A Rádio Cultura é a denominação dada para a radioescola no ato de sua inauguração, conforme informação a seguir.
A contagem dos votos aconteceu no dia 16 de novembro de 2006, logo depois da chegada das urnas na escola São Francisco. O resultado foi divulgado durante a festa de lançamento da Rádio. Ao total, 258 pessoas do entorno de Santana votaram, 50% dos assentados de Santana votaram e o nome escolhido foi "Rádio Cultura". (FERNANDES, 2009, p. 47)
Funciona em circuito interno tendo sua emissão sonora circunscrita ao local em que é instalada, com um alcance proporcionado por cornetas instaladas nos postes que permitem que o som se espalhe por quase todas as ruas do assentamento. É diferente de uma rádio comercial do ponto de vista dos objetivos e do alcance. A rádio comercial tem uma transmissão mais abrangente e é sintonizada a partir do dial dos aparelhos de rádio. A radioescola é escutada nos limites de expansão do som que as cornetas são capazes de emitir e foi concebida pela instituição que a implantou para ser educativa, dentro da concepção freireana de educação não-bancária. Foi idealizada para funcionar como uma via de mão- dupla, desconcentrando os processos de produção, ampliando a participação e permitindo que muitas pessoas participem dos processos comunicativos coletivos.
É preciso analisar se as idéias de sua concepção se concretizaram na prática dessa comunidade. Em Santana, ouvintes e grupos de produção são sujeitos da mesma comunidade, intercambiando suas funções de acordo com a função educativa da rádio. Alguns depoimentos indicam como se diferenciam das rádios comerciais.
Primeiro, a programação da rádio comercial... ela tem um objetivo maior que é a questão financeira, que é a questão do dinheiro. E a radioescola não visa essa questão do dinheiro, do capital... visa prioritariamente a questão da informação. Muitas vezes eu analiso as rádios comerciais como capitalistas... em muitos casos. Porque se tiver circulando dinheiro eu divulgo o que você quiser. E aqui na radioescola é um pouco diferente...é um pouco, não! É totalmente diferenciado porque a gente não distorce as informações, não distorce a realidade. A gente repassa o que tá acontecendo, seja bom ou seja ruim. (Entrevistado 13)
O depoimento a seguir reforça e complementa a idéia que os assentados fazem dessa diferenciação. A entrevistada acredita que a programação feita dentro do assentamento apresenta boa qualidade porque “sempre que passava uma notícia... sempre os meninos faziam uma reflexão, faziam uma contextualização..né?”. Esse comentário diz respeito ao Programa A Voz do Povo que pretendia ser um panorama das notícias que aconteciam no dia, dentro e fora do assentamento. Outros ouvintes explicaram, em depoimentos, que as notícias eram apresentadas seguidas de uma reflexão.
...e de todas essas notícias os meninos faziam essa reflexão: o que é que esses fatos, esses acontecimentos tem a ver com a nossa vida, né? Faziam com que o povo também se perguntasse. Porque a radio comercial apresenta alguns fatos, mas não mostra a realidade que tem por trás... às vezes mostra mais o que está mais explícito. E se a gente não faz essa reflexão, esses questionamentos, acaba que o povo leva muito essas informações como verdade. Que às vezes tem outras causas também... (Entrevistada 12)
Nesses depoimentos e em outras entrevistas com as pessoas que faziam a produção dos programas aparece a idéia de que as informações seriam veiculadas sem distorção. Eles entendem que existe distorção nas notícias veiculadas na internet, mas que, quando passam pelo crivo do grupo e são traduzidas para a linguagem do rádio, para a comunidade, essas distorções são dissipadas ou muito reduzidas. No entanto, mesmo que os grupos de produção sejam formados por vários segmentos da população e que a gestão da rádio seja discutida nas reuniões dos coletivos do assentamento, ainda assim, as distorções não têm como ser dizimadas.
A programação da Radio Cultura tinha um caráter informativo e educativo, mas ainda assim não haveria como escapar da distorção das informações. Os produtores escolhem as notícias, definem como vão fazer a retransmissão e, como está expresso nos depoimentos, “refletem” sobre as mesmas. Nessa dinâmica a subjetividade dos mesmos permeia o processo, expressando interesses, pontos de vistas e equívocos tanto de compreensão das mensagens veiculadas nos sites da internet como de suas próprias concepções e visão de mundo. É importante a atenção que eles procuram ter no intuito de amenizar esse desvirtuamento que a mídia faz das notícias e das tentativas de manipulação.
Durante as oficinas, a temática “recepção crítica dos meios” foi discutida em diversas ocasiões. Percebe-se pelas falas e pela veiculação de alguns programas que os estudantes recebem as notícias com cuidado e pensam sobre elas antes de retransmiti-las. Eles falam do que aprenderam durante as oficinas e com o exercício de produção para o rádio.
Senso crítico. Aprendi a ter minhas próprias opiniões, aprendi a dar valor às minhas idéias, a dar muito valor às minhas idéias... porque eu aprendi que tudo nessa vida depende do seu ponto de vista. Aprendi a ser um sujeito crítico a analisar aquilo que eu faço, aquilo que eu falo... então foi um dos fatores que eu vejo que contribuiu muito... depois disso, na minha formação como sujeito da sociedade, eu senti em alguns momentos que a radioescola tinha impulsionado na questão da comunicação... a produção do programa me ajuda na questão do ouvir, na questão do falar... do se organizar mais... acho que contribuiu muito. (Entrevistado 13)
Durante cerca de seis meses após a conclusão das oficinas de formação, a comunidade manteve uma programação diária na Rádio Cultura. Educadores e estudantes que participaram da referida formação se revezavam numa rotina de produção para disponibilizar seus programas para a comunidade por um tempo impreciso. Não foi encontrado nenhum entrevistado que soubesse definir o período exato em que a rádio funcionava.
Para a produção de cada programa os grupos responsáveis se reuniam, definiam as temáticas e dividiam as tarefas que consistiam no desenvolvimento das técnicas como entrevistas, notícias, radioteatros etc. e em pesquisas com moradores, em revistas especializadas que a escola dispõe, livros didáticos e, principalmente, em sites especializados na internet.