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7.6.1. Online Shield

capitalista mundializado tem relegado aos países de economia periférica, e dentro destes às periferias das periferias, a modernização agropecuária que chega ao estado do Ceará ainda na década de1970. Em que se pese seu caráter de unicidade técnica e de mais-valia, comuns ao processo de modernização agropecuária de outras periferias, a transformação do espaço geográfico adquire características locais particulares, ao se estabelecer de forma imbricada com as relações sociais e econômicas que pré-existiam ao contexto de mundialização (SANTOS, 1998; ELIAS, 2002; FRACALANZA, 2005). Elias afirma que:

O processo civilizatório do capital encontra obstáculos nas condições econômicas, sociais culturais e ecológicas de cada lugar, região ou país, o que torna cada lugar diferente de outro, apresentando arranjos entre o novo e o valho, que não serão encontrados em outra parte, embora a forma social essencial se espalhe entre várias situações. Quanto mais os lugares se mundializam, mais se tornam singulares, no sentido de que o arranjo dos elementos componentes do território em um determinado lugar são únicos e representam a base para a expansão do capital. A própria globalização acaba por produzir a fragmentação. (2002, p.13).

Propugnando, assim, ser ideal “[...] captar a realidade do lugar a partir de suas interdependências com o país e o mundo, ou seja, de sua inserção na nova divisão interna e internacional do trabalho [...]” (ELIAS, 2002, p. 13).

Compreende-se a conjuntura histórica do início do processo de mundialização e a modernização agropecuária dos países periféricos dentro do mundo pós Segunda Guerra Mundial, donde a polarização em dois blocos politicamente e ideologicamente antagônicos (países socialistas e países capitalistas) leva a uma busca pela hegemonia política e econômica na reorganização e reconstrução no pós-guerra, centrada num esforço de reprodução ampliada do capital nos países ocidentais de economia central30. As mudanças econômicas, sociais,

políticas e jurídicas em curso, já citadas no capítulo 2 deste trabalho quando da contextualização da crise hídrica e do processo de mercantilização dos recursos naturais, com destaque para os recursos hídricos, apontavam para investimentos públicos pesados na construção de um Estado de bem estar social (BONAVIDES, 2010)

Sem negar os importantes avanços e marcos desse período (principalmente em relação às afirmações dos direitos fundamentais, já analisados) e a sua complexidade – que transcende a análise simplista da vontade dos “donos do poder”, pois insere uma ampla gama de atores sociais com interesses diferentes – é preciso compreendê-lo de forma crítica, ao analisar que a assunção da responsabilidade de criar um bem estar social por parte dos Estados coloca os

30 Não se analisa aqui como se deu o processo dentro dos países que adotaram no período histórico citado a

economia planificada, focando em compreender o processo que deu origem a modernização agropecuária da maioria dos países periféricos, dentre os quais o Brasil.

países, principalmente os países que necessitavam ser reconstruídos no pós-guerra e os países periféricos, muitos recém-criados enquanto Estados nações, como dependentes do investimento financeiro e técnico externo dos países de economia central, dos agentes econômicos internacionais e da iniciativa privada. Cria-se um cenário propício à ampliação do capital, com a unificação dos setores industriais, financeiros e técnicos característicos da globalização31 (NUNES, 2003; LIMA, VASCONCELOS, DE ANDRADE, 2012).

Nesse contexto, insere-se a difusão das novas tecnologias a serviço da ampliação do capital, dentre as quais a Revolução Verde, como um conjunto de mudanças técnicas na produção agropecuária, com inserção de insumos químicos, a mecanização do campo e, posteriormente e encerrando o ciclo da revolução verde, as mudanças genéticas que possibilitam uma mudança sem precedentes na forma de produção. (ELIAS, 2002; LIMA, VASCONCELOS, DE ANDRADE, 2012).

Alguns aspectos dessa revolução merecem destaque, como a reorganização e redirecionamento das indústrias químicas e de maquinário pesado que abasteciam a indústria bélica para o setor agropecuária, na produção de insumos (herbicidas, fungicidas, inseticidas, fertilizantes) e de maquinário pesado (tratores, colheiteiras), percebendo na produção alimentícia uma fonte de lucros permanentes. Outro destaque é a utilização do discurso de preocupação social internacional com a eliminação da fome no mundo como legitimador dessa revolução, despolitizando o problema na busca de desarticular reivindicações e contestações das desigualdades sociais, ao sustentar que a mudança técnica tem o condão de resolver o problema, ao mesmo tempo cria justificativa para essa forma de expansão do capital. Estabelece-se então uma relação de unicidade dos lucros, ao se produzir industrialmente os vetores da modernização técnica agropecuária enquanto esta produz os insumos necessários, sob os financiamentos das instituições financeiras (ANDRADES; GANAMI, 2007).

Assim chega a modernização agropecuária no Brasil por volta da década de 1950, na esteia da revolução verde e da reordenação da divisão internacional do trabalho segundo interesses dos países de economia central, concebida a partir de determinações externas (o quê e como será produzido e a que preço comercializado segundo ditames do mercado), na busca por tornar-se competitivo. Nesse aspecto, além das mudanças produtivas nos setores agrários que impactam consideravelmente a produção sócio-espacial brasileira, passa-se também por

31Para aprofundar o tema, sugere-se a leitura do texto de NUNES, 2003, que correlaciona o caminhar dos direitos

um processo de padronização de hábitos alimentares, com o consumo de produtos congelados, empacotados e pré-prontos, estimulando ainda mais o desenvolvimento dos complexos agroindustriais32 (SILVA, 1991). Outra característica é a ação estatal em promover essa

modernização, com intenso financiamento público, desenvolvimento de órgãos planejadores e de pesquisa, incentivos fiscais à instalação de holdings multinacionais, criação de fixos e concentração espacial inicialmente na Centro-Oeste, com posterior criação de “manchas” modernizadas pelo restante do País. (ELIAS, 2002; LIMA, VASCONCELOS, DE ANDRADE, 2012; ANDRADES, GANAMI, 2007) É no processo posterior de reestruturação espacialmente concentrada em “manchas” que a modernização agropecuária chega ao Nordeste e ao Ceará.

4.1.2. Inserção econômica pela da ação estatal: o Ceará no contexto brasileiro e

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