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7. THE RATIONALES OF THE INTERNATIONALIZATION OF

7.5. Socio-Cultural Rationale

7.5.1. The Analysis of the Socio-Cultural Rationale for AYU

Observando mais de perto um dos segmentos desta exposição podemos entender os ritos que os permeavam, já que é na notícia digital que a condição de conexão entre textos é cada vez mais relacional e intercalada. A Secretaria de Desenvolvimento Agrário e a Secretaria de Planejamento e Gestão falam sobre dois eixos de descrição do Estado: um “externo”, mediando as relações entre governo e uma dada realidade em recorte (o interior, o mundo agrário, o desenvolvimento local, a zona rural cearense, as demandas produtivas deste contexto) e um “interno” (a produção do planejamento, a máquina pública como agente que se autoavalia, o sentido de observação sobre as estratégias de ação, uma tentativa de metalinguagem sobre o Estado a partir de sua racionalidade). Esses eixos, quando analisados através de suas notícias e de seus sistemas de apresentação, dão algumas pistas sobre o formato mais amplo que os contém.

Os temas no centro das notícias aqui analisadas envolvem quatro grandes grupos (que, não é custoso dizer, servem como tipos ideais[WEBER, 2004]): os que registram benefícios a grupos e localidades; as notícias de racionalidade (que conferem evidência de planejamento); os informes de ação (que contam sobre o que será realizado e como fazer uso da ação); e os destaques de análise (que incorporam estatísticas e estudos sobre a realidade tratada ou de interesse).

Entender o habitus como um conjunto de saberes, disposições e marcas de ação socialmente produzidos e utilizados nos vários jogos da existência social é parte do exercício de se acessar a lógica de um conceito que une

estruturantes”. Esse primeiro movimento de compreensão teórica precede as manipulações metodológicas do habitus, pois permite, mais explicitamente, um maior cuidado na operação das afirmações e buscas – ou, dito de outra forma, sugere uma referência menos mecânica e mais contextual de uma ferramenta como esta.

A partir daí a estruturação dos campos, como lugares sociais e, ao mesmo tempo, como estruturas conceituais de relação, troca, dependência, luta e criação, se dá como novo passo da problematização de uma Sociologia das sociabilidades e das relações de força. O que Bourdieu (1992, 2002) propõe quando se refere a um estudo dos poderes simbólicos implicados nos espaços sociais de geração, difusão e confirmação de hábitos inculcados e disposições projetadas? Para responder a esta pergunta, ainda que de forma provisória e sob a segurança de um “grosso modo”, é preciso observar a relevância da história e da defesa do arbitrário no discurso do autor.

Podemos começar pensando que Bourdieu (idem, ibidem) elabora um quadro esquemático profusamente reconfortante para uma leitura “neoclássica” das necessidades sociológicas: uma base conceitual sólida (resistente à variações empíricas e, portanto, enraizada na preocupação metodológica de linhagem durkheimiana), uma estrutura auto-crítica de suas preposições (fundada no perspectivismo weberiano, sempre preocupado com os limites das afirmações e coma variabilidade das imputações) e uma tentativa de leitura econômica de espaços e dados não-econômicos, no sentido lato de “economia” (em um desdobramento dos estudos de Marx sobre capital e poder). Mas, para além dessa ação de rastreio das influências e dos diálogos tecidos pela teoria bourdieuziana, convém se referir a uma ordenação crítica, produzida não apenas pelo mesmo, mas também por outros autores, no contexto político da França na segunda metade do século passado – falo de uma crítica da história regulada, dos processos de formação social lineares e da leitura do mundo político a partir de bases estáveis. Ainda que, nascida na crítica ao modelo de Sartre de interpretação – e de seu existencialismo “individualista”, para o qual o individuo construia o sentido do mundo – Bourdieu se debruça sobre a variabilidade dos sentidos humanos para construir uma filosofia social – e posteriormente uma sociologia – do relativismo histórico e da dúvida dos princípios gerais.

É esse esquema misto que pode proporcionar, para todos os efeitos aqui observados, uma ferramenta prática de compreensão do discurso como ação. O discurso informativo-político dos noticiamentos reverbera em um teia de textos e micro-textos que instituiem um padrão e uma economia muito próprios. Os tipos de notícia a que me refiro recaem aqui: são formas de controle de disposição e expressam conjuntos de mapas comunicativos. É possível articular as repetições observadas e dizer que a notícia comporta-se (é construída) dentro de diferentes posições e disposições no campo da fala pública. Nesse ponto, o habitus precisa ser entendido além de engessamentos amplos – ele é, sobretudo, um produto de interesses e contextos pluralizados.

Se é verdade que a preocupação fundamental em Bourdieu é para com a estruturação de uma sociologia do poder, no sentido da organização do mesmo nos campos, por meios do habitus, a compreensão de Lahire (2003) dos caminhos da formação dos esquemas de diposição se aproxima mais de uma revisão das trajetórias individuais, no sentido de uma apropriação, por parte das pessoas, de conjuntos simbólicos e práticos de ação e crença. Dizer isso significa classificar, em um primeiro momento, a intenção do autor: o registro e análise das formas simbólicas nos indivíduos e em suas histórias de vida, inserindo o poder como parte do jogo. A perspectiva de Lahire sobre o próprio Bourdieu é a crítica do suposto vácuo existente na concepção deste último no que toca as explicações e maneiras pelas quais as disposições são engendradas pelos atores sociais.

Por que não dizer que os próprios textos são também, nesse sentido, “atores sociais”? Eles incorporam, a sua maneira, um composto de ação – no cenário virtual das comunicações. Observar a notícia sob este crivo permite entender que cada conjunto de informes tem uma forma de expor e de deslocar-se no amplo mundo das falas políticas.

A pergunta de Lahire “como e em que medida as disposições se agregam (ou são agregadas) aos conjuntos interpretativos das pessoas?” fundamenta a primeira parte de sua proposta de uma Sociologia “em escala individual”. Atravessando a crítica a teoria bourdieuziana, o autor sugere que as dinâmicas particulares de inculcação e significação de aspectos da realidade implicam na prioridade de se observar as formas de socialização, partindo delas para compor o quadro dos esquemas “sensoriais” de entendimento do mundo

enquanto esquemas sociais dos sujeitos. Ao não se deter em examinar lógicas

de campo a priori, Lahire parece se negar a trabalhar sob a ótica de uma revisão clássica, fundada na inspeção e reconstrução teórica das distinções estruturais, sem negar, contudo, a existência dessas distinções. Tomando Bourdieu e suas considerações metodológicas mais gerais, o autor envereda pela defesa de uma classificação e sistematização dos princípios norteadores dos individuos, das máximas que se sobrepõem às diposições mais fracas nos mesmos.

O habitus, no autor, ganha prioridade em sua pluralidade reconhecida. Lahire cuida de demarcar as variações do vivido de cada sujeito como os produtores dos invariantes comportamentais que constroem para ele e para os outros uma face de estabilidade de sua personalidade – coerência capaz de gerar legitimidade e aceitação social. Uma Sociologia das disposições – de suas afirmações e de seus “usos” – esbarra, podemos pensar, portanto, na exigência metodólogica de se reunir informações e dados suficientemente palpáveis acerca não apenas da vida dos pesquisados, mas, como já foi explanado, dos eixos de socialização responsáveis pela instituição deste

habitus plural.

A busca pelo entendimento do habitus é a busca por entender os mundos sociais e a regulação variada dos mesmos na instauração de conhecimentos, interdições e práticas politicamente valorizadas ou desvalorizadas. Para fundamentar e promover essa investigação o habitus é também pensado e procurado no campo empírico como o resultado de mudanças menores e maiores: estruturações novas ou sinais de possibilidades de intervenção dos sujeitos na grande estrutura das sociabilidades. Podemos dizer, nesse sentido, que o habitus, ferramenta conceitual por excelência, não se limita a fornecer ao pesquisador um “norte” metodológico: convoca, ainda, um certo poder de fala, uma certa facilitação na afirmação e classificação dos movimentos dos agentes no mundo. E isto ocorre, especialmente, mas não unicamente, nas aplicações mais mecânicas da noção.

O habitus ganha, no caso da notícia, o padrão da estratégia discursiva. Ele está presente na elaborações dos textos e fala, também, das disposições

“do mundo”, recriando e reforçando sua própria imagem – a imagem do Estado executor – em cada exposição de suas realizações concretas ou abstratas.

Como parente próximo da ideia de arqueologia nos termos de Foucault, procurar o habitus no discurso é uma forma de caça às continuidades e descontinuidades de um tipo de fala – mas uma caça em tempo e termos menos abragentes talvez, do que os sugeridos pelo autor de Microfísica do

Poder. Uma caça dirigida as estruturas conjugadas de descrição, repetição e

apresentação que os enunciados informativos representam.