4. DÜNYADA KULLANILAN İÇ DENETİM MODELLERİNİN UYGULANMASINA İLİŞKİN ÜLKE
4.2. Güney (Üç Taraflı Kontrol Modeli) – Merkeziyetçi Model
De acordo com Almeida Jr. (1994), o Cerrado brasileiro é o bioma da integração nacional, por apresentar características ecológicas, geopolíticas, demográficas, socioeconômicas e culturais. Ocupa uma área de aproximadamente 2.000.000 km², o que representa cerca de 23% do território brasileiro, e espalha-se pela maior parte do Brasil central, fazendo limites com outros complexos ecossistêmicos de grande escala: Floresta Amazônica, Caatinga, Floresta Atlântica, Pradarias de Campo Limpo e Pantanal Mato- grossense.
Dessa forma, o Cerrado é considerado o segundo ecossistema brasileiro em extensão e é tido como a maior savana tropical do mundo em área contínua de um único país (ALMEIDA, 2005). Segundo a mesma autora, com base em resultados apontados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apenas uma terça parte encontra-se pouco antropizado. Ribeiro (2000) afirma que só em Minas Gerais a área de ocorrência do Cerrado ocupa cerca de 30,8 milhões de hectares, correspondente a 53% do seu território. Representa, com isso, 15% da área principal, estando distribuída entre as regiões do Alto Jequitinhonha, Norte, Noroeste, Alto Paranaíba, Triângulo e Alto São Francisco.
O Cerrado é caracterizado “por um gradiente de biomassa que vai desde o campo
limpo de cerrado ao cerradão, passando pelo campo sujo de cerrado, campo cerrado e cerrado (stricto sensu)” (ALMEIDA Jr., 1994, p. 569). O referido autor destaca também o fato de o Cerrado possuir manchas representativas de todos os outros biomas brasileiros, e sua ocorrência também consegue ser de modo expressivo nesses outros biomas.
Estamos considerando o Cerrado no plural, pelo fato de nele conter uma variedade de ambientes e de populações com modos de vida específicos em cada lugar. Assim sendo, temos vários Cerrados. Pelo menos do ponto de vista biogeográfico, Altair Sales Barbosa (2005) chama-nos a atenção para não incorremos a um erro comum- eleger uma fisionomia vegetal como guia e desconsiderar a diversidade de paisagens que compõem o cerrado em sua plenitude.
Para Barbosa (2005, p. 11):
O Cerrado é um Sistema Biogeográfico, composto por diversos subsistemas intimamente interatuantes e inter-dependentes. Cada sub-sistema tem uma história ocupacional que consequentemente reflete seu nível de degradação. Estes sub-sistemas flutuam de um gradiente aberto com claridade para gradientes sombreados.
O autor supracitado distingue os diversos subsistemas do Cerrado, a saber: a) as
matas são áreas florestadas que não podem ser confundidas nem com a Floresta
Amazônica, nem com a Mata Atlântica, pelo fato de serem florestas subúmidas, ocorrendo no Cerrado em função de manchas de solo de alta fertilidade; b) os campos, um gradiente que ocupa os chapadões; c) o cerradão, uma formação vegetal associada a solos bem especiais; d) o cerrado propriamente dito, ocupa solos oligotróficos, com árvores pequenas e tortuosas; e) as veredas, os ambientes ciliares e as várzeas são ambientes importantíssimos para a ecologia do cerrado como um todo, pois são considerados a maternidade da fauna do cerrado, incluindo peixes, mamíferos, répteis e aves, além da relevância na manutenção das águas superficiais; f) a fauna, composta de grande biodiversidade, acredita-se que ela esteja vinculada à diversidade de ambientes; além desses subsistemas, o autor ainda considera integrado a eles: g) a ocupação humana; e, h)
os aquíferos.
Com base em trabalho de Dias (1996), Mazzetto Silva (2000) aponta diferentes tipos de ambientes dos cerrados: 1) cerrados (estrito senso); 2) campos de cerrado; 3) cerradões; 4) campo úmido/pantanal; 5) matas de galeria; 6) matas de interflúvio; 7) carrascos; 8) campo rupestre; 9) campo litólico; e, por fim, 10) vereda e brejo. Vale destacar que, entre esses dez domínios paisagísticos encontrados nos cerrados brasileiros, a
maior parte é, ou pelo menos “era”, composta por cerrados estrito senso ou propriamente
dito (53%) e campos de cerrado (11,6%).
A classificação desse autor não significa dizer que seja diferente daquele anterior, apenas apresenta uma maior complexidade. Nosso objetivo não é confrontá-las, e sim, apresentar a diversidade de ambientes ou subsistemas compondo os cerrados.
Outras variações na classificação dos cerrados ocorrem também associadas ao contexto regional e a partir do conhecimento popular. Nesse sentido, temos os ambientes dos cerrados classificados pelas populações sertanejas do Norte de Minas Gerais e do Vale do Jequitinhonha: cerrado, cerradão, gerais, chapada, tabuleiro, carrasco, caatinga, vazante, vereda, brejo, barranco, grota, capão, etc. (DAYRELL, 2000; COSTA, 2005). É importante
ressaltar que essas denominações para os diversos ambientes dos cerrados podem variar de um contexto local para o outro, além de uma denominação local poder incluir diversas
outras, como ocorre com o termo “gerais”, por exemplo, o qual pode estar associado a
várias formas de cerrados classificadas pelos botânicos ou não.
Segundo Costa (2005, p. 297), as classificações naturais são a replicação das
classificações sociais, portanto é possível afirmar: “a sociedade localizada em um ambiente
de cerrados, apesar de constituir-se uma unidade totalizada, é múltipla”.
Os camponeses sertanejos representam essa unidade totalizada e essa multiplicidade localizada nos cerrados. Pode ser uma variação genérica, estendendo-se para analisar os sertanejos de diversas partes do país, mas preferimos nos ater a uma variação mais específica, os camponeses sertanejos mineiros, do Norte de Minas Gerais e do Alto Vale Jequitinhonha. A sociedade camponesa é composta de agricultores tradicionais, extrativistas, pescadores, quilombolas, garimpeiros artesanais, artesãos, trabalhadores rurais diaristas ou migrantes temporários etc. Da mesma forma, a sociedade sertaneja mineira é, muitas vezes, fragmentada em diversas nomenclaturas locais: geraizeiros, chapadeiros, cerradeiros, barranqueiros, vazanteiros, veredeiros, gurutubanos, índios, entre outros.
O que cada um desses grupos guarda em comum é sua condição camponesa e sertaneja, isto é, a conjugação de duas identidades que se fundem numa mesma totalidade,
una e múltipla. Podemos tratar de um “campesinato geraizeiro”, que seria também
adequado para analisar a realidade do sertão mineiro e seus modos de vida, mas, quando
ampliamos para a designação de “campesinato sertanejo”, estamos mostrando toda a
diversidade da cultura sertaneja e o imbricamento de uma unidade que se reveste de totalidade. Dessa forma, os cerrados que tratamos e, junto com eles, suas populações são tomados por uma totalidade, e não uma universalidade.
Levando em consideração a formação da cultura sertaneja norte mineira, a qual também estendemos para a análise do Alto Vale Jequitinhonha, Costa (2005, p. 299) afirma que se estruturou um modo peculiar de vida a partir da criação do gado bovino de forma extensiva, estabelecendo-se assim relações com o ambiente e as populações, “bem como a construção de modos de vida diferenciados entre si, mas vinculados a uma base
cultural comum, ou seja, a cultura sertaneja”.
De maneira breve, estaremos apresentando as populações sertanejas mineiras, as quais estão relacionadas intimamente a seus respectivos ambientes dos Cerrados.
Denominados como os geraizeiros são uma das populações tradicionais mais conhecida no Norte e Alto Jequitinhonha. Seu vínculo identitário está ligado à ocupação dos planaltos, das encostas e dos vales das regiões de cerrados, com suas vastas áreas
dominando as paisagens, identificados como “os gerais” (COSTA, 2005). Este é o
seguimento sertanejo que mais se identifica com nosso trabalho, pela sua capacidade de organizar seu sistema produtivo agrícola e pecuário, utilizando como estratégia o extrativismo dos recursos dos cerrados para uso alimentar, comercial e de medicamentos.
Geraizeiros, como cultural e contrastivamente, são assim denominados, os habitantes dos gerais. Desenvolveram a habilidade de cultivar às margens dos
pequenos cursos d‟água uma diversidade de culturas, criarem animais como
aves, o gado bovino e suíno, estes nas áreas de chapadas, tabuleiros e campinas de uso comunal. E são nestas áreas, denominadas genericamente como gerais, que vão buscar o suplemento para garantir a sua subsistência: caça, frutos diversos, plantas medicinais, madeiras para diversos fins, mel silvestre, etc. (DAYRELL, 2000, p. 217).
Os caatingueiros estão localizados no sopé da Serra Geral20, na zona de transição entre cerrados e caatingas, que corta longitudinalmente o território do Norte de Minas Gerais. Possuem essa denominação porque são assim conhecidos pelas populações que vivem nas áreas gerais. Os caatingueiros desenvolveram habilidades de cultivar plantas mais resistentes à seca, a saber: algodão e vários tipos de feijões, milho, amendoim, mamona ,etc. Os caatingueiros são descendentes de migrantes portugueses desde o início do povoamento regional e italianos que a partir de fins do século XIX se constituíram numa cultura distinta das existentes até então no território norte mineiro. São camponeses com uma racionalidade mais econômica que permanentemente os vincula ao mercado. A partir dos anos 1970, foram eles os aliados aos programas de governo coordenados pela EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) para aderirem ao pacote tecnológico: custeio de produção, máquinas, implementos agrícolas e agrotóxicos, além de assistência técnica (DAYRELL, 2000; COSTA, 2005).
Os quilombolas da Jahyba foram constituídos por um conjunto de grupos negros
localizados em margens de lagoas, ribeirões e rios que formam a bacia do rio Verde Grande. Mantêm relações com povoações ao longo da bacia rio São Francisco (Brejo do Amparo, Morrinhos e Malhada, e nos altiplanos com Contendas, São José do Gurutuba, Porteirinha e Tremendal). Os quilombolas se destacam quanto à questão do
20
A chamada Serra Geral de Minas corta longitudinalmente o Norte de Minas Gerais. Abrange dezesseis municípios dessa região, sendo alguns: Janaúba, Porteirinha, Espinosa, Monte Azul.
reconhecimento social e de reapropriação de seus territórios ancestrais, principalmente o de Brejo dos Crioulos, nas margens do rio Arapuim, divisa dos municípios de São João da Ponte e Varzelândia, e os Gurutubanos, comunidade negra estabelecida ao longo do rio Gurutuba, abaixo da cidade de Janaúba. São comunidades que dialogam com os vazanteiros do São Francisco e com os remanescentes dos Xakriabá (COSTA, 2005).
O Vale do Jequitinhonha, por sua vez, é a segunda região de Minas Gerais com maior número de comunidades quilombolas, ficando atrás somente do Norte de Minas Gerais. Essas comunidades também se encontram em processo de reconhecimento social e titulação de seus territórios, e boa parte está localizada nos fundos de vales, as grotas.
Os Xakriabá habitam um território demarcado no sertão sanfranciscano, numa
área de transição entre o cerrado e a caatinga. Os habitantes originários do sertão foram os índios tapuias, uma denominação genérica para todos os índios não tupis que habitavam as áreas distantes da costa. Os Xakriabá chegaram ao sertão norte mineiro no início do século XVIII e foram aldeados depois de um acordo com um bandeirante chamado Januário Cardoso de Almeida, a Aldeia de São João Batista das Missões. Posteriormente, o aldeamento foi abandonado, desde o final do século XVIII pelos padres e administradores, gerando uma miscigenação com populações brancas, pobre, negra e, sobretudo, retirantes nordestinos que fugiam das secas. Dessa maneira, passou a ser reconhecido como terra de
caboclos. “O modo de uso Xakriabá sobre seu território se estabeleceu nos moldes da
economia regional, sertaneja e cabocla, e suas atividades produtivas constituem-se basicamente da plantação de roças, da criação de animais e coleta extrativista destinadas ao
autoconsumo” (COSTA, 2005, p. 310).
Os vazanteiros ou barranqueiros ocupam as ilhas e barrancas do rio São
Francisco e nas margens de outros grandes rios que existem no Norte de Minas Gerais. De
acordo com Dayrell (2000, p. 217), os barranqueiros e os vazanteiros são “os que vivem e produzem nas barrancas ou vazantes do rio São Francisco”. Estão associados ao manejo
dos ecossistemas sanfranciscanos, combinando agricultura de vazante e sequeiro com a pesca, a criação animal e o extrativismo. O ciclo natural do rio (seca, enchente, cheia, vazante) sempre possibilitou a essas populações o acesso a terras periodicamente
fertilizadas pela matéria orgânica. Segundo Costa (2005, p. 311), “a formação cultural dos
vazanteiros, além de legados da cultura indígena e da cultura negra, recebe influências da vida social ribeirinha de todo o rio São Francisco, particularmente no período de intensa mobilidade propiciada pela navegação rumo ao nordeste brasileiro”.
Outras variações de grupos sociais, segundo Ladeira (1951), citado por Dayrell (2000), são referenciados com frequência no Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha, como os chapadeiros, aqueles que moram em áreas denominadas de chapadas. Há também os veredeiros, os quais estão localizados ao longo das veredas ou brejos, costumam plantar nessas áreas alagadas e utilizam-se do extrativismo, sobretudo, do Buriti, tanto da palha quanto do fruto.
Podemos incluir entre essas populações os fanadeiros, que são aqueles habitantes dos territórios próximos ao rio Fanado em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha. Desde os tempos coloniais, com as lavras de ouro, o rio Fanado tem importância significativa na vida dessas populações também como fonte de água e de riquezas, religiosidade e de tradições (AGOSTINHO de JESUS, 2007). Uma dessas tradições é a produção artesanal de óleo de pequi nos territórios de Cachoeira do Fanado e Cachoeira da Lagoa.
Diante do exposto, quando falamos de cerrados, especialmente em Minas Gerais, estamos considerando uma grande diversidade de sistemas ambientais e de modos de vida diferenciados que formam a totalidade da cultura e do campesinato sertanejos. Entretanto, devemos considerar o dilema vivido atualmente pelos cerrados e tão bem exposto por
Ab‟Sáber (2003, p. 43):
Além de conviver com alguns dos piores solos do Brasil intertropical, a vegetação dos cerrados conseguiu a façanha ecológica de resistir às queimadas, renascendo das próprias cinzas, como uma espécie de fênix dos ecossistemas brasileiros. Não resiste, porém, aos violentos artifícios tecnológicos inventados pelos homens ditos civilizados.
As principais ameaças hoje aos cerrados e a suas populações tradicionais são as monoculturas de grãos (principalmente a soja), do eucalipto, da cana-de-açúcar, as barragens para geração de energia, a expansão da pecuária extensiva, a produção de carvão nativo, entre outros. Num processo de degradação e destruição acelerado, os cerrados, suas gentes e seus ambientes já convivem com a “Dor Fantasma”, um fenômeno neurológico do qual Altair Sales Barbosa (2005) se apropriou metaforicamente. Tal fenômeno é usado para explicar quando uma pessoa já perdeu uma extremidade ou parte dela e sofre dores às vezes intensas, provenientes do membro que já não tem mais. Dessa forma, segundo o autor, a situação dos cerrados é bem semelhante, pois estamos sentindo as dores da perda de um ambiente já inexistente na plenitude de sua biodiversidade.