• Sonuç bulunamadı

FARABİ’NİN HAYATI VE ESERLERİ

3. FARABİ’DE ESTETİK VE GÜZELLİK

3.1. FARABİ’NİN HAYATI VE ESERLERİ

revê conceções quando chega a Inglaterra. Se em EFC o traçado do inglês é positivo, nomeadamente o sentimento do “my-self”, de ser um verdadeiro viajante, a superioridade da raça inglesa passa a ser questionada, porque, entre outras debilidades, sofre o vício da bebida, em todas as camadas da população e em ambos os sexos, o que choca com a moralidade que professa. A política imperialista de John Bull constitui a pedra de toque da análise do comportamento dos ingleses, presente na maioria das correspondências de cunho político, tendo reflexo nas de ordem social. Se o imperialismo é o principal traço que caracteriza as Crónicas de Londres, vai ser mais acentuado ainda em Cartas de Inglaterra, continuando a revelar cumplicidade com Ramalho Ortigão, dada uma obra que escreve em 1887 sobre alguns aspetos da vida e da civilização inglesa.281 Naqueles textos, Eça evidencia o recorte crítico que já tinha na altura em que redigia o Distrito de Évora282, desenvolvendo a faceta irónica e analítica da sociedade. A visão da emigração de Eça progride ao longo do tempo e transformou-se com o contacto direto com o fenómeno. Das causas aos efeitos, a sua ideia e conceção seguem o seu percurso de vida e o seu caminho consular e artístico.

 

II. 2 – Causas da emigração  

Em 1871, em As Farpas, Eça de Queiroz considera a emigração um “mal” e outros escritores da sua geração referem-se ao fenómeno como “espantoso”, (Alexandre Herculano), “moda”, (Francisco Gomes Amorim), “onda”, (Mendes Leal), “descomunal”, (Oliveira Martins), dado que a emigração portuguesa “é sem dúvida alguma o facto económico que em Portugal traduz de uma maneira mais completa, de uma maneira mais evidente, a desordem da nossa economia interna”, tal como defende Oliveira Martins no Projeto de Lei de Fomento Rural, apresentado à Câmara dos Deputados, em 27 de Abril de 1887.283 Todos estes escritores defendem que a emigração é um direito natural, está “normalmente” relacionada com a miséria, com a legislação sobre o serviço militar, com a aliciação, com a atração dos países de destino e com o sonho de enriquecer e de voltar rico no mais curto espaço de tempo possível, fatores que então se debatiam nos meios intelectuais e na imprensa.284

                                                                                                                         

281 V. John Bull, depoimento de uma testemunha acerca de alguns aspetos da vida e da civilização inglesa, Porto, Livraria Internacional de Chardron, 1887.

282 Cfr. Eça de Queirós Jornalista, Lisboa, Livros Horizonte, 1986, pp. 97-118. 283 Fomento Rural e Emigração, 3.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, (1956) 1994, p. 11.

284 V. Anexo 6 sobre a complexidade do fenómeno emigratório, nas últimas décadas do século XIX e início do século XX, e o modo como é vista na imprensa.

Miséria

Para Eça de Queiroz, a miséria em que se encontram as classes trabalhadoras apresenta-se como a principal e primeira causa de emigração a que andam outras associadas. Embora as causas do fenómeno não se possam reduzir a classificações escolásticas, já que variam consoante as condições económicas, industriais, políticas, climáticas e administrativas dos vários países, considera que a miséria atua de modo idêntico e universal. Pode haver causas transitórias e acidentais, de carácter excecional, mas ocorrem da pobreza. As expatriações imprevistas, fortuitas, não pertencem à história da emigração normal, proletária e miserável, que pode ocorrer devido à densidade populacional, à centralização da terra, à baixa dos salários, à esterilidade dos solos. Quando a miséria se instala, exerce pressão sobre certas raças, de que a inglesa e a alemã são grandes exemplos, e a emigração é a sua consequência lógica.285

As grandes transformações políticas, paralelas à emigração normal de carácter económico, também produzem grandes expatriações. A maior que aconteceu na Europa foi originada por uma causa anormal, como a que ocorreu por ocasião da descoberta das minas de ouro na Califórnia e Austrália, nos anos cinquenta do século XIX. Devido ao mito do enriquecimento fácil, os emigrantes largam tudo e partem em debandada para aquelas terras, na perspetiva de arranjar fortuna em pouco tempo. Nesta época, assiste-se a duas correntes de emigração transversais, uma aventureira, que se dirige para as minas, e outra refletida, dirigida para a Austrália e fazendas da América, que vai substituir os que largam tudo devido à febre do ouro.

Em dezembro de 1871, Eça de Queiroz mostra-se preocupado com a questão da emigração em Portugal, com a causa normal que a determina, redigindo uma “farpa” sobre o fenómeno, para o qual apela ao “bom senso”. O escritor estava apreensivo com a situação do país, com a pobreza em que vivia a maior parte da população agrícola e operária, considerando a emigração um mal, um problema grave, já que os que se ofereciam eram os mais enérgicos, os mais decididos, e para Portugal era um grande prejuízo perder os poucos braços fortes, viris, ficando os mais fracos, sendo uma dificuldade para a sua prosperidade.286 Em Portugal, a emigração não era, como em toda a parte, a saída de uma população que sobra, era a fuga de uma população que sofria de miséria, como também afirmava Alexandre Herculano, e de penúria, como também defendia Mendes Leal.

Enquanto noutros países é a população excedente que emigra, revestindo forma de ausência, em Portugal, “a emigração, tomando o rumo dos países estranhos, contraria a necessidade de regularizar

                                                                                                                         

285 Cfr. Emigração como Força Civilizadora, op. cit., pp. 101-105.

286 Afirma o autor que se agitou e “agita-se ainda a questão da emigração. Mr. [sic] Charles Nathan leva para Nova Orleães, com bons salários, todas as atividades que se ofereçam. A emigração é decerto um mal. Porque aqueles que se oferecem mostram ser, por essa resolução, os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e num país de fracos e indolentes, é um prejuízo perder as raras vontades firmes e os poucos braços viris.” As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 311.

interiormente uma emigração de província a província”287, afirmava Eça. Não é “o espírito de indústria, de atividade, de expansão, de criação que leva os nossos colonos, [...] – é a miséria de um país esterilizado que expulsa, sacode e que instiga a emigrar, a procurar longe o pão”288, revestindo forma de abandono. Todos os que sofrem viram-se para a emigração “como uma fortuna fácil oferecida à perseverança”289, reforça três anos mais tarde em EFC.

Apropriando-se destas fragilidades, e conhecendo as afirmações constantes em As Farpas quanto à situação de decadência económica, social e moral de Portugal, José Soares Pinto Corrêa, em resposta à polémica que se despoleta com os autores a propósito da contrafação da obra em Pernambuco, acusa Portugal de viver em “miséria franciscana”, de ser o país das “sardinhas”, dos “rujões”, do “binho berde”, do “cajado”, do “fadinho”.290 Na verdade, para Eça, a plebe não tem como ganhar o pão, porque, por um lado, a indústria é escassa e periclitante e, por outro, a maior parte dos camponeses não dispõe de meios para fazer investimentos agrícolas, acabando por entrar na rotina e empobrecendo a terra e o homem.291 A pobreza tinha que se resolver e essa resolução passa por fazer reformas dos sistemas agrícolas, introdução de novas indústrias, proliferação da instrução profissional, criação de instituições de previdência, criação de hábitos de economia e de ordem, para dar “uma saída à atividade que espera”, “empregar os braços ociosos”, “converter em vantagem nacional a energia nativa da população”, “obstar ao enfraquecimento do país pela perda da sua riqueza viva, o trabalho.292 Também para Alexandre Herculano, o “antídoto” mais eficaz para combater a emigração é a felicidade doméstica obtida e mantida pelo trabalho, duvidando da escolarização e da alfabetização da população como medida para obstar à emigração. O que afugenta o indivíduo é o mal estar, de modo que a condição indispensável para o melhoramento intelectual e moral das classes laboriosas é o seu melhoramento material.293

                                                                                                                         

287 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 312. 288 Ibidem.

289 Emigração como Força Civilizadora, op. cit., p. 60.

290 Os Farpões ou os Bandarilheiros de Portugal, resposta cabal aos srs. Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, autores das Farpas ou Fastos da Peregrinação de S. M. o Imperador do Brazil pelo reino de Portugal, Recife, Tyipografia Commercial de Geraldo de H. de Mira, 1872, p. 19.

291 Alega o autor que a “grande indústria, a dos tabacos, dá 250 réis de salário a um operário com família. As indústrias fabris são poucas, periclitantes, com interrupções mensais constantes de trabalho. A indústria mineira está abandonada à exploração de companhias estrangeiras. A agricultura vive de rotina – empobrecendo a terra e empobrecendo o homem; não temos praticultura, nem silvicultura, nem indústria pecuária; o trabalhador dos campos vive na miséria, come sardinhas e ervas do campo: a maior parte anda à malta, trabalhando aos dias, errante de fazenda em fazenda, por 80 reis diários, nos bons salários: não podem ter família e os filhos enjeitados crescem: a usura, a agiotagem unidas, exploram a gente do campo: os tributos são fortes, as vexações do fisco incessantes: na província, por um imposto de 10 e 20 réis, atrasado, relaxado, vimos nós pagar os pobres 5 e 6 mil reis, com custas, etc.; os pobres não tinham a quantia? penhora no casebre! nas cidades o operário é vítima do monopólio: monopólio no pão, no bacalhau, no azeite: - preços fatalmente elevados: nenhuma instrução e muito padre-nosso. Nós não temos uma escola teórica de aprendizagem!” As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., pp. 313-314.

292 Cfr. idem, p. 315.

Para Alexandre Herculano, a lavoura é profissão cujo tirocínio consiste em ser filho de lavrador ou de proprietário rural, e cuja divisa é o desdém do livro. Nem sequer a alfabetização do povo pode solucionar o problema da miséria em Portugal e da emigração forçada. Não é por saber ler e escrever que o emigrante deixa de ser seduzido a emigrar. Para além disso, a maior parte não tem tempo de ir à escola para poder ajudar a família. Bem que desejaria tecer a sua “olímpica” à escola obrigatória, mas dadas as condições de vida da família obreira, a escola não pode ser um “imposto”. Dado o estado miserável em que se encontra o país, o ensino obrigatório não passa de mais um flagelo para as classes trabalhadoras, defendendo que mandar à escola os filhos dos agricultores que vivem desgraçadamente é uma miséria maior. Na verdade, os mais velhos tanto ajudam os pais como já contribuem para o sustento dos mais novos e de toda a família, de modo que o historiador pergunta se será humano, justo e até moral “agravar a miséria do trabalhador, tornar mais escura a noite do seu viver em nome da luz interior?”294 Dado este panorama, o autor defende que a escola não deve significar um intolerável imposto, mas antes se “ajeite a estas condições da família obreira”.295

A afirmação de que a “miséria de um ou outro indivíduo pode derivar de culpa própria: a que expulsa uma parte notável da população de um país, onde esta, considerada coletivamente, está longe de superabundar, é sempre resultado de um defeito ou de uma perturbação nos órgãos da sociedade”296 constitui uma das expressões dessa certeza, pela consciência dos parcos recursos do país, sem esperança de futuro, apresentando a emigração como solução para o problema económico e social.

Para Eça de Queiroz, a situação de Portugal é comparável à da Grécia, países “caóticos” que enfrentam grandes dificuldades económicas e financeiras, que poderão a vir ser riscados do mapa da Europa devido à mesma “pobreza, [...] indignidade política, [...] abaixamento dos caracteres, [...] ladroagem pública, [...] agiotagem, [...] decadência de espírito, [...] administração grotesca de desleixo e de confusão”, encontrando-se na mesma situação de “decadência progressiva”.297

Segundo Rodrigues de Freitas   (1840-1896), o passado de Portugal é glorioso, mas pertence à história, devendo ser recordado “como bom estímulo, e como lição eloquente de exemplos assombrosos; porém os povos não medram pela contemplação do que foram; o seu desenvolvimento supõe e requer atividade”.298 A situação da Grécia é ainda mais gloriosa, afirma Eça, dado ter “a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal, e o museu humano da beleza da arte”.299 Atenas produziu a escultura, afirma na Gazeta de Portugal300, embora afirme nas

                                                                                                                         

294 Opúsculos II, org., introd. e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia, op. cit., p. 92. 295 Ibidem.

296 Idem, p. 70.

297 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 312. 298 “Desenvolvimento económico em Portugal”, in A América, Vol. 1.º, N.º 1, 1868, p. 6. 299 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 312. 300 “Lisboa”, in Textos de Imprensa I (da Gazeta de Portugal), op. cit., p. 135.

Conferências do Casino, a 12 de junho de 1871301, que o ideal da Grécia antiga apenas fosse tornar o homem fisicamente belo, preferindo o homem exterior ao interior, ao moral, cujo aperfeiçoamento é agora a suprema aspiração da arte moderna.302  

Na Grécia, a emigração é um facto permanente, porque o grego quase não tem indústria, nem agricultura, nem comércio, e o português emigra pelo mesmo motivo, a necessidade de procurar longe o pão que a pátria não dá. O grego, encontrando-se na vida sem colocação, “toma então a sua carabina e vai para as montanhas que Teócrito (310 – 250 a. C.) cantou, roubar viajantes ingleses, ou embarca no Pireu303 e emigra para Alexandria, para Trípoli, para as escalas do Levante, para os estados barbarescos, para Marselha, para qualquer ponto onde haja algum pão a roer ou alguma piastra a ganhar”.304 Mas os portugueses nem têm quem roubar nem onde ganhar o pão e o Governo e a opinião admiram-se e interrogam-se sobre a “onda” emigratória a que se assiste e da procura por Charles Nathan, o engajador de emigrantes portugueses para Nova Orleães, na década de 70, questionando onde pode o trabalhador ganhar o seu sustento e o da sua família, perguntando que “querem os senhores, que se faça num país destes? Sair, fugir, abandoná-lo! O país é belo, sim, de solene paisagem, abundante, rico, todo desejável e habitável. Mas a política, a administração, tornaram aqui a vida difícil. Seria doce gozá-lo, não tendo a honra de lhe pertencer. Só se pode ser português – sendo-se inglês!”305

Eça de Queiroz retrata o esplendor da Grécia antiga, a ilustração dos poetas e a decadência progressiva do país e das gentes no conto “Um poeta lírico”, no qual descreve a história de um poeta de Atenas, Korriscosso, o mais infeliz, certamente, de entre todos os poetas líricos de que tem notícia. O narrador conheceu-o em Londres, num hotel, quando desceu ao restaurante para o lunch. Avistou ao longe aquele indivíduo, esguio e triste, plantado melancolicamente ao pé da janela. Estava de costas, mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão evidente de desalento, interessando-se logo por aquela figura, de cabelo comprido, muito magro, de carão longo e triste, muito moreno. Tinha o

                                                                                                                         

301 Cfr. Carlos Reis, As Conferências do Casino, op. cit., p. 137.

302 Conta Eça que D. Pedro V, um rei de “grave e fino espírito”, de “critério lúcido” e uma “ponta afiada de humorismo irónico” lera o livro A Grécia contemporânea, de E. About, e entretivera-se a anotar o livro, nas margens, e onde “estavam nomes gregos, o rei punha os nomes correspondentes dos homens públicos portugueses; onde estavam as narrações das indignidades políticas de Atenas, ele punha à margem as correlativas, as paralelas indignidades políticas de Lisboa; onde [...] desenhava com a sua pena maliciosa, cáustica e tão profundamente francesa, um certo ministro da fazenda que era ladrão – D. Pedro V, tinha posto à margem: «cá chama-se o senhor...» um nome de político português. Figura no livro, como torpe, segundo o julgamento do excelente rei, muito homem hoje célebre na vida pública, com bons ordenados e autoridade. O livro assim anotado, mudados os nomes – é a descrição mais exata, fotográfica, do estado de Portugal, da confusão da sua administração, da imbecilidade dos seus estadistas, dos roubos da sua política. - Como deve ser infeliz um rei inteligente - quando, caindo em ceticismo e misantropia pela certeza que adquiriu de que está no meio de uma velha política e de uma torpe intriga – não pode todavia entregar a nação à experiência republicana, nem chamar a si o poder absoluto e pessoal!” As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., pp. 312-313.

303 Pireu é um município vizinho a Atenas, situado em zona urbana, no qual se localiza o porto daquela cidade, o principal da Grécia. O Pireu é capital da subprefeitura do mesmo nome, na Ática, faz parte da região metropolitana de Atenas e situa- se na baía de Falero.

304 As Farpas – Crónica mensal da política, as letras e dos costumes, op. cit., p. 313. 305 Idem, pp. 313-314.

olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho, nadando num fluido enternecido. Recebeu a ordem do seu almoço e, sem o olhar, num tédio resignado, levou-lho, apercebendo-se de um volume do poeta inglês Tennyson que tinha levado para almoçar, que logo o interessou e impressionou. Lançou-lhe um olhar rápido, fixando-se na página aberta e, depois de ter pousado o serviço, rodou sobre os calcanhares e foi plantar-se, melancolicamente, à janela, de olho triste.

Bracolletti, um grego seu amigo, nascido em Esmirna, filho de pais gregos, quando se lhe pergunta pelo passado, rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as pálpebras cerradas como afogado em bondade e em enternecimento “Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu…”306 Não diz mais nada. Mas conhece o criado triste, cumprimentando-o com um “shake-hands” solene, enternecido e sincero, porque eram amigos. O narrador, quis saber quem era, o seu nome, a sua história, mas Bracolletti, dado o seu perfil, ainda disse que se chamava Korriscosso, e sobre a história, “como os deuses da Ática que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, [...] refugiou-se na sua vaga reticência. Eh! mon Dieu!... Eh! mon Dieu!,”307 acabando por confessar que “tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... Boa letra... Tempos difíceis... Eh! mon Dieu!...”308, adiantado “sem hesitar, baixando a voz, com um gesto repassado de desconsideração: É um grego de Atenas.”309 Nesta altura o seu interesse

sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se facilmente o hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se veem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter frequentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que eles têm deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se veem provocam, apenas, estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco, cruzar fortemente os braços sobre a cadeia do relógio e aguçar o intelecto para rechaçar a

escroquerie. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que emigra para as escalas

do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que, apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de presa que cravara nele Korriskosso... Era um bandido!310

E durante a ceia não falaram mais de Korriscosso que, realmente, tinha consigo o volume de Tennyson. Sem o querer intimidar, disse-lhe que Tennyson era um grande poeta e ele corou. Mas não era o despeito humilhado do salteador surpreendido, mas sim a vergonha de ver a sua inteligência, o seu gosto poético adivinhados - e de ter no corpo a casaca coçada de criado de restaurante, apesar de ser um grande poeta. Não respondeu. Mas as páginas do volume e o que escreveu a lápis responderam por ele,

                                                                                                                         

306 Eça de Queiroz, Contos, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1981, p. 41. 307 Idem, p. 43.

308 Ibidem. 309 Ibidem. 310 Idem, pp. 43-44.

quando anota “Sublime!”, “Grandioso!”, “Divino!”. Korriscosso, afinal, revelava um passado sem sorte, de tristezas, de dependência, lembrando o narrador que nada impressiona o homem do Levante como