• Sonuç bulunamadı

Neden coğrafya eğitimine ihtiyaç duyulmaktadır?

23 Ekim 2013 tarihinde, jürimiz tarafından Ortaöğretim Sosyal Alanlar Eğitim

4.2. Neden coğrafya eğitimine ihtiyaç duyulmaktadır?

Uma das minhas entrevistadas, mulher de ocupação doméstica, alcoólatra abstinente, de 41 anos de idade, mãe de cinco filhos e muito cuidadosa com sua aparência corporal, fez o seguinte comentário sobre a abordagem de um portador do HIV:

“Às vezes eu vejo muito alguém com HIV, igual eu vejo na minha cidade, pessoas que têm o problema, gente que não cuidam, e bebe... eu tenho vontade de chegar perto e falar, mas eu deixo. Porque às vezes a pessoa não sabe que a gente sabe que ela tem esse problema. Eu tenho medo assim, deles me dar uma má resposta, né. Não sei, eu tenho muito medo de chegar e falar e eles perguntarem de onde eu descobri isso...”

Segundo essa entrevistada, é importante que o portador do HIV se cuide. Ela tem vontade de se aproximar daqueles infectados que não se cuidam para alertá-los a esse respeito. Entretanto, teme que essa tentativa de aproximação implique na revelação daquilo que o outro deseja manter oculto e privado, acionando-lhe as defesas contra uma invasão alheia sobre um assunto que lhe é particular. Preocupa-se com a possibilidade de que o abordado reaja como se estivesse sendo agredido em seus interesses ou até mesmo em seus direitos.

O direito à privacidade é um princípio democrático que é especialmente abordado pelo código de ética médica quando diz respeito ao sigilo profissional (CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, 1993, p. 15-16; CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2001, p. 35 e 84). No caso da situação exemplificada pela entrevistada acima, ao se aproximar de uma pessoa por saber que ela é portadora do HIV, sem que esta pessoa tenha feito tal revelação, a mesma poderá entender que seu direito de privacidade foi violado e exigir que essa violação seja reparada.

Essa aproximação, significando a possibilidade de invasão de um espaço privado, poderia, portanto, demandar um inquérito sobre a origem da revelação do objeto que não podia ser revelado. No fundo, a entrevistada também pode estar temendo

que a abordagem do outro indivíduo infectado pelo HIV, a respeito do diagnóstico dele, possa desencadear a revelação da sua própria situação a partir desse inquérito, além de obrigá-la a denunciar a fonte da sua informação a respeito desse indivíduo.

Por outro lado, o fato dela saber que outra pessoa é portadora do HIV, sem que esta pessoa saiba que ela tem essa informação, provavelmente a deixa insegura quanto à possibilidade de que alguém a quem ela não tenha revelado seu diagnóstico, também saiba que ela é portadora do HIV. Pode ser que a imagem dessa possibilidade a faça sentir que sua privacidade também esteja vulnerável ou, talvez, já tenha sido violada como a daquele sobre o qual ela ficou sabendo do diagnóstico.

Esses achados mostram que, no contexto dos significados da infecção pelo HIV, existe algo muito íntimo ao seu portador que deve ser mantido em seu espaço privado. A insistência em manter o assunto ocultado deve existir mesmo se por ventura for revelado. A entrevistada reforçou essa observação ao se referir à infecção pelo HIV por meio de um pronome indefinido, chamando-a apenas de “isso”, meio pelo qual mencionou a infecção sem denominá-la. Aliás, veremos em outras entrevistas que serão exibidas adiante, que esse tipo de referência à infecção pelo HIV é muito freqüente. A esse respeito, Sanches (2000, p. 32) comentou que, para o portador do HIV, o grande “risco é expor aquilo que nunca teve nome”.

Portanto, não é seguro divulgar coisas de foro privado, especialmente se relacionadas à infecção pelo HIV. Essas coisas devem ser respeitadas como a própria intimidade da pessoa. Especialmente no caso do portador desse vírus, a violação da privacidade pode despertar o preconceito. Foi o que disse uma entrevistada de 43 anos de idade, viúva de um portador do HIV que abandonou o tratamento e morreu. Essa mulher, que também é mãe de uma criança infectada, fez o seguinte comentário:

“Eu escondo [que temos o HIV] 24h, mas o problema de eu esconder é que eu tenho medo do preconceito. Você vê que eu tenho uma cunhada que nem na nossa casa ela vai não. Meu marido tava doente e ela não visitava não, porque ela tem medo. Eu escondo é por conta disto. Eu acho que não é a doença que mata, o que mata é o preconceito. O preconceito é que traz a gente com depressão, entendeu? Meu marido gostava muito dela e depois descobriu que ela tinha medo dele. Aí ele veio tendo mais depressão com isto. Pra te falar a verdade eu levo a minha vida debaixo de um segredo.”

Essa mulher percebeu que o estigma representado pela infecção pelo HIV desperta o preconceito. Em torno desse preconceito ela articula medo, depressão e morte. Uma depressão que resulta de uma segregação, a qual é capaz de levar a pessoa à morte. Então, ela se orienta em relação ao HIV pela atitude de se esconder, cujo sentido é o de proteger a si e aos seus dos efeitos do preconceito.

Ainda nesse relato, a entrevistada evidenciou que o preconceito em relação à infecção pelo HIV não vem exclusivamente de pessoas estranhas, mas, pode vir também de dentro da própria família, conforme observaram Ferraz & Stefanelli (2001); Santiago (1998).

Sobre a relação entre preconceito e morte no contexto do significado e das representações da infecção pelo HIV, Sanches (2000, p. 28 e 32) comentou que:

A descoberta da soropositividade imediatamente torna o indivíduo “suspeito”. [...].O castigo maior (temido-desejado) não é a morte, vivida como quase uma libertação, mas a revelação.

Nesse comentário, a autora sustentou que o diagnóstico da infecção pelo HIV representa aquele estigma que avisa aos não infectados que o infectado porta uma ameaça capaz de fazer mal a alguém. Essa representação desencadeia, nas pessoas não portadoras do HIV, um sentimento de medo em relação ao portador, fazendo com que se afastem dele, conforme descrito pela última entrevistada que apresentei. Essa segregação pode deixar o infectado tão deprimido que ele poderá preferir morrer a continuar vivendo assim discriminado. Então, para evitar esse sofrimento, a pessoa esconde o seu diagnóstico devido ao medo do preconceito que a revelação deste poderá despertar nas pessoas, o qual pode ser “mais [mortal] que a própria infecção”.

Em ouro trecho da sua entrevista, essa mulher reforçou tal argumento ao abordar a morte do esposo da seguinte maneira:

“...eu perdi meu marido, né, [...] mas não quer dizer que ele morreu, eu vi o que ele passou. Eu vi que ele não tomava os remédio direito...”

Ao afirmar que “não quer dizer que ele morreu”, essa entrevistada insinuou que o seu esposo não teve uma morte natural, percebendo-a, pois, como de causa externa, ou seja, ele foi morto. Ao dizer que viu o “que ele passou”, referiu-se ao preconceito

descrito no trecho da sua entrevista mostrado anteriormente, em que relata que sua cunhada os segregou porque soube que portavam o HIV, proporcionado a que o esposo ficasse mais deprimido ainda. Imediatamente, conectou esse raciocínio ao abandono do tratamento adotado pelo marido. Então, posso concluir que ele foi morto pelo preconceito, o qual, ao deixá-lo deprimido, tirou-lhe o interesse pela vida, desmotivando-o a tomar os antiretrovirais.

Sobre o fato do preconceito significar angústia maior que o efeito orgânico da infecção pelo HIV, Turato (2003, p. 483) afirmou que, atualmente, pessoas com AIDS sentem uma grande dor derivada da sua morte social. Acrescentou que tal sofrimento é conseqüência, também, do aspecto desumanizador do significado da infecção pelo HIV, e na só da perspectiva da morte física.

Além do preconceito, vários autores admitiram que a perspectiva de que o portador do HIV poderá morrer em curto prazo, percebida a partir da revelação do diagnóstico da infecção, faz com que os outros o vejam como se já tivesse morrido. Essa imagem pode induzir as pessoas a descartarem o infectado do seu meio social, não contando mais com sua existência (FERRAZ & STEFANELLI, 2001; NETO, VILLWOCK & WIEHE, 1996; SANCHES, 2000).

Por outro lado, diante do fato de que a revelação do diagnóstico da infecção pelo HIV, além de poder matar socialmente a pessoa, tem também a possibilidade de expor a sua intimidade, Sanches (op. cit.,p. 28) argumentou que:

A aids representa uma invasão maciça do público no privado. Aquilo que podia conviver com relativa tranqüilidade enquanto estava cindido, eclode como um drama, no plano individual, e como um massacre, na dimensão social.

De acordo com os relatos dos entrevistados, tal invasão de privacidade, ao eclodir “como um massacre”, expressa-se na forma de uma reprovação ao comportamento da pessoa infectada, a qual se estende à vida total do indivíduo, mesmo em relação ao tempo em que não era portador do HIV. Essa extensão, provavelmente, colabora para a morte social do sujeito. Esse fenômeno, segundo Erthal (1989), pode conduzir a pessoa à morte psicológica, a qual é caracterizada pelo fim de uma vida saudável e pela redução do ser ao plano apenas biológico, onde a pessoa passa a viver sem existir.

No que diz respeito à morte existencial, ou seja, ao sofrimento do portador do HIV no contexto da sua interação com as outras pessoas, Sanches (2000, p. 22 e 26) criou um conjunto de conceitos, por meio dos quais explicou que a AIDS social (“conjunto de representações sociais e posturas respectivamente discriminatórias”) concorre com a AIDS orgânica (compreendida pela biologia) e com a AIDS mental, esta caracterizada pela “intensa angústia, ligada a fantasias de exclusão, degradação e morte, que podem, inclusive, ser vividas em nível somático e levar a atuações auto e heterodestrutivas”.

Nesta linha de raciocínio, outros autores argumentaram que a auto-imagem das pessoas portadoras do HIV advém da crise coletiva instalada no imaginário cultural pela pandemia de AIDS. Portanto, a crise pessoal, na verdade, é uma maneira pessoal de sentir a crise coletiva, apesar da sua aparência íntima e privada (CZERESNIA, 1997; FARRELL, 2003; FREIRE & BETTO, 2003; SOUTO, 2002; VIGNALE & CALANDRIA, 1999).

No relato abaixo, feito por um artesão heterossexual solteiro, pode-se ver a construção que fez acerca das pessoas que discriminam o portador do HIV. Ele reconheceu que, no imaginário coletivo, o câncer causa menos rejeição do que a infecção por esse vírus, mas que, mesmo assim...

“...a gente tem que ter dó daquela pessoa que critica, ter carinho, procurar entender, às vezes até procurar explicar àquela pessoa, desde que a gente não deixa transparecer, porque a discriminação ainda... tem pessoas que com todo o desenvolvimento, o avanço, ainda tem pessoas que preferem o câncer... do que uma AIDS. Mas por que? Isso é ruim, isso é porque ocultaram, a imprensa, ocultaram o sistema.”

Esse artesão propôs uma forma tolerante e afetiva para a abordar as pessoas que têm preconceito em relação aos portadores do HIV, argumentando que esse preconceito não foi construído pelo indivíduo, mas pelas representações sociais da AIDS. Em sua reflexão, sugeriu que essas representações desfavoráveis se devem à omissão dos sistemas de comunicação social, os quais, de fato, têm grande capacidade de intervenção sobre o imaginário coletivo.

O que esse entrevistado sugeriu, portanto, foi a construção de uma AIDS social alternativa à vigente. Enquanto isso não acontece, avaliou que é prudente manter o seu diagnóstico oculto em sua intimidade.

6.3.1.3 A perda da identidade e o isolamento, por meio do processo em que a pessoa se

Benzer Belgeler