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C. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAYNAKLARI

2.5. HZ MUSA (A.S) VE SUHUFU

2.5.2. Hz Musa’nın (a.s) Suhufu

2.5.2.2. Elvah

Se admitirmos que a peça foi escrita entre 1603 e 1605 e encenada no ano seguinte, podemos dizer que ela surgiu no momento exato em que Jaime I tentava lidar com os eventos do 5 de novembro. Portanto, não seria um exagero considerar que

Macbeth é uma espécie de comentário sobre a “conspiração da pólvora” – um

comentário que, no fundo, é também uma reflexão sobre a natureza da realeza. É interessante notar as relações que existem entre os detalhes dramáticos da peça e algumas circunstâncias históricas. As evidências são as de que Shakespeare se inspirou em um dos livros escritos pelo rei, o Daemonologie, para elaborar a figura das três feiticeiras que abordam Macbeth e Banquo logo no início da peça. Jaime I era fascinado pelos poderes obscuros da magia negra e ele próprio se autodenominava como uma espécie de feiticeiro, por causa da sua “precisão de ornitólogo” ao identificar um fenômeno sobrenatural. Depois, sabemos que Banquo era, de acordo com as Crônicas Escocesas de Holinshed (um historiador bretão medieval de quem Shakespeare extraiu material para várias peças, entre elas Rei Lear) um dos antepassados de Jaime I – o que é ressaltado em uma cena quando uma das feiticeiras prevê que os herdeiros de Banquo

88 (os futuros Stuart) reinarão sobre a Escócia24. E, como se não bastasse, há a piscadela reveladora – e extremamente ousada se lembrarmos que a peça foi encenada na corte inglesa, para o próprio rei – de que Jaime sofria de uma insônia perturbadora, que o fazia perambular a esmo pelos corredores do palácio, da mesma forma que Macbeth e Lady Macbeth fazem nos momentos derradeiros do drama, consumidos pelo remorso e pela culpa25.

O que Shakespeare queria dizer ao jogar com esses dados? Que Macbeth, o leal soldado que se transforma em tirano, era Jaime I, rei que agora perseguia católicos por causa da “conspiração da pólvora”? Que os protestantes eram membros de um grupo de assassinos? Ou seriam os católicos radicais, que decidiram pela violência, com o desejo de exterminar a maioria da elite inglesa no Parlamento?

A profusão das questões mostra como o dramaturgo sabia que pisava em território movediço ao lidar com tais temas. Não é importante fazer os paralelos para saber quem é quem ou qual era a verdadeira intenção política do dramaturgo ao escrever tal peça em um momento tão complicado da história do seu país. Macbeth permanece em nossas memórias porque aborda temas mais amplos e, ao mesmo tempo, mais profundos, que calam fundo na nossa consciência porque lida com o que nos define como seres humanos.

Afinal, esta é a primeira fala do rei Duncan na peça, logo depois da abertura aterrorizante em que as três feiticeiras informam ao público que em breve verão Macbeth – What bloody man is that? O sangue é o que nos mantém como homens e, na língua inglesa, é o que nos amaldiçoa quando o perdemos em uma encarniçada batalha. A linguagem shakespeareana é um holon que estabelece um padrão logo no começo de cada peça para que o espectador perceba a perfeita união entre forma e conteúdo, em que cada palavra se relaciona com o todo da visão que é imposta na mente do artista e, ao mesmo tempo, o todo se reflete em cada detalhe da peça. No caso de Macbeth, tal estrutura é mais nítida do que nunca, em especial por causa da repetição das seguintes

24 Cf. Macbeth, Ato IV.1a cena.117 verso: SHAKESPEARE, William. Macbeth, in: The complete works

of William Shakespeare. Inglaterra, Wordsworth Editions, 1999.

25 Cf. ASQUITH, Clare. Shadowplay – The hidden beliefs and coded politics of William Shakespeare. Nova York, Public Affairs, 2008, págs 202-222.

89 palavras que soam como definições: man (homem), blood (sangue), king (rei), fair (justo), foul (injusto, desordenado), reason (razão) e sleep (sono, dormir)26.

Não é por acaso que o rei legítimo é introduzido na peça que será sobre a sua morte por meio de uma pergunta sobre que tipo de homem se aproxima dele e o adjetiva como bloody, que pode significar tanto maldito como ensangüentado. Duncan é o monarca abençoado por Deus e isto é reconhecido por todos os seus soldados e servos. Mas, por algum motivo desconhecido, ele enfrenta uma rebelião em seu reino. Será que ele está em condições de saber o que deveria ser um homem? Sim, está. Conforme vemos as ações de Duncan, percebemos que Shakespeare mostra o que é e o que deve ser um rei: sóbrio, prudente, gentil, firme, corajoso – alguém que resume as virtudes fundamentais que sempre foram ensinadas aos humanistas que bebiam das fontes greco- romanas para criarem seus personagens.

Duncan tem pouco tempo de cena – em breve será eliminado pelo casal Macbeth – mas sua presença será uma lembrança para quem defende a sua memória, especialmente o filho Malcolm e seu braço-direito, Macduff. Ainda assim, neste reino, há a impressão de que alguma coisa está fora dos trilhos. Por que haveria uma rebelião entre seus aliados se Duncan é um rei tão bondoso assim? As feiticeiras afirmam, quando se preparam para encontrar Macbeth, de que tudo está de cabeça para baixo27, em que fair is foul and foul is fair – no que é confirmado sem saber pela futura presa delas ao voltar da batalha como vencedor por Duncan e dizer que so foul and fair a day

I have not seen. Em um desses lances sutis que só Shakespeare consegue fazer, somos

jogados em um mundo onde os poderes obscuros das trevas já tomaram conta, mesmo que seus personagens não percebam conscientemente, e que sintam isso de forma implícita através de suas expressões e metáforas.

Esta é a forma encontrada para descrever o fenômeno da representação em um mundo que está prestes a entrar numa crise infernal. Nenhuma sociedade se encontra pronta e definida na sua tentativa de se interpretar. Não existem teorias definidas a

priori e a posteriori. A filosofia política nasce da tentativa ingrata de apreender os

26 Não há nada original na descoberta deste padrão. Cf. os maiores comentadores de Shakespeare, como W.H.Auden (Lectures on Shakespeare, Princeton University Press, 2000), A.C.Bradley (A tragédia

shakespeariana, Martins Fontes, 2008), Martin Lings (A arte secreta de Shakespeare, Attar Editorial, 2000) e Ted Hughes (Shakespeare and the Goddess of Complete Being, Faber and Faber, 1998).

27 Esta expressão nos faz lembrar do livro de Christopher Hill, O mundo de ponta-cabeça (The world upside down).

90 termos da auto-interpretação enquanto a sociedade se vê como um cosmion, um pequeno mundo, onde suas estruturas fundamentais são iluminadas por dentro, pelas próprias pessoas que a constituem e que tentam encontrar um sentido (logos) para os eventos que a definem conforme o transcorrer da História. Esta iluminação pré-teórica é algo que se aproxima do intuitivo e só pode ser feito através da sensibilidade estética elaborada em escritos poéticos ou em obras de arte que envolvem uma capacidade supraracional de quem as realiza. Portanto, quando Shakespeare mostra, pelo seu padrão de palavras escolhidas, o tema principal de sua peça, não temos apenas uma reflexão artística sobre um tema político; já estamos objetivamente no terreno da análise política

stricto sensu, fundamentada com um questionamento sobre a natureza humana28.

A filosofia política só pode ter sua validade como amostra de uma teoria depurada se tiver alicerces em uma antropologia filosófica que seja compreensível para quem a experimentou29. Em Macbeth, isso fica evidente quando Shakespeare dramatiza o que faz um rei se transformar em um tirano. Um governante justo como Duncan é o ser humano em sua plenitude, a representação de Deus na Terra como o mais próximo que se pode chegar da perfeição espelhada na imitatio Christi. E o que seria o tirano? Alguém que não se submete às leis de Deus e a dos homens – mas principalmente às leis da própria natureza (physis), do cosmos, do mundo que o circunda. Segundo a visão apresentada por Shakespeare em suas peças, o homem é, antes de tudo, uma criatura humana, isto é, alguém que foi criado por algo que está além da sua compreensão e da qual é dependente de uma forma que poucos reconhecem, vivendo em uma tensão existencial entre o que pode escolher e o que já está determinado por limitações físicas que o incapacitam de viver conforme a sua vontade. O modo como apreende essa tensão se dá no âmbito de sua consciência interior, também reconhecida como uma espécie de partícula divina do ser (o nous aristotélico), que lhe permite diferenciar o certo do errado e, ao cometer este último, ocorre ter a percepção de que há algo que desequilibrou a ordem das coisas30.

Contudo, a existência de uma ordem acima da vontade humana não elimina o fato de que há uma desordem interior e exterior – e que uma é reflexo da outra, numa

28 Cf. VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política, tradução de José Viegas Filho, Brasília, UNB, 1988, págs. 33-47.

29 Idem. Cf. também WEIL, Eric. Filosofia Política. Tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Loyola, São Paulo, 2011.

30 Cf. VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política, tradução de José Viegas Filho, Brasília, UNB, 1988, págs. 33-47.

91 articulação representativa do princípio antropológico já discorrido por Platão em A

República: a de que a alma do homem é a da polis por extenso e vice-versa31. Portanto,

o rei é a cabeça do reino, o homem que o representa não só de forma institucional, como também existencial e transcendental. De modo inverso, o mesmo ocorre com o tirano: se este não respeita as leis naturais, a dos homens e a de Deus, isto significa que a sociedade que governa também fez a mesma escolha, salvo as raras exceções que lhe podem fazer oposição.

Benzer Belgeler