2. İLGİLİ LİTERATÜR VE ARAŞTIRMALARIN İNCELENMESİ
2.6. Liderlik
2.6.3. Okullarda Takım Liderliği
mais ao trabalho com os cidadãos mais vulneráveis, aumentavam sistematicamente através dos documentos publicados e da insistência do então Superior-Geral dos Maristas. Aquele apelo feito nas conclusões do XIX Capítulo Geral não foi esquecido, ao contrário, tornou-se algo insistentemente lembrado e cobrado das Províncias. Ao realizar a visita “rotineira” à Província do RS, o Irmão Benito Arbués – Superior-Geral no início da década de 90 - foi enfático e sugeriu que se cumprisse o que o Capítulo Geral havia recomendado: fundação de pelo menos uma obra social. E que também mais Irmãos fossem trabalhar nos meios populares.
Os Irmãos da Província do RS, reunidos em Capítulo Provincial, no ano de
1994, fixaram no Plano Trienal64 que deveria ser fundada uma obra social de
destaque pela Província, significando a opção educacional e religiosa dos maristas
pelos “excluídos”65. Tal decisão gravada no plano condiciona ações da Província,
direcionando capital financeiro e humano para que se concretize tal empreendimento, ou seja, como vimos no capítulo anterior, foi necessário “convencer”, através das relações de disputa, os demais maristas, para que participassem de tal processo de fundação. O desafio, como nos conta um dos entrevistados, era de tornar a adesão as obras sociais, algo coletivo, não mais de uma ou duas pessoas.
Então, sempre houve a característica, na província, de trabalhar com os pobres da época, com crianças de colégios gratuitos, junto aos colégios noturnos. Houve um Irmão que se destacou e até ficou conhecido com “o Padre das cabras” – distribuía cabras, foram obras sociais que na época eram reconhecidas, como a FAG, os sindicatos, os sindicatos rurais, isso obra do Irmão Miguel Dario enfim, essa coisa toda, mas foram ações de uma pessoa e não de uma reflexão provincial [...].66
Conhecedores dessa realidade, os maristas do RS, no ano de 1996, durante
as Jornadas de Formação Permanente67, tiveram como tema de reflexão a
64 Plano que define as ações que serão realizadas durante o triênio do Provincial eleito. É elaborado
durante o Capítulo Provincial, que é a assembléia de autoridade suprema e deliberativa.
65 Ver Plano Trienal 1994 - 1996, p. 93, item 4.6.6.1. 66 Entrevistado B.
67 Encontro de formação temática para os Irmãos, que divididos em grupos, se reuniam de sexta a
“pobreza”, sendo convidados para visitas de sensibilização, em obras sociais ou realidades periféricas de Porto Alegre. Uma proposta de formação empírica no intuito de agregar conteúdo para discussão sobre o tema, uma vez que a primeira obra social de “vulto” já estava sendo projetada. Um dos grupos de Irmãos era convidado a fazer a experiência na vila que contornava o terreno onde estava sendo iniciada a construção do CESMAR.
Toda a preparação anterior buscava reduzir ao máximo os tensionamentos do subcampo na fundação de obras sociais, ou seja, foi uma das estratégias utilizadas para concretizar os apelos do Capítulo Geral e do Plano Trienal.
A concretização do projeto veio após um período de um ano e meio de construção, em agosto de 1997, com a inauguração oficial do CESMAR, agora em pleno atendimento e com projetos de ampliação, visto que durante o primeiro ano funcionou parcialmente. A fundação tinha como objetivo cumprir a meta do XIX Capítulo Geral, demonstrando a opção religiosa pelos pobres. Nesse período, as incompreensões e críticas no interior do subcampo se multiplicaram, pois a obra já “nasceu grande”, e o terreno visitado dois anos antes por muitos Irmãos transformou-se em algo muito grande e capaz de causar “inveja” entre as demais instituições da região, ou mesmo deixar muitos diretores de colégios “inconformados” pelo fato de não conseguirem aprovar seus recursos para reforma e construções nos colégios, mas viam aquele grande investimento numa obra social. Havia os prós e contras, pois para a grande maioria dos Irmãos os “pobres” deveriam receber a mesma qualidade de atendimento que os mais abastados recebiam nos colégios.
É importante salientar que esses conflitos, disputas, não aparecem claramente nos escritos ou declarações da Congregação, porém estão bem presentes na memória dos Irmãos entrevistados, mesmo que de maneira muito sutil e traduzidos somente na forma de impacto no subcampo. Um dos entrevistados, após dizer que o processo de abertura de obras sociais foi pacífico, admite que quando os Irmãos viram a estrutura física do CESMAR, a perspectiva mudou. Mas o entrevistado logo justifica dizendo que era “necessário”, manifestando as relações que aí se estabeleceram
[...] quando a obra social ficou pronta houve uma espécie de espanto, porque ela era e é muito grande, então o pessoal se assustou, o pessoal que eu digo é o interno (maristas), mas todo esse mundo (construção) é necessário, porque estavam acostumados apenas com pequenas creches [...]68
A nomeação de Irmãos que se identificavam com a área da assistência social e ao mesmo tempo representantes dos diversos grupos de Irmãos da Província (jovens, idosos...) foi outra metodologia utilizada pelo provincial, que para coordenar o Cesmar e a fundação de obras sociais nomeou um ex-provincial e, para fazer comunidade com ele, um Irmão mais idoso, que sempre morou em colégio particular e um jovem Irmão, com boa liderança entre os demais jovens.
O novo sempre surge impulsionado por algo que já está estruturado e que por sua vez é capaz de estruturar. Os maristas do RS, como organização do campo religioso, também buscam “se antecipar ao futuro” partindo da caminhada anterior já realizada, estruturam e são estruturados dentro das transformações do espaço social, ou seja, na disputa entre os diversos campos. Fato que não foi diferente na decisão de fundar obras sociais, uma vez que as decisões do campo político direcionavam-se para uma maior cobrança da Lei da Filantropia, conforme demonstrado no capítulo anterior.
A disputa no subcampo, porém, se dá em outro patamar, o da possibilidade de vir acontecer que as obras sociais possam deter grande poder simbólico e econômico, uma vez que os Maristas as estruturavam dentro do subcampo e projetavam um futuro que de certa forma era “expansionista”, audacioso. Esse poder simbólico de linguagem podemos perceber na resposta de um Irmão marista, que fala de forma empolgante sobre o grande futuro do CESMAR:
Então, praticamente em 96 eu fiquei estudando o problema e em 97 é que, depois que havia sido comprado o terreno, metade do terreno que temos lá no Cesmar, eu disse pro Antônio: - Olha, Antônio, não dá pra trabalhar com esta metade, eu quero mais, pelo ou menos quatro hectares (hum). Aí que foi comprado o resto, então, do terreno, para podermos iniciar uma obra social de vulto, como queria o Capitulo Geral e como os Irmãos do próprio Conselho e do Capítulo Provincial haviam pedido. Então ai é que nós iniciamos esta obra social69.
68 Entrevistado B. 69 Entrevistado A.
O CESMAR, além de responder aos apelos do Capítulo Geral e adequar a Organização marista do RS à Lei da Filantropia, também representou um resgate histórico da opção dos maristas pelos empobrecidos, apesar de alguns agentes maristas não aceitarem tal “entendimento” e esboçarem reação contrária ao projeto, pois lhes parecia sinônimo de esbanjamento financeiro. Enfim, é demonstrada uma disputa, que aqui se materializa na construção do CESMAR:
Bem. Qual foi a reação dentro da Província? Primeiro, quando mostrei o projeto, disseram: Você é louco. Por que está fazendo isso pros pobres? Eu disse: os ricos já têm e vão correr este pessoal se eles forem aos colégios [...]. Bom, segundo aspecto que ocorreu, foi que diversos Irmãos disseram: - Onde é que se viu agora, desviar dinheiro para isto, pra aquilo, pra estes...? Afinal de contas nós somos feitos pras escolas, não somos feitos para isto aí. E eu, bom..., disse: continuem com as escolas, nós vamos começar a trabalhar com obras sociais”70.
A nova linguagem que aos poucos se impõe no subcampo marista demonstra o valor simbólico desta obra, não só para os Maristas, mas na relação com os demais campos, afirmando de certa forma que no subcampo marista o que Bourdieu já lembrava, ou seja, que
as relações de força mais brutais são, ao mesmo tempo, relações simbólicas e atos de submissão, de obediência, são atos cognitivos que, como tais, põem em prática as estruturas cognitivas, as formas e categorias de percepção, os princípios de visão e de divisão [...] (BOURDIEU, 1996, p.115).
O que dentro do campo religioso é compreensível, uma vez que as relações acontecem seguindo o padrão de “hierarquia divina”, ou seja, a prestação de contas por atos de desobediência, ou de “conflitos” não só será feita ao “superior”, como também a Deus. É o juízo moral impetrado de forma divina, pelo menos simbolicamente.
A fundação do CESMAR acaba tornando-se esse marco porque, além de representar o início de um processo de aplicação de recursos financeiros em obras sociais, também modifica a estrutura do subcampo e o habitus religioso gerando muitas disputas e, conseqüentemente, o que é positivo, pois definiu algo que estava sendo transformado, a tomada de posição favorável à fundação das obras sociais,
respondendo positivamente aos apelos dos documentos71 maristas, tendo assim aumentado o poder simbólico da Província do RS entre os maristas das demais províncias do mundo.