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Bilgisayar Koruması

Belgede AVG Internet Security (sayfa 24-27)

6. AVG Bileşenleri

6.1. Bilgisayar Koruması

Embora o foco deste trabalho seja analisar uma violação de direito humano fundamental à água numa comunidade brasileira, não é possível apresentar o panorama jurídico de tal direito sem discutir as redefinições paradigmáticas que ocorreram nos países latino-americanos, com destaque para o Equador e a Bolívia, e a forma como elas vêm influenciando internacionalmente o reconhecimento do direito humano à água com uma militância ativa, com destaque para o papel da Bolívia dentro do Conselho das Organizações Unidas e em encontros internacionais, tornando-se referência para a reafirmação do direito humano ao meio ambiente equilibrado e, mais especificamente, à água. Para além, ao direito da natureza ao meio ambiente equilibrado, rompendo os paradigmas antropocêntricos do mundo jurídico ocidental (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012).

Durante os processos de mudanças constitucionais que surgiram no Equador, em 2008, e na Bolívia, em 2009, houve uma profunda reformulação dos paradigmas jurídico- constitucionais, antes pautados pelos modelos político-jurídicos europeus e anglo-saxão a guisa dos interesses das elites hegemônicas e subservientes ainda ao interesse das antigas metrópoles coloniais, hoje os países de economia central. Esse modelo, influenciado pelos ideais iluministas do século XVII, consagra a:

[...] igualdade formal perante a lei, independência de poderes, soberania popular, garantia liberal de direitos, cidadania culturalmente homogênea e a condição idealizada de “Estado de Direito” universal. Na prática, as instituições jurídicas são marcadas por controle centralizado e burocrático do poder oficial; formas de democracia excludente; sistema representativo clientelista; experiências de participação elitista; e por ausência histórica das grandes massas populares (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012, p. 55).

Mostram-se, assim, incapazes de representar de forma contundente as vontades e necessidades da maioria da população. Com a ascensão política de representantes advindos de setores progressistas e de esquerda, mais ligados às camadas populares, destacadamente à numerosa população indígena dos países andinos, inicia-se uma valorização da cultura e do modo de viver tradicional das comunidades indígenas, com destaque para a cosmovisão de interdependência de todos os elementos do planeta, que surge como uma comunidade viva, a

Pachamama (CORTE, 2015). Tal comunidade exige para a manutenção de seu equilíbrio e da saúde

e dignidade de todos os indivíduos vivos que a compõe um modo de viver pautado pela solidariedade entre espécies e gerações, pela comunhão e colaboração entre nações e povos, pelo direito de todos os seres vivos aos bens da natureza, traduzidos no novo constitucionalismo latino-americano nas culturas, práticas, políticas e direitos do “bem viver” (MORAES, 2013).

neoconstitucionalismo e novo constitucionalismo latino-americano. Em que pese às vezes se falar em neoconstitucionalismo latino americano, há diferenças que merecem ser esclarecidas para fins de estudo.

O neoconstitucionalismo se caracteriza como um movimento que “se assenta num modelo preceptivo de constituição como norma com especial valorização do conteúdo prescritivo dos princípios fundamentais” (CANOTILHO, 2014, p. 45). Este movimento, que possui diversas “correntes” (ativismo judicial, pluralismo jurídico dentre outras), ganhou grande espaço dentre os constitucionalistas brasileiros e vem hoje recebendo severas críticas de parte da doutrina decorrentes do seu impacto na relação entre a política e a constituição, da sua utilização pelo poder judiciário para criar normas constitucionais a partir da interpretação, e ainda da “perda” valorativa dos direitos fundamentais a partir da sua justificação para todas as interpretações jurisprudenciais11.

Já o novo constitucionalismo latino-americano se caracteriza por um movimento social, jurídico e político que visa ressignificar o exercício do poder constituinte, a legitimidade representativa, a participação popular e o próprio Estado; é a fundação de um Estado plurinacional, que reconhece a pluralidade social e jurídica, buscando respeitar e assegurar os direitos de todas as camadas sociais e da natureza (ALVES, 2012). Este movimento também é composto por diversas correntes, estando este trabalho filiado àquela que propugna o fortalecimento estatal a partir da participação popular com objetivo de garantir justiça social.

O novo constitucionalismo latino-americano tem como uma de suas características fortes um paradigma ecocêntrico, que surge como uma revolução do direito andino, reconhecendo a cosmovisão indígena de comunidade viva, a Pachamama, como sujeita de direitos. Nesse contexto, o papel dos recursos ambientais, com destaque para a água, é de grande relevância para a manutenção da vida não só humana, razão pela qual as constituições passam a trazer em seus textos a garantia do direito à água como bem comum, de todos os seres humanos, de todos os seres vivos, da natureza e da água a ela mesma, como recurso dotado de vida (MORAES, 2012).

Diversas críticas têm surgido a este modelo de “direitos da natureza”, afirmando-se que não há esteio lógico devido a não capacidade postulatória e reivindicatória da natureza. Compreende-se aqui que esta limitação de percepção decorre do próprio paradigma

11O escopo deste trabalho não permite maior aprofundamento no tema, para o qual indica-se consultar VIANA,

CARVALHO, MELO, BURGON, 1999; MARIANO, 2010; STRECK, 2004; SARLET, 2011; CANOTILHO, 2013.

antropocêntrico da cultura jurídica ocidental, não se sustentando numa análise mais profunda, principalmente diante da aceitabilidade de direitos das pessoas jurídicas, que, não possuindo per si capacidade postulatória, são representadas por pessoas físicas. Essa limitação de uma visão jurídica mais ampla ocorre em alguns casos pela própria dificuldade em superar o paradigma posto; no entanto, em outros, tem se mostrado quanto uma busca consciente de não se avançar na garantia dos direitos da natureza, que resultam numa proteção mais ampla e maior rigidez na utilização dos recursos ambientais (WOLKMER, 2010; MORAES, 2013)

Alguns dos desdobramentos jurídicos, políticos e sociais dessa superação dos paradigmas jurídicos antropocêntricos e liberais é o gerenciamento não tecnocrático e a impossibilidade de gestão e apropriação privada sobre a água, visando a construção de uma gestão democrática, plural, com ampla participação popular e que atenda a todas as necessidades humanas e da natureza. Isso só é possível com a busca pela construção de outra racionalidade econômica e social distinta da racionalidade capitalista, que foca no acúmulo privatista, no ideal desenvolvimentista e na visão economicista dos recursos ambientais. Por essa razão, afirma-se que hoje o novo constitucionalismo latino-americano é uma das principais vozes a desafiar o modelo econômico posto (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012).

É preciso frisar que mudanças jurídico-político-sociais tão profundas não vieram sem que fossem travados difíceis embates. No Equador, em 2008, quando da elaboração da constituição, havia um grupo de parlamentares ligados aos interesses das elites burguesas e dos “donos da água” (multinacionais que lucram com a gestão privada da água, com a venda de commodities, com o engarrafamento, etc.) que primavam por uma visão mercadológica privatista da água como bem com valor econômico, necessário à produção, exortando a deixar sob regime de concessão à iniciativa privada a gestão dos recursos hídricos, que havia se iniciado, como de outros serviços públicos, nas últimas décadas do século XX, sob influência da política neoliberal que atingiu os países latino-americanos.De outro lado, havia os parlamentares que representavam as mais amplas e mais baixas camadas sociais da população, e que obtiveram conquistas significativas graças à mobilização popular e ao apoio de movimentos sociais do país. (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012).

Na Bolívia, como mencionado no capítulo anterior, o início dos movimentos que forjaram as mudanças constitucionais foi a Guerra Del Agua em Cochabamba, opondo de forma clara os interesses populares aos interesses privados das grandes empresas e seus aliados. (CORTE, 2015; DRUMOND, 2015).

Sobre as inovações em relação à disciplina jurídica da água, no Equador, apontam-se quatro principais pilares: a água é um direito humano fundamental; a água é bem nacional estratégico de uso público; a água é um patrimônio da sociedade; a água é um componente fundamental da natureza, que tem direitos a existir e manter seus ciclos, que dão escopo para a criação de forma de gestão hídrica com ampla participação popular, que respeite a dignidade humana, dando acesso a todos, e que atue em consonância com ciclos naturais. (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012).

No mesmo sentido vai a constituição boliviana, que, em seu artigo 373 institui a água como “direito fundamental para a vida nos marcos da soberania do povo”; em seu artigo 374 proíbe apropriação privada dos recursos hídricos; além de diversas normas que versam sobre direito a saúde, direito a natureza para as gerações futuras, dentre outros, avançando significativamente em direção à cosmovisão de influência indígena do “bem viver (WOLKMER, A. C.; AUGUSTIN, S.; WOLKMER, M. F. S, 2012).

Observa-se que não há qualquer óbice ao reconhecimento do direito humano fundamental ao se reconhecer o direito da natureza à água, como também não há incompatibilidade entre o direito à natureza e aos direitos humanos positivados a nível internacional ou a nível interno; aquele complementa estes, pois é mais amplo, tutela a vida de uma maneira mais abrangente.

Pode-se então afirmar que a atuação militante dos países andinos, com destaque para a Bolívia, vem contribuindo para o avanço no reconhecimento do direito humano à água no âmbito da ONU. Foi do Embaixador boliviano a iniciativa da Resolução 64/292 encaminhada a Assembleia Geral das Nações Unidas em 2010, afirmando expressamente o direito humano à água e ao saneamento como necessário à efetivação de todos os demais direitos humanos, que, posteriormente, foi aprovado como a Resolução nº15/9 pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, sem mencionar novamente o papel de destaque nos encontros internacionais da água, como no Fórum Mundial da Água em 2012, já citado no capítulo anterior. Assim, há um inegável e dialético processo de influências mútuas do âmbito internacional no novo constitucionalismo latino-americano e vice versa. (LIMA, 2014).

Embora a revolução jurídica do novo constitucionalismo latino-americano avance muito no fortalecimento estatal perante os poderes imperialistas e mercadológicos de empresas estrangeiras, no reconhecimento da dignidade da natureza, na participação democrática e popular nos processos decisórios de governo e de gestão, no reconhecimento de outras visões sobre a vida diferentes dos referenciais ocidentais, há muitos desafios pela frente na consecução e efetivação de suas constituições. Há a necessidade de se desenvolver novos

instrumentos políticos de gestão; vencer as resistências das elites internas e o poder das grandes corporações na democratização do acesso à água e demais bens; pensar e desenvolver tecnologias alternativas que permitam uma vivência equilibrada com a natureza para todos; relacionar-se com os outros países de influência marcadamente liberal de maneira a fazer trocas sem perder sua essencialidade plurinacional e de “bem viver”; tornar o estado forte e capaz de defender seus bens estratégicos numa aliança estatal-popular (WOLKMER, AUGUSTIN, WOLKMER, 2012). Trazer para a concretude o que está posto no novo constitucionalismo latino-americano é propor um rompimento com a lógica capitalista, excludente e desigual socialmente, sem preocupações ambientais nem com as futuras gerações por sua própria racionalidade, daí a sua importância como referência de luta e a dificuldade que se enfrenta em torná-lo de todo concreto (MORAES, 2013).

Acredita-se que é esse horizonte que se deve ter em vista na disciplina do direito à água, para além do liberalismo econômico privatista, do direito antropocêntrico e mesmo dos direitos humanos fundamentais. Embora a concepção do constitucionalismo latino-americano parta das visões indígenas andinas sobre a vida, sendo difícil sua adoção por outros estados em que predomine outras culturas tal qual está posto nas constituições dos estados mencionados, é possível reconhecer o pluralismo jurídico na disciplina e gestão dos recursos ambientais, com destaque para a água, a partir de outras visões de mundo, de outras matrizes culturais; no Brasil, por exemplo, a cultura indígena tupi guarani e a cultura afrodescendente podem fornecer outros horizontes e paradigmas. Para além, pode-se afirmar hoje que a necessidade premente de uma visão biocêntrica/ecocêntrica das relações homem/natureza, que respeite a natureza e seus ciclos, é algo cientificamente comprovado como necessário para a sobrevivência dos ecossistemas terrestres e da própria humanidade, sendo basilar na busca pela garantia de justiça hídrica.

No Brasil ainda não há um avanço jurídico-político-social que supere o paradigma antropocêntrico, no entanto, há normas internacionais e constitucionais que nos fornecem elementos sólidos para afirmação de um direito humano fundamental à água, servindo de base para a análise da violação a que propõe este trabalho. A partir dessa exposição, o direito humano à água será analisada sob o prisma dos direitos humano-fundamentais positivados que alcançam o Brasil, adotando-se para isso uma perspectiva crítica e integrativa, que não concebe tal direito isolado dos princípios e outras fontes que orientam as construções e aplicações normativas (ADEDE Y CASTRO, 2008).

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