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2. KAYNAK ARAŞTIRMASI

2.1. Enerji ve Kaynakları

2.1.2. Dünya da ve Türkiye’de yenilenebilir enerji kaynakları

2.1.3.4. Piroliz teknolojileri

quadrado

Os domésticos eram aqueles que traziam a pobreza para dentro dos lares refinados da cidade, representavam o livre transito da miséria - com sua feiura, seus cheiros,

sua aparência mulamba, sua ignorancia, suas doenças e taras - pela cidade; por isso atraíam sobre si imensa carga de desconfiança, aversão e, no limite, terror (DUARTE, 1992, p. 02).

Se as relações de trabalho entre patroas e empregadas que residiam no próprio lugar de moradia já eram permeadas pela construção social dela como sendo uma ameaça, as relações em que elas moravam em suas próprias casas traziam um temor intensificado. Pois essas mulheres representavam o trânsito do que estava nas comunidades, nas periferias e nas favelas para a casa de seus patrões.

Essa mácula de um mundo diferente, que as domésticas trazem consigo, ao ambiente de trabalho, funciona como uma insígnia social que deve ser combatida; livrar-se dela é um pré-requisito para que a trabalhadora seja bem avaliada, pois significa que, desse modo, adaptou-se aos valores atuantes no lar em que presta serviços (FREITAS, 2011, p. 15)

Nesse intuito de combate ao mundo diferente, construiu-se a imagem da empregada doméstica ideal: aquela que sabe equilibrar proximidade e distância de seus patrões (FREITAS, 2011). Ao mesmo tempo em que deveria se aproximar de seus valores e costumes (para melhor servi-los), deveria manter distantes os valores e as práticas dos grupos sociais e lugares aos quais pertenciam. Uma estratégia que os patrões passam a adotar para tentar esse idealismo é a criação de cursos de qualificação de empregadas domésticas. São cursos que existem até hoje e que visam modelar as empregadas, corrigindo seus hábitos e valores (OLIVEIRA, 2007; FREITAS, 2011).

Os já comentados manuais de orientação para donas de casa ganham força. Destinados às patroas, eles argumentavam que criadas sem fiscalização não serviam para nada e que era dever da mulher manter o olhar atento, transformando o ambiente doméstico em uma espécie de panóptico (RONCADOR, 2007).

Se você, ”leitora amiga”, não sabe como ”transformar sua empregada doméstica em auxiliar responsável, e amiga da dona de casa”, não sabe como conseguir, e manter, a tão sonhada ”paz doméstica”, e sobretudo como ”não perder na luta para não ficar fazendo o trabalho da empregada deixando de lado [seus] afazeres normais”, eis aqui alguns truques, alguns ”jeitinhos astutos” para ”amaciar”, ”domesticar”, enfim, ”domar como um bicho bravo” a sua empregada. Antes de mais nada, ”se sua empregada não possuir rádio próprio, forneça-lhe um…”; ”dê as ordens em tom calmo e firme (…) para não despertar a fera que existe em cada um[a] de nós”; ”use a estimulante fórmula Nós. Por exemplo: ”hoje nós vamos comprar peixe, ”há muito tempo que não fazemos um cozido”, ”precisamos fazer faxina aqui na cozinha”…”. Truques como esses, e outros mais compõem o ”guia prático da mulher independente”, intitulado A aventura de ser dona-de-casa (dona de casa vs

empregada): um assunto sério visto com bom humor, escrito por Tania Kaufmann, em 1975, com o apoio da irmã, a escritora Clarice Lispector, e de feministas como a

então presidente do Conselho Nacional de Mulheres no Brasil, Romy Medeiros da Fonseca [...] (RONCADOR, 2003, p. 54-55)

Esses manuais e a própria literatura brasileira contribuíram pedagogicamente para reforçar a ideia da ameaça representada pela empregada e a ideia de que elas eram invejosas e invasoras da privacidade dos lares. Para alimentar essas construções sociais, narrativas de violências e de contágios físicos e morais por parte das empregadas foram utilizadas (RONCADOR, 2007).

Essas narrativas faziam parte de um esforço discursivo para a criação do medo burguês em relação aos criados e também de uma tentativa de disseminação de teses médicas oitocentistas que defendiam a ideia da maternidade natural ou higiênica. De acordo com essas teses, era a própria mãe quem deveria amamentar e cuidar dos filhos (RONCADOR, 2007), a despeito do costume herdado do período escravocrata de se ter amas de leite e mães pretas.

Mesmo com a existência dessas teses, o costume de se ter empregadas domésticas não foi prejudicado. As empregadas domésticas foram mantidas, mas as construções sociais disseminadas a seu respeito também. Um exemplo dessa manutenção pode ser observado no discurso de uma patroa publicado em uma rede social no ano de 2009, que foi analisado por Teixeira e Carrieri (2013).

Já tive diversas empregadas, mas até agora só conheci dois tipos: ou evangélicas – aquelas tiradas a santas, que deixam a bíblia aberta em cima da cama [...] mas na verdade, só estão lutando contra os sentimentos negativos que têm no coração, como inveja da gente, revolta porque são empregadas e etc., ou então, as piriguetes, aquelas que vivem com o celular pendurado, são mais procuradas do que cafetinas [...] ensinam aos nossos filhinhos, os passos do arrocha e do pagode [...] - publicação anônima na comunidade do Orkut Vítimas de Empregada Doméstica em 2009 (TEIXEIRA; CARRIERI, 2013, p. 54).

Nesse fragmento discursivo, Teixeira e Carrieri (2013) observaram várias das construções que já foram aqui discutidas: a imagem de depravação sexual advinda do período escravocrata, a ideia de que são invejosas e de que são uma ameaça à integridade moral. Com a manutenção dessas construções sociais com imagens negativas das empregadas, houve um crescimento das práticas de vigilância. No cotidiano das relações de trabalho entre patroas e empregadas, eram comuns

1) restrições ríspidas quanto ao contato com os patrões (por exemplo, obrigatoriedade de utilizar utensílios alimentares diferentes, a exigência do uso de máscaras, a negação e/ou restrição de alimentos etc.; 2) mania de limpeza e supervisão extrema das tarefas executadas pelas trabalhadoras; 3) o não reconhecimento de tais tarefas; 4) a escassez de direitos da ocupação e o seu pouco retorno financeiro (fatores estruturais da ocupação, mas que são, com frequência, definidos por meio de acordos pessoais e informais; 5) descontrole emocional dos

patrões (expresso na forma de gritos, por exemplo) e; 6) acusações de roubo (FREITAS, 2011, p. 18).

Quando falamos dos furtos, não se trata apenas de acusações. De fato, a empregada doméstica é comumente associada ao sumiço de algum objeto ou bem, o que, em alguns casos, se reverte em situações injustas de acusações que culminam com demissões. No entanto, essa é uma situação mais complexa e que não pode ser analisada do simples ponto de vista da acusação. Uma das táticas das empregadas domésticas já apontadas por Brites (2008) é a prática do furto que adquire simbolicamente o significado de um jogo. Em um estudo publicado pela autora sobre as políticas da vida privada na prática do trabalho doméstico, há relatos de furtos cometidos pelas empregadas que poderiam ser substituídos por simples pedidos às patroas. No entanto, como esses pedidos podem ser considerados um reconhecimento deliberado da subalternidade presente na relação, o ato de furtar pode ser simbolicamente considerado uma forma de exercer poder sobre os patrões. Brites (2008) discute, como exemplo, o furto de bananas por duas empregadas domésticas.

A temeridade das empregadas, neste caso particular, parece se dever, além da degustação das bananas, a certo prazer do jogo. Edilene e Túlia [duas empregadas que trabalham em casas distintas no mesmo prédio] são amigas de longa data. Foi Túlia quem conseguiu os empregos para Edilene no prédio onde trabalha como faxineira. [...] Roubar um cacho de bananas pode ser mais uma oportunidade de diversão. Uma diversão com gosto de transgressão. Poderiam pedir um prato de comida, é claro. Mas, para tanto, Edilene teria que transpor a barreira da vergonha e, humildemente, pedir um favor à patroa. O prato estaria repleto de ‘dádiva’ e, com ela, a retribuição obrigatória. Roubando um cacho de banana, demonstram sua autonomia sobre aquela economia doméstica vigiada, corroem a confiança construída sobre o eterno merecimento, denunciador da subalternidade (BRITES, 2008, p. 92).

Esse jogo representa as relações de poder que se configuram entre patroas e empregadas. E um aspecto importante nessas relações é que as empregadas que não residem em seus locais de trabalho acabam representando uma ameaça à privacidade e intimidade de seus patrões porque, ao mesmo tempo em que dispõem de informações privilegiadas dos mesmos, mantêm outros vínculos sociais e pertencem a outros círculos afetivos. Esses outros pertencimentos podem representar o trânsito de informações particulares desses patrões para outros grupos, pois as empregadas podem contar o que acontece no âmbito privado e na vida de seus patrões para sua rede de contatos.

Essa possibilidade acaba gerando um jogo implícito de poder. Para Brites (2008), o poder que pode ser exercido pelas empregadas nesse contexto não pode ser negligenciado. A

[...] presença cotidiana da empregada na casa dos patrões possibilita que elas dominem um grande número de informações sobre seus empregadores. Durante o trabalho de campo, desfrutando da confiança das empregadas, acabei conhecendo histórias de adultérios, de brigas familiares, de casos de abuso sexual de patrões em relação às empregadas, dentre outros fatos. Como a relação entre essas partes é sempre tensa, inclusive pelo não cumprimento dos direitos trabalhistas, o medo de que a ”roupa suja” seja publicizada mantém determinadas questões em suspenso (BRITES, 2008, p. 90).

E os furtos são justamente uma das práticas que podem ser mantidas em suspenso. Nesse caso, eles podem até ser negligenciados, embora percebidos, pelos empregadores. Além dos furtos, uma prática comum é a doação de objetos e bens que perderam o uso para as empregadas. Essas doações também fazem parte desse jogo de poder porque contribuem para a manutenção das hierarquias simbólicas entre patrões e empregados. Os bens doados são aqueles que já não têm mais utilidade para os patrões dentro de um padrão de consumo. Raramente algo novo é comprado para presenteá-las (BRITES, 2008). Essas doações acontecem muito mais no caso das mensalistas não residentes porque, possuindo suas próprias casas, podem receber doações mais diversas e, não simplesmente, de roupas, como comumente ocorre no caso das mensalistas residentes.

Um aspecto importante a ser mencionado nessa discussão sobre as mensalistas não residentes é que a migração ocorrida no Brasil foi um dos fatos importantes na disponibilidade de mão de obra para o trabalho doméstico. Muitas pessoas migraram do meio rural para o urbano. Sem qualificação e sem a existência de postos de trabalho suficientes para absorver essa demanda por emprego, o trabalho doméstico se tornava uma das opções mais contundentes para as mulheres. Além disso, nos anos 70 e 80, quando ocorreu uma entrada significativa de mulheres no mercado de trabalho, a demanda por empregadas domésticas também cresceu (SILVA e OLIVEN, 2010).

Esse cenário migratório e também de crescimento da demanda por empregadas domésticas acabou tornando mais diversificado o grupo de empregadas domésticas. Do ponto de vista racial, muitas mulheres construídas como brancas se inseriram nesse tipo de trabalho, fazendo com que o trabalho doméstico deixasse de ser algo exclusivo às mulheres construídas como negras. E, do ponto de vista regional, houve uma diversidade de origens das empregadas, muitas do meio rural, do interior ou de outros estados. Essa diversidade pode ser justificada pela forte articulação entre a dimensão da raça e o aspecto econômico no contexto brasileiro (BACKES, 2006), o que não mais restringe o trabalho doméstico à diferença racial.

No próximo tópico, discutirei as práticas do trabalho doméstico advindas, não mais do trabalho das mensalistas, mas da crescente ocupação de diarista.

3.4.5 As diaristas, a escassez de mensalistas (“não se fazem mais empregadas como

Benzer Belgeler