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Contextualizando a situação de vulnerabilidade da comunidade Boa Esperança, faz-se mister destacar algumas informações sobre a barragem Figueiredo, que teve suas obras iniciadas em âmbito burocrático nos idos de 2007. A obra barra as águas do rio Figueiredo – um dos principais afluentes da bacia do Rio Jaguaribe – que, nascendo na Serra dos Bastiões, município de Iracema e Ererê, perpassa por Ererê, Iracema e Alto Santo, onde é barrado pela referida obra e segue até o seu encontro com o Rio Jaguaribe, a jusante do açude Castanhão (ALMEIDA, 2015).
O projeto faz parte dos grandes projetos hídricos supramencionados do estado do Ceará, visando interligar todas as 12 bacias do estado. É o açude com segunda maior capacidade hídrica da Sub-bacia do Médio Jaguaribe, cerca de 520 milhões de m³, atrás do Castanhão. A obra contou com um investimento total de cerca de R$ 111,26 milhões, parceria entre o governo do estado do Ceará com o Governo Federal, por meio do orçamento do Programa de Aceleração do Crescimento (DNOCS, 2012).
Inaugurada em junho de 2013, a barragem tem como objetivo, segundo informações do governo do estado, o controle das cheias no Baixo Jaguaribe, a irrigação de 6 mil hectares e o abastecimento de água para consumo humano e indústrias de cidades da região, com
benefícios para cerca de 100 mil habitantes e ainda possibilitando potencial pesqueiro de cerca de 2,9mil toneladas por ano e hidrelétrico de 1,18 Mw, possibilitando ainda atividades ligadas ao turismo, sendo assim considerada uma barragem para fins múltiplos (Governo do estado do Ceará, 2013).
Segundo o DNOCS, a construção da Barragem do Figueiredo é uma aspiração do povo do Vale do Jaguaribe que data de mais de 100 anos atrás, tendo sido inventariado na década de 1950(ALMEIDA, 2015). A barragem desapropriou cerca de 9.631 hectares, com impactos sobre comunidades originárias LAPA, de Potiretama; São José dos Famas, de Iracema, e Boa Esperança, na divisa entre Iracema e Potiretama. As duas primeiras comunidades citadas eram/são comunidades tradicionais da região, enquanto a comunidade de Boa Esperança é proveniente de um assentamento de reforma agrária do INCRA (SOUSA, 2013).
Pode-se afirmar que desde o início das obras do açude, em 2007, uma série de conflitos de interesses e controvérsias quanto a sua possibilidade/viabilidade dentro dos marcos da legalidade. Inicialmente, cita-se a auditoria nº 99/2008 do Tribunal de Contas da União (TCU), que já em 2008 encontrou uma série de irregularidades na execução das obras: execução orçamentária irregular; projeto básico/executivo deficiente ou inexistente, medidas mitigadoras exigidas pelo EIA / RIMA não estão sendo observadas no projeto básico / executivo e/ou na execução da obra; sobre preço decorrente de BDI excessivo; falha na execução dos serviços contratados/relacionados à desapropriação/realocação35. Apesar dessa
avaliação, a TCU não embargou a obra, considerando que os fatos encontrados não constituíam irregularidades graves e que, segundo DNOCS, medidas já estavam sendo tomadas a partir das recomendações feitas pela TCU.
No entanto as atitudes do DNOCS para sanar as referidas irregularidades se postergaram no tempo, a despeito de diversas reuniões com as comunidades e acordos firmados no sentido de criar e fazer cumprir um cronograma de trabalho nas desapropriações. Em agosto de 2010, a obra foi paralisada com a ocupação do seu canteiro pelas comunidades que seriam desapropriadas a partir de uma articulação com MAB e Cáritas de Limoeiro do Norte/CE. Repercutiu em todo o estado do Ceará a ocupação, que, nas reuniões do MAB realizadas na visita a campo na comunidade, é descrita com entusiasmo de uma vitória pelos moradores da comunidade Boa Esperança/Iracema:
Se não fosse o MAB ajudar a gente a se mexer, e a Cáritas, abrir nossos olhos de que só nós podia fazer algo pela gente e que não dava para ficar se fiando nas promessas
da Dnocs, do IDACE, do INCRA e desses órgão todos aí que parece que ficam de conluio para enrolar a gente, a gente estava debaixo da água, com as nossas coisas lá, porque eles iam sim fechar aquela parede, barrar as águas mesmo na época das chuvas e deixar nós lá; eles não se importam, se a gente fica calado eles finge que nós é peixe e não gente. (Relato do Seu Pedro – nome fictício – durante reunião de mobilização do MAB para as jornadas de luta de 2015).
Até o momento da ocupação do canteiro de obras, as indenizações das famílias que optaram por esta modalidade estavam pendentes e impedidas por processos demorados de regularização fundiária; mais temerosos e em maior situação de vulnerabilidade estavam as famílias que seriam reassentadas, não tendo, à época, sequer sido iniciadas as obras de construção das casas e já estando a obra da barragem em estado avançado. Após meses de ocupação, com um amplo apoio de setores da sociedade civil e movimentos sociais, a obra foi reiniciada após assinatura do termo de ajustamento de conduta PRM/LIM/CE Nº 02/2010. (SOUSA, 2013), no qual o DNOCS e IDACE se comprometiam a tomar providências ainda em 2010.
Em 2011, a Defensoria Pública da União entra com uma Ação Civil Pública (ACP) em decorrência do descumprimento dos termos do TAC 02/2010, estando ainda pendente a construção de casas, indenizações, dentre outras violações de direitos. Como exemplo, a petição da ACP traz a situação desde 2002 do não acesso a programas de acesso à água e fortalecimento da agricultura familiar em decorrência do planejamento de construção da barragem, tendo sido os moradores verbalmente informados que qualquer projeto que construíssem, não seriam indenizados. Legalmente, como afirma a petição, os efeitos da desapropriação por utilidade pública é de necessidade de autorização do expropriante para que qualquer benfeitoria útil seja edificada, e não a proibição diante da situação precária das comunidades36.
Também em 2011, as obras foram paralisadas por uma liminar da justiça, em razão de um recurso interposto pela Defensoria Pública da União (DPU) que juntou a Informação Técnica nº 030/2011, do IPHAN analisando o EIA/RIMA da obra e recomendando ao DNOCS a solicitação ao empreendedor da obra a contratação de uma equipe interdisciplinar de arqueólogos, historiadores e arquitetos para a realização de uma Perícia Técnica na Área Diretamente Afetada (ADA) e Área de Influência Direta (AID), do empreendimento em questão. O DNOCS não observou a Resolução do CONAMA nº 001/86, que determina que o diagnóstico do Estudo de Impacto Ambiental- EIA verifique o meio sócio-econômico no que
36Através da Cáritas, obteve-se acesso a cópia da petição inicial, no entanto não se encontrou processo em
andamento, e, não possuindo a chave que dá acesso ao PAJ, não foi possível identificar a situação processual da ação.
tange ao patrimônio histórico cultural e arqueológico, prejudicando, principalmente, a cultura e a história destas comunidades. A obra foi novamente liberada após o DNOCS se comprometer a sanar o problema. (Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais, 2011).
Antes do fim das obras, ainda em 2011, outros problemas tumultuaram e geraram conflitos entre os envolvidos, impactando diretamente as famílias que seriam indenizadas e reassentadas. Novamente a DPU agiu acolhendo uma denúncia de corrupção para ser apurada, que diz respeito à atuação de uma advogada, Sofia Quirino, filha de uma servidora do DNOCS diretamente ligada às decisões sobre a obra, buscando convencer as famílias a aceitarem o valor original proposto pelo DNOCS de indenização em contrapartida da agilização do processo de indenização, conseguindo a assinatura de procuração para transigir em nome de dez pessoas. Segundo a defensora pública a frente do caso, as indenizações já não eram a contento dos expropriados, e a tentativa da ação da advogada era baixá-las para os termos iniciais do DNOCS, que chegou a pagar só R$ 34 mil por um terreno produtivo de 97 hectares. A DPU abriu denúncia junto ao Ministério Público e da advogada junto à OAB (Jornal Diário do Nordeste, 2012).
Apesar da gravidade das denúncias a respeito das condutas do DNOCS, a mais grave diz respeito à assinatura de um segundo Termo de Ajustamento de Conduta nº 01/2012 que substituiu o primeiro, assinado em 2010, quando das negociações conseguidas mediante a ocupação do canteiro de obras pelas famílias articuladas com o MAB. Esta situação foi relatada ao Ministério Público Federal em reuniões com líderes da comunidade em 2012 e, posteriormente, em 201437, tendo como comprovação as atas das reuniões cuja cópia a
comunidade guarda juntamente com outros documentos. É perceptível os problemas e desconfortos que perpassam esse assunto, sendo esta uma das principais fontes de desgaste e conflitos entre moradores das comunidades. Alguns moradores denunciam que a assinatura deste segundo TAC, com prazos de cumprimentos prorrogados e pautas diminuídas, foi feito de forma escusa por um grupo de moradores que não representavam os anseios da maioria das comunidades e que foram aliciados/subornados para fazê-los.
37Esses e outros documentos que a comunidade forneceu para consulta são públicos e podem ser encontrados nos
referidos órgãos. Não seguem em anexos por conterem nomes reais de moradores e a comunidade não ter sido consultada previamente sobre colocá-los em anexo.
O descumprimento desse segundo TAC deu ensejo a “Ação Civil Pública de obrigação de Fazer” com base em título extrajudicial por parte do Ministério Público Federal, em 2014. O processo ainda não foi concluído. O processo está em andamento, sem uma decisão ainda38.
A barragem do Figueiredo foi inaugurada em junho de 2013 sob protestos das comunidades organizadas juntamente com o MAB, denunciando a situação real das comunidades removidas: famílias foram transferidas para reassentamentos sem água, energia elétrica, acesso à terra para produção, e as primeiras casas foram entregues já com rachaduras. Meses depois, as famílias voltam a fazer mobilização e ocupam a CE 138, próximos à vila de São José, com praticamente as mesmas pautas ainda não resolvidas (canal virtual da Cáritas, 2013). À contra senso, a mídia oficial dos grandes jornais noticiam a versão oficial do governo de que 120 famílias estavam em agrovilas e comunidades com casas e ainda com creche e posto de saúde, escondendo a realidade de violação de direitos mais básicos (O POVO, 2013). Como afirmado anteriormente, a comunidade de Boa Esperança/Iracema é a que se mantinha/mantém em pior situação, razão por que se voltam os olhares para ela como caso emblemático de violação de direitos e injustiça social/ambiental.