II. BÖLÜM
2.4. Enez Yöresinde Turizm Faaliyetleri
2.4.2. Otel ve Motel
Após a análise dos resíduos, iremos agora sobrepor a camada de informação das isócronas com camadas de informação referentes a fatores determinantes naturais (temperatura e altitude) e a densidade demográfica. Glasser (1997) indica que esses determinantes são os mais importantes para se entender a difusão do Aedes aegypti no estado, e coloca como questão central o paradoxo encontrado na densidade demográfica e concentração de população e fluxo.
Para a autora, o paradoxo consiste na entrada e propagação do vetor nos primeiros anos da infestação por uma das regiões menos densas do estado, o Planalto Ocidental, ao invés da entrada pelo eixo mais denso, tanto de população como de fluxo, como as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista e o Vale do Paraíba Paulista. Essas áreas inclusive tinham proximidade com municípios infestados no Rio de Janeiro, além do porto de Santos, porta de entrada recorrente desse vetor.
O que se deu foi a entrada pelas áreas mais propicias (baixas e quentes) do Planalto Ocidental, expandindo no entorno das cidades infestadas, e posteriormente, por cidades mais distantes na Depressão Periférica, atingindo assim a região mais densa. Apesar dessa rota no sentido inverso da densidade, a autora indica que no interior das Regiões Administrativas as cidades maiores eram as primeiras e se infestar.
Esse paradoxo pode ser explicado pela combinação de fatores naturais e sociais, especialmente os estruturais. Alguns determinantes conjunturais, como o papel da vigilância epidemiológica, que não é homogêneo no estado pode ter influenciado, mas não temos como exemplificar e correlacionar. Devemos também ter um entendimento dessa difusão como um processo híbrido, que mescla a contiguidade territorial e a conectividade espacial, ou ainda, que se processa no espaço absoluto ao mesmo tempo em que no espaço relativo e relacional, valendo-se da proximidade no primeiro e das relações hierárquicas no segundo e as redes de relações do terceiro.
Destarte, podemos inferir que primeiramente essa difusão ocorre hierarquicamente, atingindo alguns pontos de mais alta centralidade no Planalto Ocidental, como Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Araçatuba, alguns municípios menores também são infestados, como Pederneiras (área de influência de Bauru).
Os municípios infestados estão, em sua maioria, em áreas mais propicias, contudo, há em outros municípios a identificação de focos, que são combatidos, podendo evidenciar questões naturais, do tamanho da cidade e do controle entomológico. Em cidades situadas em áreas menos propícias, como em altitudes mais elevadas ou mais frias, e cidades com tecidos urbanos menores e mais homogêneos o controle é mais simples. Ainda há cidades em que a equipe da vigilância entomológica é mais experiente ou treinada, e que teve a oportuna chance de descobrir a infestação no princípio.
Desta infestação inicial no Planalto Ocidental, seguiu-se uma difusão predominantemente por contágio, em que os municípios limítrofes e mais próximos são infestados primeiramente, que se explica no plano do espaço absoluto em que a fricção da
distância é um limitante. Simultaneamente a esse primeiro momento, em que as áreas mais baixas e quentes do Planalto Ocidental são ocupadas contiguamente, algumas cidades com posição mais elevada na hierarquia urbana e mais distantes dos focos originários são infestadas. Podemos citar Piracicaba, Americana, Campinas, São Paulo, Santos, Itapeva. Essas ligações se dão com base nos fluxos entre cidades, inteligíveis no espaço relativo a partir da interação espacial dentro de uma rede urbana, em que a fricção da distância importa menos que na difusão por contágio.
Daí decorre que cada um desses núcleos que permanecem infestados, passam a contar com difusões por contágio, infestando áreas limítrofes e próximas. Dessas cidades há um fluxo hierárquico, mas agora, de sentido às cidades menores, esse fluxo se denomina por hierárquico descendente ou por cascata (HAGGETT,1979).
Essa afirmação também consta no trabalho de Glasser (1997), em que a autora afirma que dentro de cada Região Administrativa as principais cidades se infestavam primeiramente (geralmente cidades de porte médio), ao contrário do que ocorria na escala do estado. Além dessa afirmação a autora ainda cita outra evidencia de difusão mista, com etapas importantes de difusões hierárquicas, ao afirmar que as cidades maiores possuíam uma distância média superior das fontes de infestação do que as cidades menores, indicando os saltos.
Além desses fatores Glasser (1997) correlacionou alguns indicadores de saneamento, população, condição de vida, produção, cobertura vegetal, competição interespecífica e deterioração do meio, mas sem encontrar indícios nesses indicadores que pudessem explicar essa difusão. Podemos ver nas Figuras 38-40, nas páginas seguintes a sobreposição entre as isócronas bianuais geradas na Análise de Superfície de Tendência com os indicadores selecionados por Glasser (1997) para explicar a difusão do Aedes aegypti.
Podemos visualizar na Figura 38, que trata da isócronas de difusão sobrepostas aos climas do estado, que nos primeiros anos de difusão o vetor ocupa as áreas mais quentes do Planalto Ocidental, relacionados ao Clima Tropical do Brasil Central Quente, que ocupa a área fronteiriça com o Mato Grosso do Sul e o Triângulo Mineiro e os baixos Tietê e Grande. Posteriormente a infestação segue pelo Tropical do Brasil Central Subquente, que ocupa a totalidade da parte central do estado, o litoral a partir de Iguape e o vale do Paraíba. No Litoral e na parte central do estado a difusão foi mais rápida, contudo o vale do Paraíba foi a última região do estado a ser infestada. Na região central, notamos uma inflexão das isócronas quando se aproximam no norte do estado, nas áreas altas dos contrafortes das Serras da Canastra e do Mar, em terrenos mais elevados, a partir de 700 metros, como podemos notar na Figura 39.
Figura 38 - Isócronas de Superfície de Análise de Tendência em relação aos Climas de São Paulo
Figura 39 - Isócronas de Superfície de Análise de Tendência em relação ao relevo
Figura 40 – Isócronas de Superfície de Análise de Tendência em relação à densidade demográfica (2010).
enquanto no sul, elas são mais próximas, e consequentemente mais lentas.
Essa maior lentidão ocorre na transição do médio para o alto Paranapanema, e próximos a transição entre o Tropical do Brasil Central Subquente para o Mesotérmico Brando, em que há uma maior influência das frentes frias e massas polares, nessa região a população rural é significativa, apesar de não ser preponderante. A densidade demográfica cai e a presença de cidades grandes e médias é a menor do estado, como podemos ver na Figura 40.
As Figuras 38 a 40, nos auxilia na compreensão da diferença entre as orientações preponderantes desse processo (mudança de rumo de O-E, para N-S), nas diferenças de velocidade e na explicação geral do processo, apesar de pecar na precisão das datas e falta de sensibilidade nos detalhes mais específicos.
A mudança na orientação pode ser entendida vendo a estruturação urbana do estado, que segue esses sentidos opostos entre o Planalto Atlântico (N-S em relação à capital) e o ‘interior’, que compreende as áreas da Depressão Periférica, Cuestas e Planalto Ocidental. Nesses a estruturação viária (primeiro aquaviária, depois ferroviárias e por fim, rodoviárias) se dá de forma radial a partir da capital tomando uma forma paralela no oeste, mas que guarda o sentido L-O.
Assim, podemos compreender essa mudança de orientação da difusão, mas que não é só influenciada pela densidade ou eixos de transporte, mas também pelas características naturais já citadas. A densidade também auxilia na compreensão da ‘ponta de lança’ da macrometrópole paulista, entre a RM de Campinas e da baixada Santista, passando pela RM de São Paulo e parte do Vale do Paraíba, apesar desse último não estar inserido nessa mesa dinâmica, sendo integrada na área de extensão do vetor somente na década de 2000. A ‘ponta de lança’ forma exatamente na zona contínua de densidades mais altas, entre Rio Claro e Santos. No mapa de isócronas a ‘ponta de lança’ é indicada com a convergência dos fluxos oriundos do interior e do litoral, entre Jundiaí e São Paulo. A outra ‘ponta de lança’ de Itapetininga está inserida em outra dinâmica, não apreensível com esses mapas, necessitando mais análises para compreendê- la, ela não é perceptível no mapa de isócronas. Para finalizarmos a análise da difusão do Aedes
aegypti no estado elaboramos um mapa síntese, Figura 41, na próxima página, que traz um
esboço dos mapas já trabalhados nesse capítulo, além de uma análise com os centros médios e elipses direcionais. Centro médio é um ponto criado pela média das coordenadas dos pontos analisados, nesse caso, refere-se ao ponto médio de todas as sedes com infestação nos quinquênios analisados, evidenciando a rota geral e a direção da infestação.
Já as elipses são criadas por meio dos desvios padrões espaciais, de um e dois desvios (68% e 95% dos pontos), a partir de distâncias padrões (dado pelas coordenadas) gerando medidas de tendência geral e dispersão de pontos, com indicação geral de orientação.
O mapa principal indica o sentido geral, com o resultado da análise de superfície de tendência, sobreposto a um mapa de relevo, as principais rodovias, municípios com centralidade mais altas (hachuradas, referem-se as cidades de 1A a 3A na REGIC, 200847) e com algumas
cidades selecionadas do estado (auxílio para localização). Nos encartes mapas da densidade e do clima, sobrepostos as isócronas e um mapa coroplético dos anos de infestação, agrupados em cinco anos com os municípios não infestados no ano de 2012. Os resíduos maiores também foram colocados para ter-se uma noção de onde a superfície de tendência não é muito válida.
O mapa com as elipses e centros médios corroboram com o restante das análises, evidenciando a forte dependência espacial dos primeiros anos, e a velocidade em que se saturou o processo, com a diminuição do estoque dos municípios susceptíveis em áreas mais favoráveis. A direção das elipses também confirma a influência da estrutura espacial (rede urbana e sistemas de transporte) na orientação das epidemias, e o tamanho (desvios padrão espacial) indica a extensão da infestação nos quinquênios selecionados. O encadeamento dos centros médios mostra a velocidade (distância entre os pontos) e o sentido geral (de noroeste a sudeste).
Podemos concluir que a difusão do Aedes aegypti no estado de São Paulo teve um padrão misto, com forte componente de contiguidade especialmente nos primeiros anos, com saltos hierárquicos importantes para o processo geral. O início e propagação pela área menos densa do estado, mas com condições climáticas favoráveis, em direção às áreas mais densas, frias e altas. A conformação de duas pontas de lança, uma ao longo da rodovia Anhanguera e a outra na porção sul do estado no médio e alto Paranapanema indicam uma seletividade espacial, com que as áreas mais propicias são ocupadas primeiramente. As rodovias e a estrutura da rede urbana têm um papel importante nesse processo, canalizando os principais fluxos e orientando a difusão. As barreiras são ligadas a clima e altitude, atrasando o processo em algumas cidades (como indicado pelos resíduos e pelas inflexões nas isócronas), modulando o processo de difusão no estado (nota-se um padrão de ausência de municípios infestados e climas
47 1A corresponde a Grande Metrópole Nacional – São Paulo; 2 Capitais Regionais (de A a C). 2A – Campinas e sua região metropolitana e de Ribeirão Preto, São Jose do Rio Preto. 2B –, municípios e aglomerações urbanas de Araçatuba, Araraquara, Bauru, Marilia, São José dos Campo, Presidente Prudente, Santos e Sorocaba. 3 Centro Sub-regional (somente os centros sub-regionais A foram selecionados) – Barretos, Botucatu, Catanduva, Franca, Jaú, Limeira, Ourinhos, Rio Claro, São Carlos, São João da Boa Vista.
mesotérmicos). Um processo litorâneo, menos abrangente, mas muito importante também ocorre e pode ser identificado.
Esse processo criou a área de transmissão do dengue no estado, sendo que a cada instante se modificava, expandindo ou contraindo, gerando o meio pelo qual ciclos autóctones pudessem se concretizar com a introdução de vírus, gerando o complexo do dengue. Essa área de transmissão também pode incluir outras viroses, como da febre amarela, chikungunya ou zika, que dependendo da difusão de seus patógenos nessa área já infestada vão configurar complexos distintos do dengue.