O início do desenvolvimento da Análise de Conteúdo aconteceu em meados do século XX, nos Estados Unidos. Nesta época o rigor científico invocado era o da medida. Assim, esta técnica científica de tratamento de dados é caudatária das metodologias quantitativas.
De acordo com Bardin (1977, p.15), o primeiro nome que referencia o termo “Análise de Conteúdo” é o de H. Lasswell, um estudioso que realizou a análise de material de imprensa e de propaganda, sendo a sua principal obra: Propaganda Technique in the World War, publicada em 1927.
Berelson, apud Minayo (1994, p.200), um dos expoentes teóricos da Análise de Conteúdo nos Estados Unidos, a define como uma técnica para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações e tendo por fim interpretá-los.
Destaca-se nesta definição o vocabulário positivista utilizado pelo autor, sublinhando-se a relevância concedida ao aspecto quantitativo. Minayo (1994) explica que, historicamente, a análise de conteúdo oscila entre o rigor da suposta objetividade dos dados numéricos e a fecundidade da subjetividade; assim, entende esta autora que a grande importância desta técnica é a de impor um corte entre as intuições e as hipóteses que encaminham para as interpretações mais definitivas.
Após a Segunda guerra Mundial, os próprios criadores da técnica entendem que o rigor matemático não pode substituir a percepção de conteúdos latentes e intuições não passíveis de quantificação (Minayo,1994, p.202).
Assim, a partir dos anos 50 e principalmente na década de 60, novos debates são realizados, discutindo-se aspectos antes intocáveis. Neste cenário, são colocados em cheque a minúcia da análise de freqüência como critério de objetividade e cientificidade, e é indicada a interpretação mais profunda mediante a inferência, na tentativa de ir além do alcance meramente descritivo manifesto na mensagem (idem, p.203).
Segundo a mesma autora, estas discussões atualmente ainda são presentes; de forma geral, pode-se afirmar que os métodos de Análise de Conteúdo correspondem aos objetivos de ultrapassar a incerteza, ou seja, a leitura ser válida e generalizável , e ao enriquecimento da leitura, para possibilitar a produtividade e pertinência. De acordo com Bardin (1977, p.29), estas considerações abrangem duas orientações metodológicas, que se confrontam e se complementam: a verificação prudente e a interpretação brilhante.
Parafraseando, Minayo (1994, p.203) complementa que, para atingir um nível mais aprofundado, ultrapassando os significados manifestos, a Análise de Conteúdo, em termos gerais, relaciona
“... estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos enunciados. E ainda, realiza a correlação da superfície dos textos descrita e analisada com os fatores que determinam suas características: variáveis psicossociais, contexto cultural, contexto e processo de produção da mensagem”.
Bardin (1977, p.44) corrobora este entendimento quando afirma que esta técnica estuda o significado das unidades lingüísticas, estabelecendo correlações com as estruturas sociais, visando o conhecimento de variáveis de ordem psicológica, sociológica, histórica, etc., por meio de um mecanismo de dedução com base em indicadores reconstruídos a partir de uma amostra de mensagens particulares.
Atualmente, a Análise de Conteúdo é a expressão comumente utilizada para representar o tratamento dos dados de uma pesquisa qualitativa (Minayo, 1994, p.199). Segundo Bardin (1977, p.42) ela constitui-se de um conjunto de técnicas de análise de comunicações, visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
O seu objeto é a palavra, ou seja, a prática dela por determinados emissores. A técnica possibilita a compreensão do que está por trás das palavras, busca outras realidades através das mensagens. De acordo com Bardin (1977, p.42), a análise de
conteúdo é um conceito historicamente construído, cujo significado vai além de um procedimento técnico, adequando-se a um diversificado campo de aplicação.
Várias técnicas foram desenvolvidas para apreender o significado das comunicações, assim, considerando os objetivos deste estudo, entende-se que a Análise Temática é a mais adequada.
3.8.2. Análise Temática
Bardin (1977, p.153) refere que, além desta técnica ser cronologicamente a mais antiga, é a mais usada. Ela é operacionalizada por intermédio de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos. Explica este autor, que o desenvolvimento da análise temática, ou categorial, é rápido, eficaz e aplicável à discursos diretos, ou seja, às manifestações.
O entendimento sobre tema para Minayo (1994, p.208), está ligado a uma afirmação acerca de um feixe de relações, e pode ser representado graficamente por meio de uma palavra, frase ou resumo.
Para Bardin (1977, p.105), tema é uma unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisada segundo certos critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura. Explica esta autora, que podem ser feitos recortes dos textos, em idéias constituintes, em enunciados e em proposições portadoras de significados isoláveis.
Desta forma, segundo o mesmo autor, ao realizar a análise temática, descobre-se núcleos de sentido que constituem uma comunicação. A presença ou a freqüência com que estes aparecem, podem ter algum significado para o objetivo analítico almejado, ou seja, pode-se realizar a contagem de freqüência das unidades de significação como definitórias do caráter do discurso, ou verificar a presença de determinados temas a qual aponte valores de referência e maneiras comportamentais contidas nele Minayo (1994, p.209).
O tema, via de regra, é utilizado como unidade de registro para estudo de diversos aspectos, tais como: motivação de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências. Explica Bardin (1977, p.106) que toda resposta a questões
abertas, dados obtidos pelas entrevistas, sejam elas diretivas ou mais estruturadas, individuais ou grupais, entre outros, podem ser, e são geralmente, analisados tendo o tema como base.
Para operacionalizar a análise de conteúdo, indica-se o seu desdobramento em três etapas: a pré-análise, a exploração do material e por último, o tratamento e interpretação dos dados obtidos (Minayo, 1994).
A pré-análise consiste na organização dos materiais que serão trabalhados. Segundo Bardin (1977, p.95), esta fase é intuitiva e tem o objetivo de operacionalizar e sistematizar as idéias iniciais, para possibilitar o desenvolvimento seguindo um esquema preciso, das operações que virão a seguir no planejamento da análise.
Nesta etapa, realiza-se a leitura flutuante, cuja finalidade é a de ter um contato exaustivo com o material, possibilitando uma leitura progressivamente mais sugestiva, capaz de ir além da sensação inicial desordenada. Assim, segundo Minayo (1994, p.209), o material gradativamente vai constituindo o corpus, ou seja, é organizado para posteriormente ser submetido aos critérios de:
“... exaustividade (abrangendo todos os aspectos definidos no roteiro); representatividade (que contenha a representação do universo pretendido); homogeneidade (que obedeçam os critérios precisos de escolha); pertinência (os documentos devem ser adequados aos objetivos do trabalho).”
Outra tarefa a ser contemplada nesta fase é a formulação de hipótese e objetivos. Minayo (1994) entende que as hipóteses iniciais devem ser estabelecidas, porém estes pressupostos devem ser flexíveis, a tal ponto de permitirem que outras hipóteses possam emergir na exploração do material.
Nesta fase pré-analítica, são estabelecidas as unidades de registro, ou seja, as palavras-chave ou frases; a unidade de contexto (a delimitação do contexto de compreensão da unidade de registro); os recortes; a forma de categorização, a modalidade de codificação e os conceitos teóricos mais gerais que orientarão a análise (Minayo, 1994, p.210).
A exploração do material “consiste essencialmente de operações de codificação, desconto ou enumeração, em função de regras previamente
formuladas” (Bardin, 1977, p.101). Então, nesta fase, realiza-se a transformação de dados brutos, visando o alcance do núcleo de compreensão do texto.
Nesta etapa, as frases significativas identificadas na pré-análise, serão recortadas, em seguida, é realizada a classificação e agregação dos dados, assim como a escolha das categorias que serão indicadas para comandar a delimitação dos temas (Minayo, 1994, p.210).
O tratamento dos resultados obtidos e a interpretação, segundo esta autora, concretiza-se ao colocar as informações colhidas em evidência, para a partir daí, serem propostas as inferências e fazer posteriores interpretações previstas no quadro teórico, ou abrir novos caminhos, servindo de base a uma outra análise em torno de novas dimensões teóricas sugeridas pela leitura do material.