4.2 Kentin Gelişim Süreci
4.2.1 Neolitik Dönem Sonundan Osmanlı Devleti Dönemine Kadar Kentin
No século XVII, o nascimento da ciência moderna caracterizou uma transição: a visão baseada no saber racional, na contemplação da realidade e na apreensão dos fenômenos pelos sentidos deu lugar a uma visão de mundo mais ampla, com o universo aberto e infinito, governado por leis igualmente universais. Assim, a antiga contemplação se diferencia do experimento que caracteriza a nova ciência. Oliva (2003) nos apresenta uma definição para a ciência moderna:
Uma teoria científica deve ser definida como um conjunto de enunciados de tal forma integrados que subsistem entre relações logicamente organizadas de consequências e, em se tratando de ciência
empírica, relações de correspondência com a “realidade” (estado de coisas) com vistas a descrever com
fidedignidade, prover explicações seguras e fazer predições confiáveis (p. 21).
Koyré (1959/1986), em seu levantamento histórico e conceitual da ciência, afirma que Galileu inaugura o método de experimentação da ciência moderna ao interrogar metodicamente a natureza. Não basta observar o que se vê, é preciso formular uma pergunta, além de decifrar e entender as respostas. A linguagem universal que marca a ciência moderna é a da matemática, que aplica as leis da medida ao experimento. Assim, o empírico e o matemático tornam-se traços característicos. Se o homem da Idade Média contemplava a natureza através dos sentidos, o homem moderno busca dominá-la. Tal revolução no pensamento científico constituiu verdadeira ruptura ou destruição de uma concepção de mundo, dando elementos, consequentemente, para sua substituição (cf. Koyré, 1973/1985).
A tese de Canguilhem, defendida em 1943, sobre o normal e o patológico é uma importante contribuição para essa discussão. Ele pontua que datado do século XVIII, mais precisamente de 1759, o termo normal, etimologicamente do grego nomos e do latim norma (lei ou meio-termo), ressurge no capitalismo. Em vez de postular a existência do patológico, Canguilhem (1943/1995) considera que o caráter patológico só pode ser apreciado numa relação. Assim, por exemplo, no caso do envelhecimento, uma pessoa sadia apresentaria a capacidade de adaptação ou de reabilitação das suas dificuldades orgânicas que vão se intensificando com o avanço da idade cronológica, diferentemente de outra pessoa que não demonstre tal habilidade. Dessa forma, a norma tende a ser sempre individual e sempre relativa a um limite máximo de cada indivíduo: o que seria normal para um pode não ser para outro. Inclusive, tal média ou norma implica uma variação no mesmo sujeito, ou seja, o que é normal para um indivíduo em um dado momento pode não ser em outro:
Não se trata absolutamente de dispensar os médicos de estudar a fisiologia e a farmacodinâmica. É muito importante não confundir a doença com o pecado nem com o demônio. Mas só porque o mal não é um ser não se deve concluir que seja um conceito desprovido de sentido, ou que não existam valores negativos, mesmo entre os valores vitais; não se pode concluir que, no fundo, o estado patológico não seja nada mais que o estado normal (CANGUILHEM, 1943/1995, p. 78).
Para esse filósofo, a cura não implica necessariamente a saúde do indivíduo. A clínica irá dizer qual terapêutica poderá fazer o sujeito se sentir normal. Se até o século XIX, o médico buscava restabelecer o estado vital do paciente, perturbado pelo acontecimento da doença, nos anos seguintes, ele passa a decidir sobre fatores genéticos e sobre quais seriam os padrões de normalidade. Nessa perspectiva e aproximando a questão de um debate ético, o médico, no século XX, passa a ter um poder sobre a vida que deve ou não ser interrompida, como, por exemplo, nos casos do chamado “aborto terapêutico”. Tal medida se legitimou na medicina de alguns países ocidentais a partir de uma determinada época, sendo geralmente indicada quando o bebê apresenta uma doença não passível de ser corrigida (Canguilhem, 1943/1995). Isso também foi praticado no Brasil e buscava ainda proteger a saúde da mulher, quando o seguimento de uma gestação configurava risco maior para a mãe.
A própria eugenia significava a criação de uma sociedade sem diferenças, visando elevação crescente do nível intelectual. O debate ético que surge nessa época denuncia o risco disso se configurar uma verdadeira política genética, tal como projetado na ficção de Huxley (1932/1992), Admirável mundo novo. No mundo fictício criado por esse autor não existe médicos nem enfermos: todos são normais, não pelas diferenças individuais, mas pela
existência de uma norma única que não permite a doença. Mas, ao longo do tempo, tal norma se configura patológica.
O pensamento de Canguilhem (1943/1995) caracteriza os seres humanos como normais patológicos. O sujeito normal é aquele que ao se sentir adoecer deve ser capaz de afastar tal doença, de enfrentar a doença que se manifesta:
Assim como há um seguro psicológico que não representa presunção, há um seguro biológico que não representa excesso, e que é saúde. A saúde é um guia regulador das possibilidades de reação. A vida está habitualmente aquém de suas possibilidades, porém, se necessário mostra-se superior à sua capacidade presumida... Se há inflamação é porque a defesa anti-infecciosa é, ao mesmo tempo, surpreendida e mobilizada. Estar em boa saúde é poder cair doente e se recuperar; é um luxo biológico (CANGUILHEM, 1943/1995, p. 160).
Michel Foucault (1976/1988), quando ainda era aluno de Canguilhem, buscou aprofundar tal pensamento do mestre, defendendo a não existência de uma patologia objetiva. Foucault (1976/1988) sustentou uma diferença essencial entre o que seria chamado de “conflito normal” e o “absurdo patológico”. Para ele, o “conflito normal” de cada sujeito perturba profundamente sua vida afetiva a partir do mundo externo, com grande possibilidade de ocorrerem angústias e culpas. Entretanto, o “absurdo patológico” é alimentado por contradições, pela ambivalência na experiência interna do sujeito, em sua história patológica circular da qual o sujeito se defende, o que só faz aumentar a sua ansiedade.
Até o fim do século XVIII, Foucault (1980/2004) descreve a medicina dedicando-se muito mais à saúde do que à normalidade. É nos últimos anos do século XVIII que nasce a medicina moderna, trazendo novos modos de abordar o contexto.