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C. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAYNAKLARI

2.3. HZ İDRİS (A.S) VE SUHUFU

Na introdução da edição brasileira dos Escritos Políticos de John Milton2, Martin Dzelzainis, especialista na obra do famoso poeta republicano, nos surge com a seguinte informação, ao relacionar a estrutura de metáforas que emolduram a retórica do tratado A tenência dos reis e dos magistrados [The tenure of kings and magistrates, 1649] com um trecho da peça Macbeth (1605), de William Shakespeare3:

“As repetidas alusões de Milton a uma fala no Macbeth, de Shakespeare, permitem apreender melhor seu ânimo contra os presbiterianos:

Ninguém mais fie agora nesses demônios enganosos, Que zombam de nós com palavras dúbias;

Soprando a palavra aliciante ao nosso ouvido E a quebrando para nossas esperanças.

(v. 9.19-22)

Também os presbiterianos ‘trapacearam e ludibriaram o mundo’ e falaram num ‘sentido duplamente contraditório’. Portanto, já não era mais possível acreditar neles, como tampouco se poderia dar crédito às “feiticeiras” às quais Macbeth expressa sua desilusão. Nem podiam eles, como tampouco pôde Lady Macbeth durante o sono, ter a esperança de se livrar do peso da culpa: eles ‘foram os homens que depuseram o rei e não podem, apesar de todo o seu ardil e relapsia, lavar a culpa das próprias mãos’.”4

O trecho citado por Dzelzainis tem uma função dramática específica na peça: é o momento em que Macbeth percebe que a sua queda é definitiva. Vamos ler o trecho no original para percebermos tal impacto:

1 Cf. SHAKESPEARE, William. Macbeth, in: The complete works of William Shakespeare. Inglaterra, Wordsworth Editions, 1999.

2 Cf. MILTON, John. Escritos Políticos, organizado por Martin Dzelzainis, tradução de Eunice Ostrensky, São Paulo, Martins Fontes, 2005. Os trechos referentes à Tenência dos reis e magistrados serão sempre desta edição.

3 Cf. SHAKESPEARE, William. The complete works of William Shakespeare. Inglaterra, Wordsworth Editions., 1999.

4 DZELZAINIS, Martin. in: “Introdução”. MILTON, John. Escritos Políticos, organização de Martin Dzelzainis, tradução de Eunice Ostrensky, São Paulo, Martins Fontes, pág. XIV.

75 And be these juggling fiends no more believed,

That palter with us in a double sense; That keep the word of promise to our ear, And break it to our hope!5

Antes desta fala, já sabemos o que aconteceu. Macbeth, fiel comandante do rei Duncan, vence a batalha de um barão rebelde e, enquanto cavalga pela floresta com seu amigo Banquo, encontra três feiticeiras que prevêem que ele se tornará em breve o rei da Escócia. Motivado pela profecia, pelo caráter fraco e pela ambição de sua esposa, Lady Macbeth, ele mata o rei Duncan numa noite em que este se hospeda em seu castelo. A profecia finalmente se cumpre, mas a um alto custo: Macbeth é obrigado a destruir quem está próximo dele – especialmente Banquo – para manter o poder usurpado, além de não conseguir confrontar seus demônios interiores e a consciência de sua culpa. O filho de Duncan, Malcolm, junto com seu braço-direito, o comandante Macduff, que teve sua família dizimada pelo exército do tirano, faz um levante contra Macbeth e o destrói sem misericórdia.

A declaração shakespeareana que será a matriz retórica do tratado de Milton ocorre no exato momento em que Macbeth está desmotivado demais para lutar com Malcolm e Macduff. Afinal, Lady Macbeth acabou de se matar, devido ao tormento que se apoderava da sua alma, e outra profecia das feiticeiras – a de que Macbeth só poderia ser destruído por um homem que nasceu diretamente do ventre de uma mulher – se revela como uma mentira quando se descobre que Macduff veio ao mundo por meio de uma cesariana (parto não-natural, de acordo com os costumes medievais, época em que se passa a peça). Logo, o usurpador perde completamente o sentido daquilo que o impulsionava a viver, e chega à conclusão de que tudo não passa de uma “história narrada por um idiota, cheia de som e fúria”, preferindo assim a aniquilação total.

As nuances da fala adquirem outro significado conforme a circunstância histórica que Milton quer comentar a respeito na Tenência. Quando foi publicado, em 1649, duas semanas após a execução de Carlos I, segundo rei da linha dos Stuart na Inglaterra, o texto poderia parecer ultrapassado em sua intenção imediata, mas isso é falso. Milton não queria defender o regícidio – ele nunca foi contra a persona do rei per se – ou comentar a soberania do povo – um tópico que fica em segundo plano no texto e

5 SHAKESPEARE, William. Macbeth, in: The complete works of William Shakespeare. Inglaterra, Wordsworth Editions, 1999.

76 que só seria redescoberto pelos teóricos do século XVIII e XIX – e sim refletir sobre uma situação mais perigosa para a Inglaterra: o fato de que o reino estava corrompido até os seus fundamentos, seja pela tirania do rei, seja pela pusilanimidade do Parlamento e dos representantes eclesiásticos.

Os fatos são os seguintes: em 1647, Carlos I, o herdeiro de Jaime I, tentou fugir para a França via Escócia, depois de ter sido derrotado na primeira Guerra Civil (1642- 1647); suas decisões consideradas tirânicas – como o aumento do exército pessoal através da cobrança abusiva de taxas e impostos e o fato de que ele não queria se subordinar às deliberações das Câmaras – dividiam o Parlamento entre os presbiterianos e os independentes.

Após o término das lutas, esperava-se que ocorresse um acordo entre essas facções; afinal, como bem observou Austin Woolrych, “a guerra não tinha sido um conflito entre ideologias inconciliáveis”6. Ambos os lados empunharam armas pelas mesmas coisas: “os direitos e os privilégios do Parlamento, os poderes e as prerrogativas do rei, a verdadeira religião protestante, as leis fundamentais do reino e as liberdades dos súditos”7. Mas as diferenças eram mais profundas do que sugeriam a retórica pública e só aumentaram com o passar dos anos; e o fato de que o lado perdedor (no caso, o do rei) não tinha a boa vontade de ver que sua derrota teve poucas consequências práticas para o seu poder, somado ao cisma cada vez mais acentuado entre as plataformas parlamentares, não ajudava em nada a possibilidade de uma paz duradoura. Carlos também estava possuído pela convicção de que Deus não deixaria os rebeldes prosperarem e que desistir de seus poderes reais seria um pecado, persistindo na esperança de que recomeçaria a guerra e finalmente sairia vitorioso. Havia também as discussões sobre o Exército de Novo Tipo (New Model Army)8, criado pelos independentes contra o exército do rei, e que agora, após o término da primeira Guerra Civil, tornava-se ironicamente a principal causa de taxas exorbitantes aos senhorios da terra – o que causava irritação entre os presbiterianos. Por sua vez, estes gozavam de boa popularidade entre os ingleses, justamente por defenderem o corte do poderio e dos gastos militares, apesar de, por outro lado, serem criticados duramente por negarem liberdade de consciência aos anglicanos, independentes e outros sectários. Já o que

6 Cf. WOOLRYCH, Austin. Britain in Revolution, 1625-1660. Ingalterra, Oxford, págs. 340-341. 7 Idem.

8 Termo traduzido e emprestado da apresentação de Renato Janine Ribeiro para o livro O mundo de

77 interessava mais aos independentes era uma genuína reforma constitucional, que daria ao governo do rei uma forma de se reportar aos representantes do povo, “desde que este ‘povo’ não fosse definido de uma maneira muito democrática”9. Não havia uma homogeneidade entre o que os presbiterianos pensavam, mesmo que estivessem menos preocupados com reformas a garantir que o rei ficasse sob a vigilância de seus membros mais influentes e prósperos. De certa forma, como ressalta Woolrych, é um paradoxo que, enquanto os presbiterianos eram os mais ansiosos em ver o rei de volta ao trono e desmantelar a máquina de guerra assim que fosse possível, também faziam exigências em relação à religião, ao controle das forças armadas e à indicação de oficiais do estado importantíssimos para o reino, mas considerados inaceitáveis pelo próprio rei, até mais do que os que também eram sugeridos pelos independentes10.

A derrota do exército real deveria acalmar um conflito sangrento que acontecia desde 1642, mas apenas aumentou as disputas internas no Parlamento – provocando, graças à fuga do rei, uma segunda Guerra Civil dentro de uma primeira que mal ainda contava os mortos e os feridos11. Os presbiterianos queriam a restauração da monarquia; os independentes queriam que Carlos I fosse submetido à Justiça e depois executado. Um exército liderado pelo coronel Thomas Pride rompeu com o impasse por meio do que seria conhecido como “Expurgo de Pride”, um golpe ocorrido no dia 6 de dezembro de 1648 e que eliminou os membros hesitantes do Parlamento – o que sobrou foi apelidado de “O Rabo” [The rump parliament]. Dois meses depois, o rei foi capturado, julgado e executado, com sua cabeça decepada e exibida ao povo, e assim teve início uma nova fase na História da Inglaterra12.

9 Cf. WOOLRYCH, Austin. Britain in Revolution, 1625-1660. Inglaterra, Oxford, págs. 340-341. 10 Idem.

11 Ver os seguintes livros sobre as Guerras Civis Inglesas: BRADDOCK, Michael. God´s Fury, England´s

Fire. Inglaterra, Penguin, 2009; WOOLRYCH, Austin. Britain in Revolution, 1625-1660. Inglaterra, Oxford, 2010; e WORDEN, Blair. The English Civil Wars, 1640-1660, Inglaterra, Weindefeld & Nicolson, 2009.

12 Na mesma apresentação do livro de Hill, Renato Janine Ribeiro também faz um bom resumo da situação histórica complicada que cerca esse período: “Em 1642 Carlos não quer mais ceder; passa ao ataque. Retira-se para Oxford, com a maior parte dos lordes e a menor dos Comuns. O Parlamento continua em Westminster e comanda a guerra contra o rei (em nome do Rei, porém, e da Coroa; em nome das antigas instituições que, com razão, o Parlamento acredita violadas por Carlos, mas que agora também ele viola). Como é de praxe, os exércitos parlamentares têm oficiais da própria nobreza e um deles, o conde de Manchester, comanda-os. Ante uma sucessão de derrotas, Fairfax e Oliver Cromwell são encarregados de remodelar o exército — é o New Model Army, ou Exército de Novo Tipo, de cujos comandos são excluídos todos os lordes e a maior parte dos deputados, e que tem por principal critério o valor e mérito pessoais dos soldados. Enquanto os presbiterianos (a direita puritana) vão tomando o poder no Parlamento, um exército mais radicalizado, com chefes independentes (isto é, de Igrejas protestantes que não admitem a severa tutela dos presbitérios) e soldados ainda mais à esquerda, vai conquistando o

78 Milton escreveu a Tenência para atacar duramente os presbiterianos, mas isso não significa que ele defendia exclusivamente a posição dos independentes sobre se devia ou não acontecer o tiranicídio. O centro de sua argumentação era sobretudo a falta

de coerência dos presbiterianos que, dotados de uma tradição de pensamento que

elaborou o direito à resistência (mesmo que, em alguns momentos, este mesmo direito tenha as suas ambigüidades teóricas), não correspondem a isso e ficam na indecisão se executariam um rei que não é mais um rei e sim um tirano.

O que Shakespeare tem a ver com esta confusão? Há uma suspeita de que a política – em especial, a filosofia política – não se deve imiscuir com os assuntos da sensibilidade estética e vice-versa. É um equívoco lamentável. Graças à observação de Dzelzainis, podemos perceber que o tratado de John Milton, por sua vez um poeta de relativa reputação na época das Guerras Civis inglesas, toca em assuntos delicados que só podem ser adequadamente discutidos à luz da peça de Shakespeare. Não se trata apenas do fato da Tenência ter referências retóricas ao dramaturgo – algo que qualquer um que dominasse a língua inglesa e o latim, como é o caso de Milton, gostaria de fazer, até como malabarismo pessoal –, mas também à evidência de que ambos os textos, mesmo que façam parte de gêneros literários distintos, discorrem sobre o mesmo assunto – e chegam, cada um a seu modo, a uma conclusão radical sobre o que é a arte de governar.

Essa conclusão não é somente um tópico de instituição ou de procedimento legal. Ela mostra o que realmente importa no estudo da filosofia política. Em primeiro lugar, expõe três tipos de problemas interrelacionados: o da realeza – que pode ser expresso através das questões do que é o rei, como ele se mantém no poder e como ele se transforma em um tirano –, o da representação – sendo que tanto Milton como Shakespeare articulam três tipos distintos, o elementar, o existencial e o transcendental – e o da natureza humana, fundamental não só para a compreensão da própria política, como também para a filosofia como um todo, uma vez que o modo como o homem se país para o Parlamento. O rei é vencido e preso. O Parlamento tenta negociar com ele, dispondo-se a sacrificar o Exército. A intransigência de Carlos, a radicalização do Exército, a inépcia do Parlamento somam-se para impedir essa saída moderada; o rei foge do cativeiro, afinal, e uma nova guerra civil termina com a sua prisão pela segunda vez. O resultado será uma solução, por assim dizer, moderadamente radical (1649): os presbiterianos são excluídos do Parlamento, a Câmara dos Lordes é extinta, o rei decapitado por traição ao seu povo após um julgamento solene e sem precedentes, proclamada a República; mas essas bandeiras radicais são tomadas por generais independentes, Cromwell à testa, que as esvaziam de seu conteúdo social”. Cf. HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabeça, tradução e apresentação de Renato Janine Ribeiro, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, pág. 15.

79 vê e vê os seus semelhantes é alterado de forma aguda justamente na época de transição em que surgiram as obras de William Shakespeare e John Milton13.

Benzer Belgeler