• Sonuç bulunamadı

A. ANALİZ

5. KENTSEL NÜFUS - DEMOGRAFİK YAPI

5.3. Nüfusun Yapısı

A característica do grafite cearense esbarra numa infinidade de situações em que, necessariamente, nem todo grafiteiro esteve ou é ligado a pichação ou mesmo se reconhece como um artista plástico. De um modo geral, os grafiteiros da capital cearense se espelham nas produções das grandes cidades principalmente daqueles encontrados nos muros e metrôs da cidade de Nova Iorque. Sobre os grafites dessa cidade, Baudrillard (1976) defende que inicialmente eles teriam surgido no início dos anos 1970, partindo das grandes manifestações urbanas de moradores negros e latinos das periferias dessa localidade. As pessoas que grafitavam nessa época não eram ligadas a nenhum movimento político, artístico ou cultural e, segundo o referido autor, não era “político nem pornográfico”. Sobre isso afirma que:

Foi na primavera de 1972 que começou a arrebentar em Nova Iorque um vagalhão de graffiti que, partindo das paredes, muros e cercas dos guetos, terminou por se apoderar do metrô e dos ônibus, dos caminhões e elevadores, dos corredores e monumentos, cobrindo-os inteiramente de grafismos rudimentares ou sofisticados cujo conteúdo não é político nem pornográfico, compondo-se apenas de nomes, sobrenomes retirados de gibis underground: DUKE SPRIT SUPERKOOL KOOLKILLER ACE VIPERE SPIDER EDDIE KOLA etc, ou de um número de sua rua: EDDIE 135 WOODIE 110 SHADOW 137 etc., ou de um número de algarismos romanos, indicando filiação ou dinastia: SNAKE I SNAKE II SNAKE III etc., até cinqüenta, com o aumento do número de grafiteiros que tomavam o nome, a designação totêmica. (BAUDRILLARD, 1976, p. 99).

O grande número de grafites que se concentrou nessa cidade chamou atenção da mídia e da sociedade da época e, em consequência disso, se espalharam para outras localidades numa verdadeira “revolução” de cores, estilos e desenhos variados. Os grafites de Nova Iorque se transformaram num modelo ideário que inspirou diversos artistas adeptos aos efeitos dos sprays. Baudrillard (1976, p.100) afirma que “o grafite mudou de terreno e

conteúdo: não mais como lugar de poder econômico e político como acontecia nos Estados Unidos, mas como espaço/tempo do poder terrorista da mídia, dos signos e da cultura dominante.” A partir de então, o grafite rapidamente se propagou também em revistas e livros, sobretudo na indústria cinematográfica. Ganham destaque os filmes Wild Style, Stle Wars, Beet Street e o mais conhecido Warrions (Selvagens da Noite). Nessas produções encontramos diversas imagens de grafites de forma que passou a ser uma referência para os grafiteiros e um meio eficiente de difusão do movimento de grafite em muitos países do mundo.

Voltando para a questão sobre o surgimento do grafite, encontramos grafiteiros como Tubarão (VTS) que defende que a prática do grafite é de origem exclusiva do movimento hip hop pois seus participantes o utilizam como uma linguagem visual para expressare problemas socias das periferias onde moram. O referido grafiteiro foi um motivador das primeiras crews na cidade de Fortaleza. Sobre isso, declara que:

O grafite é uma arte de rua criado nas periferias de Nova Iorque pelo hip hop. O grafite chegou no Brasil pelas periferias também no hip hop. O hip hop chegou no Estado do Ceará em 1990 e a “galera" começou logo a grafitar em 1993 pelos pioneiros como o Flip, Uz, Boby, Def José, Selo e Flay e muitos outros da velha escola do ceará. Eu só comecei grafitar em 1999 em outra geração que era eu e o Pingo [...] eu iniciei no grafite dentro da cultura hip hop e a gente acredita nessa forma. Por isso a gente tem muito essa ligação com o hip hop [...] a gente acredita que o grafite é um elemento da cultura hip hop [...] até o ano de 2005 o grafite tinha muito essa relação com o hip hop até porque os grafiteiros que existiam era do movimento hip hop e o grafite acabava se limitando muito a eventos do hip hop você só pintava em eventos de hip hop não tinha muito essa coisa que hoje você vê que o grafite está em vários cantos [...] grafite veio do Bronx, da cultura hip hop do povo preto e latino, foram eles que começaram a fazer grafite. Isso aí tem em livro em tese, em pesquisa, fotografia e milhões de registros que provam isso. (TUBARÃO, entrevista realizada em 30/10/11).

Os diversos discursos sobre o surgimento do grafite seja ele por vias da pichação, das Artes Plásticas ou do movimento hip hop têm provocado uma luta territorial e simbólica sobre o histórico do grafite. Tubarão (VTS), participante e seguidor convicto do movimento hip hop, não reconhece os artistas dos coletivos como grafiteiros e tampouco suas produções como grafite; para ele, os grafiteiros envolvidos com as Artes Plásticas não se incluem no movimento cearense de grafite. Sobre isso afirma que:

A nossa visão que grupos que são chamados de coletivos, não são grafites. O que é crew? É grupo de grafiteiros desde o Bronx na década de 1960. Essa “galera” do coletivo você pode perceber que trabalha com as Artes P lásticas. A gente tem a visão que grafite é uma coisa e Artes Plásticas é outra. Não é porque você usa spray que vai ser grafite. Você pode fazer uma pintura no estilo do grafite, mas para você ser do grafite você precisa ser grafiteiro, conhecer a história, os estilos do grafite,

precisa trabalhar a raiz do grafite e viver seu contexto. Na minha visão eles são artistas plásticos que é a mesma coisa de colocar o que eles pintam em quadros na parede. É como a “galera” que trabalha com a técnica da aerografia (pistola ligada num compressor de ar) que é um estilo de pintura que lembra o grafite, mas não é grafite. As pessoas acabam confundindo porque não conhece não sabe diferenciar. A nossa crew não considera eles como grafiteiros e o que eles fazem não são grafites, por isso a gente nem convida para os nossos eventos. Eles andam muito nos espaços deles, no estilo deles. Eu particularmente já fui convidado por eles para participar de exposições, lançamento de livros, mas eu não vou, porque eu acho que são duas coisas diferentes e se eu for é consciente que lá é só lançamento de livro uma exposição de artista para mostrar seus estilos. É uma exposição de grafite, mas não é grafite. Grafite é um contexto. Não é só chegar no muro e fazer o “trampo”. Qualquer um pode pegar uma lata de spray e fazer um “trampo” na parede, agora você ser do grafite é outro contexto [...] quando começou mesmo essa febre de se fazer grafite na cidade, essa “galera” das artes plásticas já existia e se diziam artistas plásticos e não grafiteiros quando o grafite se expandiu essa “galera” começou a se autodenominar grafiteiro sem ser. Se você conversar com eles e perguntar sobre a história do grafite com certeza eles vão dizer aquele

“papo” de Alex Vallauri36

ou vão tentar filosofar dizendo que é arte contemporânea da década de não sei da onde da Europa ou que surgiu na França e “tal”. Os europeus têm um defeito muito grande porque para eles tudo foram eles que criaram [...] essa “galera” quer levar para esse lado. Eles são boys, grafite não é para os boys, não é para eles, é para a periferia. É para levar cultura, informação para a periferia que já é carente de tudo isso, por não ter acesso ao lazer e aos meios que só os brancos têm acesso desde criança. A gente trabalha muito essa linha com a “galera” que vem para o grafite porque eles acabam intervindo na sua comunidade e cidade. (TUBARÃO, entrevista realizada em 30/10/11).

A citação de Tubarão (VTS) é bem clara e reveladora. Durante as entrevistas constatamos a existência de disputas pela legitimidade do grafite e os conflitos partem da desautorização do discurso do outro. Para pesquisadores como Rodrigues (2011, p.95), “os grupos que estão mais próximos das artes plásticas são vistos com desconfiança por aqueles que fazem outro tipo de grafite, como se as atividades dos primeiros desvirtuassem uma suposta “natureza” de fundo histórico do grafite.”

Essas afirmações nos levam a crer que os grafiteiros da cidade de Fortaleza se dividem entre duas vertentes. De um lado encontramos os grafiteiros ligados ao movimento hip hop e de outro os grafiteiros ligados às Artes Plásticas. Os primeiros são aqueles grafiteiros que atuam nas periferias da cidade, se organizam em crews, seguem as regras do movimento hip hop, não praticam outras linguagens artísticas e afirmam que o uso do spray é a única forma de produzir grafites. Já os outros se alinham ao entendimento e as técnicas aplicadas pelas Artes Plásticas, se organizam em coletivos, experimentam outros suportes e linguagens artísticas, empregam diferentes recursos em seus grafites, preferem bairros como o

36

Alex Vallauri foi um dos primeiros grafiteiros a ganhar destaque na cena do grafite brasileiro. Ele morreu em 26 de março de 1987, e no dia seguinte seus amigos lhe prestaram uma homenagem grafitando o Túnel da Avenida Paulista na cidade de São Paulo. Sua morte deu origem ao Dia Nacional do Grafite.

Benfica e outros espaços como museus e galerias, por entender que nesses lugares suas produções podem ser apreciadas por um público mais amplo.

As escolhas do lugar para as produções de grafite também são meios que identificam os grafiteiros dessas duas vertentes. Não muito distante da realidade das periferias norte-americanas como Bronx, Harlem e Brooklyn a cidade de Fortaleza também possui sérios problemas sociais. Para grafiteiros como Tubarão (VTS) a periferia é um lugar ideal para seus trabalhos e, segundo o mesmo, bairros como o Benfica simbolizam lugares dos “boys”, ou seja, da burguesia fortalezence. Sobre o bairro Benfica, Tubarão (VTS) declara que:

O Benfica é uma área mais nobre, pintar no Benfica não é a mesma coisa que é pintar numa comunidade. É um bairro mais elitizado, próximo do centro que tem uma faculdade, então as pessoas daquele bairro já quer um entendimento do grafite como arte no geral, então é óbvio quando você chega lá para fazer um trabalho de grafite você vai ter uma aceitação das pessoas que vão encarar aquilo ali como uma arte. É diferente de você pintar na periferia, não que a periferia não tenha informação do que é arte, mas a gente acha que a aceitação na periferia é melhor do que um bairro como o Benfica porque tem uma coisa que acontece na periferia que não acontece no Benfica que é o contato direto com a comunidade a comunidade acaba interagindo, a gente sempre fez trabalhos nas comunidades como na Rosalina e a comunidade sempre interagiu com o grafite, a gente passou a semana solicitando algumas casas para poder pintar, umas casas liberaram e outras não, mas quando a gente começava pintar os que não queriam começavam a chamar a gente “pinta aqui em casa”. A comunidade toda se envolvia, trazia água, o lanche, e isso sempre foi muito bacana e em toda periferia que você anda você sente isso de perto. Já em bairro mais nobre você não vê isso. As pessoas passam, olham, e pode até considera r arte, mas não tem o contato com você. Eu particularmente nunca pintei muito no Benfica não, eu pinto no Benfica geralmente em eventos. Acho que todo local é vá lido, a gente tem que estar em todo canto para as pessoas saberem que existe grafite e que é preciso ser respeitado. (TUBARÃO, entrevista realizada em 30/10/11).

Mesmo em bairros como o Benfica, considerados por Tubarão (VTS) como um lugar das elites, ainda assim encontramos um de seus trabalhos nos muros do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFET-CE).

Foto 13- Grafite da CrewViciados em Tinta Spray (VTS) no Muro do IFET-CE

Benzer Belgeler