A. ANALİZ
4. FİZİKSEL YAPI-ÇEVRESEL KAYNAKLAR
4.3. Jeolojik Yapı
Fonte: http://imagenypoder.blogspot.com/2007/11/poder-en-egipto.html. Acesso em: 15 jun.2011.
As inscrições hierográficas dos povos egípcios e mesopotâmicos são baseadas em pictogramas e ainda hoje é um mistério para estudiosos que, segundo Stahl (2009, p.16), “estas inscrições são marcas deixadas não só para a própria pessoa, mas também, de uma maneira geral, para que sejam vistas por todos os outros.” Nas pinturas egípcias encontramos cenas da arte mural que, para Gitahy (1999, p.14), esse estilo de pintura pode ser comparado a uma característica de grafites. Segundo ele:
Os túmulos dos faraós egípcios representam outro momento da pintura mural. A narração dos fatos, num misto de imagem e texto nas paredes desses túmulos, pode assumir uma característica de graffiti, predominando a função decorativa e a aplicação das técnicas mais requintadas. Não existia mais o gestual, que era própria dos povos primitivos; não eram mais traços espontâneos, mas elaborados.
Sobre a arte mural Rolim afirma que: “se pegarmos o grafite na perspectiva histórica, vejo ele como uma ampliação da arte mural. O grafite é uma das técnicas da arte mural e que hoje esse conceito de grafite está muito expandido, muito ampliado, ele comporta muitas técnicas.” (ROLIM, entrevista realizada em 09/11/2011).
Se caracterizarmos o grafite como uma escritura surgida desde o mundo antigo, ele de fato existe desde esses tempos, mas não podemos excluir outras explicações. Seguindo o pensamento de Gitahy (1999) as inscrições do mundo antigo teriam dado um grande salto se tornando mais elaboradas, mais intelectuais a partir de técnicas de pinturas e desenhos.
Os grafites nos centros urbanos comprovam que o homem continua pintando para representar a vida, mas, agora, de diversas formas e em estilos variados. Desde as inscrições rupestres às cidades contemporâneas, o homem vem demonstrando que as inscrições em lugares públicos acompanham sua história o que revela particularidades de cada momento em relação ao tempo e espaço. “De qualquer maneira, o que é um facto é que na história humana
sempre existiram desenhos e pinturas.” (STAHL, 2009, p.82). Não cabe, por certo, discutir todas as dimensões que a questão comporta, para os fins deste trabalho optamos pelos processos do reconhecimento histórico do grafite a partir do contexto urbano. Assim, apontaremos algumas reflexões que acreditamos ter desencadeado o movimento grafite dos dias de hoje.
Na contemporaneidade, o grafite reporta a imagem das grandes cidades e sem autorização oficial pode ser produzido para diversos fins. Muitas vezes constitui um meio preferido para expressar opiniões políticas que, segundo Stahl (2009, p.69), “os graffitis dão a possibilidade de se fazer ouvir de forma imediata.” Na Europa da década de sessenta do século XX, como meio de driblar a arte institucionalizada assim como as políticas locais, a prática de fazer grafites tornou-se comum entre os participantes do movimento hippie e da contracultura que reuniu várias dessas produções em maio de 1968 nos muros de Paris.29 Sobre isso, Silveira Jr. (1991, p.13) declara que:
Gritos rebeldes na longa primavera do amor dos anos 60 que culminaria no maio de 68 francês, os grafites invadem as paredes da cidade num movimento que, em fluxos intensivos, alastra-se veloz a todos os cantos, conquistando espaços, criando polêmicas, transgredindo a ordem urbana [...] a intensidade da ocupação das ruas de Paris foi tal que mesmo com a diluição do movimento político os grafites continuaram seu caminho.
Nos anos 1980, os jovens europeus, especialmente em Amsterdã, Berlim, Paris e Londres, iniciaram um movimento de ocupação em edifícios abandonados conhecido como happening (do verbo inglês to happen, acontecer) para encontros e reuniões. Para compreendermos os happening recorremos aos escritos de Coli (2003, p.73):
A definição lapidar do happening foi dada por Salvador Dali: “realizar um happening é criar uma situação que não pode se repetir”. Com outras palavras, é um lugar determinado, a reunião de pessoas que fazem acontecer coisas através do gesto, da voz, de atitudes diversas – tudo baseado no impulso instintivo, irracional, inconsciente, com a utilização eventual de drogas do tipo LSD, desenvolvendo uma nova forma de percepção, novos modos de relação com outrem e com as coisas.
Nesse período, os espaços abandonados tornavam-se ateliês. Os happenings objetivavam encontrar alternativas para criar uma expressividade diferenciada, em meio à sociedade que renovava suas regras e imposições segundo a lógica do mercado capitalista (GITAHY, 1999). Ali também surgiram novas bandas de músicas, grupos de artistas
plásticos, mímicos, atores e artesãos. Assim floresce a cultura punk30 com o princípio de autonomia do faça-você-mesmo competindo com a arte institucionalizada e patrocinada da época (Idem, 1999). Os artistas desse período passaram a influenciar boa fatia da produção cultural e artística que acontecia no mundo.
A notícia dos variados movimentos que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos chegou às grandes capitais brasileiras no inicio dos anos oitenta do século passado, quando as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo presenciavam timidamente suas primeiras experiências com grafites. No final dos anos 1980 os grafites se expandiram marcando o início do movimento de grafite no Brasil. Muitos grafiteiros dessas localidades ficaram famosos como Os Gêmeos (os irmãos Otavio e Gustavo), Binho Ribeiro, Nina Pandolfo, Nunca, Tinho, Pato, Flip, dentre outros. Em entrevista para um site31sobre grafites Binho declara que “a cidade de São Paulo está entre os três principais centros de produção de grafite do mundo.” (GRAFFITE WORLD, 2010). Considerados como artistas de vanguarda, ainda hoje esses grafiteiros veteranos surpreendem pela ousadia de seus trabalhos, de forma que a mudança com que a sociedade passou a encarar o grafite no Brasil se atribui a fama desses sujeitos reconhecidos e respeitados internacionalmente. Ano passado, Tinho, Pato, Flip participaram da exposição Street Art Brazil numa galeria de arte em Londres. Nina Pandolfo, Nunca e Os Gêmeos, foram convidados para grafitar as paredes externas do Castelo de Kelburn, em Ayrshire na Escócia. Com a fama desses grafiteiros estendida em todo território nacional, outras capitais brasileiras iniciaram a prática de pinturas nos muros se espelhando nos estilos e desenhos desses grafiteiros considerados pioneiros do grafite no Brasil.
Compreender a construção do movimento de grafites, sobretudo no nordeste brasileiro, é um exercício que requer no mínimo cuidado. Ao investigarmos os grafites dessa localidade nos deparamos com diversos discursos que lutam pela singularização desse movimento num terreno amplamente polêmico. É difícil afirmar em que ano o grafite surgiu na cidade de Fortaleza, porque não há registros oficiais, acontecimentos ou uma data precisa que possa ser apontada como um marco dessa história. O que temos são narrativas baseadas nos relatos e nas lembranças às vezes imprecisas e discordantes dos nossos entrevistados. Mas se sabe que o grafite configurou um movimento organizado nos primeiros anos da década de
30 Entre os elementos culturais punk estão: o estilo musical, a moda, o design, as artes plásticas, o cinema, a poesia, expressões linguísticas, símbolos, comportamento e outros códigos de comunicação. Surge dentro do contexto da contracultura como reação à não violência dos hippies e a certo otimismo daqueles.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_punk. Acesso em: 27 abr.2011.
1990, logo após o auge do movimento das pichações ou “época de ouro dos charpis”32 como alguns preferem chamar. Após a “febre” das pichações alguns adeptos dos sprays passaram a seguir o movimento de grafite que, à essa altura, já era considerado um movimento de vanguarda em alguns países da Europa, sobretudo na cidade de Nova Iorque.
Na tentativa de compreender o surgimento do grafite a partir do movimento da pichação, recorremos à fala de um grafiteiro ex-pichador considerado veterano do grafite cearense. Conhecido como Grud, esse grafiteiro já foi integrante da gangue 33 “Pichadores Mutantes” e em sua opinião, os pichadores teriam sido os primeiros grafiteiros a investir seus sprays nos muros da cidade. Acredita que foi por intermédio da pichação que os atuais grafiteiros pegaram gosto pela prática de pintar os muros da cidade.
Era muito comum na década de 1990 tanto a pichação quanto o grafite, serem discutidos em programas de televisão como é o caso do programa “Documento Especial” veiculado a extinta Rede Manchete de Televisão, facilmente encontrado no You Tube.34 Desde então, as pessoas passaram a ter informações, em rede nacional, sobre as intervenções urbanas que aconteciam nas grandes cidades. Muitos grafiteiros defendem que a grande repercussão desse programa contribuiu para disseminar a pichação e o grafite por todo país, que até então, era uma prática exclusiva dos jovens moradores das grandes metrópoles. Sobre isso, Grud afirma que:
A pichação e, logo depois, o grafite chegaram a Fortaleza, principalmente, por causa de um programa de televisão. O programa se chamava “Documento Especial: televisão verdade” e era veiculado à extinta Rede Manchete [...] nessa época nã o existia grupos. Para ser sincero nem existia grafiteiro. Na época nem tinha essa coisa de existir o gra fiteiro. O que existia era o início da pichação, a pichação que existia na cidade. O que existia era algum muralista artista visual que a gente via. Dificilmente se via alguma coisa pintada na cidade. Os artistas visuais mesmo que faziam os murais. Não tinha a coisa da pegada do grafite. Não usavam o spray e a pichação deu muito essa coisa do spray. A gente pegou do início então no início o que havia era o tipo de pichação como frase pra namorada ou frase política só isso. Não tinha outra coisa. A gente pegou o início mesmo da pichação então foi o começo de um movimento mesmo foi bem legal isso aí. (GRUD, entrevista realizada em 27/04/2011).
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Charpi é a palavra pichar escrita de trás para frente. É a definição do codinome que o pichador escolhe como nome de guerra. Os finais da década de 1980 e inicio de 1990 são intitulados pelos pichadores cearenses como a época de ouro do charpi fortalezense, momento celebrado e reconhecido por esses como de maior adesão a esse movimento. Cf. Dissertação de Mestrado de Naigleison Ferreira Santiago intitulada “Gangues da Madrugada:
práticas culturais e educativas dos pichadores de Fortaleza nas décadas de 1980 e 1990”.
33 Os pichadores fortalezenses se agrupam em sistemas de gangues. As mais conhecidas são: “Rebeldes Protestantes da Madrugada”, “Psicopatas e Algo Mais”, “Rebeldes da Madrugada”, “Desocupados de Esquina”,
“Garotos de Rua”, “Anarquia Noturna”, “Galera da Fome”, “Filhos das Trevas”, “Demônios das Ruas”, “Pichadores Contra o Mundo”, “Pichadores Mutantes”, “Artistas dos Muros”, “Feras do Xarpi”, entre outras.
34Fonte: “Documento Especial Pichação 90/91” – www.youtube.com/watch?v=eOInMb-r10. Acesso em: 23 dez. 2011.
Atualmente Grud não picha mais e dedica parte do seu tempo às Artes Plásticas. É cenógrafo, trabalha com designer de interiores e como grafiteiro já participou de várias parcerias com os coletivos Acidum, Selo Coletivo, Curto Circuito, Paralelus e a crew Parido pelo Kaos (P2K). Grud iniciou no movimento do grafite no início dos anos 1990 e, a partir de então, passou a experimentar os efeitos dos sprays e não parou mais de pintar os muros do Benfica.
Aqui grafite e pichação, embora pertençam ao mesmo universo possuem sentidos diferentes, mas não iremos discutir sobre as possíveis diferenças entre grafite e pichação como fazem alguns pesquisadores como Gitahy (1999), Santiago (2010), Santos (2011) e Silva (2011). Devido a facilidade de distinguir os desenhos multicoloridos dos grafites das assinaturas monocromáticas dos charpis, deixamos essa tarefa para o leitor que o fará visualmente. Acreditamos que analisar o movimento da pichação requereria um estudo mais detalhado, pois correríamos o risco de cometer enganos distorcendo os fundamentos dessa outra prática. Todavia, não poderíamos deixar de apontar alguns flagrantes entre pichadores e grafiteiros nas ruas do Benfica. A imagem abaixo, por exemplo, registra um dos poucos momentos de harmonia entre esses amantes dos sprays.
Foto 7 - Charpi em Homenagem ao Slayer nos Muros do IFET-CE