Partindo-se da necessidade da formação de um conhecimento mais preciso sobre a realidade na qual está inserido o objeto de análise da presente pesquisa,
buscou-se realizar um apanhado dos números disponíveis sobre presos provisórios no estado do Rio Grande do Sul. Deve-se deixar claro que, mesmo que a pesquisa sobre os acórdãos judiciais tenha sido realizada em processos pertencentes à comarca de Porto Alegre, os números encontrados em fontes oficiais46 dizem sempre respeito à totalidade das comarcas estaduais, sendo impossibilitada a análise de cada uma delas. Outro ponto a ser esclarecido é o que diz respeito ao fato dos números abaixo citados serem referentes a presos provisórios: não são encontrados dados específicos sobre presos preventivos, mas se deve levar em conta que presos provisórios podem ser aqueles que cumprem medida de prisão temporária e preventiva, sendo que, normalmente, quando a primeira tem seu prazo expirado, passa a ser utilizada a segunda.
De acordo com o relatório InfoPen, disponibilizado pelo Departamento Penitenciário Nacional – DEPEN – o estado do Rio Grande do Sul apresentou uma substantiva variação no seu número de presos provisórios entre os anos de 2005 e 2007. No ano de 2005, o estado possuía 6.464 presos preventivos, sendo destes 6.153 do sexo masculino e 311 do sexo feminino. Estes presos representavam, na época, 29,18% da população prisional gaúcha, formada por 22.150 presos em regime fechado, semi-aberto e aberto.
Em 2006, ocorre a diminuição expressiva do número de presos provisórios no estado, que passam a ser 3.159 (2.924 homens e 235 mulheres). Este dado demonstra uma redução de 48,87% se comparado ao ano de 2005. A percentagem de presos provisórios em relação ao total de presos também foi reduzida, passando a 13,64% do total de 23.154 presos.
Já no ano de 2007, o número de presos provisórios cresce 80,27%, passando a 5.695 indivíduos (destes 5.290 homens e 405 mulheres). Ainda assim, o total de presos provisórios ainda foi menor do que o do ano de 2005, representando em 2007, 22,93% da população prisional do estado no ano, que era formada por 24.829 indivíduos.
A tabela abaixo demonstra a variação no número de presos provisórios por tipo penal entre os anos de 2006 e 2007, de modo a demonstrar a variação anual
46Ministério de Justiça
– Execução Penal. InfoPen. Disponível em:
<http://www.mj.gov.br/depen/data/Pages/MJD574E9CEITEMID364AC56ADE924046B46C6B9CC447 B586PTBRIE.htm>. Acesso em: maio de 2008.
entre cada tipo. Mesmo que os dados sejam relativos a casos já julgados, observa- se que são representativos da medida cautelar.
Tabela 1 - Variação do número de presos, entre 2006 e 2007, de acordo com tipo penal
Crime (tentado/consumado) 2006 2007 Variação
Atentado Violento ao Pudor 280 345 +23,21%
Corrupção de Menores 07 10 +42,85%
Crime contra a Administração Pública 252 293 +16,27%
Crimes previstos na Lei de Armas 1.522 2.168 +42,44%
Estupro 393 386 -1,79%
Extorsão 59 72 +22,03%
Extorsão Mediante Seqüestro na Forma Qualificada 23 13 -43,48%
Falsificação de Documentos 187 204 +9,09% Furto Qualificado 1.177 1.277 +8,49% Furto Simples 484 512 +5,78% Homicídio Qualificado 920 924 +0,43% Homicídio Simples 805 1.010 +25,46% Latrocínio 213 231 +8,45% Quadrilha ou Bando 458 479 +4,58% Receptação 982 1.178 +19,96% Roubo Qualificado 5.295 5.302 +0,13% Roubo Simples 864 925 +7,06% Seqüestro 30 25 -16,66% Tortura 12 06 -50% Tráfico de Entorpecentes 2.467 1.588 -35,63%
Tráfico Internacional de Entorpecentes 57 39 -31,58%
Extorsão Mediante Seqüestro 17 13 -23,53%
Outros Crimes 4.125 6.887 +66,95%
Fonte: Sistema Integrado de Informações Penitenciárias – InfoPen, 2008.
Ainda que a tabela acima demonstre a variação do número de presos de acordo com cada tipo penal, deve-se considerar o fato de que a extensa maioria dos crimes possui uma cifra negra imensurável, compreendida como a diferença entre o numero de crimes efetivamente praticados e o numero daqueles de que os órgãos do sistema penal tomam conhecimento e que fazem parte das estatísticas oficiais.
A cifra oculta da criminalidade pode ser compreendida como a lacuna correspondente entre a totalidade dos atos que são criminalizados que ocorreram em determinado local e tempo, relativos à criminalidade real, e os delitos que chegam ao conhecimento dos aparelhos do Estado, relativos à criminalidade registrada.
Muitas vezes o crime nem chega a nascer como fato estatístico, ou seja, não se dá a sua apresentação ou recepção no sistema de instâncias formais de controle: é o que acontece com a criminalidade oculta, expressão que abrange todo o crime que não atinge o limiar mínimo de crime conhecido pela polícia. Mesmo que nasça, nem sempre consegue
sobreviver: do caudal da criminalidade conhecida pela polícia, nem toda é
descoberta ou clarificada, objeto de acusação, julgamento, condenação. A passagem do crime de instância a instância [...] é inevitavelmente feita à custa da intervenção de margens maiores ou menores de cifras negras. (DIAS, ANDRADE, 1992, p. 133).
Um dos fatores passíveis de explicar parte da cifra negra passa pela perda da legitimidade tanto da força policial, quanto do sistema jurídico penal oficial. A descrença no auxílio policial ou judicial no sentido de sanar o dano causado pelo delito acaba muitas vezes levando indivíduos a buscarem soluções privadas para seus problemas. Porém, este movimento de perda da legitimidade do sistema penal pode ainda produzir uma atitude diversa: grupos sociais passam a reivindicar a maior criminalização e punição de condutas consideradas ameaçadoras.
As vítimas da criminalidade ou pessoas que se sentem diretamente ameaçadas reivindicam uma ajuda ou uma proteção eficazes. Isto é o que elas querem. E, neste aspecto, sua relação com o sistema repressivo atual é complexa. Muitos sabem – e alguns já tiveram a experiência – que, no estado atual, o dito sistema não traz nem esta ajuda, nem esta proteção. E não há dúvida de que as pessoas pedem uma mudança na situação atual. (HOULSMAN, DE CELIS, 1993, p.114).
De acordo com Lemgruber (2002), a falta de pesquisas regulares sobre vitimização e a informatização precária do Sistema de Justiça Criminal brasileiro impossibilitam a determinação da real criminalidade no país. Logo, pela falta de indicadores sobre o funcionamento do Sistema, não existe a possibilidade do mesmo ser avaliado objetivamente.
Não existem dados confiáveis para se determinar a ―cifra negra‖ ou ―taxa negra‖. [...] Tampouco se pode conhecer a ―taxa de atrito‖, ou a proporção das perdas que ocorrem em cada instancia do Sistema de Justiça Criminal, a partir do número de crimes cometidos, culminando com o número de infratores que recebem uma pena de prisão. Outra incógnita é a taxa de esclarecimento de crimes – quantidade de crimes em relação aos quais a polícia é capaz de indicar ao Judiciário um provável culpado, tomando-se como ponto de partida os crimes registrados. (LEMGRUBER, 2002, p. 157).
A pouca disponibilidade de dados oficiais que auxiliem a compreensão de situações mais pontuais a respeito do sistema penal do Rio Grande do Sul, bem
como de todo o território brasileiro, dificulta em muito a realização de um diagnóstico mais preciso. Porém, ainda que uma análise mais aprofundada acerca dos dados numéricos seja impossibilitada, os reais esforços da presente pesquisa estão colocados na interpretação dos discursos utilizados pelos desembargadores das câmaras criminais do estado em suas decisões de concessão ou denegação de pedidos de habeas corpus para indivíduos que cumprem a medida de prisão preventiva, expedida na comarca de Porto Alegre.