1.4. Davranışsal Niyetler Kavramı
1.4.2. Planlı Davranış Teorisi (The Theory Of Planned Behavior)
Nonprofit Sector Project
Mesmo com todas as críticas e limitações que possa merecer, o termo "terceiro setor" passou a ser freqüentemente utilizada a partir das publicações resultantes das pesquisas do Institute for Policy Studies da John Hopkins University. Pesquisadores pertencentes a vários países participaram do John Hopkins Comparative Non-profit Sector Project (Projeto Comparativo Sobre o Setor Sem Fins Lucrativos), coordenado por Helmut Salamon (SALAMON; ANHEIMER, 1994 e 1997; SALAMON et al., 1997). De modo geral, a partir daí o termo "terceiro setor" popularizou-se sendo empregado para se referir a organizações sem fins lucrativos, não-governamentais e não mercantis, donde se tem a idéia de "terceiro".
O projeto comparativo elaborado pela equipe da John Hopkins University (JHU) teve início em uma agenda de encontros e seminários que aconteceu entre o final da década de 1980 e o começo da seguinte. Pesquisadores do mundo todo participaram, interessados em melhor conhecer as características das organizações sem fins lucrativos, cujo número aumentava em todo o mundo (SALAMON; ANHEIER, 1992).
Além do projeto, essa agenda gerou uma série importante de trabalhos, destacando-se a criação do periódico acadêmico Voluntas – International Journal of Voluntary and Non-profit Organization, em 1990, e da International Society for Third Sector Research (ISTR), em 1992. Nas palavras de seus coordenadores, o projeto visava
preencher as lacunas do conhecimento já antigo sobre os milhares de escolas, hospitais, clínicas, organizações comunitárias, grupos de pressão, centros de atendimento, organizações humanitárias, creches, abrigos, agências familiares, grupos ambientais e outros que constituem esse importante setor (SALAMON; ANHEIER, 1997, p. xi, tradução nossa).
O projeto comparativo, que se estende até os dias de hoje, tem o objetivo imediato de mensurar o impacto do terceiro setor sobre as economias nacionais dos diversos países pesquisados, tornar o terceiro setor mais visível, nas diferentes realidades nacionais e possibilitar comparações entre os países. As dificuldades de definição sobre quais organizações podem ou
não ser consideradas como pertencentes ao terceiro setor foram as bases para definição de uma das principais questões de pesquisa para o grupo da JHU. Uma de suas contribuições foi a criação de uma definição estrutural/operacional, a partir da qual foi possível levantar organizações do terceiro setor em cada país e compará-las entre si. A elaboração dessa definição estrutural/operacional foi tão importante que acabou incorporada pela ONU, em um esforço de melhorar a representação do terceiro setor junto às contas nacionais de seus países membros.
Em 1993, a ONU divulgou um manual para orientar os países membros na definição das contas macroeconômicas: o Sistema de Contas Nacionais (System National Account- SNA), baseado na terceira versão de um outro sistema de classificação: o International Standard Industrial Classification (ISIC) (UNITED NATIONS, 1990). O SNA classifica as contas nacionais em cinco grandes grupos, sendo que organizações sem fins lucrativos podem ser classificadas junto a organizações comerciais e públicas, o que impede o dimensionamento do terceiro setor. Com base nisso, e dada a crescente importância do terceiro setor, uma equipe da JHU uniu-se com o Departamento de Estatística da ONU para definição de formas auxiliares de classificação que pudessem contribuir para uma classificação mais clara e precisa em relação a organizações sem fins lucrativos.
O resultado do trabalho conjunto entre a ONU e a JHU foi a criação da Classificação Internacional das Organizações Não-Lucrativas (International Classification of Non-profit Organizations- ICNPO). O ICNPO foi desenhado a partir do ISIC, definindo uma ampliação de sua estrutura inicial de classificação para melhor representar o terceiro setor. Em outras palavras, utilizar o ICNPO significa um trabalho de desmembramento das contas nacionais, reclassificando-as a partir da necessidade de captar a realidade do setor sem fins lucrativos. Pesquisadores dos 13 países que estavam envolvidos no projeto comparativo da JHU, em sua primeira fase, aplicaram o ICNPO em suas bases. Os 13 eram: EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Suécia, Japão, Hungria, Brasil, Gana, Egito, Índia e Tailândia.
O ICNPO classifica as organizações sem fins lucrativos em 12 grandes grupos de atividades, que por sua vez estão subdivididos em um total de 24 subgrupos. Para que houvesse uma unanimidade entre os países sobre o que é ou não uma organização sem fins lucrativos ou do terceiro setor, estabeleceu-se que o ICPNO só classifica organizações que estejam dentro da
definição estrutural/operacional proposta originalmente pela JHU. Essa definição aceita organizações que contenham as cinco características descritas a seguir.
1. Formalização, ou seja, que apresentem alguma forma de institucionalização, seja pelo registro público de suas atividades, seja por outras formas que justifiquem sua existência formal (reuniões regulares, representantes reconhecidos, ou outras formas de regularidade estrutural). Estão excluídas as uniões temporárias de pessoas sem uma estrutura real ou identidade organizacional (SALAMON; ANHEIMER, 1997). No entanto, estão incluídas as organizações que não estejam com uma situação legal definida, mas que atendam ao critério do SNA de terem um grau significativo de estrutura interna e permanência temporal.
2. Privadas, ou seja, institucionalmente separadas do Estado. Organizações não- lucrativas, para o projeto, não são parte do aparato do Estado, nem são dirigidas por conselhos formados majoritariamente por representantes de governos. Isso não significa que essas organizações não possam receber recursos estatais, nem que membros dos seus conselhos não sejam representantes do governo, significa apenas que a estrutura básica da organização seja privada.
3. Não distribuição de lucros, ou seja, se houver excedentes de natureza econômica, estes não podem ser de forma alguma repassados a sócios ou membros, mas devem ser revertidos para a própria atividade-fim. Organizações sem fins lucrativos são organizações privadas que não têm o lucro como razão primária de existência, seja direta ou indiretamente, e não são guiadas por objetivos comerciais. Isso as diferencia das organizações de negócios;
4. Autogestão, ou seja, são capazes de controlar a gestão de suas atividades. Isso implica em que as organizações, para serem consideradas como pertencentes ao terceiro setor devem ter estruturas de governança própria;
5. Participação voluntária, ou seja, envolvem algum nível de participação voluntária. Para serem consideradas como pertencentes ao setor sem fins lucrativos, as organizações devem encarar a criação de um corpo de voluntários como algo significativo e inerente a sua razão de existir. Isso implica em duas considerações. Primeiro, a organização deve envolver voluntários em suas atividades. Segundo, a
presença do voluntariado dá um sentido de "não compulsório" . Organizações em que a afiliação é compulsória por lei devem ser excluídas do setor sem fins lucrativos.
Por essa definição estrutural/operacional, a pesquisa construiu um parâmetro mínimo de análise pelo qual se tornou possível estudar o terceiro setor em diversos países – de início em 13 e atualmente em mais de 40 países.
Os próprios pesquisadores da John Hopkins University admitem, porém, que o setor sem fins lucrativos varia muito, conforme as diferentes realidades nacionais; por isso, em cada país, o projeto permite uma certa flexibilização, para que possam ser incluídas (ou excluídas) algumas organizações, consideradas certas características nacionais (SALAMON et al., 1997).
Sobre esse ponto, vale ressaltar o trabalho de construção do Mapa do Terceiro Setor no Brasil que está em andamento, conduzido por uma equipe do Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) da FGV-EAESP. O Mapa utiliza o ICNPO como estrutura de classificação. No entanto, algumas adaptações foram necessárias, considerando o contexto brasileiro, implicando em remanejamento de algumas atividades entre as 12 contas estabelecidas pelo ICNPO.A tabela 1 contém a íntegra dos 12 grupos e 24 subgrupos definidos pelo ICNPO.
1. Tabela – ICNPO – ONU, (International Classification of Nonprofit Organizations)
Grupo 1: Cultura e Recreação
1 100 Cultura e Artes 1 200 Esportes
1 300 Outras Recreações e Clubes Sociais
Grupo 7: Serviços Legais, Defesa de Direitos Civis e Organizações Políticas
7 100 Organizações Cívicas e de Defesa dos Direitos Civis
7 200 Serviços Legais 7 300 Organizações Políticas
Grupo 2: Educação e Pesquisa
2 100 Ensino Fundamental e Médio 2 200 Educação Superior
2 300 Outras em Educação 2 400 Pesquisa
Grupo 8: Intermediárias Filantrópicas e de Promoção de Ações Voluntárias
8 100 Fundações Financiadoras
8 200 Outras Filantrópicas Intermediárias
Grupo 3: Saúde
3 100 Hospitais e Reabilitação 3 200 Casas de Repouso
3 300 Saúde Mental e Intervenção em Crises 3 400 Outros Serviços de Saúde
Grupo 9: Atividade Internacional
Grupo 4: Assistência e Promoção
4 100 Assistência Social 4 200 Emergência e Amparo 4 300 Auxílio à Renda e Sustento
Grupo 10: Religião
Grupo 5: Meio Ambiente
5 100 Meio Ambiente
5 200 Proteção à Vida Animal
Grupo 11: Associações Profissionais, de Classe e Sindicatos
11 100 Associações de Classe 11 200 Associações Profissionais 11 300 Sindicatos
Grupo 6: Desenvolvimento e Moradia
6 100 Desenvolvimento Econômico, Social e Comunitário
6 200 Moradia
6 300 Emprego e Treinamento
Grupo 12: Não Classificado em Outro Grupo
Conquanto a definição estrutural/operacional proposta pelo John Hopkins Comparative Non-profit Sector Project tenha alcançado alto nível de aceitação, sendo inclusive adotada pela ONU na forma do ICNPO, trata-se de um recurso para operacionalizar trabalhos de pesquisa e recenseamento. Em outras palavras, tal definição é reducionista e serve a propósitos operacionais. Compreender o que é o terceiro setor é mais do que estabelecer uma lista de características para limitar as possibilidades de classificação de uma organização. As contribuições de autores como Laville (2000) e Nyssens (2000) deixam claro que o terceiro setor pode ser entendido como uma construção social ou um fenômeno que desafia a teoria econômica neoclássica e a noção de "mercado total" (NYSSENS, 2000, p. 552) 2
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Como seria de se esperar, a definição desenvolvida pela equipe da JHU influencia a linha teórica do nonprofit sector. Por isso, apresentaremos tal linha já nessa seção. A economia social será estudada na próxima seção, quando então será possível demonstrar que em outras partes do mundo fora da América é possível encontrar outros tipos de organizações consideradas como parte do terceiro setor e que não se encaixam na definição da JHU. Muitas organizações que, na França, estão definidas como pertencentes à economia social são consideradas, em outros países, como empresas comerciais. É o caso, por exemplo, de companhias de seguro mútuo ou caixas de depósitos (ARCHAMBAULT, 1997).
Ao sairmos da proposta de definir o terceiro setor pelas características de suas organizações, encontramos contribuições de várias áreas do conhecimento, no sentido de explicar o fenômeno em sua totalidade, sem descer ao nível organizacional. A teoria econômica, principalmente em sua vertente neoclássica, oferece explicações interessantes para definição do terceiro setor e, conseqüentemente, para compreender suas origens e seu crescimento. Por essa ótica, as causas para o surgimento de organizações sem fins lucrativos residem em falhas no equilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços. Autores, como o economista Burton Weisbrod, propuseram que o mercado não consegue atender a demanda por todos os bens,
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Em seu artigo no número especial sobre terceiro setor no periódico Sociologie du Travail, Marthe Nyssens utiliza a expressão "tout marche" para fazer referência às teorias econômicas anglo-saxãs de inspiração neoclássicas, em uma alusão ao fato de que tais teorias se desenvolvem a partir de um prisma mercantil. Por isso, a autora considera que para tais teorias o terceiro setor é um fenômeno que causa estranheza e que só pode ser entendido na medida em que complementa o papel do mercado como ente regulador da economia.
deixando "brechas" que são atendidas pelos governos. Como estes atendem apenas parte das demandas, "sobram" espaços ocupados por organizações sem fins lucrativos que se disponham a oferecer serviços públicos que não podem ser produzidos nem pelo mercado, nem pelo governo (WEISBROD, 1988 e 1977). Conclui-se que, por esse ponto de vista, "terceiro setor" é um termo que remete a um conjunto de organizações orientadas para prestação de serviços, fazendo as vezes do governo.
Nyssens (2000) também analisou as teorias econômicas anglo-saxãs de inspiração neoclássica quanto a possíveis explicações para a existência, em uma economia de mercado, de organizações sem fins lucrativos. A autora encontra na teoria do rendimento social e na teoria dos custos de transação elementos que explicam o surgimento dessas organizações em função da assimetria de informações e da ação racional dos indivíduos em busca da melhor alocação de recursos. Usando elementos da Teoria de Custos de Transação (WILLIAMSON, 1975) em economia, parte-se da perspectiva de que em diversos mercados há assimetria de informações, ou seja, que os consumidores nem sempre possuem à disposição todas as informações necessárias para julgar a qualidade dos produtos e serviços que podem adquirir. Na medida em que consumidores têm pouca informação sobre a prestação de serviços – como guarda de crianças ou asilo para idosos – reconhecem em organizações que não visam ao lucro um agente prestador de serviços que tende a não agir de modo oportunista. Essa visão explicaria a demanda pelos serviços do terceiro setor (HANSMANN, 1987), ou seja, organizações sem fins lucrativos são entidades que reduzem a incerteza e ao mesmo tempo "barateiam" a distribuição de serviços sociais.
Adicionalmente, Nyssens (2000) analisou teorias econômicas que olham o terceiro setor pela oferta, ou seja, que identificam as razões que levam à criação das organizações sem fins lucrativos. Indivíduos não se contentam em apenas ter as informações necessárias sobre os serviços; eles querem ser parte integrante da própria organização que presta tais serviços. O engajamento está relacionado aos valores do indivíduo que orientam sua ação para criar e participar da própria organização. Esta ótica cabe como explicação para a origem de empreendedores sociais, indivíduos com motivações altruístas, com engajamento ideológico na animação e gestão de organizações sem fins lucrativos (NYSSENS, 2000, p. 562). Embora essa definição advenha de um referencial microeconômico, há o começo de uma visão mais politizada do terceiro setor; conforme se envolvem na prestação de serviços, os atores ou empreendedores
sociais agem para maior representatividade e autonomia. Tem-se, portanto, uma definição que contempla o terceiro setor como um novo ator social no arranjo do poder.
Na próxima subseção, exploraremos algumas teorias que versam sobre o crescimento do terceiro setor na década de 1980. Veremos que outros fatores, além dos econômicos, concorreram para o aumento em quantidade e notoriedade de organizações sem fins lucrativos em todo o mundo.