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4. GAZETECĠLERĠN YOKSULLUK VE MEDYADA TEMSĠLĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ

5.2. ÇÖZÜMLEME

5.2.3. MĠKRO YAPI ĠNCELEMELERĠ

5.2.3.3. HABERĠN RETORĠĞĠ

Philippe Pinel (1745-1826) nasceu na França, numa família de médicos modestos, formou-se em matemática em Toulouse e, em seguida, em medicina em Montpellier. Em Paris, trabalhou como médico, tendo participado de algumas associações de medicina.384 De suas obras publicadas destacam-se a Nosografia Filosófica ou o método de análise aplicada à medicina (1798), o Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou a mania (1800) e “A medicina tornada mais precisa e exata pela aplicação da análise” (1802).385

No período em que desenvolveu seu trabalho, na virada do XVIII para o XIX, não havia na Europa – ou mesmo na França - uma tradição médica mental consensual, e sim um misto de ideias e concepções, cada escola médica trabalhando dentro de seu enquadre teórico particular.

No que se refere às doenças nervosas, a situação não era diferente. Sendo assim, é arriscada qualquer tentativa de inserção de Philippe Pinel no interior de uma determinada tradição médica. Mas é possível, por meio de suas leituras, vislumbrar as apropriações que Pinel utilizou para articular teorias e métodos que a priori não pareceriam conciliáveis teórica ou filosoficamente. Assim, é possível assegurar algumas referências preferenciais que atravessam toda a obra do primeiro alienista. Buscaremos delinear as mais pregnantes para, posteriormente, tratarmos da relação de proximidade entre os referenciais escolhidos por Pinel e aqueles oferecidos por Gomide.

384 Apud ODA, Ana M. G. R., DALGALARRONDO, Paulo. Apresentação. In: PINEL, Philippe. Tratado

médico filosófico sobre a alienação mental ou a mania. Porto Alegre: Editara UFRGS, 2007. p. 19.

385 Sobre Philippe Pinel cf. POSTEL, J Genèse de la psychiatrie: les premiers écrits de Philippe Pinel. Paris,

Institut Synthélabo pour le progrès de la connaissance, 1998. POSTEL, J.,QUÉTEL, C. 1993 Historia de la psiquiatría. Trad. F. Gonzáles Aramburo. México, Fondo de Cultura Económica. BERCHERIE, Paul. Os fundamentos da clinica: historia e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Editora J. Zahar, 1989.

149 Das concepções de Hipócrates e das ideias neo-hipocráticas, Philippe Pinel absorveu a ideia de observar a loucura como uma doença aguda, cujas formas crônicas seriam acidentais, na maioria das vezes, resultado de maus-tratos que os pacientes receberam nos hospitais. Assim, a loucura seria, essencialmente, uma reação saudável do corpo diante de um agente externo. As ações externas, derivadas do temperamento do paciente ou de mudanças na dieta, excesso de prazer ou transbordamento de paixões teriam provocado a loucura, mas a própria doença destinava-se à recuperação dos indivíduos.

Portanto, o que manteve Philippe Pinel na tradição hipocrática não foi apenas a centralidade dada à doença aguda, mas também a ideia de que a doença era essencialmente uma reação saudável do corpo. Conforme podemos verificar na introdução Nosografia Filosófica, o médico afirmava, em concordância com essa análise, que sua intenção era a de cultivar a medicina como um ramo da história natural.

Atente-se, porém, que seu método naturalista propunha o abandono das origens da doença e, portanto, sua classificação era orientada mais pela semelhança de seus sintomas do que por dados etiológicos. A classificação das doenças obedecia ainda a uma distribuição sistemática e regular, sujeita a determinadas leis que garantiriam certa estabilidade. Desse modo, a classificação pineliana forneceria acesso à ordem real da natureza, pois repousaria sobre as propriedades (estáveis e) essenciais da doença, permitindo que as aparências se aproximassem de sua essência.386

A adoção de Philippe Pinel aos estudos de nosografia e sua leitura sintomática das moléstias foram influenciadas pelos trabalhos de Willian Cullen (1710-1790), médico escocês e professor em Edimburgo. Philippe Pinel conheceu Cullen no tempo em que ainda jovem, trabalhou na tradução de autores ingleses, entre os quais a obra First lines of the pratice of physics, de Cullen (1776), elaborada a partir de suas aulas ministradas na Universidade de Edimburgo. Essa obra condensava os pensamentos de grande parte dos nosógrafos continentais daquele período, classificando as desordens mentais em quatro classes: doenças febris; neuroses387 (afecções em que há perturbação da razão ou do sentimento sem a presença de febre ou lesão no cérebro); caquexias; ou com lesões locais, no caso de uma enfermidade

386 BERRIOS, German E. Classificações em Psiquiatria: uma história conceitual. Revista Psiquiatria Clínica. 35

(3); 113-127, 2008). Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rpc/v35n3/05.pdf Acessado em novembro de 2011.

387 Segundo Berrios, o conceito de ‘neurose’ de Cullen, demasiadamente inclusivo, causou dificuldades durante

o século seguinte. BERRIOS, German E. Classificações em Psiquiatria..., 2008. p. 113-127. Ver também PEREIRA, Mário Eduardo Costa. Cullen e a introdução do termo "neurose" na medicina. Revista latinoamericana psicopatologia fundamental. São Paulo, v. 13, n. 1, Mar. 2010.

150 como um câncer, por exemplo.388 Vale dizer, que Willian Cullen foi um dos médicos- classificadores-filósofos mais importantes do final do século XVIII e não resta dúvidas de que a tradução do First lines of the pratice of physic foi fundamental para o trabalho de médico francês, especialmente na sua Nosographie Philosophique.

A Nosografia pineliana recebeu também a influência do naturalista francês Georges- Louis Leclerc, o Conde de Buffon (1707-1788). O naturalista considerava que qualquer classificação que buscasse alcançar o funcionamento de toda a natureza estava vinculada a uma formulação da mente humana, e nunca da natureza em si. Nesse sentido, para Buffon, a classificação "mais natural" só pode ser aquela em que o homem ocupasse o centro, ou seja, uma classificação antropocêntrica, histórica.389 Tratava-se de “julgar os objetos da história natural pelas relações que eles têm com o homem". Portanto, seu trabalho de descrição da natureza se baseava nos indivíduos, nas suas formas e concepções.390

De forma semelhante, Philippe Pinel propôs uma abordagem “histórica” da loucura, através do método clínico baseado na leitura do real pelo viés da observação.391 Essa opção pelo método clínico como “orientação consciente e sistemática” se constituiu na grande novidade do trabalho do médico, que deu origem à psiquiatria moderna, mais até do que suas ações de reformas dos hospícios, tão famosas em sua biografia.392

Assim, a Nosografia Filosófica foi a obra que estruturou o estudo da clínica médica baseada na observação e na análise sistemática dos sinais perceptíveis da doença.393 A pulsação, o calor e a respiração reproduzidos frequentemente seriam os sinais que mostrariam ao médico o caminho do correto diagnóstico. Segundo Pinel, a verdadeira medicina consistiria mais no conhecimento das enfermidades que na administração dos remédios propriamente dita.394 Tal compreensão do papel do médico está, aliás, em plena concordância com a posição

388 Apud, PICCININI, W. A História das classificações no Brasil III. Psychiatry on line Brazil. Dezembro de

2006 - Vol.11 - Nº 12 retirado da web em 08 out 2011. http://www.polbr.med.br/ano06/wal1206.php

389 Cf. POMBO, Olga. Da classificação dos seres a classificação dos saberes. Disponível em: <

http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/opombo-classificacao.pdf> Acessado em agosto de 2011. KURY e CAMANIETZKI. Ordem e natureza: coleções e cultura científica na Europa moderna. Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro, v. 29, 1997. p.57-85.

390 Olga Pombo. Da classificação dos seres a classificação dos saberes. Disponível em: <

http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/opombo-classificacao.pdf> Acessado em agosto de 2011.

391 BUFFON, G. L. L., (1749), Histoire Naturelle, Générale et Particulière, in Oeuvres, vol. I, Paris: Hachette

(1845). Apud, POMBO, Olga. Da classificação dos seres à classificação dos saberes Disponível em: <http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/opombo-classificacao.pdf>. Acesso em: ago. 2003

392 BERCHERIE, P. Os fundamentos da clinica: história e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: J

Zahar, 1989. p.34.

393 Ibidem, p.34.

394 PINEL, Philippe. Nosografia filosófica ou o método de análise aplicada a medicina (1798). Tomo I, p.20-25.

151 do doutor Gomide acerca do lugar da medicina científica. Seu papel de expert frente aos sinais da doença é central e é por isso que sua controvérsia foca principalmente a falta de conhecimento teórico dos cirurgiões.

Mas, voltando à Nosografia Filosófica, ela foi organizada em dois volumes, sendo o primeiro dedicado ao estudo das febres, inflamações e hemorragias e o segundo, às neuroses e às enfermidades do sistema linfático, além de uma última classe, indeterminada, dedicada aos estudos de outras enfermidades.

Segundo Bercherie, o médico francês começou nesta obra um trabalho de análise das loucuras sintomáticas e loucuras idiopáticas ou essenciais.395 De fato, no capítulo dedicado ao estudo das neuroses, Philippe Pinel analisou as vesânias, os espasmos, as apoplexias, a catalepsia e outras doenças nervosas, considerando que as irritações nos nervos poderiam produzir convulsões simpáticas.396

Philippe Pinel aproximou-se também de Pierre Jean Georges Cabanis (1757-1808), médico, fisiologista e filósofo sensualista francês, que defendia que as impressões recebidas pelos sentidos eram base da construção do conhecimento.397 Com apoio em sua proposta, Pinel pôde explorar ainda mais a ideia de que o conhecimento era um processo baseado na observação empírica dos fenômenos e de seus sinais, o que permitiu a ele agrupá-los, classificá-los e analisá-los com base no método da história natural.398 Cabanis foi fundamental também por ser um dos responsáveis pela apresentação de Pinel a madame Helvetius, viúva do filósofo Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), que reunia em sua casa um grupo de filósofos mais tarde conhecidos como "os ideólogos".399

E foi justamente através do envolvimento com o grupo dos ideólogos que Philippe Pinel se aproximou das doutrinas de John Locke (1632-1704) e de Étienne Bonnot de

<http://books.google.com/books?id=IPWrX7xAuu8C&pg=PP5&dq=Nosografia+Filosofica&ei=_8jwTeKRHIn dUMPDjPwI&hl=pt-BR&cd=5#v=onepage&q&f=false>.

395 BERCHERIE, Paul. Os fundamentos da clinica..., 1989. p. 37.

396 Broussais afirmava serem quase todas as enfermidades uma inflamação do tubo digestivo: a irritação

excessiva acabava se transformando em inflamação, que, por “simpatia”, chegava ao sistema nervoso e dele, novamente por simpatia, era distribuída por todo o organismo, causando diversos sintomas. Cf. BRAUNSTEIN, J. Broussais et Le materialisme: medicine et philosophie au XIX siécle. Paris : Meridiens Klincksieck, 1986. p. 30-33.

397 Cabanis, Pierre Cabanis. J. Rapports du physique et du moral de l'homme. Paris: Baillière. 1.ed., 1802/1844. 398 GOLDSTEIN, Jan. Console and Classify. The French Psychiatric Profession in the Nineteenth Century.

Cambridge: Cambridge University Press, 1987

399 François Picavet, Les Idéologues : esssai sur l’histoire des idées et des théories scientifiques, philosophiques,

religieuses, etc, en France depuis 1789. Paris: F. Alcan, 1891. Disponível em: <

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k108222f.r=Les+Id%C3%A9ologues.langPT.swf> Acessado em agosto de 2011.

152 Condillac (1715-1780) acerca da abordagem científica da doença mental. Mas diferente de Locke, que considerava a insanidade relacionada apenas a alterações orgânicas, Philippe Pinel acreditava que era posssível que não só o organismo das pessoas insanas fosse afetado, mas também o intelecto e as emoções e por isso era necessário direcionar o tratamento para o afetivo. A perspectiva moral, contra o parecer de Locke, adveio justamente de Condillac.

Assim, John Locke, por seu turno, foi importante pela sua negação. Afinal, segundo G. Berrios,400 a importância dada por Philippe Pinel a Willian Cullen teria feito de Pinel um filho do século XVIII; mas, ao escrever a sua Nosografia Filosófica e desafiar John Locke, Pinel teria tomado o caminho do século XIX.401 Talvez resida aí o que percebemos de maior identidade entre Philippe Pinel e o nosso personagem, Antônio Gonçalves Gomide: ambos carregavam nos seus percursos e ideias as marcas da virada do século, eram homens entre dois mundos.

Mas, antes de voltarmos para as relações entre nosso doutor e o doutor Pinel, é importante dominarmos a discussão da construção teórica da alienação no período. E para isso, nada melhor que adentrarmos o tratado sobre a alienação mental de Pinel. É o que faremos a seguir.

4.3.2 - O Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou a mania: a história da