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Por outro lado, nos anos 80 aparecem também os primeiros trabalhos dos estudos da tradução como disciplina da Literatura Comparada. Segundo nos mostra Snell-Hornby (1988-1999), esta escola, basicamente representada pelos teóricos André Lefevere, José Lambert, Theo Hermans, Susan Basnett e alguns teóricos israelenses como Gideon Toury, recebeu o nome de Manipulation

School, o que caracteriza corretamente a natureza das idéias teóricas propostas

por eles. A teoria da Manipulation School é baseada no conceito de polissistema literário, que tem sido desenvolvido em particular pelo teórico de Tel Aviv Itamar Even-Zohar.

Esse polissistema não só é caracterizado pelas mudanças continuas, mas também pelas oposições internas. Nele se diferenciam tipos e modelos de textos primários (aqueles inovadores, que introduzem novas idéias, métodos e formas de contemplar a literatura e o mundo) e secundários (conservadores, que confirmam e mantêm o sistema existente).

As teorias literárias e semióticas formuladas em 1978 por Lotman (Lozano, 1979), para quem determinados sistemas possuem a faculdade de conservar e acumular informações, coincidem em muitos aspectos com as noções de polissistema.

Para Lotman e a Escola de Tartu (Lozano, 1979:21-22),

“Información, comunicación, memoria, son los grandes ejes que caracterizan el desarrollo de las sociedades humanas. Estas (en las que subyace la base comunicativa), tienden a intercambiar y conservar la información, la memoria; la historia de las sociedades es la historia de la lucha por la memoria.”

Por outro lado, a cultura, para Lotman (Lozano, ibid.:25) aparece como um sistema de linguagem cujas manifestações concretas são textos dessa cultura. E representa, por outro lado, um mecanismo plurilíngüe, já que nenhuma cultura pode ser definida como uma só língua. A Semiótica da Cultura, assim proposta por Lotman, se ocupa, então, de explicar a necessidade funcional do plurilingüismo cultural, mostrando que cada escolha pressupõe a existência de uma hierarquia de linguagens de uma época dada, uma cultura dada. Nesse modelo, aponta Lozano (op. cit.: 26):

“La elección de una lengua, la sustitución de una lengua por otra, la transcodificación de una lengua a otra, están en la base del funcionamiento comunicacional de una cultura.”

Assim, qualquer fenômeno cultural pode ser explicado nesta linha.

A semiótica, definida como "o estudo das relações entre o código e a mensagem e entre o signo e o discurso" (Eco, 1973:19), tem um destacado papel no desenvolvimento da Teoria do Polissistema. Assim, os fenômenos semióticos, como modelos de comunicação humana que estão governados por signos (a cultura, a literatura, a arte etc.), devem ser considerados como sistemas em vez de como conglomerados de elementos díspares.

A idéia de "sistema" traz um enfoque funcional baseado na análise das relações que são estabelecidas entre os diferentes componentes semióticos. Para Even Zohar, essa análise permite identificar as pautas que

regem o funcionamento dos fenômenos conhecidos e desconhecidos, máxima aspiração da ciência. Desse modo, a literatura traduzida é considerada como um elemento mais (como um sistema) dentre aqueles que participam na luta constante pela sobrevivência e o domínio no sistema literário como um todo (como um polissistema), e nesse sentido os teóricos israelenses consideram a literatura traduzida como um tipo de texto com identidade própria, como parte integrante da cultura-meta e não só como reprodução de outro texto.

A ênfase no texto-meta nos estudos realizados por esses grupos leva naturalmente a um enfoque descritivo que rejeita de maneira explícita as atitudes normativas e avaliativas da teoria tradicional da tradução de orientação lingüística. Outra inovação lógica desses estudos é a mudança de ênfase do processo de tradução e os problemas que nele estão presentes para o resultado, o texto traduzido como fato histórico. Os escritos do grupo da Manipulation School vão dirigidos, sobretudo, a descrever e analisar traduções, comparando diferentes versões da mesma obra, pesquisando a recepção de traduções ou realizando extensos relatórios históricos, mas sempre sobre uma base mais descritiva do que avaliativa.

Um dos pontos mais interessantes que podem ser observados na concepção de Polissistema de Even Zohar é que o sistema formado pela literatura traduzida não ocupa, em princípio, uma posição previsível ou imutável. O texto traduzido pode ocupar uma posição primária ou secundária dentro da cultura de chegada, e isto dependerá das circunstancias específicas que operem no polissistema.

A hipótese de que a literatura traduzida deva ser ou um sistema primário (aquele que ocupa uma posição hierárquica equivalente à literatura canonizada, ou também chamada de "autêntica" literatura, aquela que se conserva como a herança cultural de uma comunidade) ou um sistema secundário (aquele que é considerado como literatura não canonizada, ou também chamada de "subliteratura", considerada como fora do campo tradicional da literatura por carecer de "valor estético", como romances de entretenimento, de detetives, literatura rosa e ficção científica) não implica que

necessariamente ela seja totalmente ou um ou outro. Ou seja, como sistema, a literatura traduzida estaria, por sua vez, também estratificada, o que significa que enquanto um setor pode assumir uma posição primária, e passar a ter uma força inovadora, outro pode manter uma posição secundária.

Assim, parece ficar evidente que os princípios de seleção das obras a traduzir são determinados pela situação que governa o polissistema: os textos são escolhidos segundo o grau de compatibilidade com as novas perspectivas e o suposto papel inovador que devem assumir na literatura meta. Esta idéia leva a concluir que não só o status social e literário da tradução vai depender da posição que ela ocupe dentro do polissistema, mas também que este status vai condicionar, inclusive, a própria prática da tradução.

Na minha opinião, esta questão tem uma especial atualidade e pode ser vista em inúmeros exemplos, se olharmos ao nosso redor; também pode ser estendida não só à tradução de literatura, mas também à tradução de textos de todo tipo, e quando me refiro a textos estou tendo em consideração a acepção mais ampla do termo ou, nas palavras de Koch (2000:22)

"(...) qualquer manifestação verbal constituída de elementos lingüísticos selecionados pelos falantes, durante a atividade verbal, de modo a permitir aos parceiros, na interação, não apenas a depreensão de conteúdos semânticos, em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva, como também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais."

Assim, para compreender a significação de uma obra traduzida, seria necessário ter em consideração tanto o seu contexto quanto as operações que governam o polissistema, ou seja, a tradução não é um fenômeno cuja natureza e limites possam ser estabelecidos de modo único, sem levar em conta que ela é uma atividade com uma relação de dependência em relação a outros fenômenos do sistema cultural e social. Daí que vários conceitos, como adequação e equivalência, não possam ser avaliados plenamente sem se levar em consideração as implicações sistêmicas.