A. ANALİZ
6.3. İş Gücü ve İstihdam Göstergeleri
O grafite no movimento hip hop surge pela necessidade de revelar, de forma visual, a realidade das periferias como pobreza, violência, racismo e tráfico de drogas. O grafite foi uma forma encontrada pelos grafiteiros para enfrentarem a criminalidade e fazer frente à invisibilidade das pessoas que vivem à margem da sociedade. Sobre o surgimento do movimento hip hop, Viana (2007, p.123) declara que “em 1973 Afrika Bambaata, para que não houvesse mais brigas entre as gangues dos jovens negros e porto-riquenhos no sul do Bronx, funda a Nação Zulu [...] uma organização não governamental que ficou conhecida como hip hop.” Nesse periodo, as ruas dos guetos norte-americanos eram um dos poucos espaços utilizados para o lazer. Os jovens que residiam nessas imediações viviam num sistema de gangues e eram comuns as disputas e os confrontos pelo domínio territorial. As gangues eram obrigadas a conhecer seus territórios e seguirem suas regras.
Além do grafite como um elemento do hip hop, o movimento ainda possui mais três elementos: o rapper ou emceeing (mestre de cerimônia), o dj (disc jockey) e o b.boy. O rap ou rithymand-poetry (ritmo e poesia) é um estilo musical cantado com rimas cujo sentido é o improviso. Seus versos são cantados à capela e acompanhados por um fundo musical chamado beatbox uma espécie de percussão vocal que serve de marcação. Os cantores de rap são conhecidos como rappers ou emceeing. A dança, o breaker (quebrado) ou como alguns chamam de breakdance é uma performance do b.boy (dançarino) ou da b-girl (dançarina). O dj, também conhecido como discotecário ou dj de competição, é o responsável para fazer
colagens rítmicas umas sobre as outras em discos de vinil, conhecidas como mixagens. A partir de então surgiram nas noites os dj’s animadores de boites, bailes, festas em eventos variados. Antigamente era comum que os rappers participassem de disputas chamadas de free style (estilo livre) em que cada participante tentava superar o outro seja na dança, no canto ou no desenho (grafite). Segundo Stahl (2009, p.236), “a disputa do grafite apenas se centra em conseguir o efeito mais estridente, mais directo ou mais impressionante que um grande formato possa provocar.”
Na década de 1990, o movimento hip hop chega ao Brasil principalmente por intermédio de revistas e discos vendidos na rua 24 de Maio na capital de São Paulo. Para Viana (2007, p.124) “O movimento hip hop já mobilizava um segmento expressivo da juventude das favelas e periferias das cidades brasileiras. Um país cuja maior parte da população sofre com a injustiça, a desigualdade e violência, não podia deixar de abrigar o hip hop.” Os pioneiros desse movimento formaram as primeiras equipes de bailes, os mais conhecidos foram: Nelson Triunfo, Thaíde e dj Hum, mc e dj Jack, Os Metralhas, Racionais mc's, Os Jabaquara breaker, Os Gêmeos, dentre outros. Devido à má fama desse movimento, era comum a repressão policial perseguir essas pessoas quando se encontravam nas ruas de São Paulo.
Como uma linguagem visual, a proposta do elemento grafite surge no movimento hip hop para imprimir um estilo particular, como uma marca identificadora dos seus participantes, segundo Lacoste (2011, p.106) “a linguagem é um bem, visto que, graças a ela, o homem compreende e denomina os entes em cujo meio se encontra, abre um mundo e uma história.” Sobre a proposta desse movimento Leandro (Paralelus)revela que:
A característica do grafite do hip hop, apesar de que não sei dizer de forma profunda, mas pelo que já pesquisei e o que eu consigo compreender, é que o grafite é muito utilizado para apaziguar. Pelas histórias que a gente sabe, o grafite possibilitava que essa “galera” se encontrasse e nesse sentido eles cultivavam as mesmas ideias ou então entravam em conflitos. Tinham umas “galeras” que não se dava bem com os outros grupos e se confrontavam através da dança no hip hop. Então o grafite seria mais como uma escrita de comunicação “ta” ligada? (LEANDRO, entrevista realizada em 17/02/2011).
Muitos grafiteiros ligados as Artes Plásticas se pronunciam com desconfiança ao darem suas opiniões sobre certas posturas do movimento hip hop, pois acreditam que o discurso padronizado desse movimento não condiz com as atitudes de seus participantes. Apontam que as práticas dos grafiteiros que participam desse movimento são contraditórias e distorcem a ideia original do tempo que esse movimento era apenas um movimento das
periferias e dos guetos das cidades. Para grafiteiros ligados às artes plásticas, as ações desse movimento precisam ser refletidas, e, sobre isso revelam que:
Hoje eu acho que eles não são mais assim como antigamente. A música que eles ouvem que é o rap, o dj, e o b. boy (o cara lá que dança) não existe mais na prática, se a gente prestar atenção a gente tem outra percepção, que esse movimento vai se desligando. Hoje o rap está caracterizado pela música comercial, onde eles se mostram com a queles carrões, joias e mulheres, coisa que não combina muito com a realidade das periferias de onde ele surgiu. Tem até o dj que saiu da favela e entrou nas boates famosas (risos). Não sei se essa “galera” tem alguma relação com o movimento ainda. Só sei que essa “galera” está muito elitizada. Então hoje não existe mais aquela identidade que eles querem tanto ter, não tem mais o que comparar. (LEANDRO, entrevista realizada em 17/02/2011).
Hoje na verdade eu desconfio dessa influência do hip hop, dessa coisa do território, do discurso pronto e “tal”. Tem uma ideia muito forte do sonho americano de massificar o mundo. De todo o mundo ser americano e inclusive com isso até a gente acabou pecando um pouco reproduzindo da maneira deles. A gente tem que tomar cuidado, antes de falar que o grafite vem do hip hop. A gente trabalha com as questões históricas que ele veio desde as pinturas rupestres e “tal”, mas de alguma forma a gente acaba contemplando esse marco, porque a gente não pode deixar de falar do hip hop porque deu esse caráter mais moderno pela utilização do spray. Eu acho que a gente utilizou isso um pouco idealizando que nos Estados Unidos deu certo e “tal”. Isso é o que passa na perspectiva urbana sobre a influência do nosso grafite de Fortaleza. Ele chega aqui como um enlatado norte-americano. O grafite é visto primeiro em São Paulo com o uso do spray. As pessoas colocam que o grafite é um elemento do hip hop muito mais para vender sua cultura , por que as pessoas já riscavam e desenhavam nas paredes, mas não sabiam que era grafites “ta” ligada? O nome grafite é importado, um termo moderno e “tal”. Os Estados Unidos querem massificar o mundo, acham que o grafite é só o que eles fazem no hip hop. É tanto que, quem foi que começou a produzir as latas de spray? A gente entra na questão do consumismo. O discurso deles é uma coisa que eles cria ram com intuito de gerar consumidores para o produto, no caso o spray, e tudo que envolve o grafite gerando terreno para possíveis consumidores. O grafite surge de uma proposta que para mim não é interessante. (NILSON, entrevista realizada em 19/02/2011).
Com a expansão do movimento hip hop, as pessoas passaram a absorver essa cultura como um estilo próprio de vida e, a partir de então, muitos mercados surgiram. A cultura desse movimento passou a ser tratada como marca identificadora influenciando não só o grafite, mas também a juventude, o esporte, a música e a moda de forma que o grande número de consumidores fez com que esse movimento se transformasse num produto lucrativo aos olhos das indústrias. Nesse segmento tudo é padronizado e passou a movimentar um mercado global milionário. Sobre isso, Stahl (2009, p.232-242) declara que,
O desenho da roupa - que antes acabava nas formações individuais – tem vindo apresentar de um tempo a esta parte um culto às marcas, semelhante ao estabelecido na moda do lazer ou do desporto [...] a criação da moda concentrou-se inicialmente em determinados elementos. O hiphopper clássico usava o boné com a pala para trás, um colete desportivo largo, sneakers, normalmente desatados, e, para além disso, coisas que eram muito menos atrativas [...] O hiphopper, já desde algum tempo, estabeleceu-se como categoria fixa nas estantes de música dos centros
comerciais, nas listas de êxitos e nos prêmios. Aparecem constantes novas estrelas num mercado com muita concorrência. De qualquer forma, numerosos multimilionários puderam alinhar como figuras destacadas. Os maiores números conseguem-se no âmbito da música e não é raro que quem acumulou dividendos neste campo invista no mundo da moda, que não é menos lucrativo e está em estreita relação pessoal com ele (ou que a sua marca acredicta diretamente).
O movimento de grafite cearense é fortemente influenciado pela cultura hip hop como o vocabulário de palavras inglesas, as gírias, a música, a moda e o comportamento de um modo geral. Alguns grafiteiros como Nilson e Leandro (Paralelus)criticam a forma que o grafite chegou ao Brasil e afirmam que o grafite chegou à capital cearense como uma espécie de “enlatado norte-americano”. Por outro lado não podemos negar que o movimento hip hop tem seduzido, cada vez mais, as pessoas se expressarem pelos sprays o que possibilitou uma abertura nesse universo artístico oferecendo aprendizados e conhecimentos específicos que partem da mão do próprio artista.
Os grafiteiros aprendem que, de acordo com o tipo de “pito” (válvula por onde sai o jato de tinta que se encaixa na parte superior das latas de sprays), ele pode ter a precisão de vários efeitos que vão dos traços mais finos aos mais grossos. Com o descobrimento dos efeitos ecléticos das misturas de cores, das multimodulações, das sutilezas e dos brilhos provocados por essas tintas, os grafites ficaram mais elaborados e passaram ser apreciados por um público mais amplo que reconhece a prática de pintar os muros como uma arte das ruas da cidade. Sobre a história dos sprays, Robésio (Acidum) declara que:
Por que a “galera” usava spray? Usava spray porque era legal, usava spray porque era o meio mais rápido e mais barato naquela época nos Estados Unidos. O que era o grande boom daquela época? Era a indústria automobilística. A indústria foi a matriz da construção dos anos sessenta e do sonho americano que vem levantar os Estados Unidos. Depois do pós-guerra foi a indústria automobilística , a bélica e outras como a farmacêutica, mas principalmente a automobilística . Então você tinha Detroit produzindo carro para “caralho” para o mundo inteiro e a Ford “bombando”. O que é que acontecia com isso? Você tinha todo um esquema de produtos ali ao redor que era para poder dar acessibilidade para esse tipo de coisa . Um deles o spray que era muito barato e “tal”. O spray em si todo mundo podia comprar para pintar seu carro e ter em casa pra pintar qualquer coisa. E aí a “galera” já tinha um acesso fácil desse material e também roubavam muito. Não era um material caro, e também a “galera” não estava preocupada com a qualidade do trabalho em si. Você vê os grafites dos anos oitenta, eles são bem ingênuos de qualidade, não existia a preocupação com o acabamento. Ao contr ário, no Brasil, o que é que acontece? Aqui quando chega esse período dos anos oitenta e depois no outro boom dos anos dois mil, o spray fica muito caro. Qual era a saída? A saída para “galera” daqui era o rolinho como era o spray naquela época. Então o rolinho é o spray brasileiro. A “galera” conseguiu fazer muito trabalho, muita pintura como você vê. O rolinho é a matriz de uma “galera” daqui como o próprio Zezão que usou o rolinho no “bomb” e o spray só para depois fazer o contorno e “tal”. Teve outra “galera” como Os Gêmeos que começaram usar o rolinho para fazer um traço mais fino e usar o spray como um complemento juntando os dois. Então, o rolinho se destacou aqui, e hoje a gente pode dizer que é
uma matriz para o nosso grafite, isso destacou o Brasil totalmente, a técnica da nova forma que a “galera” usa em contraposição de toda aquela estética que vinha do padrão norte-americano e tudo mais. Isso ainda é forte, mas Os Gêmeos foram os que mais “quebraram” isso dando uma identidade brasileira. (ROBÉSIO, entrevista realizada em 15/11/2011).
Devido ao expressivo poder de se comunicar com as pessoas da cidade, o grafite passou a ser observado e aproveitado para diversos fins. A arte dos sprays se proliferou não apenas nos muros das cidades, mas também em outros espaços como museus, galerias e até mesmo transportado para as telas ou se adaptando a uma série de objetos como bonés, camisetas, bermudas, capas de cadernos, agendas e discos, até onde a imaginação pode conceber. Sobre isso, no ano de 2006 a Revista Veja
38
, em matéria de capa, informa seus leitores que “O grafite ganha status e migra das ruas para a moda, a decoração e as galerias”, uma vez que “grifes, arquitetos e galerias de arte se rendem ao boom do grafite”. Até a própria indústria da comunicação, ao perceber o valor do grafite, renovou suas experiências visuais adaptando-o em campanhas publicitárias, vinhetas, aberturas de novelas, comerciais e até mesmo em cenários de programas de televisão. Sobre o modismo do grafite, Silva (2011, p.42) defende que:
As possíveis explicações para o grafite estar na “moda” ligam-se a expressividade desta prática, seu poder comunicacional por atingir um maior número de “leitores” e
o fato de ele ser um elemento da paisagem urbana atual, constituindo ao lado do tráfego de carros e dos edifícios, os ícones da contemporaneidade urbana.
A migração da arte dos sprays para outras esferas libertou o grafite da sua má fama original que antes era concebido como uma arte marginal, transgressora e que sujava os muros da cidade. O grafite conquistou status e valor comercial em terrenos que até então eram desconhecidos.
Observamos até aqui as particularidades sobre o histórico do grafite em que encontramos diversas explicações que vão desde a antiguidade até a contemporaneidade. As falas dos grafiteiros foram testemunhos importantes, pois elucidaram informações dessa expressão que sofre constantes transformações de forma que jamais conseguiríamos defini-la a partir de um único olhar.
2.3 Nos “rôles:” 39 estilos e formas de fazer grafites
No tópico anterior fizemos uma breve contextualização sobre o histórico do grafite, agora nos interessando por refletir as primeiras produções dessa arte, faremos como os grafiteiros dando uns “rôles” nas ruas do Benfica onde encontramos diversos “estilos e formas de fazer grafites”.
Com a expansão dos grafites nas ruas da capital cearense, os grafiteiros passaram a promover encontros para se conhecer, grafitar e discutir seus posicionamentos e suas reais necessidades frente a cena do grafite. É comum quando as lideranças planejam uma grande ação, correrem atrás de parcerias e patrocínios. Os institutos de educação como as universidades sempre estiveram ao lado desse movimento incentivando e promovendo atividades lúdico-educativas como aconteceu num sábado do dia 19 de junho no ano de 2004 na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), a Faced. Na breve gestão do Coordenador do curso de Pedagogia, professor José Gerardo Vasconcelos, a referida Faculdade de Educação cedeu seus espaços e financiou material para uma rica experiência com murais artísticos reunindo mais de sessenta pessoas entre elas grafiteiros, estudantes e professores para a realização de uma atividade que logo ficou conhecida como “Pintando 7 na Faced”. As pinturas foram produzidas principalmente com sprays e mesmo durando um dia de ação, praticamente todas as dependências internas dessa conceituada Faculdade Educação foram pintadas. O conteúdo desses trabalhos refletiu diversos temas como educação, cultura popular, arte, entre outros. Santiago, participante desse evento, declarou que:
Chovia muito! A gente ia pintar no lado de fora no estacionamento, mas a chuva não deixou e tivemos que ir para dentro. Foi aí então que a “galera” saiu pintando tudo o que via. Quando foi na segunda -feira, dia de aula, algumas pessoas ficaram chocadas. Tinha desenhos até de excrementos humanos debaixo das placas dos formandos. Outros eram diabinhos que incomodaram os mais religiosos e outras eram até bem vistos. (SANTIAGO, entrevista realizada em, 27/08/2011).
A grande quantidade de pinturas causou algumas polêmicas, em especial aquelas cujo conteúdo refletia com escárnio aquele ambiente. Sobre o evento, o professor responsável declarou que “foi curioso perceber que a universidade virou uma galeria de arte para alguns e uma baderna para outros.” (GERARDO, entrevista realizada em 20/06/2011). Devido a
alguns conflitos, dias depois as pinturas foram apagadas, mas uma delas foi fotografada e por muito tempo serviu de ilustração da capa da Revista Educação em Debate.
Foto 17 - Capa da Revista Educação em Debate. Ilustração de Santiago