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A preocupação demonstrada pelos diversos estudiosos do público advém da forma como são afetados pelos ideais republicanistas. O republicanismo como tradição política tem, da mesma forma que o conceito de público, suas origens na Antiguidade romana e grega. Aristóteles, reconhecido hoje como sua referência mais radical, firma o conceito de homem como animal político e destaca a formação cívica como uma parte essencial do florescimento humano. Posteriormente Cícero, no período da Roma clássica, trata da necessidade de uma vida cívica para o estabelecimento de uma moral cotidiana, a virtus. Para ambos pensadores, o Estado ocupa um lugar central para a formação cívica e na viabilização de uma vida pública.

Na Itália Renascentista, Maquiavel foi um dos defensores mais expressivos da República. A vida política deveria, para ele, estar ao alcance de todos os cidadãos e ser exercida com muito empenho por cada um, dado que ela é a garantia da liberdade republicana e da vida segura em comunidade. Dessa forma, a educação é necessária para que os homens se tornem aptos a participar e a desempenhar um papel ativo nos negócios do governo, promovendo, com isso, a virtù de uma vida voltada para o bem da comunidade, e evitando a corrupção, que se traduz em forma de anteposição dos interesses próprios, do príncipe ou de qualquer outro, aos de toda a comunidade (SKINNER, 1985)7.

Maquiavel considerou a corrupção como a mais grave ameaça à liberdade e à independência, de toda agressão e tirania exteriores. Assinala que sua principal causa está no afastamento do povo dos assuntos do governo. Assim, ao lado dos humanistas de seu tempo, o autor afirma que, para se assegurar o valor da liberdade diante do risco da corrupção, é necessário fomentar, não tanto uma estrutura de instituições e leis eficazes mas, principalmente, um orgulho cívico por parte dos cidadãos. É nesse sentido que Chauí (1994, p. 375), referindo-se a Maquiavel, afirma que

a finalidade da política não é a felicidade nem o bem comum, pois esses são seus efeitos e não seus fundamentos. A finalidade da política é a liberdade cívica, a segurança dos cidadãos e a paz externa entre as cidades. Tais finalidades não dependem das qualidades pessoais do governante, mas das instituições republicanas e, portanto, do espaço público.

O republicanismo chega aos Estados Unidos da América no final do século XVII, a partir dos movimentos que antecederam sua independência, mas perde fôlego no início do século XIX, diante da expansão do liberalismo (LEDESMA, 2000; MOUFFE, 1999; PETTIT, 2004).

O liberalismo emergente mostrou, a princípio, grande afinidade com a tradição republicanista. Segundo Pettit (2004) expoentes liberais como Adam Smith e Benjamin

7Os termos utilizados por Cícero (virtus) e por Maquiavel (virtù) deram origem à expressão virtude cívica,

Constant apresentavam em suas obras claras marcas daquele pensamento. Mas essa influência foi gradualmente se reduzindo e as noções de virtude e de participação cívica foram perdendo vigor diante do fortalecimento do laissez faire e da afirmação da individualidade.

Uma possível compatibilidade da tradição republicanista com o liberalismo é discutida por vários autores8. Will Kymlicka (2004), por exemplo, encontra aproximações no republicanismo cívico com o liberalismo igualitário. Ele afirma:

De um ponto de vista igualitarista liberal, um dos prováveis efeitos secundários benéficos da promoção da justiça é o enriquecimento da qualidade da participação política; de um ponto de vista de um republicano cívico, um dos prováveis efeitos secundários benéficos da promoção da qualidade política é a consecução de uma maior justiça social (p. 231).

Mas há também outros autores9 que afirmam a incompatibilidade do capitalismo e os ideais republicanistas, argumentando que a dominação que decorre da propriedade privada dos meios de produção não permite uma convivência com a proposta de autogoverno e de auto-realização dos trabalhadores. Também o mercado é alvo de críticas de certa corrente do republicanismo, como expresso nas palavras de Ovejero, Martí e Gargarella (2004, p. 50):

[...] o mercado complica a realização do ideal democrático republicano: seus dispositivos motivacionais solapam o cenário cívico; a desigualdade atenta contra a igualdade de poder e, não menos, contra o sentimento de fraternidade; as relações de produção que o definem tornam improvável o autogoverno e propiciam a arbitrariedade e o despotismo.

Por outro lado, características do republicanismo podem estar presentes e, mais que isso, podem dar uma definição ao socialismo, como por exemplo, a intolerância à dominação de uma classe sobre outra ou outras; o descrédito na eficácia da democracia representativa e na idéia de um Estado neutro, e a defesa de uma sociedade composta por sujeitos ativos e responsáveis pela eliminação de qualquer tipo de desigualdade.

8Cf. Patten (2004) e Kymlicka (2004).

Mesmo reconhecendo a ambigüidade contida no conceito de republicanismo, Gargarella (2001) evidencia alguns de seus preceitos. A tradição do republicanismo crítico concebe a realização humana pela atuação do cidadão de uma comunidade política livre e com autogoverno, em clara rejeição às formas tirânicas de governo. Significa uma frontal oposição e uma completa inversão do princípio liberal de primazia dos interesses individuais e da garantia de seus direitos, uma vez que, conforme aquela tradição, o bem comum só pode ser constituído pela discussão pública da qual toda a comunidade participa de sua definição. Somente a partir daí, e em decorrência disso, o direito toma sentido. O autogoverno se estabelece, então, pela atuação política virtuosa dos cidadãos que também exercem controle sobre as instituições básicas da sociedade. Esses mecanismos são utilizados como forma de impedir o abuso de poder por parte dos governantes. Em oposição, procedimentos dessa natureza são considerados perniciosos pelos liberais, sob o argumento de que desembocam fatalmente em uma tirania da maioria, sob a qual os indivíduos se tornam sufocados e limitados na sua capacidade de escolha e autodeterminação.

Ovejero, Martí e Gargarella (2004) expõem o confronto das idéias republicanistas com as liberais a partir de três principais núcleos normativos: a reflexão sobre a liberdade, a virtude cívica e a democracia.

No ideário liberal o conceito dominante de liberdade tem uma conotação negativa, ou seja, significa a ausência de interferências indesejadas. No republicanismo, o que prevalece é uma concepção positiva de liberdade, sustentada no argumento de que

um indivíduo é livre à medida que dispõe dos recursos e dos meios instrumentalmente necessários para realizar – outros dirão determinar – seus próprios planos de vida e, portanto, seu autogoverno ou, inclusive, como alguns chegarão a sustentar, sua auto-realização pessoal (OVEJERO, MARTÍ e GARGARELLA, 2004, p. 18-19).

Certamente o conceito de sociedade livre, governo livre e república livre seguem esse mesmo princípio. Como Estado livre, os republicanistas compreendem aquele que está livre de qualquer coação e que se rege por sua vontade própria, pela vontade geral de todo seus membros. Nesse ponto, Pettit (2004) evidencia que também nessa

concepção há uma marca de negatividade, não no sentido liberal de ausência de interferência, mas no sentido de ausência de dominação. O autor entende que a interferência na liberdade de alguém, no sentido de restringir o curso de uma ação, não significa necessariamente uma privação de liberdade porque nem toda interferência é injusta ou injustificada, e nem toda violação de liberdade supõe uma interferência.

A virtude cívica, o segundo núcleo normativo analisado por Ovejero, Martí e Gargarella (2004), está, para os republicanistas, diretamente relacionada com a liberdade. Ao mesmo tempo que cada cidadão deve ter assegurados os direitos referentes à sua liberdade, ele deve também assumir certos deveres diante da comunidade da qual faz parte e servir, assim, ao bem comum. Não se trata, como no caso do liberalismo, de uma democracia auto-regulada. A responsabilidade na constituição de uma sociedade é compartilhada por todos os cidadãos, em iguais condições de participação. Só dessa forma é possível tratar de uma sociedade auto-regulada. Em caso de um cidadão não reconhecer as demandas que sua comunidade lhe apresenta e, por isso, optar por defender seus próprios interesses, esse cidadão se torna um corrupto. Como afirma Skinner (2004, p. 108), “a corrupção, em suma, é simplesmente uma falha de racionalidade, uma incapacidade para reconhecer que nossa própria liberdade depende de que nos comprometamos com uma vida de virtude e de serviço público”.

Mas não se pode tomar como pressuposto que todos os cidadãos estejam sempre agindo no sentido do bem da comunidade. Diante disso, os republicanistas que se referenciam em Maquiavel defendem o poder coercitivo da lei. Segundo aquele pensador, querer maximizar a própria liberdade individual é, em última análise, construir sua ruína mas, por outro lado, a lei deve criar e resguardar certo grau de liberdade individual, sob o risco de o pretendido Estado livre se degenerar em uma servidão absoluta. O que se depreende daí é a idéia de que a lei ao mesmo tempo que constrange, protege. Nesse sentido, o Estado não se parece, de modo algum, com uma instância neutra ou meramente mediadora de interesses. O Estado tem um papel ativo de se responsabilizar pelo cultivo de certas virtudes cívicas. Ovejero, Martí e Gargarella (2004) relacionam algumas medidas já adotadas na atualidade que visam a ativar as

qualidades cívicas dos cidadãos: a garantia de um certo nível de participação política, como o voto obrigatório; a criação de um serviço social compulsório como existe em alguns países europeus, em relação aos jovens que atingem a maioridade; e a organização de uma educação pública de qualidade, baseada em valores cívicos. Os autores insistem, no entanto, que nenhum desenho institucional é completo quando se trata de ingerência estatal. O que se requer, afirmam, é que sejam ativadas certas energias básicas necessárias ao debate democrático.

O que importa aos republicanistas, como destaca Patten (2004), citando Skinner, além de afirmar que os indivíduos têm o dever de participar ativamente da política uma vez que viver em uma sociedade livre tem prioridade sobre outros fins, é que as instituições sociais e políticas se conformem e se modifiquem de modo a estimular os indivíduos a adquirirem a virtude cívica, e que se assegure que seus deveres de participação política satisfarão a consciência.

Analisando a condição de cidadania na perspectiva republicanista, Habermas (2004b) trata dos direitos políticos como garantias, não de liberdade frente a pressões externas, mas da possibilidade de participação em uma prática comum, o que converte os cidadãos em atores politicamente autônomos de uma comunidade de pessoas livres e iguais. Desse modo, o processo político não serve para manter a vigilância dos cidadãos sobre as atividades governamentais, nem como ponto de articulação entre o Estado e a sociedade. Uma autoridade administrativa

emerge do poder dos cidadãos, produzido comunicativamente na prática da auto-regulação, e encontra sua legitimação ao proteger esta prática por meio da institucionalização da liberdade pública. Assim, a raison d’être10do Estado não

se encontra fundamentalmente na proteção de direitos privados iguais, mas na garantia da formação de uma opinião inclusiva, e na formação da vontade através da qual, os cidadãos livres e iguais alcançam a compreensão acerca dos objetivos e das normas que atuam no interesse comum de todos (HABERMAS, 2004b, p. 200).

O terceiro núcleo normativo exposto por Ovejero, Martí e Gargarella (2004) para apresentar o pensamento republicanista é a democracia. Nas palavras de Habermas (1992, p. 21), nessa concepção “a democracia é sinônimo de auto-organização política da sociedade”. Isso é possível pela deliberação coletiva, pela discussão aberta, que induz a cada um a expor suas razões e seus pontos de vista, em condições propiciadas por uma democracia forte, mais que um mero procedimento formal de expressão de preferências. A participação política é, então, essencial. O desenvolvimento de processos de discussão coletiva, afirmam Ovejero, Martí e Gargarella (2004), pode ajudar a distintos grupos sociais a compartilhar uma valiosa experiência em comum. A deliberação coletiva contribui para o estabelecimento ou para o fortalecimento de laços entre as pessoas. Além disso, as decisões tomadas dessa forma tendem a ganhar legitimidade e a respeitabilidade dos membros da comunidade, além de comprometê- los com elas, tornando-os interessados em vê-las serem consolidadas.

Mas a deliberação coletiva pode também trazer problemas. Tentativas de intimidação ou de manipulação podem ocorrer e desacordos podem vir a superar os acordos. Mas a política republicanista é uma política de riscos, sem garantia de resultados. Aliás, a imprevisibilidade é uma condição diretamente vinculada à democracia. “O antônimo de deliberação é a imposição de resultados por parte de grupos privados com interesses próprios e poder político […]”, afirma Sunstein (2004, p. 151-152). Os republicanistas modernos, afirma o autor, invocam a virtude cívica, “em especial para promover a deliberação posta a serviço da justiça social, não para elevar o caráter dos cidadãos”, não para “fortalecer o caráter individual” (p. 153), no sentido usado pelos republicanistas clássicos.

Ovejero, Martí e Gargarella (2004) referem-se a pesquisas feitas junto a cidadãos participantes, onde foram verificadas significativas mudanças, como uma avaliação mais positiva da atividade política e um maior interesse por assuntos públicos. Otimistas com os resultados dos estudos, os autores concluem que os mecanismos de participação podem melhorar o nível de cultura cívica e político-democrática dos cidadãos, originando uma relação recíproca, ou seja, “a participação política desenvolve

virtudes cívicas que, por sua vez, contribuem para melhorar a qualidade da participação política” (p. 42).

Mas, nas sociedades atuais e, em particular na brasileira, que têm se apresentado com altíssimos níveis de desigualdade social, em que a maioria de sua população não tem devidamente assegurados muitos de seus direitos, é possível a existência de uma vida pautada nos ideais republicanos? Alguns republicanistas diriam, sem mais detalhes, que não, e justificariam que a virtude cívica é impossível numa sociedade injusta onde os cidadãos não reconhecem seus pares como iguais. Mas existe uma sociedade na qual o valor da virtude cívica e as condições de democracia e de exercício de cidadania já estejam total e integralmente assegurados? Ovejero, Martí e Gargarella (2004) enumeram uma série de situações comuns a sociedades reconhecidas como democráticas que estão relacionadas à sua organização social, política e econômica: muitas pessoas estão, em aspectos fundamentais de sua existência, submetidas a relações de autoridade; instituições básicas estão fora do controle democrático; populações inteiras têm suas vidas radicalmente alteradas por poderosas vontades especuladoras; assuntos importantes da vida política estão sendo decididos em instâncias alheias ao controle público; mecanismos de participação e de debate estão esclerosados, e a idéia de igualdade política está se esvaziando, diante da corrupção que se alastra em muitas instituições e da privatização da vida política pela venda de empresas públicas e pela limitação de acesso à arena política.

Mas, mesmo diante dessas e de outras situações, novas formas de intervenção política podem ser verificadas. Ainda que nem sempre se possa alcançar o desejado, essas reações demonstram uma busca de alternativa, valendo-se de “importantes energias cívicas”, o que leva Ovejero, Martí e Gargarella (2004) a concluirem que os conceitos clássicos republicanistas de autogoverno e de virtude cívica permanecem vivos e lhes dão identidade. Do mesmo modo Phillips (2004, p. 266) afirma que

a tradição republicana – a qual se recorreu de diversas maneiras para criticar o liberalismo, o totalitarismo e o vazio próprio da sociedade de massas – nos ofereceu uma posição alternativa vantajosa de onde podemos observar as insuficiências do mundo contemporâneo.

A alternativa de recuperação do republicanismo cívico é também apresentada por Mouffe (1999) àqueles que não compartilham dos ideais do individualismo liberal. Sem dúvida, essa opção tem um desafio a enfrentar: a necessidade inevitável de se trazer para a modernidade os princípios pré-modernos da res publica. Diante da impossibilidade de se pensar em “bem comum”, como expressão dos diversificados interesses do homem moderno, resta a preocupação de não se fazer a mera transferência de um conceito de mais de dois mil anos para a atualidade, perdendo-se de vista o processo histórico de sua constituição.