De modo geral, muitos dos estudos da tradução hoje em dia consideram que a ampla panorâmica do polissistema literário, que serve de base às idéias da Manipulation School, representa um reajuste necessário e desejável nos estudos e pesquisas desenvolvidos no campo dos estudos da tradução.
Nesse sentido, considero especialmente significativo o posicionamento de Snell-Hornby (1988–1999:45), que reafirma que, na verdade, aquilo que Hermans chama de Novo Paradigma para o estudo da tradução literária parece ter um grande potencial nos estudos futuros sobre a tradução, sempre que seja possível desenvolvê-lo plenamente, não só para a tradução literária, mas para todas as traduções. Na época em que fez a primeira edição do seu livro, em 1988, a autora concluía que, basicamente, o que podia ser previsto para um futuro, baseando-se nas próprias palavras de Theo Hermans, era:
"...a view of literature as a complex and dynamic system, a conviction that there should be a continual interplay between theoretical models and
practical case studies; an approach to literary translation which is
descriptive, target-oriented, functional and systemic; and an interest in the norms and constraints that govern the production and reception of translations, in the relation between translation and other types of text- processing, and in the place and role of translation both within a given literature and in the interaction between literatures"
A autora considera que, desse modo, a tarefa do tradutor é tratada por eles não só do ponto de vista puramente descritivo, mas que também são levadas em consideração questões ideológicas e o papel que exercem as instituições de poder que influem na produção de textos traduzidos.
Na edição posterior do seu livro, publicada em 1999, Snell-Hornby destaca que a previsão que ela fizera para o desenvolvimento dos estudos da tradução parecia finalmente estar se realizando, e que era possível visualizar isso, por exemplo, na enorme influência que algumas teorias, como a
Skopostheorie (teoria do skopos, do grego skopos: objetivo) de Hans Vermeer
dos estudos da tradução. Também coloca como exemplo o desenvolvimento de conceitos como o de "scenes and frames", de Vermeer e Witte (1990).
A teoria do skopos (objetivo, finalidade) de Reiss & Vermeer (1984/1996), citados por Snell-Hornby (1988–1999), traz uma grande novidade ao propor analisar o texto traduzido como fruto de uma decisão "dinâmica", quer dizer, uma decisão que vai depender da finalidade do texto traduzido e não do tipo de texto em si, eles defendem a idéia do que chamam de "destronamento do texto origem, que agora se torna para o tradutor num meio para um novo texto".(op. cit.: 69)
Quer dizer, o mais importante, nesse modelo, é a idéia de que o texto não é mais visto com uma atitude estática e absoluta e, portanto, a decisão a tomar na hora de fazer a tradução de um texto qualquer vai depender da situação particular que se tem, mais concretamente, da finalidade dessa tradução. Por conseguinte, este é considerado um posicionamento dinâmico para a análise do processo de tradução.
Na revisão dos trabalhos teóricos sobre tradução que Snell Hornby (1988- 1999) faz no seu livro, destaca especialmente o trabalho de Lakoff (1982), no qual é feita referência ao princípio holístico de gestalt (ou visão de conjunto), que ela considera "fundamental para o enfoque integrador da tradução, que durante muito tempo foi considerada só uma questão de palavras isoladas" (op. cit.: 48).
Snell Hornby, ao fazer alusão aos trabalhos de Lakoff, destaca que:
(...) o principio essencial da escola da psicologia Gestalt, baseada nos estudos experimentais realizados por Max Wertheimer, Wolfgang Kohler e Kurt Kofka (Wertheimer, 1912), é que o todo é mais do que a mera soma
das partes e uma análise das partes não pode dar um conhecimento veraz do conjunto." (op. cit.: 49) (grifo meu)
A autora considera, ainda, que este princípio foi, até pouco tempo atrás, completamente ignorado pelos filólogos e lingüistas, motivo pelo qual o estudo da língua e a teoria científica de orientação lingüística ficaram "atomizados, fragmentados e desconectados da língua na sua realização concreta" (op. cit.: 49).
A mudança, segundo ela, teve lugar nos anos 70, através de outras disciplinas, como a sociologia, a sociolingüística, a filosofia, a teoria dos atos da fala de Austin e Searle, a etnologia, a psicologia, e considera que fundamentalmente "com o desenvolvimento da lingüística textual foi possível realizar um questionamento mais holístico da língua". Nesse sentido, esta autora considera que o princípio holístico está dominando progressivamente o estudo da língua e pode ser considerado de grande importância também para os estudos da tradução.
Snell Hornby (1988–1999), então, vê neste princípio a base principal que dá sustentação ao objetivo fundamental do seu trabalho: obter uma visão integradora para os estudos da tradução, não só de um tipo de tradução (tradução literária, tradução científica, tradução juramentada, tradução técnica etc), mas uma visão da tradução como processo único, com as suas especificidades em cada caso, mas com a noção de que todas estas variedades são parte de "um único todo" e não é possível chegar a um entendimento do comportamento desse "todo", ou seja, desse "sistema" (o processo de tradução, numa visão integradora), sem levar em consideração que todas as "traduções" apresentam um comportamento que as caracteriza por igual.
Ou seja, poderíamos concluir que, neste caso, é fundamental a visão dos estudos da tradução a partir de um pensamento complexo, um pensamento que tenha em consideração tanto as diferentes variedades de tradução como todas as possíveis interpretações que são feitas sobre o próprio processo de traduzir, sem excluir ou estabelecer que determinada visão é mais importante que a outra, ou que determinada variedade de tradução é mais completa que outra.
O pensamento complexo, neste caso, estaria presente ao apresentar essa visão integradora como opção para a realização de uma análise do processo de tradução mais completa e abrangente, e também no momento de levar em consideração as diferentes teorias e interpretações que sobre esse processo têm sido feitas.
Na revisão do seu livro, em 1999, a autora conclui que, analisando a trajetória das orientações literárias e lingüísticas na história da tradução, chamam a atenção três aspectos fundamentais:
1- A contínua repetição de alguns pensamentos e conceitos – por exemplo, a dicotomia histórica representada em distintos termos: fidelidade versus liberdade, palavra versus sentido, orientação ao texto fonte versus orientação ao texto meta – tem basicamente a mesma identidade, inclusive no novo paradigma da Manipulation School, e os mesmos princípios e tendências de uma boa tradução têm sido formulados com quase idênticas palavras desde o Renascimento.
2- Todos os teóricos, sejam lingüísticos ou literários, formulam teorias segundo a sua área de tradução, no entanto pouco se tem feito para preencher a brecha entre tradução literária e outras traduções.
3- Nem a perspectiva dos estudos literários nem os métodos da lingüística têm proporcionado uma ajuda substancial na continuidade dos estudos tradutórios no sentido de um todo unitário.
E conclui que urge uma nova orientação no pensamento, uma revisão nas formas tradicionais de categorização e um enfoque integrador que considere a tradução na sua globalidade, e não só algumas das suas modalidades.
Assim, do meu ponto de vista, esta visão do grupo da Manipulation
School parece dar as primeiras pistas sobre o surgimento da noção de sistema
dinâmico e complexo num sistema literário, e concretamente num sistema em que se incluem traduções de textos literários. Sem dúvida isso constitui um grande passo e um marco nos estudos da tradução, tanto que a partir das idéias desse grupo é que se começou a falar de uma mudança de paradigma para os estudos da tradução, que provavelmente se encaminharia nessa direção, com a condição de que essas considerações fossem feitas não só para o sistema literário, mas para a tradução de modo geral.