O caráter independente da notícia não indica uma independência temática. Acumuladas ou organizadas em torno de campos de fala, ou de interesses de comunicação específicos, elas são a interpretação desorganizada do acontecimento pontual e flutuam, como mensagens individuais, no horizonte sem diálogo da estrutura virtual do governo. A mecânica por trás de sua indexação e ordenação leva a conclusão de que a agenda de publicações parece desligada de um débito com a continuidade. É esse aspecto, essa descontinuidade compromissada com uma narrativa constantemente atomizada, que merece especial atenção, dados seus paradoxos – afinal, como é pulverizada, se é intercalada em um espaço temático próprio? Como é fragmentada, se objetiva uma exposição dos feitos da personagem institucional da qual deriva?
Publicadas sem sequência obrigatória as notícias tem como única fidelidade às atividades da secretaria onde são vinculadas – com exceção daquelas, como já dissemos, postadas na página inicial do governo. Expressões de seus feitos “pessoais” (no circuito de ação das próprias secretarias), elas retomam narrativas temáticas, estabelecendo tópicos e subtópicos de interesse público, produzindo cortes próprios de sentido.
Que cortes são estes? Quais os subcampos e temas instrumentalizados no pacote de relações criados dentro do noticiamento? A observação específica das notícias da Secretaria de Planejamento (SEPLAG) dão pistas para uma compreensão mais direcionada do plano discursivo-racionalizante interno na fala do Executivo. Há ali, no índice de relatos, uma produção reiterada dos instrumentos mais elementares que parecem fomentar a base de
orientação dos enunciados: em outras palavras, o sistema que gera as falas desta secretaria em particular estão relacionados com o peso político de um organismo de direção e planificação. Não é uma questão de determinar a importância real da Secretaria na disposição e na intervenção das ações da máquina como um todo, naturalmente. É uma questão de observar a composição dela como um personagem de legitimação, uma força de estruturação do que é dito, na medida do poder simbólico que caracteriza sua posição no sistema de documentos.
Não é nova a compreensão de que o governo é, na teoria social, um mecanismo de contradições de acesso: ou seja, tem em sua produção histórica a necessidade de reportar aos poderes que engendram (seja a vontade geral dos liberais, seja as classes dirigentes nas correntes mais instrumentalistas do materialismo histórico), assim como organiza sistemas de segredo e proteção das informações. É máquina de gerenciamento, mas também máquina estratégica, com todas as dependências de ambos os modelos (DREIFUSS, 1993).
Para todos os efeitos, o Estado moderno assumiu as limitações e os conflitos próprios desta condição dupla na medida em que sofreu transições de gestão, partindo de um formato controlador e centralizado para formas cada vez mais republicanas. Na Europa, essa conversão, essa metamorfose nuclear que é herança das revoluções na Inglaterra do século XVII e na França do século XVIII, criou o sentido de governo para o âmbito de uma estrutura estatal mais comunicativa, ainda que não tenha tirado dela a face de monólito. As reformas e redimensionamentos democraticamente inspirados pelos movimentos revolucionários apenas realocou os dispositivos e as chaves de controle à informação para grupos sociais mais diversos. É válido dizer, que atrelada a elevação da ideia de cidadania a responsabilidade de prestação de contas das máquinas públicas foi ampliada, mas o estatuto de confidência, o modo pelo qual o poder comunica e para quem ele comunica, continuaram limitados a elites burocráticas, a representantes das classes de poder, a instituições paralelas capazes de pressionar os agentes dentro dos labirintos governamentais (ordens de advogados, grupos religiosos, organizações comerciais de vulto). De um lado, a elevação de valores democráticos como
nova filosofia moderna. Do outro, o signo presente de um refinamento da máquina bélica, das instituições de vigilância (que são a raiz prática das táticas de sigilo) e das reações à complexificação dos demais Estados, como inimigos potenciais. Estavam iniciadas as corridas tecnológicas e gerenciais da competição estatal contemporânea.
A história dessa padronização começa cedo. A organização de novos corpos burocráticos no modelo de Estado absolutista, em meados do século XVI, já dependia de um sistema de escribas e homens contábeis, mas também de um quadro rigoroso de funcionários envolvidos com temas militares e controle de pessoal. A centralização do poder e a administração igualmente centralizada das tributações desenvolveu na França, por exemplo, um senso de rigor estatístico e uma prática calculista para assuntos de estratégia, de mensuração e defesa (STRAYER, 1972). A configuração moderna da observação dos potenciais inimigos internos e externos plantou a semente de práticas conspiratórias, ainda vagamente pensadas como uma estrutura sólida. Uma realidade ainda mais antiga, se pensarmos a política medieval como um rascunho dos mecanismos de destruição de oposições e oposições imaginadas. Dos ataques sistemáticos e internos a instituições rivais no século XIV – das quais os Templários são exemplo, mas o papado também é29 – para uma transição racional mais integrada, presente no período napoleônico (ELIAS, 2001), o Estado francês criou uma forma de agir e reagir que tencionou as práticas do Ocidente, incentivando avanços técnicos e exigindo adequações por parte de todos dentro do jogo. (HOBSBAWM, 2009).
A história militar da Europa Ocidental nos serve, assim, como acesso para compreender como o sigilo e a intimidade do poder concentraram-se, para, mais tarde, entrarem em conflito com um desenvolvimento oposto mais lento e mais precário – o das instituições de participação popular, primórdios dos quais nasce a faceta expositiva, pública e comunicativa dos governos. Os séculos XVIII e XIX serão o palco dessa gênese “dialógica”. As aspas são necessárias, naturalmente. O papel político das revoluções foi o de negociar permissões e controles da máquina pública por parte de facções já associadas
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Refiro-me ao ataque a ordem de Jacques De Molay, no começo do século XIV e a cisão do papado quando em 1378 é eleito o papa francês em Avinghon. Ambas ações com participação e interesse do Estado, na figura do rei.
a contabilidade e ao fluxo de capitais que cruzava o mercado europeu. A ascensão da República na França e gradual garantia de gestão das leis às classes proprietárias na Inglaterra, obrigaram à máquina pública a reformular suas bases de informe. Se antes os diários oficiais nacionais eram pouco mais que gazetas sobre guerras e notícias pontuais de acontecimentos no estrangeiro, eles passariam aos poucos a transformar-se em mecanismos de registro das decisões governamentais e das pautas políticas30.
Por seu turno, o século XX garantiu um agravamento dos sistemas de controle da informação na medida em que propiciou motivos políticos e condições técnicas para toda uma cultura do sigilo (CEPIK e EISENBERG, 2002). As duas grandes guerras revelaram os esquemas de ação e as possibilidades de fracasso e sucesso mediante um tratamento tático da informação. A criação e difusão do computador e dos sistemas de criptografia nos anos 1950, durante a gélida tensão entre EUA e URSS, permitiram novas jogadas e novos estratagemas nesse mesmo âmbito de segredo e contra- segredo.
Na mesma medida, a reestruturação democrática com a ascensão dos movimentos sociais em todo o mundo ocidental clarificou o papel das assessorias de imprensa e da cultura do “fale conosco”. Essas dinâmicas foram institucionalizadas tanto no campo dos mercados, que passaram a ficar mais atentos ás demandas futuras de consumo, como no espaço das disputas governamentais, apoiadas pela expectativa de sucessos eleitorais duradouros.
Mesmo com o fim da Guerra Fria, a modernização dos modos de ser e ver dos Estados nacionais do Ocidente na forma de sua racionalização e re- aparelhagem, teve como segunda etapa um estreitamento das tecnologias de difusão e seleção da segurança. O método norte-americano de tratamento da informação entra neste ponto da história estatal como parte do aprimoramento das técnicas de inteligência e contra-inteligência que se transformarão em um novo paradigma global. Em paralelo o desenvolvimento da publicidade pública correrá na direção de redesenho do discurso político como ação visual, reforçada pelos novos artefatos de mídia. No momento em que o controle e o uso da informação tornam-se uma ciência prática de enunciados e jogos
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História do Diário Oficial Francês (Journal Officiel) disponível em http://www.dila.premier- ministre.gouv.fr/qui-sommes-nous/historique-dila.html
materiais muito complexos, o Estado torna-se personagem de um conto de oratórias: o que ele faz é o que ele fala, ainda que ação e promessa não tenham sido convertidas em sinônimos. A melhor forma de entender essa relação em emergência é a ideia de feito.