2. KAYNAK ARAġTIRMASI
3.2. Kimyasal Sentezler ve Karakterizasyon
3.2.6. p-ter-Bütilkaliks[4]arenin Dealkilasyonu (6)
Assim como o afeto, o direito à busca da felicidade também foi trazido como
fundamentação no voto do relator das supracitadas ações.444
O direito à busca e obtenção da felicidade encontrava-se inserto, como direito inato que a sociedade não poderia suprimir, na Declaração de Direitos do Bom Povo da Virgínia, de
Inexistência de ato ilícito no âmbito do direito obrigacional. Indenização indevida. Recurso provido. (AC 5995064900 TJ SP 4ª Cam. Dir. Privado. Rel. Desem. Maia da Cunha. Pub. 18.12.2008).
442 Os elementos morais, ou valores, seriam dispostos na Constituição por meio das normas com estrutura de
princípios, os quais teriam a função de unir e harmonizar o texto constitucional, orientando as regras nele igualmente dispostas, de modo a atingir uma eficácia interpretativa do texto magno (BARROSO, Luís Roberto. op. cit., p. 343).
443 Num exemplo de julgado que não atentou para a precisão argumentativa, a ementa chega a afirmar que a
marginalização das relações homoafetivas seria uma forma de privação do direito à vida (afirme-se que não se está aqui a discutir o mérito do julgado, o seu resultado final, a sua parte dispositiva, mas tão somente apontando-se a imprecisão conferida aos conteúdos dos direitos fundamentais mencionados): Apelação Cível. União Homoafetiva. Reconhecimento. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e da Igualdade. É de ser reconhecida judicialmente a união homoafetiva mantida entre duas mulheres de forma pública e ininterrupta pelo período de 16 anos. A homossexualidade é um fato social que se perpetua através dos séculos, não mais podendo o Judiciário se olvidar de emprestar a tutela jurisdicional a uniões que, enlaçadas pelo afeto, assumem feição de família. A união pelo amor é que caracteriza a entidade familiar e não apenas a diversidade de sexos. É o afeto a mais pura exteriorização do ser e do viver, de forma que a marginalização das relações homoafetivas constitui afronta aos direitos humanos por ser forma de privação do direito à vida, violando os princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade. Negado provimento ao apelo. (segredo de justiça). (Apelação Cível Nº 70012836755, 7ª Câmara Cível. Tribunal de Justiça do RS. Relator: Maria Berenice Dias. Julgado em 21.12.2005).
444
16 de junho de 1776.445 Também a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em seu preâmbulo, invoca o desiderato de que as reivindicações dos cidadãos fossem dirigidas à
preservação da Constituição e à felicidade geral.446
O conceito de felicidade envolve uma abstração fácil de constatar, porém difícil de definir, pois se compõe de inúmeros elementos, não se prestando a uma expressão unificada. Primeiro, há que se fixar que esse conceito tem dois sentidos: ou se refere a um sentimento individual, ou a um sentimento geral, passível de ser apropriado socialmente. Nesse último sentido parecem encaminhar-se as menções à felicidade nos documentos supracitados, com destaque para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que cita a felicidade geral como objetivo das reivindicações populares. Assim, seria essa felicidade geral correspondente a um bem-estar típico de uma sociedade de pessoas providas das necessidades básicas para a vida em boas condições. O difícil é precisar o que seriam essas boas condições, pois a apreensão desse conceito também se diversifica de sociedade para sociedade.
A Constituição brasileira positivou a busca do bem-estar social, dispondo-o nos objetivos fundamentais da República nos incisos do art. 3º. Também o caput do art. 5º, que garante a inviolabilidade dos direitos à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade, se dirige à busca desse bem-estar geral pelo qual se poderia definir a felicidade em um sentido social.
Problemática é a definição da felicidade em seu significado individual, já que nesse sentido o sentimento assume todo o seu potencial de abstração, individualizando-se. Seu conteúdo escapa à apropriação política, situando-se os motivos de tal estado de espírito no psiquismo de cada pessoa. A felicidade, no sentido político, passível de ser constitucionalizada, só pode ser, pois, a felicidade geral, positivada na Declaração da Virgínia e na Declaração francesa, e buscada, como objetivo fundamental, pela Constituição brasileira de 1988.
A palavra felicidade não consta da Constituição brasileira de 1988. Há quem aponte mesmo um anacronismo querer situar a felicidade como uma finalidade do Estado de Direito na modernidade, uma vez que a menção a essa categoria, sob os ventos do iluminismo, corresponderiam a um otimismo resultante do fim da opressão do antigo regime
445 Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-
cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-direitos- do-bom-povo-de-virginia-1776.html>. Acesso em: 21 set. 2014. O direito à busca e obtenção da felicidade está inscrito no item I.
446 Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-
cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-direitos- do-homem-e-do-cidadao-1789.html>. Acesso em: 21 set. 2014.
monárquico.447 Para tal opinião, seria desnecessário mencionar a felicidade como justificativa para que o Estado garanta os direitos sociais, como segurança, saúde, lazer e moradia, insertos
no art. 6º da Constituição brasileira.448 Tais direitos seriam condições para o bem-estar social,
mas não para a felicidade, que não significa a mesma coisa e nem deve ser confundida com o
dito bem-estar.449
Com efeito, apesar da pontuação que aqui se fez, de que o conceito de bem-estar coletivo pode corresponder à felicidade geral, a presença da palavra felicidade no citado dispositivo não teria o condão de aumentar a responsabilidade do Estado na garantia daqueles direitos lá mencionados, nem de fazê-lo cumprir essa responsabilidade, aliás ainda agora não cumprida, passadas quase três décadas da promulgação da Constituição.
Mais problemática se afigura a aproximação da felicidade coletiva com a felicidade
individual, como foi feito no voto condutor da decisão ora em comento.450 Logo em seguida à
menção da felicidade como estado de espírito consequente, o relator faz derivar a preferência
sexual da dignidade da pessoa humana.451
Outro julgador encerra o aditamento a seu voto com a assertiva de que o STF daria um
projeto de felicidade aos homossexuais452, proposição carregada de pretensões redentoras que
denegam, de vez, qualquer pretensão de natureza jurídica da decisão. O projeto de felicidade pessoal é por definição projeto do próprio sujeito, fazendo parte de suas expectativas de vida, de sua autodeterminação. Obviamente, tal projeto existe independentemente da concretização do seu objeto, a felicidade. Não é algo doado ou recebido.
Outros votos mencionaram o direito à busca da felicidade, ora como sendo vedado ao
Estado obstá-lo,453 ora como princípio constitucional implícito, derivado da dignidade da
pessoa humana.454
As menções à busca da felicidade não seriam, porém, necessárias na decisão proferida na ADPF 132/RJ e ADI 4277/DF, porque não reforçam a argumentação especificamente
447 REALE JÚNIOR, Miguel. Direito à Felicidade. Disponível em:
<http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,direito-a-felicidade-imp-,675592>. Acesso em: 21 set. 2014. Em artigo jornalístico, o autor se refere a uma proposta de Emenda Constitucional, de autoria do Senador Cristovam Buarque, que visa a inserir no art. 6º da Constituição a menção aos direitos sociais lá inseridos como essenciais à busca da felicidade. Ele também se refere a outra proposta de Emenda Constitucional apresentada pela Deputada Manuela D’Ávila, no mesmo sentido, justificando-se tais insertos ao argumento de que a felicidade geral desencadeia a busca pela felicidade individual.
448 REALE JÚNIOR, Miguel. op. cit. 449 REALE JÚNIOR, Miguel. op. cit.
450 Voto do Min. relator Ayres Britto fez derivar da Declaração de direitos do bom povo da Virgínia o Direito à
busca da felicidade que embasaria o seu voto. p. 2.089.
451 Voto do Min. relator Ayres Britto. p. 2.089. 452 Voto do Min. Luiz Fux. p. 2.143-2.144. 453
Min. Marco Aurélio. p. 2.270.
454
jurídica, tendo em vista que nada acrescentam ao conteúdo dos já positivados e robustos
direitos de liberdade e igualdade, e ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade,455 os
quais muito mais serviriam à consistência de uma fundamentação que quisesse legitimar a decisão tomada, de modo que a busca da felicidade figurou mais como retórica do que como fundamento em direito positivado constitucionalmente.
Conclui-se que seria impossível a uma Corte dar – conferir, doar – a quem quer que seja um projeto de felicidade. Ainda mais um projeto individual, um projeto de vida, que só pode ser definido pelo indivíduo. A abstração de que se reveste o sentimento de felicidade é a mesma que existe nos projetos pessoais que eventualmente os indivíduos possam ter. Assim, como o afeto, a felicidade somente serviu, na decisão em comento, como um recheio discursivo.