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2. KAYNAK ARAŞTIRMASI

2.4. Literatür Özetleri

2.4.2. Çörekotu antioksidan aktivite çalışmaları

Retomando a questão que fiz no início deste capítulo - o que é ser empregada doméstica

na sociedade brasileira – podemos, após essa abordagem histórica, construir uma relação de

alguns sentidos, construções sociais ou jogos de verdade relacionados a essa questão, lembrando que a dinâmica de apreensão de jogos de verdade permite a reconstituição de

verdades que foram historicamente produzidas como se fossem isentas de poderes (FOUCAULT, 2006c; REVEL, 2005).

A verdade está centrada no discurso científico e nas instituições que o produzem; ela é permanentemente utilizada tanto pela produção econômica quanto pelo poder político; ela é muito largamente difundida, tanto por meio das instâncias educativas quanto pela informação; ela é produzida e transmitida sob o controle dominante de alguns grandes aparelhos políticos e econômicos (universidades, mídia, escrita, exército); ela é lugar de um enfrentamento social e de um debate político violentos, sob a forma de ‘lutas ideológicas’ (REVEL, 2005, p. 86-87).

Ao abordar jogos de verdade a respeito do que é ser empregada doméstica na sociedade brasileira, não busco descobrir aquilo que é verdadeiro, pois se parte de um entendimento da não existência de verdades absolutas, como já recorrentemente destacado. Trata-se da descoberta das “[...] regras segundo as quais aquilo que um sujeito diz a respeito de um certo objeto decorre da questão do verdadeiro e do falso” (REVEL, 2005, p. 87). Meu objetivo aqui não é construir sentidos estanques, eles estão abertos a suas variações e diversidades de interpretações e significados sociais atribuídos à personagem da empregada.

Além disso, embora os traga como afirmações positivas, não se trata de verdades universais e que não possam ser contestadas. Entretanto, fazem parte de jogos de verdade que foram sendo construídos a respeito das empregadas. O intuito é extrair do histórico apresentado, de leituras adicionais realizadas e das várias observações já feitas a respeito dos sentidos, aquelas que são importantes para a compreensão da realidade cotidiana dessas mulheres. Ser empregada doméstica na sociedade brasileira assume, então, alguns sentidos como:

1) ser empregada doméstica é principalmente ser mulher e negra (não só no sentido estatístico do termo, mas como significado social);

2) seguir as naturalizações de responsabilidades domésticas atribuídas ao que socialmente se constrói como sendo a mulher (CORONEL, 2010; SAFFIOTI, 2004; PATEMAN, 1993; MAZIERO, 2010) e como sendo a negra;

3) ter históricas vinculações de sentido com o trabalho das escravas domésticas. Essa vinculação gera um sentido social negativo para o ser empregada;

4) assumir uma ocupação que esteve à margem da formação do mercado de trabalho brasileiro, o qual ocorreu com base em dimensões de gênero, raciais, étnicas e econômicas;

5) assumir uma continuidade típica de uma atribuição das responsabilidades domésticas às meninas das periferias e das favelas. As atividades domésticas nesses grupos sociais assumem

o sentido de “[...] obrigação das crianças e ajuda para os adultos” (BERNARDES, 1992, p. 28);

6) representar um elo entre duas ou mais realidades socioeconômicas e culturais distintas: dos grupos sociais aos quais pertencem seus patrões e dos grupos sociais aos quais elas mesmas pertencem. É levar essas distinções para o interior das casas das famílias empregadoras e também para o interior de suas próprias casas, quebrando as barreiras pelo menos geográficas que separam esses distintos grupos;

7) conviver com a ambiguidade entre o afeto e a desigualdade, assumindo o sentido simbólico de ser quase parte da família para a qual trabalha e, ao mesmo tempo, ser cobrada pela postura

de servidão e subalternidade. É “[...] estar sempre à disposição do outro ou da outra; implica

fazer uma atividade qualquer do jeito que o outro ou a outra gosta; ser considerada naturalmente uma espécie de adivinhadora dos desejos dos(as) outros(as); a total

disponibilidade de tempo” (ÁVILA, 2008, p.68);

8) embora haja mudanças importantes nas relações do trabalho doméstico e, em muitos casos, ocorra uma relação mútua de respeito entre patrões e empregados, ser empregada doméstica

ainda é ser negada como sujeito e ser também negada como mulher (“[...] naquele espaço, só

existe uma mulher, a dona da casa, e a outra é sistematicamente negada como mulher e como sujeito” (ÁVILA, 2008, p. 69);

9) romper com a intimidade e a privacidade da vida familiar, sendo intimidade e privacidade dois discursos da modernidade que foram se incorporando à sociedade (RONCADOR, 2007); 10) ser uma ameaça à integridade física e moral das famílias;

11) necessitar de vigilância;

12) ser considerada intelectualmente inferior;

13) trazer consigo as heranças do período escravocrata no que se refere à sexualidade. Como as escravas podiam servir como objetos de prazer de seus senhores (SILVA, 2007), as empregadas podem assumir socialmente o significado de ameaças a casamentos e de potenciais iniciações sexuais de adolescentes;

14) assumir uma atividade naturalizada que não recebe socialmente o status de profissão. É ser considerada uma profissional de segunda classe (CORONEL, 2010). Em geral, as próprias empregadas não se contrapõem a esse substatus, seja quando se mantêm nessa atividade ou quando buscam outras que seriam as verdadeiras profissões;

15) figurar como a memória de outras domésticas. “No Brasil, a memória das babás faz parte

memórias das suas babás e gostam de relembrá-las [...] porque estas memórias são parte de seu

status de classe” (ÁVILA, 2008, p. 69);

16) assim, ser empregada doméstica vai além de ser uma personagem importante na manutenção das famílias (CORRÊA, 2007), como acontece quando as outras mulheres se inserem no mercado de trabalho formal; é ser parte mesmo do modelo socialmente construído de família burguesa no Brasil (ÁVILA, 2008).

É interessante observar que esse modelo de família burguesa brasileira que incorpora a empregada doméstica não permanece restrito a apenas alguns grupos sociais. Ele também é disseminado nos próprios grupos aos quais pertencem as empregadas, tanto que temos a personagem da doméstica da doméstica, mencionada no tópico 3.2.

Como se pode perceber, as contradições são peculiaridades dos sentidos apresentados. Para citar apenas uma delas, as empregadas são personagens importantes desse modelo de família brasileira, mas, quando a discussão envolve o âmbito social que extrapola o ambiente doméstico, elas são consideradas profissionais de segunda classe. Essa consideração nos leva a uma reflexão sobre a maneira pela qual as empregadas domésticas são vistas nas hierarquias profissionais e sociais.

O sentido social que se construiu a respeito do que seria uma profissão foi o de um monopólio de uma área de conhecimento especializado e institucionalizado (GONÇALVES, 2007). Estamos em uma sociedade na qual a educação escolar é base de socialização e de hierarquização e os certificados acadêmicos são um instrumento importante de distinção dos grupos profissionais (BARBOSA, 2003). Além disso, uma das principais fontes de legitimidade social das profissões é sua possibilidade de servir à coletividade (GONÇALVES, 2007). Além de ser um trabalho que não exige conhecimento técnico e/ou científico, que não se relaciona a uma educação escolar, e não é institucionalizado, o trabalho das empregadas é exercido em um contexto privado. E

[...] a mesma hierarquia que organiza, pelo valor, as diferenças entre trabalhos realizados por homens e por mulheres, possibilitou o não reconhecimento dos trabalhos que ocorrem na esfera doméstica e são relacionados ao mundo privado. Os cuidados, geralmente atribuídos às mulheres, com as crianças, a casa e seus moradores, não são considerados trabalhos [...] (MARCONDES et.al., 2003, p. 93).

O cuidado é naturalmente atribuído à mulher (RAZAVI, 2007) como sendo uma extensão das tarefas femininas, algo que seria feito por amor (FEDIUK, 2009). Um trabalho que não necessitaria de conhecimento técnico, mas de um conhecimento naturalizado, algo que já seria habilidade natural dessas mulheres. E como a ideia de profissão é uma das formas

de organização da desigualdade social (LARSON, 1977), quando o trabalho doméstico não atende a esses requisitos sociais e tradicionais para a consideração da atividade ocupacional como sendo profissão, acaba assumindo um sentido social de subalternidade.

Para finalizar essa discussão sobre os sentidos sociais do que é ser empregada doméstica, é oportuno apresentar, na figura 5, uma manifestação de humor na Internet que exemplifica alguns dos sentidos sociais que foram aqui sistematizados.

Figura 5. Revista Maria Creuza

Fonte - Eu Hein Blogspot, 2003.

ª Essa figura 5 foi encontrada em um blog que criava ficcionalmente a revista intitulada

Maria Creuza. Sob o pretexto do discurso humorístico, essa figura traz vários significados sociais que são atribuídos às empregadas. Em primeiro lugar, a imagem é de uma mulher construída como negra que tem enfatizados os traços fenotípicos atribuídos aos negros, como o cabelo crespo, o nariz achatado e os lábios volumosos, sendo que a careta feita pela mulher reforça essas características. O nome atribuído à doméstica traz um estereótipo relacionado à inferioridade intelectual dos pobres, que, inclusive, grafariam errado nomes como Cleusa. O sentido de ameaça à integridade física das famílias está presente no trecho: vingança: eu

limpei a bunda no pano de prato da patroa. A ideia de inferioridade intelectual volta a aparecer no trecho cabelos: o alisamento a ferro de passar funciona?, que constrói a imagem da empregada como sendo ignorante. Além disso, a figura 5 traz implicitamente a tradicional ideia de que as empregadas não são confiáveis e não gostam de trabalhar, precisando, por esse

motivo, ser vigiadas. Esse implícito está presente em dois trechos: 10 desculpas infalíveis para

faltar na sexta-feira e grátis agenda para anotar qual parente você já matou este ano.

Discutidos então alguns sentidos do que é ser empregada doméstica, ressalto que eles se referem a um devir. Eles podem ir sendo alterados ao longo dos anos, podendo enfraquecer diante de novos cenários ou mesmo se fortalecer. Nessa dinâmica, é comum que se tornem, assim como os preconceitos sociais e raciais, sentidos, muitas vezes, velados e camuflados em discursos e práticas cotidianas. Além disso, os sentidos não se esgotam entre os aqui apresentados, eles refletem apenas algumas facetas do trabalho doméstico na sociedade brasileira.

Benzer Belgeler