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Nag Hammadi Literatüründe Adem’in Vahyi

C. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAYNAKLARI

1.2. SUHUFLA MÜTERADİF KAVRAMLAR

2.1.3. Nag Hammadi Literatüründe Adem’in Vahyi

Assim, ele não é mais um educador, nem sequer um “funcionário”; é um vigia que denunciará qualquer um que não aceite ou fuja do programa proposto em Da razão. Estar a serviço do “povo”, mesmo que seja o “povo eleito”, é apenas um detalhe; mas, apesar de tudo, Milton ainda se vê como um vate que deve educar a quem quiser ser educado e sabe que, para que o seu discurso e a sua ação tenham eficácia, precisa reconhecer que o próprio mundo continua razoável, mesmo que uma guerra entre irmãos da mesma crença esteja próxima. Há escolhas a serem feitas, entre a moral

positiva que não estrutura mais a sociedade e a moral individual que vai revigorá-la,

mas poucos sabem como eles serão e como se sedimentarão. É claro que Milton se vê como um desses poucos, como um desses “eleitos”, senão como o próprio legislador que tirará o homem violento da violência interior e o trará novamente para a razão e a

liberdade, mesmo que tenha que sacrificar essas últimas.

71 É evidente também que ele não sacrificará a sua razão e a sua liberdade quando a aparente sensatez do mundo se mostrar inviável. Em uma História contaminada pela mancha do Pecado Original e pelo espectro da Queda, tal mito é a fuga perfeita para que a sua vocação como educador de um “povo” continue intacta – daí a razão de ter usado o recurso da “prova ética” na abertura do segundo livro de Da razão. Mas até mesmo este paradoxo tem utilidade para o poeta como educador. Afinal, a sua função é uma entre outras entre a comunidade; como escreve Eric Weil, “a sua própria existência de homem moral-educador é um fato histórico, mais essencialmente histórico que a existência das outras funções”. Seu pensamento é o pensamento da comunidade, mesmo que esta não reconheça: “mesmo que estivesse em conflito com ela, seu conflito ainda estaria situado no plano da comunidade e do pensamento da comunidade, e como membro da comunidade é que estaria em conflito com ela”96.

Em outras palavras: não há como escapar do dilaceramento moral que o jovem Milton já tinha plena consciência na carta que escreveu ao seu tutor em 1633. Menos de dez anos depois, mesmo criando um papel de homem que detém a “consciência pura” em relação aos demais, ele também reconhece a dificuldade de compreender “o mundo da ação e da atividade humana em si mesmo”97. Ao saber deste dilema, sabe que deve renunciar a qualquer espécie de contentamento que possa haver ao se supor possuidor de uma “dignidade transcendente a toda realidade história”98. E por isso mesmo ele é mais que um poeta-educador ou um educador em stricto sensu: tornou-se, justamente por causa dessa renúncia, um educador-filósofo que pratica a politike pragmateia como um discurso que revela novas possibilidades de ação humana, não como elas deveriam ser ou como são, mas sim como sempre serão, formatados pela razão que estrutura a

liberdade e que são conciliadas pela linguagem poética que articula e domina a

violência interior das paixões dos homens. Com tal atitude de recolhimento e

engajamento simultâneos, “ele saberá facilmente tirar proveito de qualquer objeção que o obrigue a aceitar a educação, sem levar a sério o mundo real, não poderia falar mais ao mundo e, assim, a própria ideia educação desapareceria: ele dirá que, se não devem

96 Cf. WEIL, Eric. Filosofia Política, tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Loyola, 2011, págs.66-72. 97 Idem.

72 existir mais educadores depois dele, a educação morrerá com ele em toda a sua

nobreza, sem nenhuma derrogação99.

Assim, ele recusará assumir o risco que exige de seus educandos, risco de abandonar a individualidade concreta na esperança de reencontrá-la transformada pela razão. “Seu não ao mundo e à comunidade será um modo de afirmar-se tal como ele é, não certamente como animal humano, mas, apesar disso, como um ser à parte,

particular”100. Ele recusará conceder que o mundo também contém a razão, que a sua

própria razão, a de um ser particular, não se compreende separada da razão encarnada no mundo: “para ele, a razão é a sua particularidade”101. Nada, portanto, o levará a tomar a decisão que deveria tomar antes de reconhecer como justificada a decisão tomada: “aqui, como alhures, a liberdade justifica suas decisões em razão só depois de tê-las tomado; ela não as justifica como projetos, pois, nesse caso, deveria justificá-las como necessárias, negando-se a si mesma. Só quem supera a reflexão formal colhe a necessidade desta superação”102.

“Somente quando o educador-filósofo levar a sério o que já admitiu, a saber, que a sua é uma função no mundo e deste mundo, é que cessará o conflito que o opunha ao mundo na medida em que se opunha, como representante da razão, como a própria razão, ao que é em si mesmo desrazão”, continua Weil103. A partir daí o mundo e a comunidade não serão mais o mal contra o qual o educador é o único a lutar; “serão o domínio da sua atividade e do seu pensamento, que neles se compreenderão positivamente, serão o solo no qual se funda a sua negação do mal, e o mundo continuará contendo o mal, mas não será o mal”104.

E para chegar a esta compreensão, John Milton precisou percorrer uma longa travessia, repleta de obstáculos pessoais e históricos, e de tentações que poderiam prejudicar a sua busca de unir a razão com a liberdade. O primeiro obstáculo sempre foi, é claro, ele mesmo, desde o dia em que riscou, na carta de 1633, a expressão “For if

it is the evil in me” (Pois se é o mal dentro de mim) e a trocou por “For if it bad” (Pois

99 Ibidem, ibid. Grifo nosso. 100 Ibidem, ibid.

101 Ibidem, ibid. 102 Ibidem, ibid. 103 Ibidem, ibid. 104 Ibidem, ibid.

73 se é algo ruim)105. Entre o mal e o ruim, toda uma vocação pode terminar em derrota, especialmente se confundir a poesia com a política e tentar fazer das duas um discurso lógico que se aproxima da filosofia. Eis a sombra constante na vida e na obra de Milton: no desejo de querer libertar o homem de suas paixões e preconceitos, sua conciliação

interior foi testada a tal ponto que ele nunca soube – e talvez jamais soubesse – se a

“obra-de-arte” que ele imaginava para si mesmo era a de uma tragédia sem chance de catarse [katharsis] ou então o “mais nobre dos dramas”106.

É nesta lacuna que percebemos as futuras preocupações políticas do jovem poeta: a representação adequada que suas ideias terão na sociedade onde vive, ao refletir sobre ela e, sobretudo, mudá-la conforme as circunstâncias histórias – mesmo com a rivalidade destrutiva entre os seus semelhantes contaminando todos os níveis da

commonwealth inglesa, do espiritual ao social, passando pela cabeça do reino: o próprio

rei Carlos I. Afinal, a sentença final de Da razão é uma conclamação de Milton à própria Inglaterra, constantemente comparada ao herói Sansão, para enfrentar os anos sombrios que seguirão. Para ele, só “o povo eleito de Deus” tem condições para atravessar a purificação que se aproxima no resto da Europa. Contudo, todo povo precisa de um guia – e isso não será uma tarefa nada fácil para quem quer ser vate,

profeta, filósofo e educador ao mesmo tempo. Na busca pela unidade da sua própria

ação humana, John Milton terá de compreender até o fim a violência que nasce dentro de si mesmo, que se opõe à sua razão e que pode corroer a liberdade pela qual tanto lutou.

105 Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, págs.770-772. Ver nota de rodapé n. 4.

106 A expressão aqui é tomada de Platão em seu diálogo “As leis”; Cf. PLATÃO. As leis, tradução de Carlos Alberto Nunes, Pará, UFPA, s/d.

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2.“É isto um homem?”: Realeza e representação em John Milton

Confusion now hath made his masterpiece! Macbeth (II. iii. 57-94)1

Benzer Belgeler