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3. KAMU MALİ YÖNETİMİNDE İÇ DENETİMİN ÖNEMİ

3.6. İç Denetim Faaliyeti ve Süreci

3.6.1. Planlama

Estamos falando de um campesinato sertanejo manifestado de várias maneiras pelos Cerrados, nas vazantes e nas chapadas, nas grotas e nos tabuleiros, nas veredas, nos

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Grifos no material reproduzido. 13 Idem.

cerrados e nos cerradões, nas matas secas e nas caatingas. O campesinato sertanejo congrega também diversos grupos sociais de acordo com a sua vinculação aos recursos naturais e aos ambientes em que se encontram: vazanteiros, barranqueiros, chapadeiros, cerradeiros, veredeiros, caatingueiros, extrativistas, quilombolas, índios, camponeses, quebradeiras de coco, podendo incluir ainda os artesãos que vivem do extrativismo de palhas, castanhas etc., ou da extração de argilas para confeccionar peças de decoração e utensílios domésticos, como é o caso das artesãs do Vale do Jequitinhonha. Estamos falando ainda de um campesinato sertanejo cuja marca é a diversidade: a diversidade de povos, de modos de vida, de ambientes (ecossistemas), de relações específicas com os recursos naturais, mas que também guarda valores sociais, ecológicos, culturais e espirituais.

O campesinato sertanejo é aquele que extrai indiretamente da terra tudo o que nela se produz, que foi plantado, cultivado e colhido pelo camponês; e também extrai diretamente da terra o que ela produz: o pequi, o panã, a mangaba, a cagaita, o jatobá, o buriti, etc.

O campesinato sertanejo é um valor, ou melhor, são valores. São valores expressados em diferentes tempos e lugares, de modo semelhante ao que Woortmann

(1990) considerou como uma “qualidade”, referindo-se à campesinidade. É o valor que se

manifesta nas práticas de cultivo da terra; o valor presente nas relações com a natureza, na reciprocidade e no respeito do camponês para com os recursos naturais extraídos; os valores éticos e morais cultuados no interior e fora da família; é o valor presente no respeito e na gratidão ao sagrado; são valores de solidariedade e reciprocidade para com o seu território; é o valor do alimento para a família camponesa.

No campesinato sertanejo, a relação com a natureza é muito intensa. Por exemplo, o camponês do sertão sabe que, se ele quer que o pequizeiro dê mais frutos, ele

precisa roçar o mato que “sufoca” a árvore, ele também sabe que não pode retirar o pequi,

tem de esperar o fruto cair no chão. É assim a natureza e o homem do sertão, é recíproco, ele cuida dela e ela o retribui dando bons frutos. Sem a reciprocidade com a natureza, não há camponês no sertão.

Existe uma diversidade de formas camponesas e de sujeitos produzindo em conciliação com os recursos naturais, o campesinato sertanejo é uma delas. Nesse sentido, Shanin (2005) afirma que as condições de vida camponesa necessitam e se moldam pelo estabelecimento de um “eco-sistema” e um equilíbrio entre agricultura, extrativismo e artesanato, com uma ênfase particular no cultivo. No campesinato, e isso foi possível

verificar também durante a pesquisa de campo, a base principal é a agricultura, ou melhor, são as atividades agropecuárias. Ainda que nos territórios estudados exista uma importante ênfase no extrativismo, sobretudo do pequi, o cultivo agrícola e a criação de animais eram as atividades mais importantes, pois, além do fato de serem estes garantidores da alimentação da família, eles também são atividades constantes no dia a dia camponês. O extrativismo normalmente é sazonal, e o artesanato, mesmo podendo ter caráter permanente, apresenta um fluxo de venda variável. Por isso, a maioria dos estudos sobre o campesinato concentra suas análises nas atividades de cultivo e criação. As demais atividades exercidas pela família camponesa, mesmo elas gerando renda maior que a agropecuária, sempre serão complementares. A atividade principal da família camponesa é o cultivo e a criação, porque é a partir dela que eles se definem como tal.

Antonio Candido (1977, p. 173), ao estudar o camponês no interior de São Paulo, analisa como se dava sua relação com a natureza:

A princípio, o meio representava para o grupo uma totalidade, cujos limites coincidiam com os limites da atividade e da mobilidade grupais. Havia entre as atividades do caipira uma correlação estreita, e todas elas representavam, no conjunto, síntese adaptativa da vida econômico-social. Assim é que o trabalho agrícola, a caça, a pesca e a coleta não eram práticas separadas, e de significado diverso – mas complementares, significando cada uma per si, e todas no conjunto, os diferentes momentos dum mesmo processo de utilização do meio imediato. A roça, as águas, os matos e campos encerravam-se numa continuidade geográfica, delimitando esse complexo de atividades solidárias – de tal forma que as atividades do grupo e o meio em que elas se inseriam formavam por sua vez uma continuidade geossocial, um interajuste ecológico, onde cultura e natureza apareciam, a bem dizer, como dois pólos de uma só realidade.

Diante disso, “o campesinato aparece como uma forma de se relacionar com a

natureza ao se considerar como parte dela num processo de coevolução (Nogaard, 1994) que configurou um modo de uso dos recursos naturais ou uma forma de manejo dos

mesmos de natureza socioambiental (Toledo, 1995)” (SEVILLA GUZMÁN e

GONZÁLEZ de MOLINA, 2005, p. 81-82). A coevolução do campesinato com a natureza aqui se refere ao fato de, ao longo do tempo, o camponês ir construindo um saber acerca de como melhor usar os recursos naturais; é aquilo que Brandão (2004) chama de ethos, ou seja, conforma um tipo de reciprocidade em que há ética, valores afetivos e respeito do camponês para com a natureza. Ainda, segundo Sevilla Guzmán e González de Molina (2005), a relação histórica do homem com os recursos naturais no campesinato envolve, como objetivo essencial, a satisfação das necessidades materiais. Isso requer e requereu

sempre a apropriação dos recursos naturais para a produção de bens com um valor de uso histórico e cultural, no qual é empregado um saber.

O uso que o campesinato sertanejo faz dos recursos naturais construiu uma relação histórica e cultural, gerando vários saberes que atravessam gerações, pois o camponês vive e percebe cada mudança ocorrida na natureza. Para o camponês do sertão (e também os outros camponeses), as mudanças na natureza e o ciclo de cada um dos recursos naturais não estão marcados em um calendário; cada planta tem seu tempo de caírem as

folhas, brotar, embotoar (quanto àquelas plantas que soltam “botões”, antes das flores),

florir, nascer o fruto e amadurecer. Através disso, o camponês vai percebendo a mudança do tempo. Pergunte a um camponês do sertão, por exemplo, em que época ou mês o pequi começa a amadurecer. Mesmo ele não sabendo, e isso é uma hipótese muito improvável,

ele irá associar o “tempo” do pequi ao de outra fruta ou mesmo ao período das chuvas e irá

lhe responder. O campesinato sertanejo ao qual nos referimos comporta a diversidade de saberes que os sujeitos do campo constroem, e isso será tratado no próximo tópico.