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9. AVG Tarama
9.1. Öntanımlı taramalar
9.1.2. Belirli dosyaları veya klasörleri tara
Uma das principais bases jurídicas a ensejar o debate acerca da violação de direitos humanos fundamentais é o princípio do não retrocesso da qualidade de vida (CANOTILHO, 1998), o que ocorreu de forma patente em diversas esferas da vida da comunidade.
Anteriormente à desapropriação, Boa esperança era um assentamento rural de cerca de 32 famílias, de responsabilidade do INCRA e criado por meio da portaria INCRA//SR- 02/Nº0064 de 22 de outubro de 1997 nas antigas terras da fazenda Boa Esperança, de propriedade de Sr. José Heldecy de Queirós Diógenes.
O assentamento apresentava uma infraestrutura bastante diversificada onde se podia contar com uma casa sede, vinte e cinco casas de alvenaria, dois pequenos açudes, quatro cacimbões, um curral, um galpão, cercas de arames entre outras estruturas. Os assentados praticavam uma agricultura de subsistência, onde de forma individual, plantavam culturas de ciclos curtos tais como milho, feijão, mandioca, arroz de sequeiro e algodão herbáceo, bem como a criação bovina, caprina, ovina e aves. As terras, que foram inundadas, eram férteis (SOUSA, 2013, p. 79).
38Número do processo: 0800086-15.2014.4.05.8101/ EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL/15ª VARA
A líder comunitária Ana afirma ainda que havia adutora e cisternas. No que pesasse a dureza da vida de camponês e as condições de vida ainda difíceis, com necessidade de melhorias, de mais apoio estatal, havia uma estrutura mínima que possibilitava uma vida digna. Durante a visita a campo, é possível ouvir recorrentemente remissões à vida passada com saudosismo.
A gente tinha uma escola na sede da antiga fazenda. E educação de jovens e adultos. Tinha grupos de trabalho. Fora as coisas de estrutura mesmo, poço, água, energia, rio perto, lugar para criar os bichos, terra boa pra plantar. Tinha atividades culturais, toda uma vida, que era difícil, mas bem melhor que essa. Eu era feliz lá e é muito difícil encarar essa realidade daqui. Parte da minha infância e adolescência lá foi muito boa, e saber que minha filha não terá isso dói. (moradora Ana, em entrevista individual quando questionada como era a vida na outra comunidade e qual a diferença).
A realidade posterior do assentamento é bem diversa. Não houve uma preocupação em reconhecer as origens das comunidades para então traçar estratégias de reassentamento que realmente contemplassem o modo de vida das comunidades, sendo a realidade das comunidades provenientes de assentamento e de ocupações tradicionais colocadas no mesmo bojo, com negligência das suas especificidades.
A começar, a comunidade Boa Esperança foi removida para uma área reminiscente do próprio assentamento que não foi inundada, e terminou se dividindo em duas partes, que constituem hoje Boa Esperança/Iracema e Boa Esperança/Potiretama. A situação de Boa Esperança/Iracema ainda se destaca por piores condições, como por exemplo, pela ausência de quaisquer cisternas construídas pelos órgãos estatais.
Embora pela imagem da foto em 2014 a realidade não pareça a priori ser ruim, frisa-se que não havia energia elétrica nem água encanada, nem posto de saúde, nem creche, nem fossas adequadas, estando as casas já em situação de deterioração – com rachaduras – antes ainda da comunidade recebê-las, como afirma o teor da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal exigindo o cumprimento do TAC nº01/2012 e a entrevista individual com uma liderança da comunitária:
Quando a gente entrou era em 2013, as casas estavam por concluir. Tinha muita coisa inacabada, muita mesmo, por fora parecia tudo pronto mas dentro faltava muita coisa de finalização importante, como portas, aparelho sanitário e pias, não construíram a casa com estrutura de fiação para todos os cômodos nem com encanação para receber água. Nas reuniões com Ministério Público, pelo que eu entendi eles lá do IDACE querem dizem que a culpa é nossa, porque a mão de obra da comunidade foi a mais usada, que o material usado segundos a tabelas lá eram de qualidade, adequados. Mas não era assim; os homens que trabalharam na construção desde o começo chegavam dizendo que os materiais eram ruins, que era obrar milagre fazer casa boa com o que tinham, as madeiras eram ruins, faltava telha, faltava cimento, era uma correria (moradora Ana, líder comunitária)
A comunidade Boa Esperança/Iracema foi ainda realocada para uma área que dista cerca de 8 km – de estrada de terra de difícil acesso pela irregularidade, pedras soltas e que na época chuvosa ficam enlameadas, às vezes impossibilitando a passagem de carros – da CE 138 que liga Alto Santo e Iracema, estando a 24 km da sede do município de Iracema. Observa-se, pela foto, o descaso do poder público para com a comunidade. Aos poucos, à custa de muitas reivindicações, foram sendo instalados os postes e ligações para energia e iniciada a construção da adutora, obras praticamente concluídas em 2014, porém os referidos serviços não eram concluídos, estando dependentes, segundo os órgãos responsáveis, da companhia de energia, COELCE, fazer a ligação elétrica – quando da primeira visita à comunidade, uma liderança mostrou os papéis e disse que ia mensalmente à Coelce e outros órgãos buscando entender porque o ligamento da energia não era concluído, relatando que o responsável na Coelce por este trabalho lhe disse que eles não iriam conseguir isso “assim tão fácil”, e lhe mostrou uma pilha grande de papéis afirmando que todos aqueles processos de ligação de energia eram prioritários, e estavam lá há muito mais tempo: “só tendo padrinho para conseguir e olhe lá, foi o que ele disse”, afirmou a liderança. Poucos meses depois, na segunda visita, a energia elétrica havia sido ligada há três dias, fato que muitas pessoas da comunidade imputavam como uma dádiva do prefeito de Iracema, destacando-se somente a fala de algumas como sendo fruto da luta e obrigação das autoridades, e não o favor.
Seguindo a análise da violação, compreende-se também quanto dever da COELCE enquanto empresa privada concessionária de serviço público a obrigação não só de se abster de lesar, como também de garantir a eficácia dos direito fundamentais dos indivíduos, devendo estar todas suas atitudes voltadas à consecução e efetividade destes, explicitando-se, assim, mais um aspecto que enseja a violação de direitos fundamentais da comunidade (CANOTILHO, 1998; SARLET, 2012).
Figura 2 – Comunidade Boa Esperança/Iracema vista da entrada
Fonte: Elaborada pelo autor.
Compreendendo a interligação entre fatos da realidade e entre os direitos fundamentais, afirma-se a necessidade de se evidenciar as violações além do direito fundamental à água, o que se soma a análise específica do direito em questão.
O direito fundamental à educação termina lesado, ao contrário do que o governo do estado vem afirmando sobre a realidade das comunidades removidas (Jornal O Povo, 2013). As crianças da comunidade vão à escola com muita dificuldade, são cerca de 50 km somando- se de ida e volta, o que é muito cansativo e atrapalha a qualidade de vida e o rendimento escolar das crianças – sendo os pais constantemente chamados à atenção nesse sentido –, fazendo com que muitas vezes estas faltem, principalmente as crianças mais novas,que são mais numerosas na comunidade.
A comunidade conseguiu junto à prefeitura de Iracema garantia de transporte escolar, mas, quando chove um pouco mais, as estradas de terra que dão acesso da CE 138 à comunidade ficam impossibilitadas de passar carro, que atolam facilmente.
Outra dificuldade semelhante existe quando se necessita de atendimento médico de qualquer natureza, como de intenso comércio, tudo só há passando pelas estradas de terra, o que, além de ser difícil pela comunidade só ter uma pessoa que tenha carro (embora quase todas as famílias tenham moto por questão de necessidade), sai dispendioso para as famílias.
Não há ainda equipamentos de lazer e cultura, o que havia na antiga sede: não há espaços de convivência social como praças, – os moradores construíram com muita
dificuldade uma pequena sede da associação deles, que, no entanto, mal comporta as reuniões – nem campo de futebol ou algo parecido, gerando perdas do modo de vida e lesão aos direitos à cultura da comunidade. Numa conversa informal durante uma noite da vivência em campo, uma criança mais velha que tem lembranças da vivência no assentamento original se queixa de “saudades do assentamento antigo, onde havia mais pessoas, mais vida, e noites de festa na casa sede, com violeiros e repentistas; agora não tem nada disso, de noite é só conversar um pouco e dormir cedo porque tudo se perdeu, e de dia nem espaço para jogar tem aqui”.
Merece destaque ainda a quebra dos laços de vizinhança causados pela distância e pelos conflitos, muitas vezes provocados propositalmente pelos poderes locais e pelos órgãos responsáveis pela obra para dividir as comunidades e dificultar a luta conjunta, realidade esta observada em outros lugares quando da construção de barragens, segundo relatos de militantes do MAB. Há, assim, uma perda do modo de vida tradicional, dos costumes, violando direitos culturais.
O assentamento Boa esperança/Iracema, como os demais de remoção da barragem, foi de responsabilidade de construção do IDACE (Instituto de Desenvolvimento Agrário do Ceará), com verbas repassadas pelo DNOCS segundo o convênionº001/2009, ao mesmo tempo em que é de responsabilidade do INCRA enquanto reassentamento rural desde sua regularização, em 1997. Todo esse envolvimento com órgãos, cada um com uma responsabilidade, é confuso – inclusive entre os próprios órgãos – e tem feito os moradores irem de um a outro com suas pautas reivindicatórias, que repassam a responsabilidade para outro e assim por diante, envolvendo ainda na seara da responsabilidade a prefeitura de Iracema, a companhia de água e esgoto do ceará (CAGECE) e a Companhia de distribuição de energia elétrica (COELCE, privatizada e fazendo parte da Enel). Isso vulnerabiliza ainda mais a comunidade, que termina refém da antiga prática de “favores” por parte de agentes políticos locais, imbricados nas práticas eleitoreiras (BURSZTYN, CHACON, 2013). Assim, é recorrente o discurso entre os moradores que a água, a energia, uma consulta médica, o transporte, veio por que um ou outro político ou agente político local deu ou ajudou.
Apesar de todos esses problemas, é no campo objetivo, da garantia de sobrevivência, que a comunidade vem sofrendo mais. Desde antes da desapropriação e remoção, no início das obras da barragem, o DNOCS proibiu as famílias de plantarem, principal meio de subsistência das famílias (SOUSA, 2013). Desde já, a situação financeira se agravou. Após a
remoção, a comunidade foi direcionada para uma área visivelmente pouco fértil, com solos rasos e pedregosos, que dificulta até mesmo a construção de pequenas hortas próximas de casa pela ausência de cisternas e da adutora.
Agravando a situação, as terras para a produção ainda não foram entregues, estando pendente a decisão quanto à compra. Sobre esse fato, há uma ata de uma reunião da liderança local com o Ministério Público Federal em 2014 no qual evidencia-se a não assunção do compromisso em nenhuns dos TACʼs assinados em relação às áreas de produção, foi o compromisso “de boca” de recomposição das áreas do assentamento principalmente diante do fato de terem sido as áreas férteis de plantio inundadas.
A comunidade tem buscado indicar os locais onde seria conveniente ter as áreas de produção e nesse sentido o INCRA já vistoriou e indicou duas áreas apropriadas para este fim, com solos com possibilidades de desenvolvimento de atividade agropecuária e proximidade relativa das casas, mas o IDACE não cumpriu ainda a obrigação de desapropriá-las ou adquiri-las para o assentamento. A comunidade segue sendo espoliada de um dos seus principais meios de produção, restando violado também o direito econômico ao desenvolvimento.
Sobrevive-se hoje da aposentadoria dos idosos que a possuem, da criação de alguns bichos feita no quintal de casa mesmo e nos arredores do açude, da ajuda do programa social bolsa família, da cesta básica que o IDACE fornece até que sejam dadas as terras e iniciadas a produção e de trabalhos informais quando encontrados. Essa situação gera muita insegurança econômica nas famílias.
Por fim, dentre a violação de outros direitos que não é possível açambarcar neste trabalho, chega-se especificamente a violação direito humano fundamental à água. A comunidade não possui água encanada. Para conseguir acesso à água, ou é mediante a compra em “carros pipas” – o que sai dispendioso para as famílias –, ou de doação da prefeitura, ou ainda de um açude que faz parte da comunidade e dista 800 metros das casas, estando a disponibilidade sujeita ao regime de chuvas. Não foram construídas cisternas porque a comunidade, sendo assentamento do INCRA, já possuía cisternas no assentamento anterior e não conseguiu ser reinserida em programas de construção de cisternas, como também o IDACE não garantiu a construção, apesar das reivindicações.
A adutora, que permitiria posteriormente que tivessem água encanada (embora as casas tenham sido construídas sem encanamento interno, indo somente até uma torneira externa a casa) e água para pequena produção nos quintais e cuidado com os animais, está inconclusa: falta energização e a perfuração do poço, cujo local está demarcado e construído,
como exigiu-se da comunidade que o fizesse. O IDACE argumenta que as obras da adutora não podem ser concluídas enquanto não se ligava a energia elétrica, porém, mais de um mês após a instalação da energia, ao se ter contato com as lideranças da comunidade, as obras da adutora não haviam sido concluídas, apesar da notificação das lideranças para o órgão da conclusão do processo de energização.
A única cisterna que há na comunidade e que vem garantindo o suprimento essencial de água foi construída por uma moradora, que relata:
Não, essa cisterna é minha, ninguém me deu, órgão nenhum; foi dinheiro meu, juntei, vendi meus bichinho para conseguir construir. Do que adiantava ter mais uns bichos e não ter água nem pra gente? Meu filho construiu, compramos o material. Graças a Deus pelo menos podemos fazer isso, que foi um socorro não só pra todo mundo da família, mas da comunidade né? Por que não fosse isso, quando chegasse caminhão de carro pipa, para onde ia a água? E como a gente ia fazer se não tivesse isso? Eu sou velha, não tenho como ficar indo naquele açude mais pegar água não, quase 1 km, é longe até para os meninos, mulher. Cansa, desgasta, viu? Aí está aí: compramos ou o prefeito que ajuda a comunidade muito manda água. (dona Helena, anciã de mais de 80 anos e líder comunitária – nome fictício).
De fato, toda a comunidade se utiliza da cisterna para abastecimento doméstico de uso humano, deixando mais as águas do açude para animais e demais usos. As crianças, acima de 10 anos, já são acostumadas a ir buscar água em carros de mão, juntamente com as mães e pais. É recorrente a reclamação das mulheres quanto às dificuldades que enfrentam para dar conta dos afazeres domésticos tendo que pegar água e tendo que racioná-la:
A gente pega a água, que cansa, cansa, né? E aí vem, trás. É quase 1 hora pra ir buscar encher e trazer uma carga de água do açude para cá, por que quando vem cheio tem que ter cuidado pra não derramar, né; quando tem que lavar roupa aí tem que ser umas cinco num dia; quando meu marido não está trabalhando fora, ele quem pega, mas quando ele está, que posso fazer? Vou eu. Os bichos também precisam beber e comer, e a gente precisa limpar a casa, e lavar roupa, né? Mas além disso tem que ficar vendo se tem, quanto tem, não pode deixar gastar muito no banho e nas coisas, tudo isso leva tempo, paciência, chega o fim do dia, o dia não rende...a gente se cansa. Não dá para trabalhar em mais nada. E quando alguém adoece e não pode pegar? É um deus nos acuda aqui (Célia – nome fictício – moradora da comunidade).
A situação do esgoto é também complicada. Não foram construídas fossas adequadas, estas são rasas, mal protegidas e próximas demais das casas, nos quintais, onde tradicionalmente a comunidade rural costuma plantar hortas e criar aves e outros animais, quando não há mais terras. Em muitas casas foi possível perceber o odor do esgoto no banheiro e na cozinha, como também ver esgoto a céu aberto, que polui a terra, traz problemas de saúde e pode contaminar os mananciais hídricos subterrâneos.
Figura 3 – O açude a 800 metros das casas
Fonte: SOUSA, 2012
Figura 4 – O local construído pela comunidade onde deve ser perfurado o poço para adutora
Fonte: Autora
Levando em conta o aporte jurídico levantado no capítulo 2, afirma-se que há uma violação do direito humano fundamental à água em curso, mesmo estando dentro daqueles números estabelecidos pela ONU de 50 litros por pessoa e distância máxima de 1000 metros. Como já se afirmou aqui, parte-se de um entendimento mais amplo e crítico dos direitos humanos fundamentais, de forma integrativa com os princípios da igualdade, da isonomia, da melhoria da qualidade de vida e do não retrocesso, o que anda díspare da realidade Boa Esperança/Iracema, como de outras comunidades no meio rural que se encontram em situações semelhantes: são vulnerabilizadas por uma proteção estatal insuficiente em seus direitos ambientais e sociais (ACSELRAD, 2003) quando comparadas a outras populações, principalmente de outras camadas sociais.
há lesão ao princípio da isonomia. A água, a energia e toda estrutura necessária mesmo que dependa dos órgãos estatais e não da iniciativa particular, chega sempre, por mais remotos que sejam os locais onde estejam localizados, nas grandes fazendas, nas empresas do agrohidronegócio (THOMAZ JR, 2010) e nos condomínios rurais de luxo que vem surgindo no campo. Aliás, essas instalações antecedem, na maioria das vezes, chegam antes e preparam uma estrutura para receber os que vêm depois. Nessa mesma senda, há também lesão do princípio da proporcionalidade mediante uma proteção insuficiente. O estado não só não garante a não lesão ao direito em questão, como tem sido ele mesmo agente, por intermédio de seus órgãos da administração pública e empresas concessionárias imiscuídas em serviços de natureza estatal.
Ainda aduz-se a lesão ao direito fundamental à água a partir da dedução do direito ao meio-ambiente (art.225) e à saúde (art.196), ambos vulnerabilizados pelo esgotamento sanitário inadequado e pela falta de água para uma higiene adequada das habitações e das instalações dos animais que a comunidade cria, hoje praticamente a única fonte de renda.
Afirma-se ainda a violação do direito fundamental à água na sua relação com o direito ao desenvolvimento como princípio da Constituição Federal, reafirmado a partir da ratificação do Tratado de direitos econômicos, culturais e sociais. Está evidente a impossibilidade de a comunidade desenvolver-se, garantindo direito individual ao desenvolvimento dos seus indivíduos, espoliada da terra, da assistência técnica, e também da água. Nesse sentido, um morador demonstra sua satisfação ao afirmar:
Se a gente não tem água para a gente, como ser humano, para necessidade básica mesmo que todo mundo, alias todo ser vivo, precisa, tem que ser comprando, se aperreando, mendigando, vocês acredita que eles vão dar água para gente produzir? Eu já acreditei, mas não acredito mais. Acreditei muito que seria tudo diferente, que a barragem é para todos, hoje não acredito que vai sobrar nada para gente, não, viu? (Seu Joaquim – nome fictício – morador da comunidade em fala durante a reunião da comunidade para elencar as pautas da comunidade)
Por fim, afirma-se ainda a violação do direito humano fundamental à água em sua inter-relação com os direitos culturais, sendo a água não só recurso econômico, mas também meio de realização cultural, como afirmado na Política Nacional de Recursos Hídricos. Durante a entrevista individual, a moradora Ana colocou essa violação da forma mais clara que há:
A gente precisa sobreviver de água e tudo, mas também tem outras coisas, né? A gente tem sentimento, vivência, apego. Por exemplo, lembro dos banhos nos rios, nas pedras, mesmo quando a água tava pouca na seca. A gente corria aquilo tudo...a barragem acabou tudo. As mulheres iam lavar roupa na beira do rio, era tão bom aquela convivência da gente, o vento, a natureza....as árvores, a brisa. Perdemos a sombra, os banhos bons, a conversa, a diversão mesmo, e isso é importante para gente. Dá tristeza não ter isso, e ainda não ter nada que compense. Pensamos que perdendo isso pelo menos podia ter outras coisas
boas, mas não ta vindo nada de bom. Eu preferia morar na minha casa pequena, velha, acabada, como era, do que ter essa casa maior mas que mesmo assim é toda se rachando, e não poder