• Sonuç bulunamadı

3 PAUL KLEE’NĠN SANATI ÜZERĠNDEKĠ ETKĠN OLGULAR

3.1. Paul Klee’nin Doğa Algısı

Num primeiro momento, quando o PMCMV foi lançado não havia qualquer indicativo legal quanto à localização dos empreendimentos, o que possibilitou que vários conjuntos em nível nacional fossem construídos nas periferias das cidades, da mesma forma que ocorreu na época do BNH. Além da falta de regulamentação, entende-se que dois fatores contribuíram para que isso ocorresse: um fator é o preço da terra e o outro é o fato das escolhas desses terrenos, exceto raras exceções, estarem concentradas nas mãos da iniciativa privada, já que a maioria dos municípios não possui estoque de terras.

Conjugado com a experiência dos resultados do BNH, em que muitos empreendimentos foram construídos em locais periféricos, com infraestrutura precária e urbanização inexistente, o que trouxe várias consequências para o espaço urbano, e visualizando a ineficiência dos municípios em conjugar política urbana com política habitacional, em 2010, o Ministério das Cidades, lançou uma cartilha intitulada: Como produzir moradia bem localizada com os recursos do MCMV? Apontando para a utilização dos instrumentos democráticos previstos no Estatuto da Cidade, tais como a função social da propriedade, ocupação dos vazios urbanos, dentre outros. Além disso, em 2011 foram inseridos alguns artigos na Lei 11.799/2009 através da Lei nº12.424, destacando-se dentre eles o art. 5º que dá ênfase à localização dos empreendimentos:

Art. 5o-A. Para a implantação de empreendimentos no âmbito do PNHU, deverão ser observados:

I - localização do terreno na malha urbana ou em área de expansão que atenda aos requisitos estabelecidos pelo Poder Executivo Federal, observado o respectivo plano diretor, quando existente;

II - adequação ambiental do projeto;

III - infraestrutura básica que inclua vias de acesso, iluminação pública e solução de esgotamento sanitário e de drenagem de águas pluviais e permita ligações domiciliares de abastecimento de água e energia elétrica; e

IV - a existência ou compromisso do poder público local de instalação ou de ampliação dos equipamentos e serviços relacionados a educação, saúde, lazer e transporte público.

A alteração relativa à localização dos conjuntos foi fruto de muitas críticas feitas ao PMCMV principalmente por estudiosos como-se Maricato (2011) e Bonduki (2009) Rolnik et al.(2009), dentre outros.

Pela transcrição do art. 5º, pode-se observar uma alteração na ideologia do PMCMV em relação à anterior política do BNH. Em termos da legislação, ele prevê não apenas a disponibilização da casa própria, mas também evidencia a preocupação em proporcionar melhoras na qualidade de vida quando preza pela boa localização, pela adequação ambiental, e por uma política habitacional conjugada com a urbana, já que prevê a disponibilização de infraestrutura básica. Além, disso, explicita que nos locais de construção dos empreendimentos, o poder público tem que se comprometer a ampliar os equipamentos e serviços ligados a educação, saúde, lazer e transporte público. Observa-se que os gestores municipais ainda não se conscientizaram da importância de agregar política urbana à política habitacional, e dessa forma acabam arcando com os gastos não contabilizados inicialmente, o que potencializa tanto os problemas de deslocamentos, quanto os sociais, a exemplo da vulnerabilidade social.

No caso da localização dos empreendimentos destinados à população de baixa renda ser construídos nas regiões periféricas, sem infraestrutura, ou em condições precárias, é de notório conhecimento a influência que o valor da terra, o capital imobiliário e a sociedade exercem na localização dos empreendimentos para essa população. Em 1979, Singer já apontava que a especulação imobiliária influi diretamente nas decisões do poder público quando adquire terrenos próximos ao perímetro urbano, desprovidos de serviços, para loteá- los, de modo a ocupar a parte mais distante da área urbanizada. O exemplo, citado por Singer, refere-se à cidade de São Paulo, em que os promotores atraem a população de baixa renda para esses lotes, criando os vazios urbanos, que paulatinamente passam a ser valorizados. Mas enquanto isso, a região periférica é mal servida pelos serviços urbanos. Dessa forma, o capital imobiliário acaba indicando a direção das áreas a serem beneficiadas com a expansão de serviços. Não há lei que tenha mais influência na realidade do que esses poderes locais71, principalmente o mercado imobiliário.

"...analisando a proposta do PMCMV tendo como referência o que foi a experiência da política habitacional do Regime Militar – período de maior construção de

71

Explicita-se que o poder municipal é representado pelo poder executivo e legislativo, enquanto o poder local é exercido por aqueles que possuem influência direta sobre o primeiro. Em um regime democrático o Poder Local deveria ser realizado a partir de noções de descentralização e participação da cidadania no poder político. Entretanto, em muitas cidades, principalmente nas cidades de pequeno porte e interioranas, essa não é a realidade. Segundo Ramos e Barbosa (2003), o poder municipal sofre influência direta do poder local (grupos sociais que dominam o conjunto das instituições municipais no nível das finanças, da indústria, da agricultura e da pecuária, comércio, etc). Situações essas evidentes no caso de Viçosa.

moradias no pais – foi possível prever o que a experiência recente já mostra: o impacto negativo sobre as cidades devido à localização inadequada de grandes conjuntos habitacionais e ao aumento do preço da terra e dos imóveis. A maior parte da localização das novas moradias – grandes conjuntos sendo alguns, verdadeiras cidades, será definida nos municípios e metrópoles, por agentes do mercado mobiliário sem obedecer a uma orientação pública, mas à lógica do mercado.” (MARICATO, 2011, pg.68)

Embora o exemplo de Singer refira-se à expansão de São Paulo, na década de 1970, em Viçosa a realidade não é diferente. Conforme já informado, a cidade sofre as consequências de um boom imobiliário72 e por sua influência direta no valor da terra, dos imóveis e dos serviços disponibilizados no espaço urbano. Como o município não possui estoque de terras, os terrenos para a construção dos empreendimentos para a população de baixa renda foram os apresentados pelas construtoras responsáveis. Nessa lógica, certamente, os terrenos não seriam os localizados na área central e valorizada da cidade, devido à especulação imobiliária, mas principalmente objetivando o direcionamento da parte da cidade que deve crescer. Dessa forma, utilizam-se os terrenos mais baratos, que estão localizados em regiões menos valorizadas da cidade, que ainda não estão munidos de infraestrutura, criando- se os vazios urbanos e o governo local é pressionado pela população residente da nova região para a criação de infraestrutura e disponibilização de serviços. Com isso, os vazios urbanos passam a ser necessariamente valorizados, favorecendo os proprietários.

Maricato73 explicitou as consequências do boom imobiliário para as cidades, e que tão bem reflete a realidade de Viçosa:

Os governos municipais não estão se esforçando quanto deveriam para fazer uma política urbana (fundiária e imobiliária) para, com a aplicação dos instrumentos do Estatuto da Cidade, ampliar a oferta de terras para moradia social e elaborar políticas para habitação social. O pior resultado dessa falta de gestão urbana é o aumento do preço da terra, o espraiamento horizontal da cidade e o adensamento de áreas sem infraestrutura.

Singer em 1979 aponta situações ocorridas naquela época, Maricato aponta situações que ocorrem na época atual, e ambos parecem retratar situações reais vividas em várias cidades. No caso de Viçosa, a área destinada para a construção dos conjuntos BJC e CSF são zonas rurais que, embora não muito distantes do centro, possuem difícil acesso ao bairro mais próximo e ao centro da cidade, além de infraestrutura e serviços inexistentes, que foram

72 A bolha imobiliária decorre pelo fato de que o mercado imobiliário é regulado pela lei da oferta e da procura, com a subida dos preços dos imóveis, as pessoas passam a investir na compra dos mesmos para investimento, o que reflete numa falsa sensação de imóveis no mercado, contribuindo para o aumento da especulação imobiliária. E em momento de crise essa bolha pode estourar. Informações disponível em: http://leorossatto.wordpress.com/2012/01/09/a-bolha-imobiliaria/. Acesso realizado em maio de 2013.

73

Opinião proferida por Maricato sobre o boom imobiliário disponível no site:

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/173/fato-opiniao-qual-sera-o-impacto-do-boom-imobiliario-97591- 1.aspx. Acesso realizado em Junho de 2013.

disponibilizados de forma precária após a ocupação da região. Já o conjunto Floresta foi construído numa região distante do centro, numa área em que o processo de urbanização está ainda bastante incipiente. A despeito disso, os projetos foram aprovados tanto pela Caixa quanto pelo município.

Sob seu encargo, e tendo a aprovação do projeto pelo município, as construtoras construíram os conjuntos onde desejaram, sem se preocuparem com a questão social e urbana. É plenamente inteligível que as construtoras assim agissem, já que a sua lógica é a do mercado e do lucro, enfim, do capital. Mediante a alocação dos empreendimentos do PMCMV nessas regiões, novos vazios urbanos foram construídos, e novas regiões da cidade necessitam ser munidas de serviços e infraestrutura.

Em que pese esse direcionamento, é preciso evidenciar que mais de trinta anos separam a década de setenta e a década atual, entretanto, o modo de conduzir as políticas urbanas parecem o mesmo, mesmo havendo vários avanços em virtude da Constituição Federal e do Estatuto da Cidade, que instituíram instrumentos, mais democráticos para o uso e a ocupação do solo, preconizando a função social da cidade e da propriedade. Dessa forma, diferente da estrutura legal de 1979, os municípios contam com novas possibilidades na construção do espaço urbano; entretanto, ainda há forte influência tanto do capital, quanto de forças políticas que impedem a democratização das políticas urbanas na gestão das cidades.

Essa realidade pode ser comprovada ao se verificar que, no caso de Viçosa, o município através de seus gestores, deixou de utilizar instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, bem como de aplicar o próprio Plano Diretor, no direcionamento da política habitacional, ora discutida. Com isso, o município segue por reproduzir ações vigentes à época do BNH, ou seja, construir muitas moradias para população de baixa renda, ainda que em regiões não urbanizadas74, para ser objeto de troca nos momentos oportunos.

Por outro lado, o Conselho Municipal de Habitação não foi chamado para atuar no momento inicial da implantação do PMCMV, principalmente quanto à escolha da localização dos empreendimentos. Após a aprovação e o início das obras, o conselho foi convidado a conhecer o local das obras e para participar da seleção dos beneficiários, o que envolveu a eleição dos critérios de seleção e análise dos cadastros dos candidatos. Dessa forma, percebe- se que nem mesmo o próprio Conselho Municipal de Habitação, que possui formação legítima e paritária, foi consultado sobre a localização. O que se conclui é que embora o conselho funcione para direcionar a política habitacional do município, principalmente no que diz

respeito à política habitacional para a população de baixa renda, no caso do PMCMV ele ficou a margem das principais decisões, principalmente quanto ao projeto e localização dos empreendimentos.

Portanto, uma vez que a escolha dos locais de construção dos empreendimentos está praticamente concentrada nas mãos do mercado privado, e o município não tratou de aplicar nem o Plano Diretor Local, nem os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, não há como prever resultados diferentes dos ocorridos na época do BNH. A não ser que as administrações municipais primem por conjugar a política habitacional com a política urbana, fazendo valer os princípios preconizados tanto na Constituição Federal como no Estatuto das Cidades. Não se visualiza resultados diferentes e melhores para a localização de construção de novos empreendimentos a não ser através da ação do município em munir de serviços e infraestrutura básica essas localidades, situação essa já prevista por quem possui a concentração do capital imobiliário, conforme apontado por Singer (1979).