C. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAYNAKLARI
2.4. HZ İBRAHİM (A.S) VE SUHUFU
2.4.2. Hz İbrahim’ın (a.s) Suhufu
2.4.2.1. Hz İbrahim’in (a.s) suhufu ile ilgili görüşler
Foi o que aconteceu no dia 5 de novembro de 1605. Graças a uma carta anônima, descobriu-se que um grupo de católicos pretendia explodir a Câmara dos Lordes no instante em que se encontravam, no mesmo lugar, o rei Jaime I, sua corte e a maioria dos parlamentares. A intenção era substituir o atual monarca por sua filha de nove anos, a princesa católica Elizabeth, para então restituir a Inglaterra aos braços da Igreja de Roma. A “Conspiração da Pólvora” (como ficaria conhecida) foi destruída na mesma noite pelos agentes do reino, que prenderam e torturaram a maioria de seus integrantes, entre eles Guy Fawkes, o responsável por colocar as dinamites no subsolo da Câmara e que se tornaria o bode expiatório de todo o evento18.
O fato mostrou a fraqueza do reinado de Jaime I, que logo tratou de transformá- lo para sua vantagem ao insistir que o dia do atentado fosse comemorado como uma espécie de lembrança terrível do que poderia ter acontecido se o rei morresse. Certamente foi um dos primeiros lances de propaganda política – algo que só Elizabeth I conseguira antes justamente com seu apoio ao teatro inglês, especialmente a favor de jovens dramaturgos, entre eles William Shakespeare. Em 1605, entretanto, este já não era mais um aprendiz: era um escritor consagrado e conhecido, com pleno domínio de seus poderes dramáticos e, mais, apresentava suas peças para ninguém menos que o próprio rei.
Há um detalhe que deve ser mencionado agora – e que é de suma importância para, por exemplo, compreendermos a sutil crítica que John Milton faz ao Bardo quando se refere que ele poderia se deixar seduzir por seus “números fáceis” [easy numbers flow]. A tese de que Shakespeare queria apenas agradar o seu público, seja o povo ou a corte do rei, e depois ganhar a merecida bilheteria, não procede quando nos deparamos com as trevas de um Macbeth ou a amargura de um Rei Lear. Qualquer um reconhece que a ousadia dessas peças é evidente até mesmo para o nosso público, habituado a
18 Para saber mais sobre este fato histórico, cf. FRASER, Antonia. A conspiração da pólvora, tradução de Marco Arão Reis, Rio de Janeiro, Record, 2004.
83 performances non sense e aparentemente chocantes. Portanto, onde estariam os “números fáceis”? Onde se encontravam as concessões?
Talvez a observação de Milton não se deva a um aspecto estético ou artístico – e sim a alguma espécie de detalhe político que, para ele, diminuía o trabalho de Shakespeare e que o jovem poeta resolveria no futuro com sua própria obra. Sabemos que a educação religiosa de Milton sempre prezou por um protestantismo rigoroso que, se não o fez se enquadrar em uma sensibilidade puritana, sem dúvida aproximou-se dela por muito pouco. Além disso, deixava claro que não suportava os “papistas” e os considerava verdadeiros representantes da “prostituta da Babilônia” – em Aeropagítica chega ao ponto de afirmar que os católicos eram os únicos membros que não tinham direito de se expressar no reino porque o prejudicariam com suas políticas corruptas e heréticas19.
Os tais “números fáceis” que Milton critica na obra shakespeareana são elucidados se partirmos do pressuposto que William Shakespeare talvez fosse o que se chamaria de “cripto-católico”. Esta não era uma situação incomum na Inglaterra dos séculos XVI e XVII. É possível considerarmos essas pessoas como os epicentros da crise religiosa e institucional que arrasava silenciosamente a ilha bretã; presos entre dois mundos que se chocavam, elas sabiam que a velha ordem da Igreja de Roma não dava mais conta das angústias que sentiam e também reconheciam que a nova ordem do protestantismo impedia de trazer qualquer satisfação intelectual ou estética sobre o que já tinha sido absorvido. Por isso, procuraram outras formas de expressão religiosa e artística – como, por exemplo, o neo-platonismo de Marcílio Ficino, Pico della Mirandola e Giordano Bruno, em que o teatro é visto como uma forma simbólica de manter a memória dos verdadeiros nomes deste mundo, um sistema de ramificações e correlações que lembrava muito a Cabala e as doutrinas esotéricas orientais. Shakespeare certamente foi um membro do grupo que sofreu o choque destas três educações que se misturavam em um magma peculiar na Inglaterra elisabeteana. E quanto à Milton – bem, ele já estava imerso nos ensinamentos ocultos dos neo-
19 É irônico observar que atualmente, entre as facções políticas que se dizem “liberais” (i.e. de tendência progressista em relação às políticas de estado e em relação aos costumes de uma sociedade, sempre em defesa do “pluralismo democrático”), Milton é considerado um patrono da tolerância, por causa de
Aeropagitica. Cf. a respeito o equivocado artigo de Demétrio Magnoli, “A liberdade enriquece”, publicado na revista Veja do dia 22 de setembro de 2010.
84 platônicos há algum tempo quando escreveu os poemas Comus (1634) e Lycidas (1637)20.
É muito provável que Milton suspeitava algo que todo mundo já sabia, mas ninguém tivera coragem de dizer – o de que Shakespeare fosse alguém simpático às causas “papistas”. Mas o soneto ao Bardo indica outro tipo de atitude: a da rivalidade. Isso é algo corriqueiro nos meios artísticos e intelectuais; um poeta imita o outro e assim por diante, naquilo que seria chamado de “angústia da influência” por Harold Bloom, mas que também aponta para algo mais destrutivo – uma corrente de emulação e de competição que, no fim, ninguém prova que é melhor do que o seu semelhante e destrói os fundamentos da linguagem e, portanto, da sociedade. Milton não chegou a esse ponto, é claro; contudo, a sua rivalidade com Shakespeare, misturada em temperos de admiração, exibe um talento que não se contenta com o que acontece nas aparências do reino e, em especial, com o que acontece nos assuntos humanos, sejam interiores ou exteriores.