Deve-se registrar, também, o argumento de ser importante o respeito aos precedentes judiciais para o fortalecimento institucional do Poder Judiciário. Segundo os que defendem esse ponto, adotando-se um sistema de respeito aos precedentes74, os magistrados
tenderiam a deixar de agir com exagerada autonomia interpretativa, passando a compreenderem-se como pertencentes a uma única estrutura de poder da qual devem emanar decisões harmônicas. Dessa forma, haveria a redução do que se convencionou chamar de “solipsismo judicial”75, em que o guia para a decisão judicial seria apenas a consciência
individual e desvinculada da tradição jurídica institucional, numa atitude pragmática semelhante à postura do realismo norte-americano, onde se buscava a “solução justa” do caso concreto, independentemente dos vínculos deontológicos estabelecidos pelos precedentes e pela interpretação das leis já consolidada na prática dos tribunais.
Com efeito, ainda que não se concorde em absoluto com a imagem um tanto caricatural e exagerada traçada por Lênio Streck quanto ao magistrado que se mostra tendente a decidir conforme sua compreensão individual de justiça, em razão de ser tênue a linha que divide o âmbito da independência e do livre convencimento motivado do campo de real desprezo pela legalidade ou pela jurisprudência consolidada, sendo fundamental para o regime democrático a liberdade de convicção judicial, o certo é que a observação da tradição
74 Evita-se no âmbito deste trabalho a utilização da expressão “sistema de precedentes”, muito comumente usada
na doutrina nacional, por considerá-la equivocada. Defende-se que não se implantou no Brasil um real “sistema de precedentes”, como se existisse um sistema formado por elementos exclusivamente jurisprudenciais, paralelo ao sistema normativo legal. Ao contrário, defende-se nesta dissertação que os precedentes vinculantes constituem elementos integrantes do mesmo ordenamento jurídico, que deve ser tomado como um todo harmônico, constituído por todas as fontes de emanação de influxos deontológicos, sejam provenientes de normas produzidas pelo Poder Legislativo, sejam resultado da interpretação levada a efeito pelo Judiciário.
75 Por todos, vale registrar as críticas de Lenio Luiz Streck à decisão judicial baseada na consciência individual,
afirmando que a base desse pensamento estaria no fundamento filosófico do sujeito moderno. Observe-se parte de seu texto sobre o ponto: “É preciso entender que o sujeito solipsita – que está na base da afirmação do tipo ‘decido conforme minha consciência’ – é uma construção filosófica que deita suas raízes no que antes delineei. Essa concepção tem como ponto de partida o cogito ergo sum de Descartes, passando pelas mônadas de Leibniz, pelo eu transcendental de Kant, até chegar a seu extremo em Schopenhauer, com a ideia de mundo
como vontade e representação. Com efeito, como afirma Blackburn, o solipsismo ‘é a consequência extrema de se acreditar que o conhecimento deve estar fundado em estados de experiência interiores e pessoais, não se conseguindo estabelecer uma relação direta entre esses estados e o conhecimento objetivo de algo para além deles’. Trata-se, portanto, de uma corrente filosófica que determina que exista apenas um Eu que comanda o Mundo, ou seja, o mundo é controlado consciente ou inconscientemente pelo Sujeito. Devido a isso, a única certeza de existência é o pensamento, instância psíquica que controla a vontade. O mundo ao redor é apenas
um esboço virtual do que o Sujeito imagina, quer e decide o que é.” STRECK, Lenio Luiz. O que é isto –
93 jurisprudencial, ao passo que se dirige à uniformização das respostas dadas à sociedade, tende a estreitar os vínculos dos membros do Poder Judiciário, para que se observem como integrantes de um mesmo sistema de justiça, que deve buscar a racionalidade e a coerência de suas manifestações. Soluções contraditórias para casos semelhantes, como acima referido, tendem a reduzir o grau de confiança na Justiça, ao passo que a segura prestação jurisdicional agrega mais legitimidade à ação do Poder Judiciário. Sobre o ponto, valem as palavras de William Pugliese:
Ora, sabe-se que o Judiciário é o poder com maior déficit democrático, já que seus membros não são escolhidos pelo sufrágio, mas sim por concurso público. Sem a legitimidade conferida pela população, e não tendo mais os juízes a mera função de aplicar a lei, as decisões precisam ter um fundamento mais forte do que a simples opinião pessoal do magistrado. Este elemento mais forte é encontrado, justamente, no respeito aos precedentes, o que se traduz para a população na imagem de que o Direito é uno e aplicado igualmente para todos76.
Lado outro, a observância obrigatória dos precedentes judiciais ensejaria mais controle sobre o poder do magistrado na solução das lides, permitindo aferir com maior precisão, as manifestações judiciais que se aproximam ou se distanciam das legítimas expectativas da comunidade jurídica, sendo fator importante, segundo alguns, para garantia da imparcialidade. Note-se que soluções diferentes para casos semelhantes, sem destaque para elementos objetivos justificadores da distinção, tendem a espelhar injustiça aos olhos da sociedade, ou a percepção da falta de segurança na prestação jurisdicional. Refere Luiz Guilherme Marinoni que “ao permitir decisões díspares a casos iguais, o sistema estimula o arbítrio e a parcialidade”. Para Marinoni, a vinculação dos magistrados aos precedentes evitaria decisões arbitrárias. Ademais, “quando está sujeito ao seu passado, isto é, ao que já decidiu, o juiz não pode, ainda que deseje, ser parcial ou arbitrário”77 pois não poderia
“decidir casos iguais segundo o rosto das partes”78.
76 PUGLIESE, William. Precedentes e a civil law brasileira: interpretação e aplicação do novo código de
processo civil. Coordenação de Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Arenhart e Daniel Mitidiero. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 61. (Coleção o novo processo civil).
77 Vale notar, neste ponto, um aspecto de incoerência no pensamento exposto por Luiz Guilherme Marinoni,
quando defende que somente seriam precedentes as decisões oriundas dos tribunais que denomina de “Cortes Supremas” (STF e STJ) negando a produção de decisões vinculantes inclusive aos Tribunais de Justiça e aos Tribunais Regionais Federais. Apesar dessa visão estreita quanto ao precedente, referido autor acaba admitindo que o juiz deve estar vinculado ao seu passado, ou seja, às suas próprias decisões anteriores. Como se observa ao longo desta pesquisa, conclui-se que uma teoria adequada dos precedentes vinculantes não pode limitar o conceito de precedente às decisões dos tribunais superiores, pois todo o sistema deve tender à coerência, isto é, o magistrado singular deve agir de forma coerente inclusive em face de suas próprias decisões. A afirmação de Marinoni de que o juiz “está sujeito ao seu passado” corrobora a conclusão desta pesquisa, ao passo que infirma a visão exclusivista esposada pelo citado autor.
78 MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes obrigatórios. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p.
94 Por outro lado, respostas jurisdicionais coerentes com a tradição institucional, estabelecida no âmbito da jurisprudência, possibilitariam maior facilidade de aceitação, mesmo pela parte sucumbente, elevando a crença na Justiça. De fato, como refere Marinoni, “aquele que obtém decisão desfavorável quando, em caso idêntico, outro recebe decisão favorável, tem bons motivos para deixar de acreditar no Poder Judiciário”79. O fortalecimento
institucional do Poder Judiciário com a prática de respeito aos precedentes é destacado por Luiz Guilherme Marinoni como uma das justificativas ao modelo proposto no novo Código de Processo Civil, ainda que referido autor tenha uma visão hierarquizada no que respeita ao tema, entendendo que somente às cortes supremas caberia a interpretação das leis80, com o
que não se concorda neste trabalho.