3.8. Verilerin Analizi
3.8.2. Nitel Verilerin Analizi
A relação entre a VFC e a cinética da 123I-MIBG não está bem estabelecida. É
importante salientar que esses métodos são complementares e oferecem informações distintas. A VFC é determinada, em sua grande parte, pelo componente parassimpático e a cinética da 123I-MIBG pela atividade simpática, refletindo aspectos diferentes do SNA: nó sinusal versus todo miocárdio do VE e eventos pós-sinápticos versus pré-sinápticos,
acreditando-se que a realização dos dois métodos é que permite avaliar adequadamente ambos os componentes (YAMADA et al., 2003). O componente de baixa freqüência correlaciona-se à sensibilidade dos barorreceptores e o de alta freqüência à arritmia sinusal respiratória e à atividade parassimpática, enquanto o poder de baixa/alta freqüência (LF/HF) traduz o equilíbrio simpático-vagal. Uma descarga simpática usualmente está associada à redução do componente de alta freqüência e elevação do de baixa (MALLIANI et al., 1991). Na DRC, a maioria dos autores descreve valores reduzidos para ambos os componentes, e a sua normalização após o TxR (MIYANAGA et al., 1996; KURATA; UEHARA; ISHIKAWA, 2004). Ao contrário do esperado, frente a um estado de hiperatividade simpática não se observa aumento do componente de baixa freqüência (LF, LF/HF) – (AKSELROD et al., 1981; MALLIANI; PAGANI; LOMBARDI, 1991) mas uma correlação negativa entre o poder do espectro de baixa freqüência com LF ou LF/HF (KURATA et al., 1997). Acredita-se que, tal fato se explique, pelo menos em parte, pelo comprometimento da ação barorreflexa aferente inibitória sobre os sítios nervosos centrais (KIENZLE et al., 1992) ou, talvez, por saturação do tônus simpático não responsivo à modulação por outro mecanismo de controle fisiológico mais súbito (MALIK;CAMM, 1993).
Neste estudo, foi encontrada uma correlação negativa entre os valores do componente LF e os do washout da 123I-MIBG (r= -0,36), quando excluídos os pacientes de mais baixa idade (G2). Os autores que estudaram a disfunção autonômica cardíaca em pacientes portadores de DRC relatam uma correlação negativa entre o poder de baixa freqüência e a captação precoce da 123I-MIBG ou washout cardíaco da 123I-MIBG e, uma
correlação positiva entre o componente de alta freqüência da VFC e a captação tardia da
123I-MIBG (KURATA et al., 1997; MOROZUMI et al., 1997). Miyanaga et al. (1996)
descreveram uma correlação negativa entre o padrão de captação inicial da 123I-MIBG e o poder de baixa freqüência nos portadores de DRC, coincidentemente com o descrito por
Scott e Kench (2004) para os pacientes diabéticos. Em estudo experimental Houle; Billman (1999) encontraram redução dos valores do componente LF em quadros graves de ICC, caracterizados por intensa excitação simpática cardíaca. Posteriormente, Kurata et al. (1997) observaram, apenas quando suspensas as drogas anti-hipertensivas, uma correlação negativa entre os índices da VFC e os níveis séricos de catecolaminas em pacientes portadores de DRC.
A literatura faz referência à interação medicamentosa da MIBG com drogas anti-hipertensivas e imunossupressoras e, conseqüentemente, ao prejuízo na correlação entre os resultados do ECGA e da cintilografia de inervação miocárdica (123I-MIBG) - (KURATA et al., 1997; TORY et al., 2001; KASAMA et al., 2004). A maioria dos autores sugere que os anti-hipertensivos sejam suspensos por 24 horas até 15 dias (CAMPESE et
al., 1981; HUGUET et al., 1996; HAUSBERG et al., 2002; SATO et al., 2003) e os
imunossupressores por 12 horas antes do estudo cintilográfico (HAUSBERG et al., 2002). Jassal et al. (1997) em estudo da disfunção autonômica em portadores de DRC em tratamento dialítico suspendeu os medicamentos. anti-hipertensivos por pelo menos cinco meias-vidas, sob supervisão rigorosa. Kurata et al. (1995) relataram a interferência das drogas anti-hipertensivas (ß-bloqueadores, a1- bloqueadores, iECA) na identificação da
correlação entre os índices da VFC e a cinética da 123I-MIBG.
Outra possibilidade a ser considerada é a menor sensibilidade da análise da VFC em comparação à cintilografia de inervação miocárdica nos pacientes sem evidências de comprometimento cardíaco (SCOTT; KENCH, 2004), como foram os pacientes avaliados no presente estudo.
É pouco provável que a aquisição do ECGA feita imediatamente após o término da sessão de diálise (período descrito como de maior benefício do procedimento e de predomínio do componente parassimpático e que pode se estender por até 20 horas) tenha
influenciado os resultados obtidos como sugerido por Giordano et al. (2001) e contestado por outros autores que acreditavam que uma única sessão de diálise não seria suficiente para alterar estes resultados (BONDIA et al., 1988; KURATA et al., 1995; KURATA et
al., 2000). Ausência de correlação entre os achados da análise da VFC e os cintilográficos
(123I-MIBG) é descrita em poucas pesquisas (MALIK; WINNEY; EWING, 1986; VITA et
al., 1999), exceto no pós-TxR, quando o método cintilográfico se mostra mais precoce para
detectar a recuperação funcional que o ECGA (KURATA, UEHARA; ISHIKAWA, 2004). Kingwell et al. (1994) relataram ausência de correlação entre a VFC e a liberação da noradrenalina marcada com 3Hpara a fenda sináptica.
A ausência de correlação entre o washout cardíaco da 123I-MIBG e os valores da FEVE, estimada pelo método ecocardiográfico, é de certa forma esperada, pois todos os pacientes apresentavam valores da FEVE dentro dos limites da normalidade e poucos apresentavam HVE, de grau leve. No entanto, as alterações funcionais traduzidas pela cintilografia normalmente precedem as alterações anatômicas evidenciadas pelo ecocardiograma. Salienta-se, ainda, que a literatura faz referência ao aumento precoce do washout cardíaco 123I- MIBG, antes das alterações da FEVE detectadas pelo ecocardiograma e também da ausência de correlação entre washout cardíaco da 123I-MIBG e grau de hipertrofia e de disfunção diastólica do VE, na miocardiopatia hipertrófica (SCOTT; KENCH, 2004; PACE et al., 2004).
A presente casuística não encontrou correlação entre a FEVE estimada pelo método cintilográfico e a detectada pela ecocardiografia, encontrando-se, inclusive, valores mais elevados para a FEVE estimada pelo método cintilográfico, exatamente o oposto do habitual. Acredita-se que esse fato seja decorrente de um erro dito “erro de volume parcial” que ocorre no processamento das imagens em função do menor tamanho do coração das crianças em relação aos adultos.