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2. KAYNAK ARAŞTIRMASI

2.1. Enerji ve Kaynakları

2.1.2. Dünya da ve Türkiye’de yenilenebilir enerji kaynakları

2.1.3.5. Piroliz proses dizaynı ve ürünlere etki eden faktörler

2.1.3.6.1. Biyokütle piroliz birincil ürünleri ve uygulamaları

doméstico

“- Eu quero pensar em alguma coisa diferente pro meu futuro viu Zéfa. Porque eu não sou doméstica, eu estou doméstica, mas é por pouco tempo. - Ah, eu graças a Deus não sofro

de ambição. - Você é burra Zéfa” - Diálogo entre as personagens Roxana e Zéfa no filme

Domésticas (MEIRELLES, 2001). No tópico 3.2, apresentei o cenário do trabalho doméstico no Brasil e relatei o aumento do número de diaristas e uma redução no número de mensalistas. Este tópico vem como uma resposta à constatação desse cenário. Quais são os detalhes desse cenário? Quais práticas estão a ele relacionadas? Quais são suas implicações para o trabalho

doméstico e para as construções sociais a ele veiculadas?19

O diálogo protagonizado por duas empregadas no filme Domésticas, de 2001, é interessante para introduzir a discussão sobre as diaristas, a escassez de mensalistas e os discursos da mídia para a (res)-significação do trabalho doméstico. Nos últimos vinte anos, houve uma mudança muito significativa no mercado do trabalho doméstico (FRAGA, 2011) e nas práticas sociais a ele relacionadas. Atualmente, ser empregada doméstica tem reduzido o significado de condição, passando cada vez mais a ser situação. Essa mudança ocorre, sobretudo, em termos de significado social. Como o diálogo apresentado demonstra, muitas mulheres já encaram o trabalho doméstico como algo temporário e, não, definitivo.

Esse cenário guarda relações com o recente crescimento da classe média brasileira e a ascensão social de alguns grupos. Analisando as mudanças recentes na pobreza brasileira, o IPEA (2011b) observou que houve uma evolução na distribuição da renda que foi ocasionada pelo crescimento econômico, pela geração de empregos e por políticas de transferência de renda (exemplo: bolsa-família).

Além disso, de acordo com Carneiro e Rocha (2011), que abordam o drama social das empregadas no livro A ralé brasileira: quem é e como vive(Jessé de Souza), as empregadas atualmente vivem preponderantemente em um contexto urbano que lhes permite o consumo,

19 Para ilustrar essas questões, trago aqui, não só discursos de autores que já falaram a respeito desse novo

cenário, dados de pesquisas realizadas por instituições, mas também alguns discursos midiáticos. Embora a análise desses discursos não seja um elemento comumente presente em uma contextualização de um tema em um texto acadêmico, optei por trazer alguns discursos aqui porque eles contribuem para o entendimento de um contexto que é atual. Dada a temporalidade presente do que se analisa, eles contribuem para trazer informações a respeito da análise de como está a dinâmica de um fenômeno em um tempo muito presente. No entanto, esses discursos não fazem parte efetivamente do corpus de dados produzidos nesta tese. E, por esse motivo, suas análises não estão dentro das especificações metodológicas descritas no capítulo 4, pois servem, aqui, apenas como fontes de informação a respeito de um determinado contexto histórico.

inclusive, de alguns bens de conforto. O trabalho doméstico deixa de ser a principal opção das mulheres pobres e negras, embora ainda seja uma opção importante e preponderante em alguns casos. O crescimento do número de diaristas representa, em contrapartida, a redução do número de mulheres que querem trabalhar como mensalistas (FRAGA, 2011). Com a menor oferta do trabalho das mensalistas, que eram até então as empregadas domésticas mais tradicionais, o custo de se ter uma empregada fixa aumenta.

A atribuição do significado social de trabalho temporário ao trabalho doméstico ocorre principalmente entre as mulheres jovens. Elas se distanciam um pouco mais das heranças do período escravocrata no que se refere, por exemplo, ao pouco acesso à educação escolar, já que a escolaridade das empregadas aumentou (FRAGA, 2011). Mesmo ainda havendo no Brasil mulheres socializadas para serem patroas e mulheres socializadas para serem empregadas (KOFES, 1982), “[...] este horizonte [...] é [cada vez mais] pensado como uma estratégia temporária enquanto não se ascende a outro momento de vida” (ÁVILA, 2008, p. 67). Embora essa seja uma condição que possa não ser superada por muitas mulheres, o significado de temporalidade do trabalho doméstico vai cada vez mais ganhando força. Outro aspecto que faz parte dessa ideia de temporalidade é a histórica construção social do trabalho

doméstico como não sendo uma verdadeira profissão20, devendo, assim, ser sucedido por outro

trabalho que seria o verdadeiro.

Esse novo cenário traz outra implicação importante para o cotidiano do trabalho doméstico: a histórica subordinação se reduz substancialmente em alguns casos. Privilegiadas no que se refere à relação entre oferta e demanda de trabalho, a autonomia se torna uma característica do trabalho doméstico das diaristas, que podem escolher onde trabalhar e, inclusive, recusar ofertas diante de uma alta demanda por seu trabalho. Além disso, contam com maior autonomia em escolher em que dias da semana podem trabalhar (BARBA, 2011; TEIXEIRA, SARAIVA e CARRIERI, 2015).

Nessa dinâmica, as patroas, que estavam antes acostumadas a relações mais subordinadas com empregadas mais dependentes, estranham o novo contexto. Um discurso que é comumente veiculado é o de que não se fazem mais empregadas como antigamente, discurso esst que é carregado de críticas implícitas pela suposta negação das mulheres pobres à lógica de servidão que lhes seria natural e inerente (TEIXEIRA, SARAIVA e CARRIERI, 2015; RONCADOR, 2003; SANSONE, 2003).

20 Discussões a respeito do trabalho doméstico de maneira contextualizada à sociologia das profissões seriam

interessantes. No entanto, por escolhas de enfoque nesta tese, baseadas em suas limitações, optei por não trazer essa discussão de maneira aprofundada aqui, tendo o feito apenas de maneira extremamente breve no tópico 3.5.

O que ocorre é que, embora o significado social de trabalho doméstico tenha se alterado no sentido da temporalidade e da menor subordinação, essa é uma alteração que ocorreu principalmente no imaginário das mulheres pobres jovens. No caso de algumas patroas, as visões historicamente disseminadas sobre as empregadas ainda se mantêm. Como elas se veem obrigadas a se adequar ao novo contexto de escassez de empregadas domésticas que querem ser mensalistas e de uma maior autonomia dessas profissionais, discursos de resposta a esse novo cenário surgem. O fragmento de um diálogo entre duas patroas encontrado em uma rede social é um exemplo do estranhamento desse novo contexto.

A minha diarista me disse que lavar roupa não é tarefa dela, ou seja, diarista não lava roupa e nem cozinha, é verdade? (Priscila) [...] se contratou pra algo específico, a pessoa só vai fazer o acertado, se foi para os serviços gerais, seria para tudo. Elas agora acham que cozinhar e passar é serviço especializado, tem que avisar antes. Estão cheias de nove horas, essas moças... (Elisa) (TEIXEIRA e CARRIERI, 2013, p. 63).

Publicados em 2010, esses fragmentos discursivos nos remetem a um estranhamento que é característico de períodos de mudanças. Como vimos em relação ao período pós-escravocrata, há uma dificuldade de adaptação às (res)-significações do trabalho doméstico.

É importante ressaltar que o mencionado maior acesso a bens de consumo e também a direitos formais não elimina necessariamente outras dimensões de precariedade na vida dessas mulheres (CARNEIRO e ROCHA, 2011). Invocando agora uma discussão mais própria do âmbito dos estudos de gênero, a violência doméstica e a falta de liberdades na dimensão da vida privada fazem parte da realidade cotidiana de muitas daquelas mulheres que ainda hoje têm no trabalho doméstico seu principal meio de subsistência. Na visão de Mattos (2006), o ideal feminista da nova mulher autônoma atinge as mulheres de classe baixa, mas pode acabar se constituindo em um imaginário de vida que se choca com sua realidade cotidiana.

Elas ainda estão em uma situação desigual no que se refere às relações de gênero e ainda veem sua liberdade usurpada, se considerarmos as diversas formas de liberdade representadas pela proposta de Nusbaum (2000)21 no que se refere a direitos humanos e capacidades que seriam básicas e fundamentais para a dignidade humana. Se utilizarmos a concepção dessa autora, falaríamos de liberdade se tivéssemos todas as seguintes capacidades humanas garantidas: capacidade de vida (de se viver até o fim da vida, sem uma morte prematura);

21 Cito essa autora, mas não compartilho com sua pretensão universalista de capacidades básicas fundamentais

para os homens. A relevância da proposta da autora precisa ser reconhecida, mas não de forma a se constituir em um modelo a ser aplicado por todos os formuladores de políticas públicas ao pensarem os direitos humanos, sendo esse justamente seu intuito. Ainda que as teorias feministas sejam críticas ao universalismo, Nussbaum defende que sua proposta universalista é sensível às particularidades (MATOS, 2011).

saúde do corpo; integridade corporal; senso, imaginação e pensamento; emoções; razão prática; afiliação; capacidade de viver com outras espécies (como animais, plantas e a natureza); brincar e se divertir e controle sobre o meio-ambiente (político e material).

Assim, se as mulheres ainda sofrem com violências domésticas e morais, como as sofridas por uma empregada doméstica sobre quem Carneiro e Rocha (2011) contam a história, como falar em condições de liberdade? O maior poder aquisitivo ainda não garante a eliminação de outras dimensões de marginalidade. Como afirmam os autores,

[...] infelizmente, para o senso comum mundano e também para o da maioria dos ”sociólogos” e dos antropólogos, perceber esses avanços se confunde e se mistura com uma ignorância a respeito dos dramas e aflições (principalmente morais) aos quais são submetidas as mulheres que procuram ocupar um lugar na ”boa sociedade” através da profissão de empregada doméstica (CARNEIRO e ROCHA, 2011, p. 125)

Esse senso comum se relaciona a uma histórica invisibilidade da desigualdade brasileira (SOUZA, 2006).

A despeito dessas observações, uma das importantes implicações desse novo cenário do trabalho doméstico é o crescimento dos discursos da mídia visando (res)-significá-lo. Nos últimos quatro anos, o crescimento de reportagens televisivas sobre empregadas foi muito significativo. E esse crescimento é uma resposta discursiva dessa mídia para as “[...] previsões de ascensão econômica no Brasil [que] minam o futuro das [...] empregadas domésticas, uma

vez que estas agora também podem estudar rumo a uma ocupação mais rentável” (BARBA,

2011, s/p.).

E grande parte dessas reportagens trabalham discursivamente para a disseminação de novas construções sociais que valorizam a empregada doméstica. Diante do potencial risco de que essa ocupação (agora citada como profissão) acabe e diante das dificuldades já encontradas pelas famílias de encontrar uma empregada, é interessante observar esse jogo discursivo que constrói a personagem das empregadas como sendo trabalhadoras que merecem destaque.

A TV Globo, por exemplo, uma das mais importantes influenciadoras midiáticas de opinião no Brasil e que empreende esforços discursivos e ideológicos (CAPARELLI, 1982; MIGUEL, 2001; RUBIM e COLLING, 2004; GOMES et. al., 2005) para naturalizar diversas construções sociais, passou a incorporar em sua programação essas mulheres. Houve nos últimos anos três programas Globo Repórter com reportagens especiais sobre empregadas domésticas, valorizando sua atividade e enfatizando sua ascensão social (GLOBO REPÓRTER 2011a; 2011b; 2011c; 2012a; 2012b). No programa semanal Fantástico, houve

também duas reportagens especiais falando sobre o atual cenário dessas mulheres e sobre seus investimentos crescentes no acesso à educação escolar (FANTÁSTICO, 2011; 2012).

Entretanto, o marco mais significativo dessa midiatização foi a transmissão, pela Rede Globo, de uma novela chamada Cheias de Charme (MINGUEZ e OLIVEIRA, 2012). Pela primeira vez na história das telenovelas brasileiras, empregadas domésticas foram as protagonistas. A temática da novela eram as empregadas, seu cotidiano e a ambição de deixarem de ser empregadas e se tornarem cantoras famosas. Por meio dessa novela, inclusive, a TV Globo, em parceria com a OIT e a ONU Mulheres, veiculou um discurso como ação de responsabilidade social sob o objetivo de conscientizar as empregadas domésticas de que seu trabalho também era digno e de que elas deveriam lutar por seus direitos (GLOBO

CIDADANIA, 2012). Uma gravação feita por duas personagens para uma cena da novela –

uma patroa e outra empregada – acabou sendo transformada em uma ação publicitária da

emissora.

Lígia (patroa): Trabalhar com carteira assinada garante décimo terceiro, férias

remuneradas, salário maternidade, entre outros benefícios.

Penha (empregada): Cozinheira, arrumadeira, babá, mordomo, motorista, é tudo

trabalho digno.

Lígia: Você que é patrão, proteja-se agindo dentro da lei.

Penha: Tu que é empregado, conheça e exija teus direitos (GLOBO CIDADANIA,

10 dez. 2012, s/p.).

No entanto, essa mesma novela trouxe contradições importantes que precisam ser analisadas, como a estereotipação de trejeitos que seriam típicos de mulheres de comunidades e periferias para a única empregada doméstica que era negra entre o trio de protagonistas. E a disseminação do termo empreguetes, até hoje ouvido na mídia e pela própria sociedade, acaba indo de encontro aos esforços de movimentos políticos de mulheres negras para desvincular a sexualidade da imagem da mulher negra. O termo empreguetes apresenta o mesmo sufixo do termo periguetes, que tem sido culturalmente utilizado para designar mulheres fáceis cujos corpos são objetos de satisfação masculina (PORTELA et. al. 2011).

Abaixo, apresento um trecho da música que se tornou o carro chefe da novela.

Vida de Empreguete: Todo dia acordo cedo, moro longe do emprego, quando volto

do serviço quero o meu sofá. / Tá sempre cheia a condução, eu passo pano, encero chão, a outra vê defeito até onde não há [...]. / Queria ver madame aqui no meu lugar, eu ia rir de me acabar, só vendo a cantora aqui no meu lugar, tirando a mesa do jantar. / Levo vida de empreguete, eu pego às sete, fim de semana é salto alto e ver no que vai dar, um dia compro apartamento e viro socialite, toda boa, vou com meu ficante viajar [...] (RIBEIRO, 2012).

Podendo ser considerado um retrocesso na discussão sobre relações raciais e de classe no País, essa estereotipação e o termo empreguetes demonstram que, a despeito das tentativas de valorização das empregadas, esses esforços discursivos mantêm históricas construções sociais sobre as empregadas. Revestidas sob o gênero de humor (para essa música, as protagonistas gravaram um clipe em que se vestiam de patroas), essas manifestações são implicitamente carregadas de preconceitos.

Essa midiatização também ocorreu em relação a outras emissoras da TV aberta brasileira. Torna-se interessante observar que os discursos da mídia que valorizam a PEC trazem também a maneira como ela tem sido socialmente interpretada. Uma das principais interpretações é sua incompatibilidade com as condições das famílias em pagarem todos os direitos que agora lhes serão garantidos. Nesse contexto, as expectativas são de que a informalidade desse tipo de trabalho vá aumentar, o que se alinha ao recente crescimento do número de diaristas, que podem cada vez mais se tornar as opções das famílias que querem trabalhadoras domésticas. Essa é uma observação importante porque, como já argumentei, não basta que existam apenas os direitos trabalhistas (que podem ter efeitos práticos bem distantes do que preveem), é preciso que haja novas condições de liberdade para essas mulheres.

E essas novas condições podem ganhar um importante incentivo da maior qualificação das empregadas domésticas, mas dependem também de alterações nos próprios sentidos do que é ser empregada doméstica em nossa sociedade. Como observamos em relação aos discursos da mídia e também de patroas sobre empregadas domésticas (TEIXEIRA e CARRIERI, 2013), há ainda uma manutenção de tradicionais construções sociais sobre essas mulheres, e que acabam reforçando uma dinâmica que foi discutida no tópico 3.3: a construção da desigualdade como sendo diferença.

Como a discussão acaba sempre girando em torno dessas construções sociais e desses sentidos, acho importante, após esse histórico sobre o trabalho doméstico, trazer o que seria uma sistematização de sentidos sociais e dos jogos de verdade sobre as empregadas que podem ir sendo extraídos de toda essa trajetória histórica.

Benzer Belgeler