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Em relação a formação docente Marsiglia (2011, p.62) nos chama a atenção para a formação do professor no contexto neoliberal:

No panorama do neoliberalismo, a educação tem um papel importante de formação do indivíduo neoliberal. No entanto o professor nesse contexto deve receber formação aligeirada, flexibilizada em razão dos interesses e demandas do capital, centralizadas quanto aos seus ensinamentos [...] e destinada a disciplinar o indivíduo ao mercado.

Nesse cenário, a formação dos professores se torna precária para a realização do trabalho docente, ou seja, os professores não possuem domínio técnico, compromisso político e qualquer domínio do conhecimento teórico, que contribuam para o desenvolvimento de uma prática pedagógica de qualidade (MARSIGLIA, 2011).

Portanto, compreendemos que a formação para a docência, desde a formação inicial até a pós-graduação é elemento essencial na realização de práticas pedagógicas inovadoras, particularmente pautadas na concepção de qualidade da educação crítico-dialética. Assim, entendemos que as contribuições que as professoras identificam em seu processo formativo para a prática pedagógica sejam de grande relevância.

Ressaltamos com base nos relatos das professoras quatro subcategorias: Magistério; Graduação; Cursos de formação continuada e a Pós-graduação.

Em relação a formação para a prática pedagógica, as professoras Bruna, Carla, Paula e Solange relacionaram contribuições do Magistério. Notamos a partir dos relatos das professoras Bruna, Carla e Paula que as três professoras enfatizam a aprendizagem prática que receberam

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por meio do curso de Magistério. Já a professora Solange ressalta as aulas teóricas da disciplina de Filosofia, como contribuição do magistério.

Eu fiz curso de magistério e depois fiz graduação em Pedagogia com eixo na educação especial. O magistério deu uma contribuição mais prática mesmo. Como fazer plano de aula, como escolher atividades, como adequar os conteúdos. (Professora Bruna/ Escola A).

Eu acho que o magistério tinha maior tempo de estágio, maior contato com a sala de aula e na graduação eu vejo que o tempo de estágio é menor. (Professora Carla/ Escola A).

Eu acredito que o magistério me deu uma base muito maior do que a faculdade tem me dado agora. A faculdade me dá um conhecimento teórico e complementar. O magistério me ensinou a ser professora, e eu percebo isso na faculdade quando nós vamos conversar com as meninas da outra turma [que ainda não lecionam] e vamos passar nossas experiências vividas para elas. (Professora Paula/ Escola A).

No magistério tive aula de Filosofia. Esta disciplina tem influenciado na minha prática de ensino. (Professora Solange/ Escola B).

Algumas contribuições da graduação para a prática pedagógica também foram ressaltadas pelas professoras Bruna, Alessandra, Fernanda e Solange. As educadoras Alessandra, Bruna e Fernanda, destacaram que a formação na Graduação, contribuiu para a formação dos conhecimentos teóricos da profissão docente. Entretanto, a docente Solange afirma que os estágios realizados na graduação contribuíram para conhecer a realidade da educação na prática da Educação Infantil até o 5º ano do Ensino Fundamental.

[...] minha formação em educação especial me preparou para os casos de inclusão mesmo. (Professora Bruna/ Escola A).

Eu acho que tem sim contribuições [graduação], pois é onde você terá fundamentos para começar [...], nessa formação acadêmica, teórica. Dos fundamentos, da história da educação, de tudo que aconteceu, de como vem sendo trabalhada a educação. Dos pensadores da educação. Então você tem toda uma formação em fundamentos que são teóricos. (Professora Alessandra/ Escola A).

A minha formação em Letras me ajudou a melhorar a escrita das crianças, nisso a minha graduação me ajudou, porém ela não me proporcionou uma formação para a prática pedagógica mais consistente. (Professora Fernanda/ Escola B).

Em 2007 conclui a Pedagogia. Nesta formação eu aprendi muito com os professores e com os estágios que fiz com crianças de todas as idades: desde o maternal até o quinto ano. (Professora Solange/ Escola B).

Podemos observar através do relato das professoras em relação à formação recebida por meio do Magistério e da Graduação, a permanência da dicotomia entre a teoria e a prática. Pois segundo a maioria dos relados em relação ao Magistério, essa formação contribui diretamente para a atuação prática do professor. Já em relação à Graduação, a maioria dos relatos demonstra que essa formação contribui com subsídios teóricos para a atuação do professor.

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Em relação aos cursos de graduação, principalmente os oferecidos pelas licenciaturas, observamos a divisão entre a teoria e a prática na oferta da formação.

Ou seja, primeiro são dadas as disciplinas teóricas, descontextualizadas e com pouca contribuição para a reflexão da prática pedagógica e a realidade do cotidiano escolar, e, em seguida, são ofertadas as disciplinas que indicam o “como fazer”, as metodologias, na tentativa de aplicação da teoria anteriormente estudada. E, tradicionalmente, colocam-se no final do curso e distante das disciplinas, os estágios, como um treinamento para a ação docente (BLENGINI, 2011, p.10).

Nos cursos de formação de professores (Graduação), muitas vezes existem mais disciplinas que tratam de formar os conhecimentos teóricos do que da realidade educacional, já que esta é destacada como sendo complexa.

A professora Solange, juntamente com a Oxumaré relatou cursos de formação continuada contribuindo para a realização de suas práticas pedagógicas.

Os cursos de formação continuada (Pacto) e outros têm colaborado com enriquecimento da minha prática pedagógica também. (Professora Solange/ Escola B).

Esse ano eu fiz o Pacto pela educação voltado para a matemática e foi impossível sair das aulas com o mesmo pensamento, pelas propostas do Pacto e também pela troca nas conversas com outros professores. Mas estou falando especificamente da turma na qual eu fiz o curso, não sei como foram as outras turmas. Mas para mim foi um curso muito bom, que fez muita diferença, fez com que chegássemos na nossa sala e tentássemos aplicar o que havíamos aprendido. Algumas propostas não foram possíveis de realizar esse ano, mas tentarei o ano que vem. (Professora Oxumaré/ Escola B).

As duas professoras Solange e Oxumaré relatam em suas falas contribuições da formação oferecida pelo programa do Pacto32. Portanto, seus relatos sobre a contribuição na prática por essa formação vão ao encontro das suas visões sobre o que seria qualidade da educação próxima das concepções neoliberais e liberais. Compreendendo que esse programa faz parte de políticas públicas educacionais atreladas ao ideário político-econômico neoliberal presente na sociedade atual, demonstrando mais uma vez a “cooptação” dos professores por parte desse ideário em forma de programas.

Não estamos com tal análise desconsiderando as possíveis contribuições da formação continuada para a formação profissional do professor. Apenas salientamos os limites da

32“Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa é um compromisso formal assumido pelos governos federal, do Distrito Federal, dos estados e municípios de assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do ensino fundamental. [...] Suas ações se caracterizam em quatro eixos: 1. Formação continuada presencial para os professores alfabetizadores e seus orientadores de estudo; 2. Materiais didáticos, obras literárias, obras de apoio pedagógico, jogos e tecnologias educacionais; 3. Avaliações sistemáticas;4. Gestão, mobilização e controle social”

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perspectiva neoliberal ao centrar suas possíveis soluções para os problemas educacionais na formação dos professores, sem o necessário acompanhamento de políticas mais consistentes de valorização salarial e condições de trabalho.

No que tange os cursos de pós-graduação as professoras Carla, Alessandra e Diva relataram em suas falas contribuições dessa formação para a prática pedagógica.

A minha graduação é em Letras e o mestrado em Linguística, então tenho toda essa perspectiva da linguagem, que faz um diferencial para a alfabetização. (Professora Carla/ Escola A).

A minha pesquisa [de mestrado] eu usei Brofenbrenner, que não é muito conhecido. Teoria do sistema bioecológico, onde ele relaciona o desenvolvimento humano com as bonecas russas, um ambiente dentro do outro. [...] Essa é a teoria que eu estudei, mais voltada para o desenvolvimento humano. Isso me ajudou um pouco na parte de inclusão, pois nós procuramos trazer a família, saber o que acontece na família, para você entender o contexto, alguns comportamentos das crianças, a forma como ele está aprendendo ou não. (Professora Alessandra/ Escola A).

Eu terminei a Pedagogia e depois eu fiz a Neuropedagogia e depois eu busquei a Psicopedagogia e fora os outros cursos. Eu estou sempre formando, é um diferencial. (Professora Diva/ Escola B).

É possível observar, a partir dos relatos, que as professoras compreendem que os cursos de pós-graduação as preparam tanto para eixos específicos de atuação, como a Linguística, quanto para compreender a parte cognitiva e comportamental dos alunos, relatados pela professora Alessandra ao mencionar a teoria do sistema bioecológico e a professora Diva ao relatar contribuições da Neuropedagogia e da Psicopedagogia.

Cabe ressaltar que foram encontrados poucos relatos que afirmem que a formação, seja em nível de Magistério, Graduação, Formação Continuada ou Pós-graduação, auxilie para uma atuação inovadora e também para se pensar a questão da qualidade da educação, principalmente próximas às concepções críticas de prática inovadora e de qualidade da educação. Portanto, é possível perceber que “Na conjuntura atual, em que o estado neoliberal vem definindo políticas educativas identificadas com a base econômica de produção, é fácil observar como o pilar da regulamentação assume muito mais alto prestígio do que o da emancipação” (CUNHA, 2006, p. 23).

Nesse sentido, destacamos a importância de se problematizar a formação para a docência, priorizando concepções críticas de educação e oferecendo aos docentes conhecimentos que possam auxiliá-los no encontro de lacunas no sistema e no trabalho docente em prol da qualidade da educação crítico-dialética. Vale destacar, nesse sentido, a fala de duas professoras (Bruna e Fernanda) que evidenciaram que na formação obtida por meio da

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Graduação, adquiriram conhecimentos pedagógicos pautados na concepção histórico-crítica, o que nos parece um avanço em relação às respostas anteriores.

Buscamos evidenciar e discutir, a seguir, a concepção pedagógica identificada pelas professoras na orientação de suas práticas.