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Cesareia é um nome que deriva claramente da figura do imperador, de César. É por isso que existe uma série de outras cidades com o mesmo nome5, em diversas províncias do Império Romano.

A cidade de Cesareia Marítima cumpriu um papel importante na metade oriental do Império Romano, tanto econômica como administrativa e intelectualmente. Antes de ser transformada e refundada por Herodes, rei da Judeia, Cesareia era conhecida como Torre de Estraton, possuindo um porto fortificado (BARNES, 1981, p. 81).

Fundada alguns anos antes de nossa era6, Cesareia foi construída para ser a

capital e, também, um importante centro comercial do reino de Herodes. Templos, ruas organizadas, prédios públicos e estruturas administrativas diversas foram construídos sob seu comando e já no sexto ano de nossa era, Cesareia se transformou na sede administrativa do Império Romano na região da Palestina. Em meados do primeiro século ela possuía uma população aproximada de 45.000 pessoas (CARRIKER, 2003, p. 1). Eis a descrição da cidade à época de Herodes, feita por Grafton e Williams (2006, p. 19):

Profundamente comprometido com a cultura romana, Herodes elaborou sua cidade em nível esplêndido, possuindo um magnífico palácio para si, um hipódromo e um teatro próximo dele, para realização de jogos e performances e todo o equipamento prático e amenidades que alguém pudesse querer. Aquedutos traziam água

5 Além desta cidade de Cesareia, situada na Província Palestina, são confirmadas a existência de

cidades homônimas espalhadas pela região mediterrânica do Império Romano, como a conhecida Cesareia na Capadócia e outras na Cilícia e Mauritânia. Ver Anexo 4 (Império Romano de Constantino) para situar a localidade de Cesareia corretamente.

6 A data da fundação da cidade de Cesareia é imprecisa, sendo aproximada entre 22 e 10/9 a.C,

fresca das nascentes do Monte Carmelo, os esgotos mantinham as ruas limpas, um porto extensivo favorecia o comércio e outros adornos, incluindo novos templos, calçadas, estátuas e colunas aumentaram a beleza da cidade durante os primeiros séculos do Império Romano.

As elites do exército romano costumavam residir ali e Governadores como Pôncio Pilatos, por exemplo, ficavam sediados nesta cidade. Segundo Joseph Patrich (2011a, p. 71), o Imperador Vespasiano7 teria elevado o status de Cesareia,

transformando-a em Colônia Prima Flavia Augusta Caesarea8 entre os anos de 69 e 79 d.C., após o auxílio que os leais cidadãos teriam dado ao Império em favor da supressão da chamada Grande Revolta Judaica9, ocorrida por volta do ano 66 d.C.10 Junto com a elevação do status, um contingente militar e administrativo passou a fazer parte da cidade (PATRICH, 2011a, p. 72).

A utilização do termo prima, incluído na nomenclatura da cidade, segundo os pesquisadores Lehmann e Holum (2000. p. 6), significaria a primeira em lealdade, o que confirmaria a ligação de suas elites com o poder imperial, na época de Vespasiano.

Até meados do século IV d.C., a cidade de Cesareia estava subordinada à Província da Síria Palestina (LEHMANN; HOLUM, 2000, p. 8), mas a partir de uma divisão em sua estrutura a Palestina ganhou status individual, o que indica elevação de sua condição, de sua importância dentro da estrutura administrativa na parte oriental do Império Romano. Já no final do século quarto, uma nova divisão das províncias orientais fez surgir três palestinas distintas. Mesmo assim, Cesareia se manteve como a capital da província Palestina Prima (PATRICH, 2011a, p. 91).

A cidade de Cesareia tem sido escavada nos últimos anos e o trabalho dos pesquisadores, de várias áreas, tem demonstrado a prosperidade vivida pela cidade durante o período imperial romano. Já no início do terceiro século d.C. Cesareia possuía, conforme destacado acima, um anfiteatro, um hipódromo, um teatro, um

7 Segundo Gideon Foerster (1975, p.15), quando Vespasiano foi proclamado imperador, em 69 d.C.,

ele estava justamente na cidade de Cesareia.

8 Inscrições encontradas na cidade de Cesareia confirmam a nomenclatura oficial da mesma,

conforme vemos em Lehmann e Holum (2000), nas inscrições 3, 24 e 44.

9 Conhecida como a Grande Revolta Judaica, ocorrida em meados do primeiro século, este conflito

envolveu judeus e romanos e foi registrada por Flávio Josefo em sua obra A guerra judaica. O próprio Eusébio de Cesareia cita esta obra e caracteriza seu autor como o “mais célebre dos historiadores judaicos” (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, I, 5, 3-6).

palácio próximo ao porto e templos de Herodes à Roma e à Augusto11 (LEHMANN;

HOLUM. 2000, p. 1). A região parece não ter apresentado vazios populacionais ao longo da nossa era, ou seja, sua ocupação parece ter sido contínua, desde a Antiguidade romana, o que acaba dificultando o trabalho dos arqueólogos em localizar vestígios específicos de um período. Ainda assim, os levantamentos disponíveis nos permitem perceber algumas diferenças cruciais na estrutura física da cidade, a partir de sua elevação de importância ao longo do tempo, especialmente quando se faz uma comparação ao longo dos séculos, conforme identificamos nos trabalhos de Lehmann e Holum (2000, p. 4-5).

A abundância de estruturas imperiais pode ter levado Arnold Jones a afirmar que Cesareia fora, oficialmente, uma cidade pagã12 (JONES, 1937, p. 273), quando

de sua formação. Jones (1937, p. 280) diria, ainda, que o Imperador Adriano tentara efetivar uma “paganização da Galileia”, mesmo que sem sucesso. Tais afirmações vão de encontro ao posicionamento de Hagith Sivan (2008, p. 27), com o qual concordamos, de que havia um “frágil equilíbrio de credos e culturas”, sendo Cesareia uma “metrópole etnicamente colorida”, e dos levantamentos arqueológicos de Lehmann e Holum (2000, p. 18), que consideram as “dedicatórias pagãs, admitidamente poucas em número”, e isto era representativo de “uma população de origem variada”, em uma cidade de atmosfera cosmopolita.

Sendo considerada a principal cidade de sua província, uma das mais importantes da parte oriental do Império Romano, possuindo um porto fortificado e um comércio dinâmico, a cidade de Cesareia acaba compartilhando uma série de elementos que vão muito além de suas relações comerciais, passam pelas relações culturais e, sem dúvida, podem estabelecer novas relações políticas. Foi exatamente esta cidade cosmopolita que atraiu a atenção de Orígenes, no século III d.C.

Como consequência desta multiplicidade de identidades, entendemos que os diversos grupos étnico-culturais locais poderiam buscar os meios disponíveis que os permitissem se colocar de alguma forma em posição mais favorável do que os outros grupos locais. Contudo, antes de refletirmos acerca dos possíveis embates

11 Ver. Anexo 5, para identificar as estruturas administrativas presentes na cidade já no começo do

século II d.C.

12 Estamos reproduzindo o termo “pagão”, aqui, conforme citado pelo autor. No entanto, ressaltamos

que na elaboração desta Dissertação evitamos tal uso por entendermos que podem levar a generalizações simplificadoras, principalmente em se considerando a multiplicidade de crenças existentes na Palestina, no Império Romano da Antiguidade Tardia.

entre esses diversos grupos, tentemos compreender a condição do cristianismo na cidade de Cesareia, já que nosso objetivo principal é demonstrar que a defesa do patrimônio imobiliário cristão, feita por Eusébio de Cesareia, busca sua aproximação com o poder imperial para fortalecer sua condição como bispo e a situação do próprio cristianismo, que poderá utilizar desses bens para promover a propagação de uma visão própria de Paideia, já acrescida de elementos cristãos.