevivido no arquivo ministerial”.591

Contudo, devemos referir que também este estudioso do escritor não inclui todos os documentos referentes ao exercício consular de Eça, existentes no Arquivo Histórico-Diplomático do MNE, na sua obra. Embora nem todos os documentos sejam da autoria de Eça e nem todos estejam assinados por si, estão de alguma forma relacionados com a sua ação, já que, ou são elaborados numa altura imediatamente anterior à sua entrada em funções no consulado ou durante o seu exercício, ainda que ausente. Alguns desses documentos são de extraordinária importância para compreender as suas

                                                                                                                         

588 A Correspondência de Fradique Mendes, (Memórias e Notas), op. cit., pp. 126-127.

589 Cfr. A. Campos Matos, “Eça lido por João Gaspar Simões”, in Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz, A. Campos Matos (organização e coordenação), op. cit., pp. 205-220.

590 Cfr. Alan Freeland, “Introdução”, in Correspondência Consular, Eça de Queirós, Edição de Alan Feeland, tradução de José Moura Carvalho, Lisboa, Edições Cosmos, 1994, p. XIV.

iniciativas e atitudes em terras da América, como veremos, assim como abrir novas perspetivas para a influência que teve na abolição do tráfico de chineses pelo porto de Macau.

Tanto as cartas como os relatórios existentes nas várias caixas do Arquivo, sobre os consulados pelos quais Eça passou, variam bastante no assunto e no interesse. Embora se denote coerência de certas temáticas como, por exemplo, nos relatórios de Cuba e vários de Inglaterra, entre a produção existem documentos avulsos que versam uma grande variedade de tópicos diferentes. Estes, apesar de aparecerem em toda a correspondência, são característicos da correspondência de Paris. Nestes documentos não se encontram quaisquer séries substanciais de temas referentes aos tempos contemporâneos, encontrando-se, contudo, alguns “fios unificadores”, satirizados por Eça em A Cidade e as Serras, como “as referências ao «progresso» tecnológico – o velocípede, o automóvel, um inquérito quanto à existência, ou não, de «fábricas de refinação de petróleo» em Portugal – e ao comércio de artigos de luxo que vai ao encontro do gosto parisiense, ambos fazendo-nos lembrar do mundo «moderno»”592, assuntos retomados por Gilberto Freyre, em O Outro Amor de Dr. Paulo, dada a valorização do escritor brasileiro das ideias de Eça.

Por vezes, outra correspondência é reveladora a um nível mais pessoal como, por exemplo, o imposto de Salvação Pública de 1892, quando aplicado às despesas dos cônsules, e outra, ainda, revela grande prazer em empreender determinadas tarefas que despertam o seu talento de romancista como a ironia com que reage à burocracia britânica em relação aos documentos de exportação para a Geórgia593, ou o seu interesse pelo caso de um tal Alves Ferreira594, um brasileiro em terras de França, que revela, segundo Freeland, que “de tempos a tempos, se fundem o mundo rotineiro do negócio consular e a arte de contador de histórias”.595 Uma curiosidade que deve ser notada é que esta carta, enviada de Paris e datada de 14 de novembro de 1889, é transcrita em papel de luto, devido à morte do rei D. Luís, a 29 de outubro, rei que Eça de Queiroz muito admirava, a quem chamava o “Bom”.  

Para Freeland, esta diversidade de temas abordados e tratados na correspondência revela várias facetas interessantes do cônsul algumas das quais ilustram as exigências que lhe são feitas, como por exemplo o conhecimento de assuntos económicos, dada a natureza comercial de muita da sua atividade consular.596 Na verdade, o interesse de Eça pelos assuntos comerciais é apenas parte integrante da sua

                                                                                                                         

592 “Introdução”, in Correspondência Consular, Eça de Queirós, Edição de Alan Feeland, op. cit., p. XVII.