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2. KAYNAK ARAŞTIRMASI

2.1. Enerji ve Kaynakları

2.1.2. Dünya da ve Türkiye’de yenilenebilir enerji kaynakları

2.1.2.1. Hidrolik enerjisi

Utilizo o termo mensalistas residentes para me referir às empregadas domésticas que recebem um salário mensal pelo trabalho executado e que residem em seu próprio local de trabalho. A diferença em relação às criadas do período pós-escravocrata é que as empregadas que trabalhavam (ou ainda trabalham) como mensalistas residentes passaram a receber uma retribuição pecuniária por seu trabalho. Trata-se de uma relação cuja configuração é um pouco mais legitimada pela sociedade se compararmos à relação de trabalho dessas criadas. No entanto, é um trabalho ainda marcado pela informalidade, pela falta de proteção social e pela precariedade (HIRATA, 2008).

Durante um bom tempo no Brasil, foi comum que as empregadas domésticas residissem na casa de seus patrões. A coincidência relativa ao lugar de trabalho e moradia gerava uma dinâmica de informalidade muito significativa. As mulheres acabavam ficando disponíveis a todo o momento para satisfazer as necessidades de seus patrões. Mesmo com o início das relações assalariadas, algumas dinâmicas simbólicas do período escravocrata eram mantidas, como a divisão hierárquica dos espaços da casa. Embora as empregadas pudessem ter acesso a todos os ambientes em virtude do trabalho exercido, esse acesso era restrito no que se referia a determinados horários e, sobretudo, ao local onde elas dormiam e faziam suas necessidades. Em geral, seus quartos, bastante pequenos, se encontravam próximos à cozinha, e o uso do banheiro também era restrito ao que lhes era atribuído. Quarto e banheiro se conjugavam no que se chamou de dependência de empregada. Bianco (2010) destaca ser comum ainda que essas dependências fossem localizadas quase fora das casas.

Essa divisão se estendia ainda a outros ambientes, não somente à casa. No caso de prédios residenciais, era e ainda é comum a separação no que se refere ao uso de elevadores. Em geral, os elevadores designados como elevadores de serviço deviam ser usados pelas

empregadas e demais trabalhadores domésticos, enquanto os elevadores designados como sociais eram de uso restrito aos moradores e seus visitantes.

Esse fenômeno da convergência entre local de moradia e de trabalho é marcado por algumas contradições, e duas delas são importantes para essa discussão. A primeira é que as empregadas residentes contavam com um maior nível de formalização do trabalho, escolaridade e permaneciam um maior tempo empregadas. No entanto, havia um alto nível de exploração na relação de trabalho configurada (IPEA, 2011a), o que nos faz lembrar a servidão característica do período escravocrata. Submetidas aos interesses e às vontades dos patrões, sobrava pouco tempo para que elas pudessem se dedicar às suas vidas pessoais.

A segunda contradição é o surgimento do discurso como se fosse da família ou quase

parte da família (IPEA, 2011a). Esse discurso passou a ser ouvido em muitas casas que tinham suas empregadas residentes. E vinha acompanhado de muitas contradições (ÁVILA, 2008) cotidianas, pois, ao mesmo tempo em que criava um clima de afetividade e proximidade, mantinha as divisões hierárquicas relativas aos acessos aos espaços e às práticas dos patrões. Para Roncador (2007), essas mulheres eram consideradas consumidoras desautorizadas dos bens e dos hábitos de seus patrões. O problema das contradições criadas é que traduzir essas relações de trabalho em afetividade mascara relações de poder e desigualdades (IPEA, 2011a).

O sociólogo Ronaldo Sales utiliza como argumento para a explicação da existência do discurso do quase parte da família o que chama de complexo de Tia Anastácia (SANTOS, 2010). O autor faz referência à personagem Tia Anastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo, obra literária infantil. Criada como uma negra de estimação, ela é uma personagem que representa justamente as ambiguidades geradas por esse discurso de que as empregadas seriam quase parte da família.

Tia Nastácia, negra de estimação [...] desfruta da afetividade da matriarcal família branca para a qual trabalha e, ao mesmo tempo, apesar de suas breves, mas muito significativas incursões pela sala e varanda, encontra no espaço da cozinha emblema de seu confinamento e de sua desqualificação social. Ao longo da obra infantil lobatiana, a exceção ao carinho brincalhão que a cerca vem sempre pela boca da Emília que em momentos de discussão e desentendimento desrespeita a velha cozinheira, como sucede em algumas passagens de Histórias de Tia Nastácia: ”Pois cá comigo - disse Emília- só aturo estas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras - coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto ! - Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe ? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora! - Emília , Emília ! - ralhou Dona Benta. A boneca botou-lhe a língua” ( p.132 ) (LAJOLO, 1998, p. 1).

De acordo com Santos (2010), é um complexo que alimenta uma interação subordinada. A empregada tende a ser considerada parte da família, mas sem sair da condicionante do

quase. De acordo com Ferreira (2009), as tentativas de transformar discursivamente a empregada em pessoa da (ou quase da) família ocorrem justamente nas interações da vida cotidiana.

Em alguns casos, as empregadas eram levadas ainda crianças ou adolescentes por suas próprias famílias para trabalharem e morarem nas casas dos patrões. Nessa dinâmica, acabavam perdendo possibilidades de criação e de manutenção de outros vínculos sociais e afetivos, o que acontecia, inclusive, em relação à própria família de origem (TEIXEIRA,SARAIVAe CARRIERI, 2015). Em muitos casos, a falta de acesso à educação escolar as confinava ainda mais a essa falta de vínculos, o que podia gerar uma dependência psicológica em relação à família de seus patrões. Essa dependência reforçava a própria continuidade da condição de empregadas domésticas.

No entanto, não podemos pensar nesse processo como simplesmente impositivo à realidade das empregadas sem que houvesse práticas de resistência. Trata-se mesmo de um processo restritivo e bastante influenciador nos rumos da vida das meninas e nas possibilidades que lhes seriam ofertadas., Práticas de resistência eram, porém, desenvolvidas, desde algumas micro no próprio cotidiano do trabalho, como também as fugas. Sobre essas fugas, é interessante o que pude observar quando ouvi a história de vida de três empregadas domésticas. As fugas ou mesmo saídas das casas dos patrões com as quais estavam vinculadas desde crianças ou adolescentes representaram justamente a criação de outros vínculos sociais, como fazer amizades, ter um companheiro e filhos (TEIXEIRA, SARAIVA e CARRIERI, 2015). Essa observação coaduna com a afirmação de Zanetti e Sacramento (2009), que relatam o menor índice de casamento entre as jovens que vão cedo para o trabalho doméstico.

Sobre essa discussão, pontuo novamente a importância de se pensar esse cenário do trabalho doméstico de forma atrelada à discussão histórica sobre a escravidão porque a situação de desproteção e de falta de opções e possibilidades para uma cidadania plena é fruto das construções sociais a respeito das mulheres, dos negros e dos pobres e da posição social de subalternidade que eles ocuparam desde a formação da sociedade brasileira. Para Ferraz e Rangel (2010), o trabalho doméstico no Brasil se confunde com a própria história escravocrata. E, quando relatamos esses casos de meninas cujo destino podia se confinar às casas de seus patrões, relatamos justamente a manutenção de aspectos do período escravocrata.

Outro aspecto escravocrata mantido no caso das mensalistas residentes é a imagem das empregadas como sendo ameaças à integridade física e moral das famílias. Assim como nos períodos discutidos nos itens 3.4.1 e 3.4.2, as empregadas eram consideradas, por exemplo, ameaças ao casamento de seus patrões. O mesmo receio que as patroas tinham no período escravocrata de que seus maridos fossem seduzidos pelas empregadas é observado nos dias atuais. As duas citações que apresento a seguir demonstram essa continuidade. A primeira delas traz relatos de Freyre (2003) a respeito do período escravocrata. A segunda traz um discurso de uma patroa, publicado em 2009 em comunidade virtual sobre empregadas domésticas em uma rede social, e analisado por Teixeira e Carrieri (2013).

Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa [...]. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. [...] O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher (FREYRE, 2003, p. 420-421).

No dia da folga, [as empregadas] se aproveitam para se vingar porque não deixamos elas colocarem qualquer roupa para trabalhar e saem com uma saia que dá para ver até o útero, molham os cabelos, colocam óculos escuros e fazem questão de passar na frente dos nossos maridos como se dissessem: tá vendo o que vc tá perdendo? (se é que eles estão perdendo, mesmo, né? nunca se sabe!) - Publicação anônima na comunidade do Orkut Vítimas de Empregada Doméstica em 2009 (TEIXEIRA eCARRIERI, 2013, p. 63).

Esse clima de desconfiança se justifica pela entrada e moradia de uma pessoa estranha em casa, mas é reforçado pela construção social da escrava doméstica / criada como serva sexual e por imagens estereotipadas das empregadas, o que prejudica o relacionamento que se estabelece entre elas e suas patroas. Essa observação é importante porque é justamente com as mulheres que as empregadas mais se relacionam, já que socialmente elas são as responsáveis pelos assuntos domésticos. Embora a participação dos homens tenha crescido nessas atividades, ou que hoje tenhamos arranjos familiares constituídos apenas por eles, a interação no trabalho doméstico ainda é preponderantemente protagonizada por mulheres.

Após discutir as práticas relacionadas às mensalistas residentes, trarei no próximo tópico a situação das empregadas que não residem em seus locais de trabalho.

Benzer Belgeler