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Como já afirmado, apesar de o DRM ser uma trava tecnológica destinada a prevenir determinadas práticas de uso e distribuição dos arquivos digitais, a sua eficácia deriva não apenas da arquitetura, mas de uma combinação entre tecnologia, previsões legais131 e normas contratuais (BECHTOLD, 2002). Até esse ponto da análise, foi possível perceber que a tecnologia é responsável apenas pela primeira linha de defesa contra a utilização e distribuição não autorizada de obras protegidas por direitos autorais. Já a legislação, em lugar de preocupar-se apenas em dissuadir e punir a violação dos direitos autorais, atua de maneira mais efetiva ao proibir atos de circunvenção a essa tecnologia (BURK, 2005, p. 557). A partir de agora, será examinado como esses dois aspectos interagem com os dispositivos contratuais das transações econômicas sob arquivos digitais.

O aspecto contratual que garante a eficácia dos sistemas de DRM refere-se aos contratos, geralmente termos de uso, celebrados entre o provedor de conteúdo e usuário quando este adquire o arquivo digital protegido por DRM. Em outras palavras, cada vez que um conteúdo protegido por DRM é adquirido, o usuário deve concordar com os termos e condições de uso que lhe obrigam a utilizar o arquivo digital de uma determinada maneira.

Tais contratos costumam refletir as mesmas restrições impostas pela arquitetura, dispondo, por exemplo, que o usuário concorda em não acessar o livro digital em um dispositivo de leitura comercializado por outra empresa. Mas, além disso, esses contratos protegem também o próprio sistema DRM, obrigando o consumidor a anuir em não contorná-

130 Na avaliação de Valente e Mizukami, alguns fatores que contribuíram para isso foram: a indicação de Ana de

Hollanda (que mantém relações próximas à indústria fonográfica ao ECAD, contrários ao anteprojeto) para o Ministério da Cultura; o fato de que o Marco Civil da Internet excluiu das suas regras a determinação responsabilidade de intermediários nos casos de infração aos direitos autorais, o que acaba por acrescentar mais um ponto polêmico na pauta da reforma da LDA; as eleições de 2014 e o fato de que, no ano de 2013, alguns projetos de lei já foram controversos o suficiente, como o Marco Civil da Internet (VALENTE; MIZUKAMI, 2014).

131 É importante notar que a proteção legal assegurada para sistemas de DRM pode, em alguns casos, ter duas

dimensões: medidas anticircunvenção e proteção patentária. Isso porque os sistemas de DRM são muitas vezes protegidos por patentes ou segredos de negócio, o que significa que, se o titular de direitos autorais quiser usar um determinado sistema de DRM em suas obras, ou um fabricante de dispositivos eletrônicos quiser permitir que seus dispositivos processem arquivos protegidos por tal sistema, eles têm que celebrar um contrato de licença de tecnologia com o desenvolvedor desse sistema DRM (BECKER et al., 2003, p. 610).

lo. Em particular, algumas transações exigem que o usuário concorde em não violar ou manipular as TPM independentemente do propósito (BECHTOLD, 2002, p. 217).132

O seguinte exemplo ajuda a visualizar como a tecnologia, previsões legais e disposições contratuais interagem para garantir a eficácia dos sistemas de DRM: caso se queira evitar que o usuário acesse o arquivo em um dispositivo ou software desenvolvido por outras empresas, acessar o arquivo em outro ambiente será estruturalmente impedido pelo sistema DRM. Sabe-se, contudo, que sistemas DRM não são infalíveis e podem ser quebrados. Por isso, a lei atua nesse ponto proibindo atos de circunvenção, bem como a fabricação e distribuição de ferramentas para burlar os sistemas de DRM. Da mesma forma, os termos de uso vão dispor que esse acesso é proibido. Nesse caso, o usuário passa a ter responsabilidade legal e contratual pela circunvenção, sem contar a possível responsabilidade por infração ao direito autoral.

Esse exemplo não é muito diferente da prática. Os termos de uso da Loja Kindle,133 por exemplo, determinam que, após o pagamento e o download do livro, a Amazon confere ao leitor “o direito não exclusivo de ver, usar e apresentar” o livro “por um número ilimitado de vezes, unicamente no Kindle ou em um Aplicativo de Leitura, [...] unicamente no número de Kindles ou Dispositivos Compatíveis especificados na Loja Kindle e exclusivamente para seu uso pessoal, não comercial.” Os termos de uso também dizem expressamente que o livro é licenciado pela Amazon, e não vendido, e que o usuário não pode “vender, alugar, locar, distribuir, transmitir, sublicenciar ou de outra forma ceder qualquer direito” do livro ou parte dele a terceiros, nem “remover ou modificar qualquer aviso de propriedade ou marca” do arquivo. Além do mais, o usuário “não pode contornar, modificar, anular ou evitar os recursos de segurança que protegem [o livro digital]” – o que significa que o DRM do livro digital não pode ser alterado, independentemente do propósito. Caso o usuário não cumpra com tais termos, a Amazon pode revogar imediatamente o acesso à loja e ao conteúdo adquirido, sem qualquer reembolso.

132 Considerações sobre a validade de contratos de adesão não serão exploradas neste trabalho, uma vez que, para

o objetivo da pesquisa, basta compreender como os termos contratuais reforçam as limitações impostas pela arquitetura dos sistemas de DRM.

133 Os Termos de uso da Loja Kindle da Amazon estão disponíveis para consulta, em português, em:

http://www.amazon.com.br/gp/help/customer/display.html/ref=hp_rel_topic?ie=UTF8&nodeId=201014950. A

versão estadunidense está disponível em:

Similarmente, os termos de uso da iBookstore134 trazem extensas regras sobre o acesso do conteúdo em mais de um dispositivo: o usuário pode ter até 10 dispositivos associados (que devem ser dispositivos da Apple ou um computador),135 desde que no máximo 5 sejam computadores e que eles acessem apenas uma conta do iTunes por vez (sendo que a troca de contas em dispositivos pode ocorrer apenas uma vez a cada 90 dias). O usuário pode optar por realizar o download automático do conteúdo adquirido em todos os dispositivos associados ou optar por fazer o download de graça posteriormente. Contudo, a Apple informa que é possível que o conteúdo adquirido não esteja mais disponível para download, caso em que a empresa se exime de responsabilidade. Também fica a cargo do usuário evitar perda, destruição e danificação do arquivo. No que diz respeito ao DRM, o usuário deve concordar em “não violar, contornar, fazer engenharia reversa, decompilar, desmontar ou de outra forma manipular” a trava, independentemente da razão. O usuário também concorda em não acessar o conteúdo por qualquer meio que não um software fornecido pela própria Apple. Há, ainda, várias previsões garantindo à Apple o direito de alterar, suspender ou revogar o acesso ao conteúdo a qualquer momento, sem aviso.

Ronaldo Lemos (2005, p. 155) chama a atenção para duas características importantes dos termos de uso, que podem ser observadas nos exemplos trazidos acima. Em primeiro lugar, sua absoluta unilateralidade: trata-se de contratos redigidos exclusivamente por uma das partes, que tem controle completo sobre suas disposições. Em segundo lugar, os termos de uso são voláteis: como estão hospedados nos websites dos ofertantes, sua redação pode ser alterada a qualquer tempo, sem qualquer aviso ou pedido de anuência aos usuários que concordaram com o texto anterior. Com isso, é possível que a loja altere ou revogue direitos previamente acordados de forma unilateral e sem deixar rastros da alteração. Dessa forma, tais contratos acabam sendo verdadeiros “cheques em branco, passíveis de serem modificados a qualquer momento, uma vez que a assinatura foi neles aposta” (LEMOS, 2005, p. 155).

O exame dos termos de uso das livrarias deixa claro que as diferentes camadas de proteção dos sistemas de DRM não operam de forma independente. Ao contrário, elas se entrelaçam e se alternam, de modo que, se uma camada falhar, outra passa a intervir, reforçando a segurança oferecida por tais sistemas na proteção dos direitos autorais. Assim, a eficácia do DRM não é atingida apenas pela sua arquitetura, por leis anticircunvenção ou por garantias contratuais, mas pelo resultado da combinação de todos esses meios (BECHTOLD,

134 Os termos e condições da iBookstore no Brasil estão disponíveis em: https://www.apple.com/legal/internet-

services/itunes/br/terms.html#APPS e os da loja estadunidense em: http://www.apple.com/legal/internet- services/itunes/bw/terms.html#APPS (acesso em acesso em 02/08/2014).

2002, p. 221). Tal quadro agrava as preocupações levantadas sobre a possibilidade de criação de um direito autoral privado, pois permite enxergar que as regras impostas unilateralmente pelo titular do direito autoral contam com uma rede de proteções que garantem a sua observância em um nível de que poucos direitos desfrutam. Tendo isso em mente, é importante indagar se esse excesso é de fato justificado pela eficácia dos sistemas de DRM no combate à pirataria.