• Sonuç bulunamadı

F. AİHS 14. MADDE BAĞLAMINDA AYRIMCILIK YASAĞI

2- Niteliği

Apesar de expostas as relações até aqui examinadas com a filosofia crítica, sobre sua presença estrutural na Antropologia de um ponto de vista

pragmático, sobre esta repeti-la na empiricidade, e sobre o caráter de

negatividade da Crítica na descrição das formas concretas da existência humana, descobre-se algo de mais amplo no tocante ao lugar que o texto de 1798 representa nos escritos kantianos. A análise de Foucault parece remeter a questão da antropologia, de uma maneira geral, não só às relações que ela mantém com a Crítica, mas a uma preocupação adjacente a toda a obra de Kant. A indicação das relações antropológico-críticas seria apenas uma passagem nesta interpretação que compreenderia a Antropologia como um momento necessário ao desenvolvimento de uma filosofia transcendental59.

Esta filosofia transcendental ultrapassaria seu caráter puro, enquanto a busca pelas condições de possibilidade do conhecimento, estando mais próxima do nível do fundamental. Um dos indícios que relacionam a

centralidade da antropologia para o projeto global da obra kantiana é a célebre passagem da Lógica:

O domínio da Filosofia neste sentido cosmopolita deixa-se reduzir às seguintes questões: 1) O que posso saber? ; 2) O que devo fazer? ; 3) O que me é lícito esperar? ; 4) O que é o homem? À primeira questão, responde a Metafísica; à segunda, a Moral; à terceira a Religião; e à quarta, a Antropologia. Mas, no fundo, poderíamos atribuir todas essas à Antropologia, porque as três primeiras questões remetem à última (KANT, [1800], 2003, p. 25).

Foucault indica que, se havemos de encontrar uma resposta ou ao menos uma aproximação a esta resposta sobre a quarta pergunta, deve-se abdicar da ideia de que seu lugar esteja na Antropologia. Ela não representa nem mesmo o desenvolvimento da parte empírica envolvida nesta questão (FOUCAULT [2008], 2011, p. 67). E aqui alcança seu auge a polêmica tese de Foucault sobre Kant que torna hiperbólica a função da antropologia na obra do autor. É que o sentido que a própria Antropologia ganha, como filosofia que investiga o homem, só se dá retrospectivamente, no momento do desenvolvimento em totalidade do Philosophieren, ou seja, no âmbito da própria Lógica e do Opus Postumum de Kant (Idem).

Foucault aponta que no Opus Postumum o homem constitui a síntese “concreta e ativa”, uma espécie de unidade entre Deus e o mundo (Idem, p.68). Em que nível, porém, se poderia compreender tal vínculo? Empírico ou transcendental, originário ou fundamental? Algumas passagens indicarão que tal associação se dá através do pensamento, uma vez que o homem pensa Deus e pensa o mundo, sendo o homem aqui justamente a cópula – evocando- se a estrutura do juízo – entre sujeito e predicado. Ele seria a síntese universal, unindo a realidade sensível à suprassensível, constituindo o espaço possível de questionamento sobre o absoluto ([2008], 2011, p. p. 68-69). No entanto, os limites do homem como síntese absoluta entre Deus e o mundo é o fato de que ele permanece irrestritamente ligado a este. De acordo com Foucault, só com o desenvolvimento desta análise é que a Antropologia ganharia todo seu sentido enquanto investigação do homem como um cidadão do mundo.

Nesta relação do homem com o mundo no seio da Antropologia, o que está em jogo não é uma relação com o mundo natural, trata-se antes do movimento em que o homem tem consciência de si, como objeto sensível e externo a si mesmo, afetado pela experiência:

O mundo do Opus Postumum é o concomitante da determinação do Eu como conteúdo objetivo da experiência em geral [...] Ele não é mais o correlativo de uma Zeitbestimmung [determinação temporal], mas o pressuposto de uma Sinnenbestimmung [determinação sensível] do Eu ([2008], 2011, p.70).

Enquanto lugar da experiência em geral, o Eu tem em sua própria sensibilidade a possibilidade de relação entre o que nele é interno e o mundo externo a ele, suas relações com o outro e com a natureza. No entanto, uma vez que ele também afeta e constitui o que nele é externo, ele não lida com uma natureza compreendida como physis, e nem vive, como vimos, em um mundo apenas cosmologicamente dado. A natureza tem já algo da natureza do homem e do tempo tal como este aparece para ele. O mundo é, no Opus

Postumum, diz Foucault, oposto ao universo, dando-se na atualidade, e

abrangendo uma existência real e uma realidade concreta; o mundo é o conjunto de todos os seres existentes [Inbegriff des Daseins] ([2008], 2011, p.71).

Sendo um conjunto de seres realmente existentes, o mundo se configura como uma totalidade real, mas como é sujeito a modificações e reconfigurações, há vários mundos possíveis, em contraposição ao universo que, por definição, deve ser um só. O mundo é aberto ao possível, mas com ressalvas, uma vez que o possível só faz sentido num sistema de atualidade. O mundo é, a um só tempo, fonte, extensão e limite. Neste ponto, Foucault afirma ter chegado ao que considera o “fundamento estrutural da repetição antropológico-crítica” ([2008], 2011, p. 73).

A leitura do Opus Postumum é que remete à quarta questão, a antropológica, em meio ao delineamento da filosofia transcendental: a passagem da reflexão crítica e propedêutica à realização de uma filosofia transcendental. A questão antropológica repete as questões do Philosophieren, substituindo-as por noções que abarcam as relações entre homem e mundo em correlação com a também tripartite distinção das faculdades:

A questão O que é o homem? tem como sentido e função trazer as divisões da Crítica para o nível de uma coesão fundamental: aquela de uma estrutura que, no que tem de mais radical que toda “faculdade” possível, oferece-se à palavra enfim liberada de uma filosofia transcendental” ([2008], 2011, p .77).

O fato de as três questões do Philosophieren serem remetidas à quarta não as reduz ou as faz recair numa nova interrogação, apenas as retoma,

colocando-as em correlação no todo da filosofia transcendental. As questões que comandam as três críticas mantêm, assim, estreitas relações com o conhecimento do mundo enquanto fonte, extensão e limite do saber, e com o homem, como elemento ao qual todos estes aspectos se remetem. Em uma palavra, a Antropologia não responde à quarta pergunta, mas é um momento necessário ao desenvolvimento da mesma.

Do ponto de vista deste “conjunto” da obra kantiana, conclui-se: no tocante às relações entre passividade e espontaneidade, enquanto busca o a

priori da reflexão, a Crítica remete às fontes (Quellen) do saber. Por seu turno,

a Antropologia, interrogando a relação entre dispersão temporal e universalidade da linguagem como o originário da reflexão, situa-se num mundo já dado como extensão (Umfang). E no domínio das relações entre verdade e liberdade – na região do fundamental – a filosofia transcendental recai nos limites (Grenzen) da finitude ([2008], 2011, p. 94). Do ponto de vista da tese de Foucault sobre a Antropologia, ela representaria o passo necessário ao projeto crítico para o desenvolvimento da reflexão transcendental: o lugar mesmo da finitude no conhecimento.

Uma filosofia transcendental se tornaria completa e pormenorizada, de acordo com a interpretação de Foucault se, e somente se, para além do desenvolvimento de cada uma das Críticas, a referência ao homem como sujeito das faculdades examinadas em cada tipo de conhecimento fosse atrelada a uma crítica da própria existência humana, que seria, implícita e estruturalmente, a tarefa da Antropologia:

Em outras palavras, se é o problema do homem que suscita a empresa crítica, esta deve autonomizar-se tanto face a ele quanto face a um conhecimento empírico, procurando as regras e limites às quais obedecem o pensamento e a ação. Este estudo, bem que suscitado pelo problema do humano, não toma por objeto o humano na sua empiricidade, mas antes na sua transcendentalidade. No final, é a partir do transcendental e da mediação por ele instaurada que a filosofia pode aceder ao humano e discorrer sobre ele, e não visando imediatamente aquilo que o homem é, nem colocando o homem na base de uma construção filosófica (SARDINHA, 2011, p. 50).

A Antropologia se reveste aqui de um sentido de verdade finito e transitório, atrelado à ideia de liberdade. Foucault afirma que ela significa antes um “momento” do que uma fundamentação prático-teórica: a Antropologia é um lugar de “passagem” necessário ao estabelecimento do homem como centro da investigação filosófica.

O pertencimento entre “verdade” e “liberdade” evocado aqui remete ao caráter finito, descritivo e, neste sentido, crítico, que assume o saber antropológico. De acordo com Foucault, o olhar dirigido à outra ponta da linha cronológica, as obras finais e póstumas de Kant, vem justificar estas relações de pertença. Na tripartição do Opus Postumum entre Deus, mundo e homem, Deus é em si mesmo liberdade e fonte absoluta com relação ao homem e ao mundo; este, por sua vez, é o lugar das coisas da experiência, encerrando-se em si mesmo, e o homem representa a síntese entre ambos, uma síntese marcada pelo limite, pela finitude e pela liberdade.

1.6. Empiricidade e finitude: os limites da investigação