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Escolher uma profissão e se desenvolver nela envolve, essencialmente, um processo de reconhecimento de oportunidades e de implementação de um trabalho de autoconhecimento, obtidos a partir de um processo de aconselhamento de carreira (TABER et al., 2011). Apesar de algumas pessoas não precisarem de uma ajuda especializada, muitas outras precisam de alguma orientação ou de um coach no momento de organizar e planejar a sua vida financeira e sua carreira.

Algumas pessoas estão começando a se perguntar por que deram 30 ou 40 anos de suas vidas a um trabalho, sem planejamento e negligenciaram outras partes da vida (HANSEN, 2001). Em geral, busca-se um planejamento de vida para tratar de temas como: a herança, a aposentadoria, o envelhecimento, a formação de família, a atuação social e a carreira, sempre buscando um sentido para as ações e planos (WALKER, 2004).

Há cerca de três décadas, apenas questões financeiras eram alvo dos serviços de orientação e de planejamento de vida. Porém, mais recentemente, alguns outros assuntos também começaram a despertar o interesse de alguns indivíduos na procura por um profissional, que era acostumado a ser apenas o consultor financeiro pessoal (KINDER; GALVAN, 2005). Esses assuntos envolvendo questões não-financeiras, hoje em dia, respondem pela parcela mais significativa do trabalho dos coachs (SUSSMAN; DUBOFSKY, 2009a).

O planejamento de vida, que num primeiro momento levava em conta apenas aspectos financeiros, passou a incorporar aspectos não financeiros também. O planejamento de vida começou a ser divido em blocos de planejamento menores, levando em consideração aspectos peculiares para vida do indivíduo (KOSHY, 2003; 2011).

Hansen (2001) relacionou uma série de mudanças ocorridas nos últimos anos que tiveram impacto sobre as profissões de orientação: maior afluxo da entrada da mulher no mercado de trabalho; reconhecimento da conexão e da necessidade de equilíbrio entre o trabalho e a família; aconselhamento multicultural devido ao aumento de imigrantes e migrantes nos grandes centros; desenvolvimento ativo de carreira pelo próprio indivíduo, ao invés apenas da iniciativa da empresa; maior reconhecimento da importância da espiritualidade na vida e no trabalho; a preocupação com a violência nas escolas, nos locais de trabalho e nas comunidades e, por fim, a crescente disparidade entre ricos e pobres.

Sussman e Dubofsky coordenaram um estudo exploratório com 1.374 coachs nos E.U.A., que trabalham com o tema ‗planejamento de vida'. Os autores concluíram que três questões não- financeiras são mais recorrentes e ocupam a maior parte do tempo dos consultores: (i) problemas corriqueiros da vida pessoal e objetivos de vida do consultado; (ii) a saúde física do aconselhado e (iii) preocupações com a carreira, com a profissão ou com o cargo que ocupam. Segundo os depoimentos dos entrevistados, 74% dos planejadores gastam grande quantidade o seu tempo com questões pessoais e esse fato vem aumentando ao longo dos últimos cinco anos (SUSSMAN; DUBOFSKY, 2009a).

O motivo desse interesse é que as reações do indivíduo estão ligadas às emoções e sentimentos por uma série de fatores, o que sugere uma nova abordagem para suprir as necessidades do comportamento humano. O número de especialistas em finanças pessoais ou comportamentais vem crescendo. Em veículos de comunicação para grandes massas: Internet,

televisão e rádio, alguns profissionais aconselham pessoas não só em como investir o dinheiro, mas como sair ou evitar problemas financeiros pessoais, enquadrando todas as pessoas em uma forma única de raciocínio, como se todos tivessem os mesmos valores pessoais e a mesma postura em relação ao dinheiro (MAGALHÃES et al., 2010).

Ao realizar o planejamento de vida um coach deve buscar a história única de cada indivíduo, também pistas e a direção original das coisas que são mais importantes para ele (WALKER, 2004), como seus valores pessoais (SCHWARTZ, 2005), sua relação com o tempo e o dinheiro (SERRA; MACEDO, 2009), sua cultura (HOSFTEDE, 1980) ou sua carreira (HALL, 1996).

Planejar a vida de um indivíduo é buscar a sua história de vida levando em consideração os seguintes campos: físico, material, emocional, intelectual, espiritual e social (KOSHY, 2003; 2011). Apesar de mais evidenciado e urgente, apenas a satisfação do campo material não responde por um planejamento estratégico pessoal que irá gerar satisfação duradoura. Muitas pessoas materialmente ricas são insatisfeitas com a vida que levam (SERRA; MACEDO, 2009), logo, realizar um planejamento estratégico pessoal é olhar para questões mais profundas, além da ‗prosperidade material‘.

O processo decisório deve se basear em critérios subjetivos relacionados aos valores, às crenças, às experiências passadas dos indivíduos e às expectativas de futuro. Um ponto a ser explorado é o pressuposto de que os valores e princípios sobre o dinheiro não são igualmente importantes para diferentes pessoas, assim como a história de vida, as circunstâncias atuais e esperanças futuras são as mesmas (DILIBERTO; ANTHONY, 2003a).

No planejamento para o futuro, o tempo ganha uma dimensão de ‗tempo visionário‘, com dimensões da visão do próprio indivíduo em um horizonte futuro que vai desde o curto prazo: um mês, um ano, até o longo prazo: como o indivíduo vai estar, se comportar e ser vinte ou trinta anos à frente (WALKER, 2004). Os questionamentos sobre a noção do tempo e de como passamos por ele têm tomado razoável proporção nas reflexões e no planejamento de vida das pessoas. Mesmo sem uma explicação muito clara de como o fator tempo afeta os indivíduos, administrar o tempo, o equilibrar com a sua vida pessoal e o trabalho tem sido alvo prioritário nas decisões das pessoas (SERRA; MACEDO, 2009).

O planejamento de vida tenta evitar justamente o contraditório ao longo da vida das pessoas. Esse tema tem atraído a atenção de um crescente número de pessoas (RITCHLIN, 2008). Para Drier (2000), devido a sua importância, ele deve ser iniciado o quanto antes na vida de um indivíduo, ao longo da adolescência e consolidado na vida adulta, passando também pela escolha da carreira, expandindo opções para o estudante, fornecendo orientação, motivação e transferindo experiência de vida.

A religião e a espiritualidade também têm sido o foco de discussão no mundo do planejamento pessoal. A pesquisa de Sussman e Dubofsky mostrou que 49% dos respondentes ofereceram-se para rezar por um cliente. 36% disseram que pelo menos um coachee pediu ao consultor para rezar com eles. 22% dos entrevistados têm tentado trazer um cliente para mais perto de Deus ou para os valores espirituais fundamentais. 29% dos aconselhados não conseguiram desvincular o tema finanças de suas frustrações familiares, ao passo que 12% perguntaram ao planejador se deveriam ter filhos ou não (SUSSMAN; DUBOFSKY, 2009a). Certamente, além de o cenário mundial ter mudado, trazendo inúmeras incertezas em um ambiente de abstração para as pessoas (MAGALHÃES et al., 2010), também as demandas sociais e o planejamento pessoal, em geral, têm incorporado novos valores e comportamentos.

De fato, promover um planejamento estratégico pessoal envolve desenvolver uma estratégia holística e orientar os coachees para um olhar mais aprofundado, mais pessoal, para que os seus valores pessoais e crenças seja considerados na hora de delimitar o que é prioritário e o que é secundário para a vida das pessoas (ROKEACH, 1973; KOOPMANN-HOLM; MATSUMOTO, 2011; SCHWARTZ, 2011).

As pessoas buscam, por meio da realidade de suas vidas, predizer comportamentos futuros (TAMAYO, 2007a) com base em princípios norteadores que são demasiadamente relevantes e não estão dispostos a abrir mão (SCHWARTZ, 2009). Planejar de forma holística envolve integrar outras dimensões da vida (HANSEN, 2001).

O planejador pode aprender muito agindo como um biógrafo dos aconselhados, investigando a sua origem, a cultura, a experiência sócio-econômica, seus valores e suas experiências formativas, sem, contudo, parecer ou avançar por uma prática de Psicologia (DILIBERTO; ANTHONY, 2003b).

Aconselhar sobre o planejamento de vida inclui mais do que gerir ativos (KINDER; GALVAN, 2006), mas sim, atuar de forma estratégica na vida das pessoas, gerando autoconhecimento e identificando quais os valores priorizados pelos indivíduos que irão desencadear comportamentos e atitudes sustentáveis, permitindo um planejamento estratégico pessoal eficaz.

Segundo Taber e cols. (2011), para efetivamente ajudar os coachees a clarificar o seu autoconceito e gerar uma vantagem competitiva no mundo do trabalho, consultores de carreira precisam entender a singularidade do indivíduo e identificar os comportamentos específicos que resultam em traços diferenciados, para os orientar de modo apropriado.

Seguindo a orientação de Kinder e Galvan (2005), que aconselha que o planejamento de vida é uma relação baseada em um maior autoconhecimento, a pesquisa desenvolvida nesse trabalho tem como proposta fundamental criar um modelo de decisões que ajude orientadores a descobrir, mapear e hierarquizar os valores pessoais dos consultados.

Uma vez conhecidos os seus valores pessoais poderá ser predito qual será a sua visão de mundo, as suas atitudes e as suas ações (SCHWARTZ, 2009; MELLO et al., 2007). Compreender os valores pessoais é essencial para entender a estabilidade dos indivíduos (BARDI; GOODWIN, 2011). Ao descobrir, hierarquizar e evidenciar os valores pessoais do coachee, o consultor poderá ajudar prever os comportamentos esperados e desejáveis. Com isso, poderá promover um planejamento estratégico pessoal que tenha representatividade para o indivíduo e seja sustentável no longo prazo. Dessa forma, um coach poderá generalizar resultados e reproduzir as mesmas políticas de sucesso para indivíduos que possuam os mesmos sistemas de valores, pois tenderão a priorizar ou rejeitar as mesmas metas motivacionais (D'ACOSTA; DOMENICO, 2009).

Diante disso, a principal hipótese do Modelo das Decisões Axiológicas a ser testada é possibilidade de discriminar as metas de planejamento, que são os elementos do planejamento estratégico pessoal e os campos do planejamento de vida para cada grupo de indivíduos que possuam o mesmo sistema da valores (guia de comportamento). Descoberto o sistema de valores dos indivíduos, suas metas de planejamento poderão ser fixadas a partir de um padrão de comportamento e de prioridades.

Benzer Belgeler