3. HABERLERDE YOKSULLUĞUN TEMSĠLĠ VE YAPISAL YANLILIK YANLILIK
3.2. NESNELLĠK VE YANLILLIK
A discussão promovida por Peixoto acerca da construção conceitual que associa noções climáticas à insalubridade e doença é encontrado no artigo ‘Clima e doenças do Brasil’ (1907) e no Climat e maladies du Brésil (1908) e esta última versão pode ser pensada como uma disposição de Peixoto para o debate internacional. As versões publicadas em seus manuais podem ser interpretadas como consequências da vontade de Afrânio Peixoto em doutrinar os estudantes, futuros profissionais e cientistas em um saber que pensasse as
128 características do Brasil a partir de uma lógica diversa do ponto de vista estrangeiro. Neste caso, percebemos o esforço de conciliar uma perspectiva de Brasil que, discutindo seus problemas e apontando suas potencialidades, pudesse resultar na afirmação de nossa viabilidade enquanto nação.
Neste período Afrânio vinha dividindo suas publicações acerca de temas que circulavam, e por vezes articulavam, os campos psiquiátrico, médico legal e higiênico, a exemplo do texto ‘Os casamentos patológicos: higiene da espécie’ de 1902355. Além disso, a
esta altura ele já fizera sua primeira viagem à Europa, conhecendo os centros de produção científica de vários países, bem como havia sido aprovado em concurso para a cadeira de Higiene e Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1906. É necessário destacar que Peixoto não faz apenas um desmentido sobre o pessimismo europeu acerca da possibilidade de construção de uma civilidade tropical, mas o faz através do uso de argumentos científicos, considerados perfeitos em sua neutralidade e veracidade, visando constituir-se na linguagem comum daqueles com quem se propunha dialogar.
Afrânio Peixoto inicia sua digressão sobre o clima ressaltando os problemas em abordar este tópico em um país de grandes proporções, isso por que este abrangeria características complexas demais para serem agrupadas sob o título de ‘clima do Brasil’. Segundo sua perspectiva, repetida diversas vezes ao longo do texto, no Brasil encontraríamos quase todos os climas da terra, excetuando-se justamente os extremos. Sublinhava ainda a associação entre a variada situação geográfica como a presença de montanhas, terrenos acidentados e da cobertura natural como a existência de rios, com as características climáticas regionais356. Esta percepção acerca da diversidade de climas do Brasil será importante para a
interpretação e intervenção política que partem destas definições, como veremos a seguir. A despeito da dificuldade em classificar o clima de um país tão heterogêneo como o Brasil, Afrânio delineia um esquema em que são projetadas três zonas climáticas precisas e delimitadas357, caracterizando em pormenores suas variações de temperatura, umidade,
distribuição das chuvas e, em termos não plenamente científicos, a agradabilidade, frescor e leveza dos locais358. Sobre todas as regiões ele tece considerações positivas. Exemplo deste
355 O referido texto foi publicado em 1902 na Revista da Bahia.
356 Peixoto, Afranio. Clima e doenças do Brasil. Rio de Janeiro: Imp. Nacional, 1907, p. 5.
357 Peixoto, Afrânio. Climat et maladies du Brésil. Annales d'hygiène publique et de médecine légale. serie 4, nº9. Paris: Jean-Baptiste Baillière, 1908, p. 354.
358 Neste texto Afrânio Peixoto cita em profusão cifras, estatísticas de observações climáticas, entretanto não revela suas fontes. O que revela em tabela de seu texto é que tais dados se originaram de observações feitas nas diversas cidades consideradas com duração de tempo muito diversas, indo de um até 50 anos, como no caso do Rio de Janeiro.
129 modo de análise é o da primeira zona, compreendida por trechos de diversos estados da região norte e nordeste, com destaque para o Amazonas, do qual dizia:
Tem tido o clima do Amazonas detratores e entusiastas, exagerados uns e outros. O que, porém, se pode apurar de verdadeiro, ouvindo depoimentos como os de Wallace, Agassiz, etc., é que, se de fato, ao meio dia, o calor é realmente forte, as manhãs são, entre as 6 e as 8 horas, muito agradáveis e frescas, e as tardes bem suportáveis. Não raro um aguaceiro, e frequentemente uma brisa ligeira, refrescam e purificam o ar. As noites nunca são incomodas359.
Afrânio também faz referência aos problemas climáticos, especialmente no que diz respeito aos períodos de seca. Entretanto, estes fenômenos são caracterizados como acidentais e não exclusivos do território brasileiro:
O que é pior, porém, é que muitas vezes o período de seca se dilata, invade o subsequente, em que não chove, como era de esperar e se emenda e se contínua com outra quadra seca. O nordeste do Brasil, (...), sofre periodicamente destes desagradáveis incidentes, chegando a proporções consideráveis, em tudo semelhantes aos males idênticos da região semiárida do oeste americano360.
A narrativa sobre o clima brasileiro tece comparações com outras regiões do mundo, tal como se vê ao falar de cidades como Ribeirão Preto, Uberaba, São João Del Rei, Nova Friburgo, Diamantina, em que as observações da temperatura justificariam a comparação com as regiões temperadas da Europa, já que não seria raro “ver o termômetro abaixo de zero grau”.361 Após esquadrinhar a diversidade desta segunda zona climática Afrânio Peixoto
conclui que: “Toda esta vasta região que se estende do interior da Bahia a Goiás, a Minas, a São Paulo, compreendendo grande parte do Brasil, dispõe, portanto, de clima dos mais belos
e propícios à vida do homem”.362
Na análise de Peixoto, o clima aparece relacionado a sua influência sobre a vida humana e desenvolvimento social, onde mesmo os obstáculos naturais como os períodos de seca poderiam ser resolvidos com o auxílio da técnica e da ciência:
A não ser uma pequena zona do nordeste do país, cujas secas a arte procura corrigir e vencer pela açudagem e irrigação, quase toda a vasta superfície do Brasil comporta com facilidade o desenvolvimento e a prosperidade das migrações humanas de todos os cantos do mundo”363.
O texto acaba por construir a imagem do Brasil enquanto uma opção de destino migratório e apesar do autor afirmar que as terras brasileiras proporcionariam prosperidade a
359Peixoto, Afranio. Elementos de hijiene. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913, p. 127. 360 Ibidem, p. 128
361 Ibidem, p. 133 362 Ibidem. Grifo meu 363 Ibidem, p. 136
130 povos de todos os cantos do mundo, percebe-se que o interesse primordial são os imigrantes europeus. Com tal discurso, Afrânio afirmaria a amenidade do clima brasileiro aos europeus que se aventurassem a migrar para o Brasil, dispensando-se, inclusive, a aclimatação: “Nem se dirá mesmo que para isto se torna preciso aclimatação previa, porque há apenas mister de escolha adequada, entre as diversas zonas climáticas existentes”364
Tendo afirmado que o clima no Brasil, por maior que fosse sua diversidade, não era obstáculo ao desenvolvimento humano, o autor passa a analisar os conceitos até então construídos em relação a salubridade climática do país. Segundo Peixoto seria comum o uso de expressões como ‘doenças tropicais’ e ‘perigo dos trópicos’, bem como outras semelhantes que traduziriam uma noção de que nas latitudes tropicais o clima constituiria ameaça à saúde e, consequentemente, à vida, “alterando profundamente aquella e encurtando ou anniquilando esta”365.
Atribuía a responsabilidade por essa noção de perigo climático aos europeus, ou segundo sua descrição “espíritos fáceis da Europa, viajantes phantasiosos ou sábios apressados”.366 Lembra que antes das navegações os sábios teriam afirmado a inexistência de
vida nas “zonas tórridas” vizinhas ao equador. As terras descobertas pelos espanhóis e portugueses demonstrariam o equívoco desta noção ao revelarem uma natureza grandiosa. A partir de então o obstáculo para o desenvolvimento humano nos trópicos seria exatamente nossa “magnificência natural”. Tal assertiva também seria contrariada pelo aumento das populações e pelo progresso da civilização, o que teria levado a uma outra representação negativa dos trópicos que passariam a ser caracterizados como insalubres. Deste modo, de acordo com Peixoto, se a natureza tropical “não era inhabitavel pelo calor ou pela humidade, havia de ser pela doença”, estas percebidas como inerentes a região.367
A estratégia argumentativa de Afrânio Peixoto consistia em desdobrar sua defesa do clima brasileiro, questionava a constituição degradada da população de modo a mostrar que esta situação se constituiria por meio da doença enquanto um resultado de um contexto social e não por uma conformação natural e imutável. Antes disso, porém, é interessante refletir sobre este conceito de natureza criticado por Afrânio, verificando seus fundamentos para que possamos esmiuçar seus argumentos.
364 Ibidem.
365 Peixoto. Clima e doenças do Brasil. op.cit. p. 20 366 Ibidem
131 A concepção desabonadora do clima tropical, e consequentemente dos países sujeitos a tal clima, estava presente desde ao menos a segunda metade do século XIX. Relatos sobre a biografia do conde de Gobineau contam sobre funções diplomáticas que este teria exercido no Brasil entre os anos de 1869-70 e referem sua contrariedade em servir neste país tropical368.
Durante o tempo que ficou no Brasil sua única bem aventurança teria sido a amizade com o Imperador Pedro II. Sousa descreve o sentimento de Gobineau pelo Brasil com a passagem de uma carta que este teria enviado a sua madrinha, Marie Dragoumis, em julho de 1869. Nesta missiva Gobineau teria se utilizado da imagem de um dos contos de “As mil e uma noites” em que o marinheiro Simbá chegava a uma cidade desconhecida, escondida entre as montanhas, e que ao adentrá-la percebia que lá não havia pessoas senão macacos de todos os tipos. Ao continuar caminhando, Simbá chegaria a um palácio onde maravilhado encontraria um rei, um homem, elemento de sua própria espécie, com quem poderia conversar. Gobineau, evitando qualquer possibilidade de não entendimento, esclarece a sua madrinha que ele seria Simbá, o rei seria o Imperador D. Pedro e a turba de macacos os brasileiros.369
Cerca de 70 anos depois da estada de Gobineau no Brasil, Stefan Zweig publicaria, em 1941, o livro ‘Brasil: País do futuro’370, em que apresenta como epígrafe inicial a seguinte
citação: “Um pays nouveau, um port magnifique, l’éloignement de La mesquine Europe. Um nouvel horizon politique, une terre d’avenir et um passe presque inconnue qui invite l’homme d’etude à dês recherches, une nature splendide et le contact avec dês idées exotiques nouvelles”371. Esta teria sido a resposta do diplomata austríaco Conde Prokesch Osten a
Gobineau em 1868 quando este hesitava em aceitar o posto de ministro no Brasil. Chama a atenção o fato de Zweig fazer referência não somente a viagem como às reticências do conde em relação ao Brasil, o mesmo sentimento que ele próprio teria em relação às regiões tropicais antes da experiência que relata em seu livro.Sua obra testemunha o choque entre o
368 Sousa, Ricardo Santos. Agassiz e Gobineau - As ciências contra o Brasil mestiço. Dissertação de Mestrado. PPGHCS - COC/Fiocruz. Rio de Janeiro: 2008 e Gahyva, Helga. Brasil, o país do futuro: uma aposta de Arthur de Gobineau? ALCEU - v.7 - n.14 - p. 152 a 159 - jan./jun. 2007
369 Sousa. Agassiz e Gobineau. op. cit. p. 110
370 O livro ‘Brasil: País do futuro’, foi escrito após a primeira passagem de Zweig pelo Brasil em 1936, quando estava a caminho da reunião do PEN Club que se realizaria naquele ano em Buenos Aires. Este livro recebe o prefácio de Afrânio Peixoto, que deixa entender ter tido alguma proximidade com Zweig ao afirmar que o autor seria “(...) um encanto de convivência, de conversação, de simplicidade: ternura e poesia” (Peixoto, 1941, snp). Stefan Zweig chegara ao Brasil em uma época turbulenta da Europa, testemunhando a guerra que lá estava em andamento, a queda de países como a Áustria e Checoslováquia, a invasão da Polônia, e a “guerra de todos contra todos”, momentos que o fez denominar seu continente como sua “Europa suicida”. Assim, imagem que pôde apreender do Brasil era a de uma terra de convivência pacífica a despeito de nossa constituição diversa em vários de seus aspectos como raça, religião e classe econômica. Diante de uma Europa nazista, sofrendo sob o terror justificado pela ideia da superioridade racial ariana, o Brasil lhe parecia harmonioso em suas relações raciais e este contraste pode ter contribuído com sua construção imagética sobre o nosso país.
132 imaginário europeu e norte americano a respeito do Brasil e a realidade que conheceu quando aqui esteve pela primeira vez em 1936. Zweig confessa que quando recebeu o convite para esta rápida visita, suas expectativas não eram as melhores, afirmando que sobre o Brasil
tinha a idéia pretensiosa que, [...], tem o europeu e o norteamericano [...]. Imaginava que o Brasil fosse uma república qualquer das da América do Sul, que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente, insalubre, com condições políticas de intranquilidade e finanças arruinadas, mal administrada e só parcialmente civilizada nas cidades marítimas, mas com bela paisagem e com muitas possibilidades não aproveitadas – país, portanto, para emigrados ou colonos e, de modo nenhum, país do qual se pudesse esperar estímulo para o espírito372
A citação ao Conde de Gobineau, associada ao testemunho de Zweig, nos servem de indícios para entender a duração e importância daquela representação sobre as regiões tropicais, países coloniais e ex-colônias, marcadas por seu exotismo e perigo ao estrangeiro que nelas se aventurasse. O que podemos perceber é como conceitos sobre natureza e raça, representada pela população, se imbricavam e determinavam conceitos outros como o de civilização e progresso.
A discussão acerca da representação sobre os trópicos é bem analisada por Stepan (2001) que demonstra como as bases visuais da natureza tropical têm sido algo persistente nas representações ocidentais, de modo que ainda contemporaneamente emoldurariam as expectativas de parte do mundo em relação aos trópicos. Segundo esta autora, a percepção dos trópicos como lugares primordialmente de natureza selvagem – uma natureza à espera de descoberta, interpretação ou exploração – seria a responsável pela visita tanto de turistas quanto das companhias farmacêuticas nos dias de hoje373. Desta forma, Stepan coloca que sua
perspectiva é a de que as representações e, consequentemente, o entendimento da natureza tropical refletiriam projetos políticos e estéticos que teriam a capacidade de expandir ou limitar o que chamou de “compromisso criativo com o mundo natural”.374 Isto se torna
interessante a partir do momento em que a autora coloca a questão de como a natureza, pessoas e doenças passaram a ser vistas como tropicais, e quais as consequências desta visada. Tais representações, segundo a autora, podem se referir tanto a animais, plantas ou doenças comumente encontradas nos trópicos: uma coleção de imagens que abrigaria desde beija- flores, cobras e macacos, bromélias e orquídeas até o vírus Ebola ou a malária, todos nomeados e descritos nos livros de história natural e medicina375.
372 Ibidem, p 2-3.
373 Stepan, Nancy Leys. Picturing tropical Nature. London: Reaktion Books, 2001, p. 14 374 Ibidem
133 A questão que coloca não é a da inexistência do mundo natural fora dos textos, mas a percepção de que em relação às representações construídas sobre a natureza tropical algumas seriam mais sutis e precisas do que outras. É a partir deste entendimento que pode então argumentar que
history shows us that there is no single map or picture of the natural world that increasing knowledge progressively fills in, but rather many different maps and representations, articulated and shaped by numerous factors of politics, culture and aesthetics, by beliefs about reality, codes of seeing and representational conventions. Even the most scientific of our pictures of natural objects are not a matter of a simple transfer of perceptions into representations, but rely on a repertoire of […] ‘graphic tricks’ (that is, visual conventions) to create their empirical or truth effects376.
A despeito do efeito de verdade imposto pelos produtos do conhecimento das atividades científicas, Stepan afirma que a “natureza é sempre cultura antes de ser natureza”, ou seja, “nature is not just ‘natural’ but is created as natural by human desires and intentions”377
É nestes termos que Stepan (2001) analisa então a emergência do conceito de natureza tropical no pensamento europeu, a partir de três áreas de conhecimento: a história natural, a nova antropologia preocupada com a classificação das diferenças raciais entre os grupos humanos e finalmente a medicina, esta última seria caracterizada por um
revival of a classic geographical approach to disease, which explained illness in terms of variables of place and milieu; as a result, a new awareness of the special features of disease in tropical environments emerged, and the new speciality of tropical medicine was eventually defined378.
Como a autora demonstra, o uso da categoria natureza tropical constituiu-se mais do que meramente em um conceito geográfico, considerando-se que em meados do século XIX, vários lugares passaram a ser identificados como tropicais quando geograficamente não o seriam. Tal constatação leva a afirmação de que a construção da ideia de um mundo tropical significaria um lugar de profunda alteridade em relação ao mundo temperado. Com isso, as descrições e imagens dos trópicos teriam contribuído inclusive para a formação da identidade europeia, justamente no que ela se diferenciava da imagem da natureza tropical, que tinha sua abundancia caracterizada como uma opressão ao desenvolvimento e esforço humano.379 Com
isso Stepan afirma que não existiria um sentindo trans-histórico para o conceito de natureza, mas, pelo contrário, haveria muitos sentidos diferentes que corresponderiam a especificidades materiais, sociais e intelectuais.
376 Ibidem
377 Ibidem, p. 15 378 Ibidem, p. 17 379 Ibidem, p. 18
134 Contudo, por mais inconsistente que fossem as perspectivas europeias sobre a natureza tropical, Stepan afirma que elas tinham peso, importavam e desconcertavam aos políticos, intelectuais e cientistas de países tropicais, afirmando que tais grupos
often drew responses in the form of corrections, new representations and new images. People described by others are not always passive objects
of scrutiny but active subjects, capable of assessing the world about them in their own word and images. The terms of self-representations are often not completely sui generis, but involve the selective appropriation and re- elaboration of elements in a repertoire of established pictorial and verbal conventions380.
Consideramos que produzir uma resposta originalmente brasileira para o modo estrangeiro de perspectivar a natureza e a população do Brasil pode ser um dos elementos para entendermos a disposição de Afrânio Peixoto para a discussão sobre as implicações de nosso clima e natureza, em suas várias relações, como a articulação entre o clima e a salubridade, sua problematização como elemento constituinte de saúde ou determinante de doenças, como elemento atrativo de imigração ou obstáculo intransponível para este tipo de política, e mesmo como elemento conformador da raça brasileira. Deste modo, o esforço por conhecer as patologias brasileiras seria “indissociável da tarefa assumida pela intelectualidade republicana de fundar um diagnóstico sobre o Brasil, que levasse em conta a possibilidade de sua constituição como nação” 381
A perspectiva de Stepan (2001) é interessante na medida em que demarca que a resposta dos indivíduos originários de países tropicais não necessariamente seria sui generis ou completamente original em relação ao que era produzido na Europa. Acreditamos que isso é importante principalmente quando lidamos com o campo científico, visto que a linguagem científica em seu caráter de universalidade não permitiria que um cientista brasileiro, por exemplo, constituísse sua obra para fora dos limites estabelecidos pelo próprio campo. Ainda que a perspectiva científica europeia se constituísse em bases que desacreditavam as chances civilizatórias de países como o Brasil, a única possibilidade de resposta teria que se constituir dentro deste mesmo campo, a partir destes mesmos fundamentos científicos.382 É sob esta
perspectiva que podemos entender o modo como Afrânio Peixoto discordava dos
380 Ibidem, p. 23. Grifo meu.
381Edler, Flávio. Medicina tropical: uma ciência entre a Nação e o Império. In: Ciência, civilização e república
nos trópicos: 1889 – 1930. Heizer, A., Videira, A. (orgs.) Rio de Janeiro: Mauad X: Faperj, 2010, p. 352.
382Isto teria resultado em teorias como a do branqueamento, que circulou principalmente entre as duas primeiras décadas do século XX, que a despeito de não poder negar a conformação mestiça de nossa população, propunha que esta, a partir mesmo da miscigenação chegaria a uma maioria branca dentro de algumas décadas, já que a cada cruzamento a herança negra se diluiria diante da herança branca.
135 determinismos imputados sobre a salubridade dos países quentes, como podemos ver na segunda parte de seu livro Elementos de hijiene, que se detém especificamente no tema do clima e salubridade. O que vemos nestas linhas é uma das críticas de Afrânio Peixoto aos